Entrei correndo na sala. Por sorte, o professor ainda não havia chegado.

Procurei por Luce e, quando a encontrei, me sentei ao seu lado.

— Onde estava? Você sumiu no corredor. — ela perguntou, irritada.

Respirei fundo ao me lembrar do episódio assustador.

— Eu... — comecei, mas algo me impediu de continuar. Luce sustentou seu olhar, esperando uma resposta. — Fui pegar uns lances no meu armário, mas esqueci de que tinha deixado em casa e dei viagem perdida.

Aparentemente, ela engoliu a história. Suspirei aliviada.

O professor entrou na sala acompanhado de dois garotos. Um era alto e magro, quase como Harry, mas não tão musculoso. Tinha cabelos pretos e olhos castanhos. Usava uma camiseta e calça jeans, e uma jaqueta de couro completava o visual. Assim como Harry, ele possuía várias tatuagens, o que lhe dava certo charme.

Porém, o outro menino foi o que chamou minha atenção. Reconheci imediatamente como o garoto da entrada e como o garoto impaciente que conversava com Harry no intervalo.

Seus olhos azuis me encaravam como se quisesse ver minha alma. Senti-me corar e desviei o olhar dele.

Um detalhe sobre ele, é que ele também era tatuado. Acho que todos eles eram. Talvez não o loiro que também era transferido, mas os outros pareciam uma obra de arte.

Olhei para ele novamente. O menino sorria com a cabeça baixa. Ao perceber meu olhar, ele comentou algo com seu amigo de cabelos pretos, o qual deu uma risada fraca e balançou a cabeça.

Depois de uma breve conversa com os dois meninos, o professor se direciona à sala.

— Como vocês já devem saber, a escola recebeu alguns alunos transferidos da Europa, hoje. Esses são Louis Tomlinson e Zayn Malik. — o professor apontou para os dois garotos. — Para que os dois consigam nos acompanhar, vou pedir para que uma dupla se desfaça e juntem a eles. Alguém se habilita? — o professor olha para a sala, a fim de encontrar algum voluntário.

Luce me olha com um sorriso e eu respondo com um olhar de súplica e um balançar de cabeça. Eu sabia exatamente o que ela queria e iria fazer.

— Eu me voluntario. — a morena estendeu a mão.

Bati em minha testa, não acreditando que ela realmente fez aquilo. Lembrem-me de cortar relações com certa morena mais tarde.

— Ótimo, senhorita Harper. — o homem disse com um sorriso satisfeito. — Senhores...

Os meninos vieram em nossa direção. Meu corpo inteiro queimando de vergonha.

— Você é uma vaca. — sussurrei para ela, com o rosto apoiado em uma das mãos. Luce apenas sorriu e me mandou um beijo.

Revirei os olhos e me levantei da mesa que dividia com Luce. Direcionei-me à outra bancada, no fundo da sala, e me sentei. Senti o corpo de um dos garotos se aproximar do meu.

— Bom, já que estamos todos prontos, vamos começar. — o professor falou e escreveu algumas coisas no quadro.

Eu ia anotando tudo, sem prestar atenção na pessoa ao meu lado.

— Alexandra Miller, correto? — alguém sussurra.

Olho pra direção a qual veio o sussurro e me sinto sem ar. Eu reconhecia aquela voz.

— Sim. E você é o maluco do corredor. — soltei, fazendo o garoto rir.

— Louis para os mais íntimos. — ele falou, sorrindo.

Mas que garoto abusado.

— Talvez "idiota" se encaixe melhor no teu perfil. — falo, voltando a anotar as fórmulas da lousa.

— Talvez... — ele deu de ombros. — O que ouviu? — o menino perguntou, de repente.

— Ouvi do quê? — perguntei sem olhá-lo.

— Não se faça de boba.

— Ah... claro. Não ouvi nada, não se preocupe. — falei.

— Não estou preocupado.

— Sua atitude disse o contrário. — provoquei. O ouvi bufar, algo que me fez rir.

— Me desculpe pela minha postura àquela hora, não foi algo muito educado e dei uma péssima primeira impressão. — ele falou, parecendo estar falando sério. — Foi bom? — perguntou, quebrando toda a seriedade da coisa.

Balancei a cabeça, sem acreditar. O encarei com os olhos semicerrados. Esse menino é inacreditável.

— Com certeza “idiota” é exatamente sua característica principal. — falei, segurando um sorriso.

— Sinto muito, não tenho como evitar. — ele falou, soando sarcástico. Dei uma risada fraca.

Olhei na direção da morena que costumava chamar de “amiga”. Ela parecia se divertir ao lado de seu novo parceiro de Química. Ok, talvez não tivesse sido tão má ideia trocar de dupla. Claro, se meu novo parceiro não fosse um completo idiota, eu realmente acharia isso.

Foi aí, que me lembrei de um detalhe que deixei escapar.

— Como sabe meu nome? — perguntei, encarando os olhos azuis do rapaz.

