Immortal
20 Yo-Ho-Ho, E Uma Garrafa De Rum!
Notas iniciais
Conforme caminhava pelas ruas abandonadas e desamparadas de Centralia, Eve sentia a terra sob seu corpo começar a endurecer, a pele se esticando de forma incômoda abaixo de toda aquela crosta do solo que ainda a cobria como que para recordá-la de seu desagradável passeio no subsolo da GlobalGen.
A única porção de sua pele que mais se assemelhava ao limpo era o caminho que as lágrimas, tanto as recentes quanto as já secas, traçavam em tortuosidade ao longo de seu rosto, este igualmente recoberto por um dos elementos que tão magistralmente dominava.
Levou as mãos aos olhos não apenas para limpar a incômoda umidade salgada que, de minuto em minuto, fazia questão de se formar ali, mas também para afastar as partículas irritantemente ásperas que cobriam sua pele tão sedenta por toques mais gentis. Uma nova película aquosa formou-se na linha de seus olhos, e cada batida de seu coração parecia disposta a dilacerá-lo, todos aqueles terríveis sentimentos tomando parte no ritmado martelar dentro de seu peito em tormenta.
Fungou tristemente, aspirando um ar pesado e cheio de mágoa, mal sabendo distinguir por quais razões se sentia mais machucada; se pelo passado que lhe trouxe um carma aparentemente insuperável, ou pelas reações de Logan ao ser apresentado àquilo que Eve sempre desconfiou ser – uma aberração, das mais monstruosas e hediondas. Havia quem chamasse o seu poder de dom, porém para Hela, era apenas o maior de todos os seus infortúnios...
A imagem do olhar inconformado, e acima de tudo acusador, que Logan inferira a ela, criou um novo tremor em seu corpo, gelado não apenas pelo frio audacioso da atmosfera como também pela glacial pedra de gelo que parecia fincada à sua garganta junto às lembranças frígidas que a acompanhavam.
Parecia que aquele martírio, invisível e calado, jamais encontraria um definitivo fim.
Porque Eve sempre se via compelida a remoer o passado, mesmo que por vezes teimasse em criar falsas expectativas de que o veneno em suas lembranças se abrandaria. Contudo, ao final, o ciclo vicioso daquelas dores tomavam novamente um espaço precioso em si, desviando-a para longe da tão almejada superação.
Cessou sua caminhada por um momento, permitindo-se tremer de frio em meio àquele lugarejo tão deserto quanto destruído pelo tempo de abandono. Assim como ela própria se sentia. Talvez aquele fosse o lugar certo para abrigar alguém tão vazia quanto as ruas pelas quais andava.
Percebeu, em sua breve abstração, a fachada dilacerada que lhe apontava um antigo bar, que mais se assemelhava a uma espécie provinciana de saloon saído do velho oeste.
Enfim, um pouco de sorte! Nada como um destilado depois de um dia desses...
A porta do degradado estabelecimento, porcamente lacrado com duas toras de madeira cruzadas, parecia disposta a ruir ao menor toque, o peso da idade e do abandono soando compatível com o restante de Centralia, a macabra cidade que escondia o maior genocídio em massa e silencioso da história mutante; a GlobalGen.
Eve trouxe o fogo para junto de si, o mais imprevisível dos elementos, e este lhe trouxe aos olhos o característico fulgor escarlate, como se chamas líquidas fossem delimitadas ao redor das bordas de suas íris flamejantes. Foi necessário conjurar uma única explosão para que a entrada do bar viesse abaixo, dando passagem passiva à força maior das labaredas que já consumiam a madeira apodrecida.
O odor que foi lançado para além dos limites da ultrapassada taverna remetia a mofo, mas Hela pouco se importou, ultrapassando as chamas entretidas em lamber a madeira ressecada e, agora, ligeiramente escurecida pela fuligem rápida que o fogo não tardara em provocar no material seco.
Analisou momentaneamente os cantos poeirentos do lugar, porém apenas a estante recheada de bebidas atrás do frágil balcão cativou sua verdadeira atenção. Caminhou até as garrafas com indiferença, a conhecida apatia substituindo a tristeza que alguns momentos antes estivera tão presente em seus olhos. Nem mesmo a terra ressecada sobre sua pele a incomodava com o mesmo fervor, embora o cheiro não fosse dos mais agradáveis.
