Immortal

1 Toda Jornada Começa Com O Primeiro Passo


Notas iniciais
Oulá! =] Essa é a minha primeira fanfic relacionada à categoria X-Men, espero que curtam!

A chuva caía torrencial pelas ruas de Bay City, cidade sutilmente localizada à leste do estado de Michigan. Grossos pingos lavavam a urbe que, cedo ou tarde, era iluminada por vastos relâmpagos que pareciam rasgar o céu já escurecido pelo tardar invariável da noite, o negrume desafiado apenas nesses ínfimos instantes de clarão.

A pacata cidade já dormia, tendo como um único e solitário ponto desperto apenas um pequeno bar no centro da cidade, ainda ativo com todas as suas luzes acesas, o último estabelecimento ainda aberto e funcional naquelas proximidades há muito adormecidas.

O garçom já havia perdido a conta de quantas vezes limpara o balcão com o mesmo pano agora não tão úmido, residindo sua verdadeira atenção na mulher de olhos verdes e vívidos que terminava a sua recém-servida dose de whisky num surpreendente único gole. Como de costume, a última cliente, aquela que sempre lhe dava um pouco mais de trabalho nos dias em que aparecia, suas visitas ao boteco tornando-se cada vez mais frequentes.

– Me vê outra dose, Chase! – ela pediu, dona de uma voz incrivelmente sóbria e firme ao novamente aproximar o copo do garçom, o ruído agudo do vidro contra o tampo do balcão quebrando um silêncio arrastado.

– Acho que por hoje já foi o suficiente... – o loiro fez uma tentativa, mesmo que sua experiência lhe dissesse que seria falha. A mulher apenas o encarou friamente, o mesmo olhar que sempre usava quando o homem fazia aquele tipo de comentário, e que ela fazia questão de desprezar. Chase limitou-se a suspirar em derrota, servindo obedientemente outra dose à cliente.

Ela levou o copo à boca, mas dessa vez não bebeu. O verde de seus olhos parecia fitar um lugar distante, longe daquele bar e até mesmo daquela época, as lembranças de súbito lhe carregando para um passado que daria tudo para apagar de sua memória. Ou, ainda, que faria o inimaginável para deter o seu curso.

Sua vida nunca mais fora a mesma após o terrível incidente que manchava de rubro a sua história. E por mais que os anos se estendessem infindáveis, ela sabia que jamais seria capaz de superar o ocorrido, sabia que aqueles mesmos anos jamais cicatrizariam a ferida aberta e vulnerável da perda que tanto sentiu, e ainda sentia, munida do mais cruel e amargo sentimento de culpa.

Um novo cliente adentrou o bar, provocando um sobressalto na mulher assim que ela retornou ao presente e obrigou-se a esquecer tais devaneios ácidos. Bebericou o whisky, disposta a fazer com que aquela dose durasse um pouco mais do que a última.

– Eve! – um timbre nostálgico soou ao lado da mulher em cumprimento, entretanto ela apenas o encarou de soslaio, sentindo algo revirar dentro de si no mais completo caos e injúria.

– Erik. – ela finalmente o encarou, incapaz de discernir que tipo de sentimento prevalecia àquela presença idosa e mal afamada. O capacete vermelho opaco que usava servia de moldura ao largo e sugestivo sorriso que se abriu ao finalmente encontrar a mulher que tanto desejava ver – Ou será que agora prefere ser chamado de Magneto? – perguntou sem rodeios numa sutil afronta, deslizando o indicador pela borda arredondada do copo quase como se estivesse entediada.

– Discutir alcunhas não é o motivo da minha visita, minha querida – seu tom foi direto quando se sentou no banco ao lado, ambos ignorando a palidez estática do garçom ao reconhecer aquele homem que não escondia de ninguém o quanto menosprezava e odiava os não-mutantes. A garrafa de whisky caiu de sua mão, espatifando-se ao piso e entornando o líquido em uma larga poça após o barulho incômodo do vidro contra o chão. Eve e Magneto não lhe deram mais atenção do que destinariam a um inseto.

– O que o traz a Bay City? Aposto que não está aqui por causa do meu charme... – comentou, soltando um breve riso debochado ao imaginar os motivos que o trariam àquele lugar tão distante de seu lar e realidade. E, acima de tudo, odiando o inesperado encontro com uma das pessoas que tanto lhe remetia às dores já transcorridas...

...Alguém que tanto queria esquecer, assim como todos que tivera o desprazer de conhecer nos fatídicos anos em que Nova York foi seu lar.

– Muito se engana, meu anjo! Um padrinho não pode querer ver como está a afilhada?

– Não se o padrinho em questão for você e a afilhada eu... Sentimentalismos baratos não fazem o nosso gênero, Erik – cortou secamente, começando a se irritar – Se veio a pedido do meu pai, já adianto que perdeu a viagem!

