Immortal
32 “Throw Us A Bone, You Men Of Great”
Notas iniciais
Os raios de sol despontavam fracos por detrás dos monumentos conservados de Washington, tornando-os ainda mais deslumbrantes àquele cenário de predominante meia luz. Contudo, era apenas em direção ao Capitólio que se voltavam todas as atenções, assim como todas as expectativas.
Eve estava no interior da bela construção, sentada sobre uma cadeira aleatória daquele que seria o palco da mais reveladora coletiva de imprensa, esta visando direcionar de uma vez por todas os rumos incertos pelos quais a comunidade mutante caminhava. Câmeras profissionais já estavam montadas ao longo de vários ângulos do recinto, e embora o evento ainda não tivesse sido iniciado, inúmeros jornalistas empunhavam seus microfones como verdadeiras armas.
A mutante entrelaçava os dedos com nervosismo, ciente de que logo seria novamente exposta ao ódio e à intolerância humana, percebendo a ansiedade começar a apoderar-se de si.
"Se os homo sapiens soubessem o quanto sua hostilidade é assustadora aos mutantes, não se intimidariam tanto com nossos poderes..." – considerou, notando o suor frio encharcar a pele por entre os dedos.
Logan a encarou de canto de olho, já capacitado o suficiente em desvendar aqueles verdes olhos para perceber que eles estavam tomados de apreensão. Sua mão escorregou pelo braço eriçado de Eve, alcançando a mão feminina e apertando-a entre a sua num gesto encorajador. Ela o encarou parecendo ao mesmo tempo sobressaltada e grata, um alívio indiscutível tomando a forma de um discreto sorriso apenas por saber que tinha o apoio de Logan em meio ao caos que já se firmara entre homens e mutantes.
– Não se preocupe, Eve. Vamos terminar isso juntos, como começamos.
– Pois é, garotão... Só que acho que tudo isso ainda está muito longe de terminar! – sua voz tornou-se um murmúrio solene que, mesmo baixo, pareceu ecoar pela grandiosidade do recinto como uma profecia, dispersando palavras que se tornaram carregadas de significado.
Naquele instante, a figura conhecida do senador caminhou por entre a bancada, acompanhado de sua acessora de imprensa, uma mulher cujo cabelo estava elegantemente penteado para trás num coque loiro e baixo, tão impecável quanto o terno feminino que a vestia. Ela ajeitou os óculos de armação grossa para mais perto dos olhos enquanto acompanhava o passo do chefe, cochichando algo que apenas o senador ouviu. O semblante do político estava ligeiramente tenso e pálido, os olhos sombreados pelas noites mal dormidas tornando-se imediatamente um alvo fácil para os jornalistas que já aguardavam com impaciência o início daquela sessão. O homem agarrou o microfone com uma das mãos, ignorando o suporte em que o objeto descansava. Um súbito e incômodo ruído causado pela microfonia do aparelho se alastrou pela sala, culminando no imediato silêncio dos presentes e imediatamente direcionando todas as atenções para o político.
– Daremos início à coletiva que tem por pauta o assunto mutante. – anunciou, incapaz de camuflar uma pontada de asco ao se referir àqueles que eram dotados dos mais perigosos poderes, mal escondendo seu desagrado – Antes de abrir espaço para as perguntas, gostaria de esclarecer algumas das inverdades que se alastraram ao longo desta semana. Chegou ao conhecimento público um suposto envolvimento do governo numa causa anti-mutante, sendo até mesmo o nosso presidente alvo dessa teoria conspiratória. Eu posso garantir que nada disso é verdade! – afirmou, e Logan e Eve trocaram entre si um olhar irritado, porém não surpreso – O governo dos Estados Unidos da América somente se encarregou de subsidiar o projeto da Cura, que como todos sabem tem por intuito atender unicamente aqueles que se voluntariarem.
Um dos jornalistas ergueu alto a mão, pedindo a palavra. O senador assentiu brevemente, e era possível ver o tédio em seu rosto.
– E quanto ao envolvimento do presidente já demonstrado na mídia? Sua assinatura autorizava todos os tipos de torturas e procedimentos com os mutantes capturados como cobaias. – um burburinho leve tomou conta do ambiente, e o jornalista tornou a se sentar.
– Não passa de uma elaborada falsificação. Essas cobaias mutantes sequer existem! Não são nada além de um truque que tem por desígnio abalar a credibilidade do governo e nos dividir ainda mais nesses tempos difíceis. – falou, dono de uma convicção tão natural que fez Eve se empertigar incomodada sobre o assento – Já contratamos os melhores peritos para avaliar a grafia do presidente e compará-la com aquela mostrada de forma ilícita na mídia, e estamos cada vez mais confiantes de que não será difícil provar que tais assinaturas não pertencem ao presidente.
