Immortal
7 Aproximações – Parte I – A Garota Dos Pesadelos
Notas iniciais
Os X-Men jaziam aglomerados na sala de estar, praticamente todos os mutantes atentos às notícias transmitidas pela CNN, canal de noticiário a cabo de influente veiculação internacional. A âncora Nadia Baldwin comunicava as novidades e avanços obtidos numa das prioridades vigentes do governo dos Estados Unidos nos últimos anos; a criação da Cura. Para muitos, uma fantasiosa idealização humana que apenas geraria voluptuosos gastos e frustrações; para outros, uma arma de genocídio em potencial cada vez mais palpável.
O discurso da repórter se intercalava a sorrisos fáceis em meio às pausas.
“– Uma gama dos mais conclamados nomes na área da manipulação genética está encarregada de concluir o projeto que leva o nome de A Cura, alternativa que os geneticistas mais otimistas julgam ser capaz de suprimir de forma permanente a espécie de mutação genética que confere perigosos poderes sobre-humanos aos seus portadores. Caso o seu pretensioso destino seja alcançado, tal alternativa se mostra de fato uma cura à mácula que vem atingindo um número cada vez mais vasto de pessoas.” – a quase totalidade dos mutantes trocaram olhares indignados entre si em meio aos próprios resmungos enfurecidos, reprovando os termos capciosos e tendenciosos usados pela jornalista. Apenas Vampira mantinha-se encurvada, de forma extremamente interessada, em direção à televisão, aquelas palavras lhe atingindo mais profundamente do que a qualquer um dos outros ali presente – “Os métodos, no entanto, ainda estão mantidos em sigilo até que se chegue a um progresso relevante, porém a equipe delegada a tal função, juntamente com o governo, se mostra cada vez mais esperançosa quanto ao sucesso dos resultados obtidos! Ao que tudo indica, não demorará para que a Cura esteja finalmente pronta para ser testada nos mutantes que a quiserem.”
Vampira saiu do lado de Bobby num movimento repentino, indo em direção à janela do recinto, buscando em vão por um ar mais respirável. O namorado a seguiu, percebendo preocupado o quanto aquele assunto parecia afligi-la ainda mais nos últimos meses.
– Algum problema? – ele perguntou, passando uma das mãos através da cintura da namorada.
– Está tudo bem. Eu só preciso ficar um pouco sozinha, só isso... – avisou, incerta – Desculpe, Bobby! Mais tarde a gente se vê... – apressou-se em sair dali, sentindo-se sufocada naquele espaço fechado.
Mas nem mesmo quando alcançou o ar livre do amplo quintal o nó em sua garganta foi amainado. Parecia que, a cada novo dia, aquela sensação claustrofóbica cada vez mais frequente que a dominava, vinha não dos tijolos que a cercavam, mas sim da própria carne. Da Marie que estava eternamente presa à Vampira, e da Vampira que não permitia que seus desejos e vontades prevalecessem.
A adolescente tirou a luva negra que cobria uma das mãos, fitando a sua palidez com lágrimas subindo-lhe aos olhos. A pele, à primeira vista feminina e delicada, guardava o pior de seus tormentos e angústias. Quem a tocasse teria sua vitalidade roubada, podendo culminar na morte daquele que se atrevesse a fazê-lo por muito tempo...
...E Marie não conseguia enxergar onde estava o dom daquele poder que só a afastava das pessoas. Que afastaria Bobby de vez, cedo ou tarde. Mais cedo do que tarde, a julgar o rumo de seu pseudo-namoro com o Homem de Gelo.
Cobriu novamente a mão com a luva, percebendo uma lágrima finalmente escapar de seus angustiados olhos. Talvez a sua única esperança residisse na Cura, mas até lá... Até lá teria de continuar sendo a Vampira, a outra face que tanto desprezava.
A adolescente sentou sobre uma pedra, tentando distrair-se à imagem do pôr do sol que tingia de laranja as esparsas nuvens, junto a um azul cada vez mais escurecido pela ausência dos raios solares, que se escondiam para dar passagem à soturnez da noite. Escorou a cabeça no tronco de uma árvore próxima, e permitiu que as lágrimas continuassem correndo soltas, sem qualquer restrição que as freasse.