— É o que consta no seu caderno, ou estou errado? — ele falou, indiferente.

— Quis dizer mais cedo, no corredor. Me chamou de Alex. Você nem me conhecia, na verdade, você não me conhece. — falei, sustentando o olhar.

Ele me segurou seu olhar no meu, procurando uma resposta. Depois de um tempo, sorriu.

— Sei mais coisas sobre você do que imagina. — falou, sugestivamente.

Aquilo me assustou. E muito. O garoto mal chegou na escola, mal chegou na cidade, e diz que sabe coisas sobre mim. O que ele sabe sobre mim? Quem ele pensa que é? Como ele sabe coisas sobre mim? E o mais importante: por quê?

O sinal soou e ele se levantou. Minha voz havia ido embora, e só tive alguma iniciativa ao perceber que a sala estava esvaziando.

Corri para fora da mesma, procurando pelo garoto, quando o vejo ao longe. Aproximo-me mais dele e o grito.

— Ei! — ele olha para trás. — O que sabe sobre mim?

Ele apenas sorri e faz um sinal com a mão. Depois se vira e volta ao seu caminho.

Depois de guardar tudo no armário e pegar meu capacete, me direcionei à minha vaga, onde minha moto estava. Desliguei o alarme e montei na mesma. Coloquei meu capacete e soltei a trava. Quando estava para dar partida, uma voz me impede.

— Bela máquina.

Olho na direção da voz, e encontro Harry, com os braços cruzados e sorrindo.

— Não é nenhuma Harley, mas dá pro gasto. — respondi, abrindo a viseira.

— Por que não um carro?

— Gosto de me arriscar, e um carro não faz muito o meu estilo. — respondi, dando de ombros.

Eu não era a típica garota tímida, que só estudava e não falava com ninguém. Também não era a típica garota rebelde, que só usa preto e causa problemas aos pais. Eu apenas era eu. Gosto de correr alguns riscos, mas também ficava na minha. Saía para algumas festas, mas também sabia a hora de ser responsável.

— É... você nunca gostou de bancar a indefesa. — comentou ele, balançando a cabeça.

— O que?

— Então... até amanhã? — ele mudou instantaneamente o assunto.

— Até. — respondi e fechei a viseira, dando partida.

A moto começou a se mover, e eu acelerei para a saída. Harry acenou e eu buzinei.

Estava meio confusa. Primeiro, o tal do Louis diz que sabe muito sobre mim, e então, Harry diz que "eu nunca gostei de bancar a indefesa". Ok, isso é verdade. Eu realmente não gostava de achar que sou frágil, e que não podia fazer coisas porque era perigoso. Mas... como ele sabia disso? Nos conhecemos hoje. Como ele poderia saber coisas como essa, sobre mim? Essa é uma questão que eu iria resolver o quanto antes.

Estacionei em frente minha casa e entrei. Eu sabia que minha mãe não estaria, o que significava eu sozinha em um tédio profundo numa casa vazia e silenciosa. É uma completa droga ser filha única, às vezes. Porém, eu sabia exatamente o que fazer.

Subi correndo para meu quarto e peguei minha roupa e tênis de corrida. Troquei-me rapidamente e fiz um rabo de cavalo em meus cabelos. Depois, peguei meus fones e uma garrafa de água, e saí, indo em direção ao parque.

Frequentemente eu corria no parque quando não tinha muito o que fazer. Ajudava a me distrair e a treinar para as competições que o time feminino de corrida da escola participava, contra outras escolas.

Ao chegar no "Central Park" de New Orleans, tomei um pouco de água e coloquei Animals, do Maroon Five pra tocar. Respirei fundo e comecei a trabalhar minhas pernas. A batida agitada da música impedia que eu viajasse em pensamentos, o que era relativamente bom, já que a única coisa que eu conseguia pensar era em como Harry e o moreno da aula de Química me conheciam.

Tal pensamento me fez lembrar do garoto da aula de Química. Louis, não é? Algo nele era muito familiar. Na hora, não tinha notado, mas agora que me lembrei dele, tive a sensação de que tê-lo visto antes. Mas onde? Ele acabou de se mudar.

Ainda é muito cedo para entender, ouço alguém falar em minha mente. Parei imediatamente de correr, assustada. Como... como alguém poderia ter falado dentro da minha cabeça? Não, eu só posso estar ficando louca. Deve ter sido apenas impressão minha. Ninguém falou dentro da minha cabeça, isso é ridículo. Com certeza é alguma alucinação causada pela falta de oxigenação nos pulmões. Eu havia corrido muito e não comi nada antes de sair. Sim, era isso.

Procurei algum lugar pra sentar, e quando o encontrei, me sentei e torrei quase toda a água da minha garrafinha. Estava tocando Wings das Little Mix quando parei. Quando a música acabou, para seguir com Locked Out Of Heaven, do Bruno Mars, o toque de ligação soa fora dos fones. Retiro o mesmo e atendo a ligação, sabendo exatamente quem era.

