Immortal
28 Somos Tão Jovens...
Notas iniciais
Houve incontestável pânico inserido no olhar de cada X-Men quando os oponentes, que numa silenciosa madrugada atacaram de súbito a Mansão, vestiram máscaras de gás que cobriam uma generosa porção de seus rostos, liberando em seguida uma espécie de spray que fez propagar uma substância gasosa e gélida pelo ar. Gotículas aspersoras penetraram as narinas desprotegidas dos mutantes que outrora foram alunos de Charles, mas que hoje não passavam de meros oponentes próximos demais da morte, ainda que não conhecessem a gravidade do que os esperava. O gás, ao se espalhar rapidamente, criou um breve momento de turbidez na atmosfera, logo se dissipando com os presságios invisíveis do extermínio.
Foram os primeiros a inspirar a Praga, mas nem de longe seriam os últimos.
— O que é isso? – Vampira perguntou, desconfiada e pouco à vontade com a situação. Tossiu algumas poucas vezes, sem sequer imaginar a periculosidade do que ingerira.
— A promessa de uma nova era, menina tola. Uma era que nenhum de vocês poderá testemunhar – um homem do grupo de invasores da GlobalGen avisou de forma enigmática, a voz ligeiramente abafada pela máscara, porém ainda possível ver o molde em seu rosto de um asqueroso sorriso que predizia apenas injúrias.
— Saiam todos daqui! – Tempestade gritou, os olhos sem cor ameaçando saltar das órbitas assim que testemunhou a estranha atitude de seus oponentes – Eles estão tentando nos envenenar – rosnou, mal sabendo o quanto se aproximara da verdade.
— Tarde demais, mulher! Tarde demais... – degustou daquelas simples palavras antes de virar-se em direção à saída, ciente de que sua missão ali estava afinal cumprida.
Hank levantou-se, já no final de suas parcas forças, porém ainda disposto a uma última investida. Seu arfar dolorido preencheu o recinto num lamento que pertencia claramente à Fera. Seu urro ganhou melodias díspares e belas que vagavam entre o desconsolo e a poesia lírica e bestial de seus mais enraizados instintos. O animal dentro dele o fez bradar aquela composição não tão harmônica, as notas graves capazes de tremer os alicerces da Mansão.
Alcançou, não sem dificuldade, o mutante que deu-lhes as costas após liberar a Praga sob os X-Men, segurando com firmeza o pescoço do homem que, surpreendentemente, não se opôs ao gesto bruto. Ao contrário, parecia sorrir largamente por baixo da máscara de gás.
— Seja lá o que tenha feito, amigo, você vai experimentar um trago desse veneno também! – Fera avisou, descendo suas afiadas garras num rápido e preciso golpe que dilacerou a máscara protetora do mutante intruso. A maçã direita do seu rosto ganhou quatro cortes paralelamente diagonais, que imediatamente começaram a expulsar filetes ordenados e contidos de sangue ao longo de sua pele morena.
E a reação que se seguiu não era, nem de longe, a que McCoy esperava.
O homem contorceu-se numa frenética gargalhada, um pouco do sangue entrando pelo canto direito de seu lábio, tamanha a intensidade com que eles se alargaram naquele perturbador riso histérico.
— Bela tentativa, senhor McCoy! – elogiou num tom que parecia sarcástico – Mas é mesmo deplorável que tenha usado suas últimas forças para mais uma vez falhar! Tem sido um hábito, não? – riu novamente, arrancando ruídos de aprovação dos seus comparsas que, em cumplicidade, retiraram por conta própria as máscaras de seus rostos, e o sorriso era largo e irritante em todos eles.
— Eu não entendo... – ele disse, mais frustrado do que irritado por aquela reação de seus inimigos.
— Sendo assim, vou me dignar a explicar. Encare isso como um último pedido sendo atendido. – sorriu cordialmente, como se falasse a um velho amigo – A substância que vocês acabaram de inalar trata-se de um nano-vírus criado pelos cientistas mais brilhantes da contemporaneidade. É um patógeno que dispõe de altíssimas taxas de morbidade e mortalidade, portanto é muito provável que todos vocês já estejam infectados, e mortos daqui a 72 horas numa visão bem otimista. Acontece que esses mesmos cientistas que criaram a Praga que já está em seus organismos, criaram também uma vacina a fim de imunizar todos os seus funcionários suscetíveis à doença – avisou, aspirando profundamente o ar com uma expressão intensamente alegre e triunfante – E é claro que, sendo parte vital do bom funcionamento da empresa, todos os presentes aqui foram previamente imunizados contra aquilo que rapidamente irá matá-los!