Sem nem mesmo olhar o seu teor, Eve apanhou a primeira garrafa ao seu alcance, bebendo do próprio gargalo assim que conseguiu abrir o lacre já com alguma prática naquele ofício. O gosto acre que invadiu o paladar da mulher não era dos seus preferidos, mas era forte o suficiente para que um alívio placebo percorresse seu corpo em forma de tremores.
Pousou a garrafa com indelicado estrondo sobre o balcão, analisando a espécie da bebida mesmo que a pista do característico sabor lhe desse um palpite. Rum. Não uma garrafa de rum qualquer, mas Rum da Jamaica, bebidas famosas pelos vastos anos em que eram envelhecidas dentro de tonéis de carvalho, e reconhecidas também por seu alto valor comercial.
Nós extorquimos e saqueamos, bebei, amigos, yo-ho... Yo-ho, yo-ho, eu sou pirata sim!— cantarolou mentalmente, levando o gargalo uma segunda vez à boca e despejando um farto gole da bebida extremamente forte à sua garganta. Querendo mais do que tudo esquecer, tornar-se vítima da amnésia acalentadora, ainda que provisória, do estado ébrio.
Contudo, por mais que quisesse, era incapaz de embriagar-se com o álcool presente até mesmo na mais concentrada das bebidas, isso por conta de seu organismo que se mantinha em constante cura, eliminando os metabólitos da bebida antes que eles fossem capazes de surtir algum efeito que não uma leve ressaca no dia seguinte. Nunca chegava a sentir seus sentidos abrandados pelo álcool, mas mesmo assim continuava ferrenhamente tentado.
Manteve-se dona de um olhar distante, longínquo, que estimulado pela solidão vagava entre os pretéritos imperfeitos da mutante, como se suplicasse por redenção nos rostos fantasmagóricos gravados a ferro em suas retinas. Antes que pudesse terminar um novo e demorado gole, a entrada do bar foi aberta, revelando alguém que Hela desesperadamente queria ver e ao mesmo tempo esquecer.
Aparentemente o único naquela cidade além dela mesma.
Logan entrou sem encará-la, carregando sozinho os vários documentos que tiraram à surdina da GlobalGen, o mutante vistoriando o decadente bar como um álibi oportuno para justificar sua atenção exagerada acerca do ambiente. Por fim, os bruscos olhos marrons encontraram os olhos cor de musgo de Eve, vidrados no mutante como se pudessem lê-lo. O ligeiro franzir das sobrancelhas femininas curvando-se em dúvida, realmente não sabendo o que esperar da parte de Wolverine. Assim como Eve, Logan também estava quase que inteiramente coberto por uma terra desidratada e seca, mas ainda assim seus traços eram perfeitamente reconhecíveis.
— Escolheu um bom refúgio, guria! – sua voz saiu mais macia do que ela poderia esperar, apesar da expressão extremamente séria e resoluta que portava. Alguns batimentos cardíacos da mutante ameaçaram descompassar sua frequência, mas a mulher ignorou aquela irritante manifestação fisiológica que parecia querer traí-la. Ele pousou todos os documentos e fichas sobre uma mesa quadrada tomada por poeira.
— Nem tanto. Se fosse tão bom assim, você não estaria nele. – desviou o rosto, ainda magoada pelas palavras recentes do mutante, embora tivesse que admitir com uma afiada pontada de raiva que tê-lo por perto era um alívio. Envolvia-se com sua presença até demais, para o seu gosto. Deu um novo gole rápido no rum, disposta a dispersar aqueles pensamentos e sentimentos inoportunos.
Eve não o olhava diretamente, mas soube, ao fitá-lo através de sua visão periférica, que o mutante esboçou um sorriso discreto, e aquilo a irritou profundamente, de modo até desproporcional ao que inspirava a situação. Todos os seus nervos pareciam à flor da pele, dispostos a amplificar qualquer estímulo, por mais insignificante que pudesse ser, a medidas faraônicas.