– Claro que provar vai ser fácil – Eve sussurrou irritada para Wolverine – Não existe nada que esse governo podre não consiga comprar!
– Calma, guria! Isso é no que eles querem acreditar – Wolverine arqueou os lábios num sorriso travesso, envolvendo Hela com seus olhos fulgurantes – Não se esqueça que nós dois ainda temos uma última carta na manga – lembrou, arrancando da mulher um olhar que parecia banhado em chamas esverdeadas.
– E eu que te julguei tão mal por causa do topete – Eve manteve o tom murmurado na direção do mutante, a mão acariciando o meio de suas hirtas coxas – Talvez mais tarde eu possa te compensar com um pedido de desculpas...
– Não vai ser assim tão fácil! – seu sorriso tornou-se malicioso, usando uma voz afetada que arrancou um olhar divertido de Hela – Eu sou um cara difícil!
– Cala a boca, Logan! – disse, risonha, voltando a atenção às palavras cínicas do senador que logo tornaram a aborrecê-la.
– ...No governo instaurado garantimos um tratamento igualitário a todos os habitantes dos Estados Unidos da América, independente se eles carregam mutações ou não. Nada do que foi dito a respeito da Praga é verdade, não naquilo que concerne ao governo, pelo menos, não passando de especulações que visam nos abalar enquanto sociedade. Essa ameaça ainda precisa ser averiguada com cautela, e não ser abordada dessa forma leviana.
– E quanto às mortes que já estão ocorrendo em massa e se alastrando pela comunidade mutante enquanto vocês continuam apenas averiguando? – Eve não se conteve, levantando-se de um salto de sua cadeira e lançando a pergunta num tom firme, controlado pela raiva – É um pretexto para deixar que mais mutantes morram, senador, ou é apenas o governo mostrando o quanto é igualitário? – uma onda de flashes cegou Eve por um instante, agora alvo de todos os jornalistas de posse de uma câmera, contudo ela permaneceu mirando o olhar firme no rosto contrariado do político, evitando até mesmo piscar.
– É necessário pedir a palavra para ter sua pergunta respondida...
– E o ataque que se seguiu no Instituto Xavier? – Hela interrompeu o senador, atraindo ainda mais atenção de quem acompanhava a coletiva – Como se explica esse ataque a uma escola que é sabidamente voltada para mutantes? Em que os agressores ameaçam crianças em busca de documentos que foram tirados de uma empresa que já se confirmou estar ligada ao governo?
– Que jornal você representa...? – o senador questionou, ainda tentando controlar a ira que já era possível perceber no fundo de seus olhos, contudo ele mesmo reconsiderou a pergunta ao reconhecer de súbito os traços inconfundíveis da mulher que delatou ao público a GlobalGen – Você! – sussurrou num rosnado que só foi audível por conta do microfone que se prostrava próximo ao seu rosto, tenso.
– Eu mesma. Não posso dizer que é um prazer.
O senador olhou para um canto específico do local, dando a ordem para que os seguranças já a postos interviessem, retirando dali a problemática mulher. Wolverine ergueu-se numa postura protetora em frente à Eve, suas garras já despontando na direção dos seguranças que de imediato começaram a hesitar naquela aproximação.
E aquele simples gesto bastou para semear o desespero entre os jornalistas que não mais registravam os fatos, e sim tentavam fugir do mutante que viram em Logan, traduzindo-o como uma ameaça. A passagem desordenada dos humanos foi impedida com o baque estridente da porta ao se chocar de súbito com o batente, um som agudo que acabou por revelar Magneto como guardião daquela única saída. Alguns gritos se dispersaram pelo recinto, ecoando várias vozes aterrorizadas como uma única.
O senador tirou de trás da calça uma pistola num gesto instintivo de proteção, e no mesmo instante a bela acessora de imprensa que sempre o acompanhava em cada coletiva mirou um chute certeiro na mão que empunhava a arma de forma desajeitada, arrancando um olhar espantado do homem. Ela o imobilizou sem qualquer dificuldade, posicionando uma adaga no pescoço envelhecido e frágil do político. O terno feminino foi dando espaço à típica pele coberta por escamas azuis, os fios antes loiros e bem penteados se acendendo num tom vermelho-sangue que reluzia com a força crepitante de uma labareda. Os olhos amarelos cintilavam com a fúria de todos os anos em que fora execrada pelos humanos, o brilho em seus orbes apenas focado no intuito de feri-los.
Mística apertou a lâmina com mais força assim que sentiu a pretensão do senador de revidar, e bastou aquela pressão extra e perigosa anunciando um filete rubro que escorria por seu pescoço para fazê-lo mudar de ideia.