— Oi, mãe. — falei ao atender.

— Pela sua voz, suponho que estava correndo. — ela diz, sua voz conformada.

— Já estou chegando, prometo. — falei.

Minha mãe não gostava que eu saísse de casa enquanto ela não estivesse. Na verdade, ela odiava o fato de eu estar em constante perigo. E eu mal fazia alguma coisa realmente perigosa.

Depois que completei dez anos, ela começou a ser super-protetora comigo. Foi quando eu comecei a fugir um pouco das rédeas. Nunca entendi porque minha mãe me protegia tanto, e acho que nunca vou entender.

— Venha logo, precisa almoçar. — ela falou e desligou.

Respirei fundo. Pelo jeito que ela se despediu, eu com certeza ouviria alguma reclamação quando chegasse em casa.

E foi dito e feito. Assim que passei pela porta, mamãe estava sentada no sofá, séria.

— Sabe que não deve sair antes que eu chegue. — ela falou quando, passei por ela.

Rolei os olhos, enquanto enchia um copo com suco de laranja.

— Dá um tempo, mãe. Eu já sou bem grandinha e posso cuidar de mim mesma, de vez em quando.

— Não, Alexandra, você não pode. Não faz ideia do que pode acontecer a qualquer momento. Você está em perigo constante, seja lá onde estiver, eu não quero chegar em casa e... — eu a interrompi, antes que começasse o mesmo discurso, que já ouvi centenas de vezes, desde que fugi de casa para ir ao boliche, aos doze anos.

— Caramba, mãe, eu fui correr. O máximo que podia acontecer comigo era eu tropeçar e cair. Teriam várias testemunhas.

— Você não pode sair enquanto eu não estiver em casa, está entendendo? Não pode!

— Por que toda essa proteção? Hein? Alguém quer me matar? Por que alguém iria querer me matar? Do que tem tanto medo? — eu estava gritando. Eu não queria gritar. Só queria parar de ser tratada como criança.

Ela esfregou a testa e respirou fundo. Estava tentando manter a calma. Eu reconhecia aquele gesto mais do que ninguém.

— Minha ordem está dada. — foi tudo o que ela disse.

Com raiva, subi para meu quarto. Bati a porta com força e me joguei na cama.

Por que minha mãe tinha que ser tão super-protetora? Eu havia ido correr, o que podia acontecer? Queria saber do que ela tinha medo. Nada iria acontecer comigo.

— ALEXANDRA! VEM COMER! — ouvi minha mãe gritar.

Não respondi. Apenas peguei minha toalha e saí do quarto. Em vez de descer, entrei no banheiro e fechei a porta. Minha mãe não tornou a chamar. Ela sabia que quando eu estava com raiva, não falava com Ninguém. Principalmente com ela.

— Toc, toc. — mamãe falou, abrindo a porta.

Estava no computador, fazendo algumas pesquisas para a aula de História. Olhei em sua direção e fechei o computador.

— Entra... — pedi.

Mamãe entrou com um pedaço de bolo e um copo de suco.

— Trouxe pra você. — ela falou, colocando em cima da cômoda. E então, se sentou na cama, de frente para mim.

Nenhuma de nós falou nada por um longo tempo. Então, decidi tomar a iniciativa.

— Desculpa por gritar com a senhora. Você é minha mãe, e eu te devo respeito e obediência. Sinto muito mesmo. — falei, mexendo nas unhas, um pouco envergonhada.

— Eu quem peço desculpas, querida. Você tem razão, eu sou muito protetora. Mas eu não consigo evitar, você é minha filhinha, e eu sou sua mãe. Meu instinto natural é ser assim. — ela falou, segurando minha mão.

Dei uma risada fraca.

— Vai me castigar? — perguntei. Minha mãe não era disso, mas hoje eu realmente extrapolei um pouco.

— O que sugere? — ela perguntou, sorrindo.

— Quer minhas chaves por uma semana?

— Um mês.

— O quê? Não, uma semana.

— Duas e não falamos mais nisso.

Pensei um pouco. Era uma boa oferta.

— Feito! — respondi e entreguei as chaves da minha moto para ela.

— Obrigada. Agora, não quer me contar como foi seu dia? — perguntou, assim como todos os outros dias desde o início das aulas, na semana anterior. Dei de ombros.

— Só a chegada de alguns garotos novos, nada de mais.

— Hm... garotos novos... — ela repetiu, fazendo uma cara maliciosa.

— Mãe! — a repreendi rindo e lhe jogando uma almofada.

— O que? Você disse isso. — ela se defendeu. — Vou descer. Quando quiser, apareça por lá.

Assenti, sorrindo, e ela saiu do quarto.

Ainda bem que fiz as pazes com minha mãe. Odiava ficar brigada com ela. O legal da nossa relação mãe e filha, é que mais parecíamos irmãs do que mãe e filha. Eu gostava disso.

Notas finais
Espero que tenham gostado sz Comentem