— Seu cheiro me levaria ao lugar que fosse – avisou, parecendo ainda conter um sorriso – Mesmo que você esteja escondida por baixo de toda essa terra, ainda posso farejar – afirmou quase indiferente, indo de encontro à Eve no balcão e, ao ficar de frente à mulher, pegou a garrafa de rum e levou-a aos lábios, engolindo uma generosa porção da bebida. Ela afinal o encarou, mal disfarçando os verdes olhos semicerrados de impaciência.
— O que você quer, Logan? Já não falamos tudo o que tínhamos para dizer? – trouxe a garrafa novamente para si, apertando-a com desnecessária força, descontando no vidro apenas uma parte de suas frustrações.
— Talvez você sim... – disse, soando quase arrependido, talvez por sua última discussão com a mulher que tanto o ajudara – Me desculpe... – disse simplesmente, seu tom sincero, ligeiramente desajeitado e afoito deixando claro que não dominava a arte de desculpar-se.
Eve também não costumava ser boa em perdoar, mas o gesto do homem a surpreendeu, e seus olhos de repente perderam o brilho desdenhoso, tornando-se quase brandos.
— Por qual parte? – questionou sem querer dar o braço a torcer tão rapidamente, ainda orgulhosa, embora invariavelmente tocada por um alívio indescritível.
— Todas. Tanto as ofensas reais quanto aquelas que você imaginou... – disse com certo humor, reconhecendo o orgulho da parceira nele mesmo. Hela não pôde evitar o pequeno riso que lhe escapou, e o simples gesto de sorrir pinicou sua pele por conta das partículas terrosas ainda impregnadas em si.
— Touché... – deu-se por vencida, tendo plena consciência de que era uma pessoa difícil de lidar. Ciente até mesmo de que sempre tentava afastar as pessoas para o mais longe possível, mesmo que de forma inconsciente – Mas se você veio aqui esperando que eu me desculpe pelo Stryker, ou por ter estragado seu penteado quando fugimos da explosão, esqueça. – avisou, os olhos denotando desafio e um ligeiro tom brincalhão que fez um meio sorriso brotar nos lábios do mutante.
— Acho que perdi a viagem então... – sentou-se num pequeno banco de qualidade duvidosa, de frente à Hela, sem desviar por nenhum momento o contato visual firmado entre os dois, quase tenso, embora mais afável do que em sua última discussão. – Esse seu poder... – comentou, referindo-se ao elemento morte— Foi por conta dele que você e o professor se desentenderam? – perguntou sem rodeios, chegando a surpreender Eve pela sua perspicácia rude.
Ela baixou os olhos em direção ao rum, sem saber ao certo se cogitava ou não respondê-lo. Um calafrio passou por seu corpo, e Eve decidiu que Logan merecia aquela resposta. Assim como ela mesma merecia se permitir confiar mais a fundo em alguém.
— Sim. – engoliu em seco, ainda sem encará-lo de forma direta, apesar de querer testemunhar suas reações – Meu pai sempre teve uma ligação muito forte com os seus alunos, e eu só recebi o mesmo interesse quando meus poderes se manifestaram, mas aí já era tarde demais. – Levantou os olhos em direção a Logan, estudando-o – Na adolescência, quando a minha mutação deu as caras, eu matei a minha mãe num acidente. Meu pai, é claro, não estava lá, e eu desconfio de que sinto a necessidade de culpá-lo por tudo o que aconteceu para eximir um pouco da minha própria culpa... Acho que eu não aguentaria carregá-la sozinha... – deu um breve sorriso tímido, temendo ter se exposto demais.
— Isso explica algumas coisas... – respondeu-lhe com um sorriso encorajador, seus olhos agora amaciados por uma compaixão rara a ele, apresentada à Hela pela primeira vez. De alguma forma, Logan a encorajou a continuar contando sobre um passado que ela sempre tentara esconder, mas que agora parecia fluir de seus lábios sem muito controle.
— Depois que o choque do acidente com a minha mãe passou, eu... Eu senti tanta raiva, que lancei meus poderes enfurecidos contra meu pai. E desde então ele anda numa cadeira de rodas por minha causa... – contou, percebendo de supetão que aquela verdade também a perturbava profundamente, quase tanto quanto a morte precoce de sua mãe. Encarou Logan como se pedisse ajuda, não conseguindo trajar qualquer outra expressão.
Ele pareceu levemente surpreso ante aquela revelação, porém camuflou bem o que sentiu.