– Eu vim a meu pedido. – Magneto rebateu, fazendo brotar um novo sorriso nos lábios, repleto das mais sinuosas expectativas – Garanto que Charles não tem nada a ver com isso.

– Então por que está aqui, ímã-man? Tem na cidade alguma conferência de “Mil e uma maneiras de manejar o Cobre” que eu não fiquei sabendo?

– Você sabe por que eu estou aqui, Eve! – Magneto disse, suas palavras tão profundas quanto o olhar que fazia incidir sobre a mulher – Há uma guerra em curso. A cada dia fica mais evidente que homens e mutantes não podem coexistir em paz, e já é tardada a hora de nos unirmos e lutarmos por nossa causa. A causa da evolução! – discorreu com paixão, dando maior ênfase às palavras conforme as verbalizava – Nós somos o futuro, Eve! Esses indignos inferiores querem frear o progresso da própria espécie, e cabe a nós impedi-los.

A mulher o encarava com um olhar vago, como se não se dignasse a ouvir uma única palavra sequer de seu discurso. Após um instante alongado de silêncio, Eve por fim esboçou reação.

– Na boa, me desculpe, mas não dá pra te levar a sério com esse capacete! – explicou-se, pigarreando brevemente – O que eu posso te dizer? Boa sorte, padrinho... – suas íris verdes o fitaram com escárnio – Espero que encontre mutantes o suficiente para satisfazer essa obsessão doentia. E por Deus, se livre dessa capa! Agora só falta você começar a usar a cueca por cima da calça!

– Eu a quero comigo, Eve. – avisou, ignorando os comentários satíricos da jovem afilhada – Lute ao meu lado! Não desperdice seus dons aqui, como se fosse um deles. Você está a milhares de patamares acima.

– Eu não volto a Nova York! – advertiu, sentindo que toda a sua tolerância já se esgotava e dava lugar a uma instabilidade perigosa – E não vou tomar parte em nenhum dos seus planos. Se era só isso, pode ir embora.

– Não percebe que nossa raça deve se unir? Que devemos ser fiéis aos dons que nos fizeram escalar evolutivamente?

– Não me venha com as suas conversas. Eu não faço parte de nenhum dos lados, me recuso a tomar qualquer partido nessas desavenças estúpidas e infantis.

– Infantis? Estúpidas? – soou indignado, não acreditando em seus próprios ouvidos – Estamos prestes a escrever uma nova era, minha cara, e ela só poderá ser registrada com o sangue dos humanos que foram contra os propósitos maiores da evolução. Somente barrando suas pretensões preservaremos os nossos irmãos e irmãs das décadas de tirania que nos oprimiu. Não estamos falando de desavenças, Eve, e sim de uma revolução, a mais grandiosa da História!

– Nunca tive irmãos, e estou pouco me fodendo para a sua revolução. Eu não sou uma de vocês. – repetiu a recusa em tom monocórdio, farta de tudo.

– Você não merece o poder que tem! – sua expressão se fechou em contorcida fúria, e pela primeira vez Eve o viu perder o controle. Imaginava o quanto ele devia estar desesperado para recrutá-la. Ela sentiu-se queimar por dentro, já sem qualquer sombra de paciência por aquela conversa inoportuna que lhe tomava um precioso tempo – É tão cega quanto o seu pai, incapaz de ver o que precisa ser feito. Envergonha todos os mutantes com a fraqueza de sua omissão!

– Talvez você queira experimentar um pouco dessa minha fraqueza, Erik! – ameaçou, o verde de seus olhos tornando-se completamente negros no segundo seguinte, enquanto os dedos da mulher se aproximavam numa lentidão feroz e negligente do homem que controlava todos os tipos de metais, mas que agora parecia tremer profundamente àquela mera quebra de distância.

– Já basta! – esbravejou assim que viu suas peles separadas por apenas alguns centímetros. Eve gargalhou, afastando os dedos de Magneto à medida que a cor de seus olhos retornava ao verde habitual.

– “Evolução”, você diz! – caçoou, terminando a sua bebida e batendo o copo no balcão sem a menor cautela – Mas a verdade é que você é tão patético quanto o mais normal dos homens, Erik. Tenho pena de você... – anunciou, tirando alguns dólares do bolso e colocando sobre o tampo de madeira ao lado do copo agora vazio, e de lá saiu, sem esperar por mais qualquer palavra que ainda pudessem trocar.

Notas finais
Se gostou do que leu, ou mesmo se odiou, deixe o seu review me contando sua opinião! (Nem mesmo a guerra entre Mutantes e Humanos é tão dolorosa e duradoura quanto a guerra travada entre Escritor e Leitor... hehehe ;D)