— Então por que a máscara de gás? – Hank perguntou, cético, desconfiando que toda aquela estranha conversa não passasse de um logro.
— Apenas um procedimento de segurança padrão completamente dispensável, nada mais. Prezamos a teatralidade também, sem dúvida – troçou, ainda sorrindo com falsa simpatia – Agora, se nos dão licença...
— O que isso faz? – Kurt perguntou, materializando-se na frente do homem e impedindo que prosseguisse em seu avanço para fora da Mansão. – O que isso faz?— repetiu, sua pele não mais reluzindo naquela saudável tonalidade turquesa, agora falhada por vários pontos de queimaduras profundas e voluptuosos hematomas por todo o seu corpo. A bolsa de pele abaixo de seu olho esquerdo estava completamente flácida e caída, deixando exposto o limite entre sua esclera e a mucosa extremamente avermelhada de sua pálpebra inferior. – O que vai acontecer? – perguntou novamente, já sem os traços descontraídos da adolescência.
— Ora, rapaz... E estragar a grande surpresa? – piscou, inabalável – Descubram por si mesmos! São tantas as possibilidades que daria um belíssimo experimento comportamental, mas infelizmente já dispensamos muito tempo hábil com vocês! – avisou, afastando-se com seu grupo sem qualquer dificuldade.

Logan estava estático. Nenhum de seus músculos ousava tracionar-se enquanto ainda mantinha a visão fixa no cadáver de Barbara. Tentava avaliar mentalmente a que ponto sua conversa com aquela mulher pudesse ter sido um blefe apenas para que ela conseguisse o que queria, e o impasse da questão assombrou-o pelos segundos intermináveis em que não soube como reagir.
A razão lhe dizia que as chances de tudo não passar de uma mentira elaborada e desesperada eram grandes, porém seu instinto gritava o oposto. Quase podia sentir a Praga no ar, quase podia farejar o odor das mortes que ainda seriam criadas a partir dessa nociva arma biológica.
Logan virou o rosto num rápido movimento, despertado por esse mero pensamento ao considerar Eve naquela equação. A mutante não teria a menor chance de sobreviver nas condições em que se encontrava; com seu poder tão profundamente adormecido que seria incapaz de curá-la da infecção. Precisava, antes de qualquer outra providência, levá-la a um lugar seguro.
Aproximou-se de seu corpo repleto de feridas antigas e novas, franzindo a sobrancelha ao ser invadido pela impressão de que as lesões estavam em menor número do que antes. Despistou o pensamento, indisposto a se deixar levar por falsas esperanças, sabendo que o momento exigia apenas praticidade e nenhum tipo de envolvimento emocional.
Vestiu o rosto adormecido da mulher com uma máscara descartável de procedimentos cirúrgicos que havia numa das gavetas da bem-equipada enfermaria, arrastando em seguida a maca de Eve com rapidez para fora do recinto, segurando o soro que a alimentava a certa altitude do corpo ainda desacordado. Ignorou as intensas sacolejadas da filha de Xavier à mercê da brusquidão apressada de Wolverine, levando-a para o extremo oposto de onde a batalha entre a GlobalGen e os X-Men havia ocorrido, nutrindo a esperança silenciosa de que a Praga ainda não tivesse tido tempo de se espalhar até ali.
Conduziu-a com determinação até o corredor que desembocaria na entrada do Cérebro, forçando sua mente a recordar a combinação secreta que lhe daria acesso ao lugar, já tendo espiado algumas vezes a sequência de números digitada pelo professor.
O mutante respirou fundo ao chegar, tentando afastar as preocupações da cabeça a fim de deixar sua mente límpida para buscar aquela lembrança em questão. Sabia tratar-se de uma sequência de oito números, mas nada lhe vinha à cabeça. Forçou de forma mais incisiva sua deplorável memória, tentando recriar na mente o movimento ágil dos dedos do professor sobre as teclas, e chegou a visualizar um contínuo movimento ascendente e descendente da mão de Charles, mas nada além disso.
Logan, com esse espectro de lembrança na mente, tentou recriar a senha, porém ciente de que seu palpite era um mero chute, sem ter certeza de absolutamente um único número sequer. Seu acesso foi negado por um filete brilhante de luz vermelha. Tentou novamente, mudando radicalmente os números pressionados, vendo-se dando um tiro no escuro completamente desesperançado.
E novamente o brilho rubro da complexa maquinaria veio negar sua passagem, quase como um carrasco afiando o machado momentos antes de decapitar a vítima.