— Se isso te incomoda tanto, por que você nunca curou o professor? Você tem o poder de fazer com que seu pai volte a andar, não tem? – Wolverine perguntou com mais pertinência do que Hela gostaria, e antes de responder, permitiu-se tomar mais uma porção do rum envelhecido.
— Assim que eu percebi que por minha culpa ele perdeu os movimentos das pernas, eu esperei que ele viesse me pedir que consertasse meu erro. Mas meu pai nunca, em momento nenhum, manifestou qualquer interesse em que eu o curasse. Ele sequer tocou no assunto ou me acusou de algo... E eu era ainda mais orgulhosa naquela época, principalmente em relação a ele, e estava realmente muito ferida por tudo o que aconteceu. Enfim, eu me recusei a propor ajudá-lo por minha conta. E acho que ele vê a paraplegia como um castigo por ter parte na morte da esposa. Ele se sente tão culpado quanto eu mesma, eu sei disso... E acho que, de certa forma, eu preciso que ele se sinta culpado, apesar de me arrepender desse sentimento sempre que ele aparece. Ele é a minha única família, mas eu não consigo me desprender de todas as decepções do passado – olhou com tristeza para o mutante, esperando que ele a julgasse da pior forma que sabia, em seu íntimo, merecer. Esperou apenas por incompreensão, mas o que recebeu foi exatamente o oposto.
Logan segurou de forma afável o braço da mutante, inspirando toda a confiança que ela precisava que alguém lhe desse. Arrepios de gratidão percorreram seu corpo ao perceber que, contra todas as suas expectativas, aquele homem a compreendia.
— Ainda dá tempo de consertar algumas coisas. – sua voz soou baixa, envolvente e ao mesmo tempo segura, terrivelmente segura e sedutora.
— Não vai me julgar? – estreitou os verdes olhos, apoiando-se melhor no balcão como se quisesse encará-lo a fundo, achando difícil acreditar que o homem tão intolerante de pouco tempo atrás pudesse lhe fornecer aquele tipo incondicional de apoio. – É efeito do rum que você tomou?
— Que tipo de julgamento eu poderia fazer? – um sorriso pequeno e triste lamentou-se em seu rosto, e imediatamente Eve entendeu aquilo que o afligia – Olhe bem pra mim. Eu fiz parte de uma empresa que caça e chacina mutantes! Acho que é mais fácil eu ser julgado do que julgar. – balançou a cabeça em negação, passando dedos pesarosos por sua barba impregnada de terra – Parece que aqueles que me chamavam de animal estavam certos.
Foi a vez de Eve mostrar tudo o que tinha aprendido a respeito do mutante naquele intervalo de tempo em que viajavam juntos, e o fez de bom grado e cheia de verdade em suas palavras.
— Sinceramente, grandão, qualquer um que cruze o seu caminho vai ter essa primeira impressão. Você até tem garras, como não te associar a algo selvagem? E provavelmente aqueles poucos que conheçam seu passado também pensem assim, mas quer saber? Você é uma das pessoas mais humanas que eu já conheci. Você se esconde atrás desse animal que te pintam porque se habituou a esse estereótipo, mas por baixo de toda essa rudeza existe uma verdadeira alma de donzela prestes a aflorar. – brincou, permitindo-se um olhar terno para o homem que agora arqueava uma sobrancelha em fingida ofensa – Eu sei que você se decepcionou com o que descobrimos na GlobalGen, e entendo como deve ter sido difícil ouvir tudo aquilo. Eu mesma achei que o que podia existir de mais bizarro no seu passado era descobrir que você é filho do Senhor Gibbs, porque o gosto por esse tipo de barba só pode ser genético... – brincou, dando em seguida um pouco mais de seriedade ao seu discurso – Mas a questão não é quem você foi ou quem você deixou de ser. O que realmente importa é quem você é, e eu sei que você é muito mais do que imagina.
Wolverine gastou longos segundos apenas encarando-a intensa e intimamente, uma enorme e sincera afeição crescendo farta dentro do mutante. Não saberia como agradecer com meras palavras, e nem seria articulado o suficiente para tal.
— Vem cá, guria! – levantou-se e abriu de leve os braços, cortando alguma distância entre eles e vendo-a fazer o mesmo.