O alvoroço paulatinamente cedeu lugar a um sepulcral silêncio em que apenas um misto de respirações ofegantes se discerniam, cada jornalista tentando encontrar uma rota de fuga à inquietante armadilha montada, porém todos descobrindo-se incapazes.
– Não estamos aqui para machucar ninguém – Eve alarmou, tentando acalmar os ânimos e atrair a atenção de todos os humanos que estivessem dispostos a ouvir, não chegando a perceber a expressão contraditória de Mística, que certamente parecia extasiar-se com o medo que era capaz de proporcionar aos humanos que tanto odiava – Estamos aqui pelos fatos que a mídia vem distorcendo a respeito da luta mutante, e sabemos que provavelmente o dia de hoje ainda vai ser jogado contra nós.
– Não esperem menos, aberrações! – o senador bradou, a voz perdendo a imperiosidade pelo aperto afiado em sua garganta. Mística respondeu com brutalidade, silenciando-o.
– Tudo o que tem se mostrado ao povo americano é uma mensagem fascista contra os mutantes, desde a sugestão da Cura até a criação da Praga. Tudo o que nós temos experimentado é uma perseguição extrema dos mesmos humanos que muitos dos nossos morreram tentando proteger. Pesos e medidas se tornam diferentes dependendo se o ponto de vista é humano ou mutante, e até mesmo minhas denúncias fundamentadas foram banalizadas e voltadas contra nós como uma tentativa de complô. Por muito tempo nos escondemos por acreditar que o problema era em nós, por acreditar que tínhamos alguma culpa por nossa mutação. Até que os humanos passaram de todos os limites! – respirou fundo, aproveitando que conseguira chamar a atenção de todos os presentes – Já que meus relatos foram deliberadamente ignorados, chegou a hora de mostrar os frutos gerados pela GlobalGen. Não fotos ou documentos, mas aquilo que de fato a empresa criou.
Eve assentiu na direção de Logan, que entendeu de imediato seu pedido e retirou-se do ambiente. Após um curto período de tempo em ausência, trouxe ao recinto todos os mutantes que viveram engaiolados dentro da empresa, servindo como cobaia de seus experimentos cruéis e desprovidos de qualquer senso mais básico das premissas da ética.
Seus corpos magros arrastavam-se com dificuldade pelo piso, escorregadio aos seus pés descalços, estes tão habituados apenas ao áspero. A cabeça de todos os mutantes pendia para baixo, escondendo a vergonha que marcava seus olhares exaustos, assim como a postura levemente torta e fatigada de suas colunas que tirava qualquer traço de altivez que algum dia expressaram. Havia seis mutantes ao total, todos com as cabeças completamente raspadas, a pele frágil e suja se abrindo em várias feridas e aparentando uma idade muito acima da real.
Eve sentiu sua garganta se apertar, mais uma vez tendo que lidar com o desconcerto cruel daquela visão. Engoliu em seco, perturbada pela forma como o homem de uma forma geral era capaz de se portar como seu maior predador... Uma espécie considerada gregária por todos os estudiosos do comportamento humano, porém que jamais hesitava em sacrificar os interesses da comunidade por finalidades egoístas. Hela olhou brevemente ao redor, percebendo com alguma satisfação o incômodo que aquela meia dúzia de mutantes fora capaz de gerar, o ambiente tornando-se pesado e rarefeito no mesmo instante em que as cobaias da GlobalGen surgiram.
– Na sede da GlobalGen, Logan e eu encontramos esses mutantes presos em gaiolas. Na época não pudemos resgatá-los, mas voltamos hoje por eles, antes da coletiva marcada, para que o mundo pudesse ver a suástica camuflada que o governo brande contra os mutantes. Cada vez que vocês apoiam projetos como a Cura, estão ajudando a financiar esse absurdo. Estão dando permissão para iniciativas mais perigosas, como a Praga, que já está circulando pelos Estados Unidos e fazendo suas vítimas pelo caminho.
– E agora, meu caro senador, você vai nos dar os meios para reverter os efeitos desta doença. – Magneto se pôs à frente do político, o rosto adornado pelo capacete reverberando autoridade e ameaça.
Contudo, o senador apenas gargalhou de forma intensa, intocado pelo ódio periculoso que acendia os olhos azuis de Magneto, olhos que prometiam revidar.
– O que é tão engraçado? – Mística perguntou, sua voz ainda mais rouca pela irritação de simplesmente não poder matá-lo, ao menos não ainda.