Logan, num acesso ríspido de fúria, socou com força a entrada fortemente lacrada do Cérebro, desistindo de suas inúteis tentativas, obrigado a admitir que não estava nem perto de saber a senha criada pelo professor Xavier. Se ao menos adiantasse de alguma coisa abrir passagem com suas garras...
O mutante encarou Eve com uma sugestão de desespero no olhar, temendo o que aconteceria quando ela por fim aspirasse a Praga sem o seu poder de cura funcional. Seria o fim. Apenas isso...
Wolverine deslizou dedos gentis pelo cabelo embaraçado da mulher, levantando de leve sua nuca apenas pela breve sensação de mantê-la em seus braços em meio à revoada caótica que os abateu. Um sentimento melancólico ameaçou se espalhar por Logan, porém foi brutalmente freado assim que o mutante se dedicou a analisar mais atentamente a condição da mulher.
Notou que sua pele estava muito mais lisa e homogênea do que há pouco tempo, e agora tinha absoluta certeza de que as feridas em seu corpo e rosto haviam diminuído. Abriu um dos curativos manchados de sangue a tempo de ver um profundo corte se fechar por completo, não deixando sequer um rastro de cicatriz para trás.
Um arrepio do mais singelo alívio invadiu Logan, e sem mais tanto cuidado, ele a trouxe para si, abraçando com força a mulher que logo despertaria.
— Finalmente... Finalmente está voltando, guria! – apertou-a ainda mais forte, por um momento esquecendo-se da tragédia que recaíra sobre o Instituto, levado apenas pelo consolo anestésico do momento. – Só não demore muito... – sussurrou, os lábios colados próximo ao ouvido esquerdo da mulher no apelo mais sincero que ouviu de sua voz – Eu preciso de você...! – confessou num murmúrio, baixo em volume, contudo alto em seu significado. Retirou a máscara hospitalar do rosto feminino, acima de tudo grato por saber que a segurança da mulher não mais dependia daquele objeto inútil.
Sentiu o corpo que abraçava se enrijecer levemente, apenas um espasmo de movimento.
— ...O meu sem picles... – disse a voz que ele tanto ansiou ouvir, o timbre dopado e arrastado como alguém que fala durante o sono, porém ainda assim inconfundível.
O abraço se afrouxou, de modo que Logan pudesse ver os verdes olhos que tanto o fascinaram durante sua convivência com a mulher, e sorriu largamente quando afinal os encontrou, semiabertos e confusos, mas enfim despertos. Eve mexeu confusamente os lábios, tão sutilmente como se eles apenas tivessem tremido, como se tentasse falar e descobrisse não ser capaz, ainda encarando o mutante sem nada compreender.
Sem nem mesmo um momento de reflexão, Logan pôs-se a beijá-la, as mãos firmes ainda amparando as costas e o pescoço da mulher enquanto sua boca deslizava pretensiosa pelos lábios correspondentes, embora mais lentos, de Eve. Trouxe-a com intensidade para mais perto, apalpando-a em apertos quase bruscos que precediam uma necessidade nada racional de senti-la mais uma vez viva.
Enroscou seus dedos nas mechas que caíam fáceis por sua mão, encobrindo-a num ninho de fios, concentrando-se unicamente na pele encostada à sua, nos lábios úmidos que travavam movimentos em comum, o par de seios apoiados fortemente nos músculos de seu peitoral, devidamente abrigados. Sentiu as mãos femininas buscarem apoio na barra de sua camisa, como se procurassem por uma fonte de equilíbrio.
Wolverine apertou-a, mordendo o lábio inferior da boca entreaberta que o esperava e também o buscava, os olhos inicialmente fechados agora abrindo-se lentamente para ele, e apenas para ele. Foi um encarar de apenas um segundo, porém tempo o suficiente para levar o mutante a novamente lançar-se, ávido, sobre ela, aprofundando seus corpos em mais um beijo escavado por sua própria luxúria.
Aos poucos os movimentos de Eve foram ganhando maior estabilidade e solidez, e ela mesma posicionou-se para mais perto de Wolverine, encaixando-se junto a ele da melhor maneira que pôde sobre a maca. Suas pernas, ainda trêmulas pelo espasmo do desuso, abriram-se ao redor das coxas do mutante, permitindo maior proximidade entre ambos, desencadeando uma resposta imediata do homem ao acelerar o ritmo dos lábios que selavam os seus, um ritmo que agora parecia pulsar em sincronicidade com seus batimentos cardíacos.