Enterraram-se num profundo abraço, os fortes músculos de Logan envolvendo a mutante com rigidez e afeição, as mãos passeando por sua nuca enquanto Eve aconchegava o rosto ao peito de Wolverine, também o apertando entre os braços o máximo que podia. O mutante apoiou o queixo no topo da cabeça de Hela, levando dedos gentis ao cabelo da mulher, agora mais escurecido por conta da sujeira recente causada pelo elemento terra, que camuflava o verdadeiro tom castanho-dourado de seus fios.
— Nós estamos fedendo... – Eve comentou, rindo, recordando-se da estranha sensação de atravessar o subsolo sem que nada os protegesse além da própria roupa que os vestia.
— E a culpa é de quem? – acusou, bem humorado, sem afrouxá-la de si, parecendo até mesmo apertá-la ainda mais contra seu próprio corpo.
— Não por isso. – sorriu, e se Wolverine pudesse ver o rosto da mutante, perceberia que o verde intenso de seus olhos dava passagem a um azul discreto, ainda mais claro do que o próprio céu no ápice do amanhecer.
Imediatamente um jato de água os envolveu, conseguindo passagem até mesmo no ínfimo espaço que existia entre seus corpos ainda colados naquele abraço acalentador. Eve notou a surpresa de Logan e riu baixo enquanto se sentia revigorar pela ação da água corrente que os circundava, levando aos poucos as partículas do solo presas em suas peles. Até mesmo suas roupas pareceram pesar menos assim que a sujeira foi saindo aos poucos, adquirindo um novo peso à medida que ficavam completamente encharcadas.
Deixou que a água também passasse com lentidão pelos fios já endurecidos de ambos, devolvendo-lhes um pouco da desenvoltura conforme ficavam mais limpos. Apenas quando se sentiu satisfeita, dispensou o elemento água de seus comandos e levantou o olhar novamente verde para o mutante.
— Satisfeito, madame?
— Ainda não. – avisou de modo incisivo, os olhos da cor da avelã tão focados e contundentes que parecia impossível não se hipnotizar por cada nuance bem elaborada dentro deles. Seus lábios encontraram os de Hela, ambos entreabertos, deslizando um sobre o outro demoradamente, e naqueles termos em que se descobriam, a noção do tempo se perdia de seu alcance como um punhado de água que escapa por entre os dedos de quem tentava apanhá-la. Sem soltarem-se da proximidade do abraço, Eve segurou o grosso pescoço do mutante com posse, entrelaçando seus dedos ao fios molhados de Logan enquanto o sentia aumentar a pressão no aperto que dava ao redor de sua cintura, tornando aquele abraço ainda mais constrito.
Beijaram-se longamente, movidos pelo desejo que sabiam compartilhar em igual intensidade, mas principalmente pelos acontecimentos desenrolados desde que se conheceram, acontecimentos estes que acabaram unindo-os e aproximando-os com uma rapidez notável. A afinidade, percebida quase que instantaneamente pelos dois, catalisando seus mais variados anseios, cobiças e luxúrias.
Logan curvou-se ligeiramente sobre ela, descendo seus lábios pelo pescoço da mutante e beijando-lhe a pele durante o trajeto, mais zeloso e gentil do que Eve poderia imaginar tratando-se daquele homem de rudes hábitos. Segurou-o pelos ombros, tentando ao máximo impulsionar a si mesma de modo a facilitar as deliciosas carícias de seu parceiro.
— Sabe... – Hela sussurrou próximo ao ouvido de Wolverine, fazendo uma breve pausa para mordiscar e beijar a curva de seu maxilar antes de retomar sua fala – Tenho certeza de que se nossos pais pudessem nos ver agora, nos mandariam tirar imediatamente essas roupas molhadas. Claro, tudo em prol da nossa saúde! – sorriu com malícia ao sentir o peito de Logan tremer numa risada cúmplice, ainda explorando-a com lábios sedentos e macios.
— E quem somos nós para desobedecer, não é mesmo? – satirizou, agora de frente para a mutante de modo que pudesse ver seus lábios repuxados em astúcia, indo muito além de segundas intenções.
— Somos dóceis demais para isso! – entrou em seu jogo de provocações, vendo uma mescla de diversão e expectativa encherem as íris amendoadas do mutante, a mão calejada que segurava seu queixo trazendo-a para um novo beijo.