O senador gastou um segundo encarando a todos com um brilho diferente no olhar, sua expressão não mais domada como há poucos segundos. Todo o segredo e anonimato da GlobalGen já haviam caído por terra, e o sorriso maldoso em seu rosto era um grande indício de que o homem tinha plena consciência disso. Sabia que de nada mais adiantava dissimular, não com tantas evidências incriminando todos os envolvidos. A única coisa que o político podia fazer era protelar ao máximo aquela investigação, porém as investidas daquele casal de mutantes levou até mesmo isso à ruína.
Restava agora somente a satisfação de partilhar aquilo que ele superficialmente sabia, e que inegavelmente lhe daria enorme satisfação contar. Aquilo que desestruturaria de vez a comunidade mutante, e que talvez fizesse a balança pender um pouco mais em favor dos humanos.
– Seus tolos... Só existe uma forma de se livrar da Praga, e a resposta está na única direção que vocês se recusam a olhar... – disse misteriosamente, incapaz de evitar o sorriso cruel que se espalhou por seus lábios pregueados pelo avançar da idade.
– Chega de truques, meu chapa! – Wolverine o cortou, impaciente – O que toda essa merda significa?
– Tudo se trata de uma escolha... – o senador respondeu, ainda risonho – Todos os meta-humanos que quiserem se livrar da ameaça da Praga deverão desistir de sua mutação. Caso contrário, certamente morrerão com ela. Com exceção talvez de vocês dois, que têm o poder de regenerar-se. – complementou, o desdém dominante em seu timbre.
– Qual é o antídoto? – Wolverine rugiu, dando espaço para que suas garras escorregassem para além de seu corpo numa ameaça que prometia se concretizar.
– A própria Cura. Irônico, não acham? – sorriu ainda mais largamente, saboreando o momento que parecia ter se congelado ante as expressões incrédulas dos mutantes – Uma vez que o nano-vírus precisa reconhecer a mutação de seus poderes na cadeia de DNA para dar início às manifestações clínicas, a partir do momento que essa mutação é suprimida pelos efeitos da Cura, os sintomas da Praga cessarão tão rapidamente quanto começaram. – ele fez uma nova pausa, agora analisando com minúcia os semblantes que o fitavam quase suplicantes – Não existe mais espaço para vocês nesse mundo. Ou passam a viver como um de nós ou vão morrer junto às suas mutações. De qualquer forma os seus poderes serão varridos da existência, não importa a escolha que façam.
– Não! – Eve exclamou, porém não havia confiança alguma em seu rosto quando encarou o político – Existe uma vacina contra a Praga! Os mutantes a serviço de vocês nos contaram isso quando invadiram a Mansão.
– Oh, minha querida, o tempo de tomar medidas profiláticas há muito já passou! A Praga se espalha por todos os meios possíveis; ar, água, através de pessoas contaminadas e até mesmo por meio de alguns animais servindo como portadores. A vacina, entretanto, precisa de várias doses ministradas ao longo de semanas para começar a fazer efeito, e certamente nenhum mutante dispõe de tanto tempo... A menos, é claro, que optem pela Cura.
Os quatro mutantes se encararam de forma inquisidora, imaginando o quanto do inquietante discurso fora sincero. Souberam, através dos olhos dos outros, que cada uma daquelas palavras era real.
– Os humanos venceram! – o senador complementou, exultante – Vocês não passam de uma espécie extinta, fadada a seguir nossos termos...
Diante daquelas palavras, Mística não pôde mais se conter, e num único golpe firme da adaga que empunhava, abriu uma ferida profusa no pescoço do homem, que não tardou a morrer ao som dos próprios gorgolejos...
... Ruídos perturbadores que se assemelhavam a risadas, refletindo o completo escárnio ao qual os mutantes haviam sido submetidos.
“I've wept for those who suffer long. But how I weep for those who've gone
into rooms of grief and questioned wrong, but keep on killing.
It's in the soul to feel such things, but weak to watch without speaking.
Oh what mercy sadness brings, if God be willing.
There is a train that's heading straight to heaven's gate, to heaven's gate.
And on the way, child and man and woman wait, watch and wait, for redemption day.
Fire rages in the streets and swallows everything it meets.
It's just an image often seen on television.
Come leaders, come you men of great, let us hear you pontificate.
Your many virtues laid to waste. And we aren't listening.
What do you have for us today?
Throw us a bone but save the plate on why we waited til so late.
Was there no oil to excavate?
No riches in trade for the fate of every person who died in hate?
Throw us a bone, you men of great.
There is a train that's heading straight to heaven's gate, to heaven's gate.
And on the way, child and man and woman wait, watch and wait, for redemption day.
It's buried in the countryside. It's exploding in the shells at night.
It's everywhere a baby cries. Freedom. Freedom. Freedom. Freedom. Freedom.”
(Redemption Day – Johnny Cash)
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