Logan posicionou as mãos por dentro da túnica hospitalar de Hela, retirando todos os curativos agora desnecessários, sem nem mesmo cogitar afastar-se de seu alcance. Jogou as ataduras no chão com uma satisfação exultante, puxando as coxas de sua guria até que suas pélvis se encontrassem, e a mulher pôde sentir o princípio da rigidez que se instalava entre as pernas do mutante.
— Me senti molestada – sorriu com alguma dificuldade, ainda sobre os lábios pedintes de Logan. Sua voz estava mais firme, e nela havia uma estranha combinação de zombaria divertida e tristeza, algo profundo que não soube camuflar.
Logan foi então arrebatado pela inconveniência do que fazia, de súbito envergonhado por se deixar levar por tais vontades enquanto todos corriam um perigo mortal a apenas alguns metros de distância. E a impotência de não saber como ajudá-los retornou como um doloroso baque. Ele se afastou um pouco de Eve, contudo não o suficiente para deixar de sentir as lufadas de sua respiração batendo suavemente em sua face, ainda contorcida pelo alívio de tê-la de volta.
— Você está bem? – perguntou gentilmente, segurando o rosto feminino como uma carícia.
— Levando, eu acho... – deu de ombros, os olhos magoados desmentindo o sorriso fraco em seus lábios. Acariciou de leve a nuca de Logan, o semblante absorto encarando-o sem nada a dizer e com tudo a sentir.
— Você... lembra...?
— Sim. – interrompeu-o com urgência, não querendo tocar no assunto de seu pai morto, ao menos não com palavras tão diretas – Eu lembro o suficiente. – manteve-se encarando seus amendoados olhos, mas parecia fitar um tempo distante num lugar longínquo.
— Eu sinto muito! – deu seus pêsames sinceros enquanto a abraçava com ainda mais força do que antes, como se de fato pudesse protegê-la da própria angústia. Um soluço incontido escapou da garganta de Hela no mesmo instante em que seu peito tremeu de leve, finalmente rendendo-se a uma pequena parte da comoção que ainda a dominaria mais tarde, quando a quietude da noite trouxesse consigo as lembranças peçonhentas que certamente a envenenaria.
— Tudo bem... – mentiu, a voz embriagada – Pelo menos já acabou...
Logan deu um longo e cansado suspiro, negando com pesar aquele comentário, e odiando o fato de ser o portador de notícias como as recentes.
— Não acabou? – separou-se do aconchego firmado naquele enlace, fitando-o incrédula – Não tinha como a Fênix escapar daquilo, sem chance... – lembrou, descrente.
— Não se trata da Fênix. Ela não é mais um problema! – principiou, sem saber ao certo como explicar.
— Então toda aquela putaria com o campo magnético foi resolvida? – verificou, confusa, e se sentiu profundamente aliviada quando Logan assentiu em concordância. Ao menos a morte de Charles não havia sido em vão – E então? – Eve o instigou, ainda não compreendendo o problema a que ele se referia.
— Recebemos hoje uma visita da GlobalGen... – empertigou-se, vendo os verdes olhos de Eve se arregalarem em repentino entendimento e receio – ...Eles soltaram a Praga. – contou, como que respondendo à pergunta silenciosa estampada na expressão da mutante.
— Aí fodeu... – meneou a cabeça, pondo-se num salto incerto para fora da maca, percebendo-se dominada pelo desequilíbrio consequente do desuso de seus músculos. Logan amparou o corpo bamboleante de Eve que por um instante ameaçou cair, e só se permitiu soltá-la quando a percebeu mais firme – Onde foi isso?
— Aqui mesmo, na Mansão... Acabou de acontecer – alertou, pesaroso.
— Uma folga pra quê, né? – Eve comentou com alguma derrota, e segurando o punho de Logan com um pouco mais de força, conduziu-o apressada para longe dali.
“Take the ribbon from your hair,
shake it loose, let it fall
Lay it soft against my skin,
like the shadow on the wall
Come and lay down by my side
till the early morning light
All I'm taking is your time
Help me make it through the night
I don't care what's right or wrong,
I won't try to understand
Let the devil take tomorrow
'Cause tonight I need a friend
Yesterday is dead and gone
and tomorrow's out of sight
And it's sad to be alone
Help me make it through the night
I don't care what's right or wrong,
I won't try to understand
Let the devil take tomorrow
'Cause tonight I need a friend
Yesterday is dead and gone
and tomorrow's out of sight
And it's sad to be alone
Help me make it through the night
I don't want to be alone
Help me make it through the night”
(Help Me Make It Through The Night – Elvis Presley)
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