Logan levantou o corpo de Eve com brutal facilidade, fazendo com que no segundo seguinte a mulher estivesse sentada sobre o balcão, e a diferença de altura foi ligeiramente equilibrada. O balanço repentino do gesto fez com que a garrafa de rum caísse, e vários estilhaços de vidro criaram um estridente som assim que o material encontrou o chão. Wolverine segurou com firmeza as coxas que se projetavam em direção ao seu próprio corpo, e imediatamente o quadril da mulher pareceu procurá-lo, diminuindo ainda mais o fino vão que jazia entre eles.
Despiram-se com rapidez, ávidos e movidos por nada além dos próprios instintos que desejavam, mais do que tudo, aquela união.
Eve desceu do balcão, expulsando suas últimas peças encharcadas de roupa enquanto Logan se mantinha distraindo-a com a língua que brincava em sua orelha, causando os mais deliciosos arrepios em sua pele desnuda. O corpo do mutante já completamente à mostra prensando a mulher também despida, a rigidez dos músculos de Logan querendo fundir-se à maciez das curvas de Hela.
Ainda molhados pelo breve banho improvisado, Wolverine conduziu-a, com o movimento de seu próprio corpo, para baixo do balcão, ambos sobressaltando-se brevemente ao passar pelos pontiagudos cacos amplamente alastrados pelo chão, e por apenas alguns segundos, o vidro fez com que seus pés descalços sangrassem, para logo em seguida reabilitar sua integridade novamente.
E apesar da breve dor, continuaram indiferentes a ela, avançando até onde sua vontade ordenou.
Ajoelharam-se no chão de modo que suas cabeças não batessem no tampo de madeira acima de ambos, e beijaram-se ainda mais violentamente, dispostos a nada além de manter aquele momento vivo pelo máximo de tempo.
Logan arqueou-a para junto de si ao pressionar as nádegas de Hela num impulso que apenas atritou com vigor seus corpos inflamados, havendo um breve roçar entre o sexo da mulher e o membro fálico do mutante, que beijou-a vorazmente entre os seios, os longos cabelos de Eve isolando-os como cortinas em volta de seus rostos.
Os dedos de Logan exploravam sem cautela as formas da mutante, apertando para junto de si cada porção mais volumosa da carne bem distribuída pelo corpo da mulher enquanto a mordia do queixo ao ombro e logo retornava aos lábios macios que, ele sabia, também o queriam. Ela arfou junto à boca que se mantinha irredutível sobre a sua, a mente afinal fechada para suas próprias injúrias, atenta apenas ao êxtase daqueles toques, capaz de raciocinar apenas a respeito do membro viril já enrijecido tateando-a por entre suas coxas.
Eve sentiu algo semelhante a um baixo rugido fazer o peito de Logan estremecer, como se o prazer preliminar se mesclasse à tortura, a uma necessidade mais imperiosa. Eve o entendia perfeitamente.
Ele pôs-se sobre a mutante, induzindo-a com facilidade a deitar, e o peso de Wolverine – incrementado pelo adamantium que revestia seus ossos – quase sufocou Hela a princípio, mas no instante seguinte descobriu que o queria ainda mais sobre seu corpo, e por um momento quase chegou a acreditar que estavam aptos a se fundir, como se desconhecesse os limites que os demarcava.
Como que para intensificar aquele pensamento, Logan introduziu-se a ela, e ambas as respirações pareceram dobrar de intensidade, seguindo o mesmo ritmo que era preconizado pelas oscilações de suas pélvis. Eve prensou as unhas a fundo nas costas de Logan quase sem perceber que o fizera, mordendo o fino lábio do mutante como se o convidasse a algo que até ela mesma desconhecia.
Contudo, Wolverine pareceu entender.
Beijou-a com afã enquanto ainda se mantinha dentro dela, e os pulmões de Eve pareceram teimosamente vazios conforme o mutante a comprimia de forma cada vez mais apressada e urgente, mas Hela pouco podia ligar para a vigente falta de ar quando o que realmente imperava era o conjunto de seus arfares baixos e em comum, e a intrépida coreografia se manteve num ritmo ascendente...
...E Eve ansiou que ela pudesse durar para sempre.
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