Não saberia dizer o quanto manteve aquela posição, apenas permitiu matar o tempo junto aos próprios devaneios...
...Devaneios esses que preferia não ter.

Eve andava de modo desajeitado ao longo das árvores que se elevavam altas pelo Instituto Xavier, segurando possessivamente um odre prateado que vez ou outra levava à boca para um longo gole no gargalo. E o líquido que descia queimava-lhe a garganta, porém parecia teimosamente resistente em manter sua sobriedade intacta.
Em um desses tragos, distraída, esbarrou em uma adolescente que se mantinha acolhida ao próprio corpo, abraçando as pernas de tal modo que suas articulações estavam lívidas pela força desnecessariamente empregada. Eve notou que a menina chorava, mas decidiu ignorar o fato.
– Opa! Desculpe o tropeção, garota! Machucou? – perguntou apenas por força do hábito, não estando realmente interessada na aluna de seu pai. Em resposta, a adolescente apenas negou com a cabeça, voltando a aconchegar-se ao abraço que dava em si mesma e soluçando baixinho, repleta de um pesar que chegava a soar irritante – Ótimo. Se cuida, então! – deu outro longo gole na bebida que carregava, e após meia dúzia de passos, sua consciência resolveu pesar, acusando-a de tamanha frieza. Eve suspirou pesadamente, dando meia volta e se sentando ao lado da garota chorosa – Parece que você precisa disso mais do que eu... – passou o odre prata para a garota, que o segurou com receio e dona de um olhar que refletia desconfiança.
– O que é isso? – perguntou inocentemente.
– Sopa! – Eve respondeu de prontidão, o semblante sério e convincente dando crédito à pequena mentira – De cebola. Nesse frio vai fazê-la se sentir melhor.
Naquele instante Vampira percebeu que tinha fome, e não hesitou em dar um longo gole ao conteúdo do odre, engolindo uma generosa porção do líquido antes de se dar conta do que bebia de fato. Ao notar o sabor amargo em contato com a língua e o rastro em brasa que ela deixou ao longo da garganta, Marie cuspiu a bebida para longe, seu rosto traduzido em descontentamento. Eve não se conteve, e permitiu que a gargalhada saísse, não esperando que a garota de fato acreditaria em sua palavra. Mas era tudo o que ela era; uma garota, que ainda se permitia confiar nas pessoas. Um defeito sem tamanho para um mutante.
– Posso ajudar em alguma coisa? – a mulher inquiriu com o melhor tom brando que conseguiu usar, formando em seguida um sorriso que esperava ser capaz de encorajá-la – Você é a Vampira, não é?
– Marie! – ela corrigiu, sentindo repulsa do nome de mutante naquele momento. Devolveu o odre à Eve, limpando a boca com a manga da blusa – Por favor, me chame de Marie!
– É um belo nome... – elogiou, ainda afável – O que aconteceu, Marie?
– Ah, você não vai querer saber... – lamentou, os olhos inchados encarando a mulher como se suplicasse para que a deixasse desabafar livremente – Não quero ocupar ninguém com meus problemas.
– Por que não tenta? – encorajou-a, pensando em seu íntimo que a garota nem podia imaginar o quanto estava coberta de razão quando concluiu que Eve de fato não queria saber. Nunca teve paciência para as lamúrias adolescentes, mas algo naquela garota impediu que a mulher apenas continuasse caminhando para longe.
– Você já teve tanto ódio da sua mutação que daria tudo para simplesmente ser normal?
Eve estancou, o sorriso sumindo de seus lábios.
– Sempre... – respondeu com mais sinceridade do que pretendia ao reconhecer a dor semelhante à sua na menina – Trocaria o dom do meu poder por tudo o que ele me fez perder, sem pensar duas vezes, acredite.
– O primeiro garoto que eu beijei passou três semanas internado num hospital, em coma. – secou as lágrimas do rosto, controlando melhor a voz embargada e contando fatos da própria vida como se a mulher fosse sua confidente há anos – O meu toque acaba me afastando até mesmo dos mutantes... nem perto deles eu deixo de me sentir uma anormal.
– Então, você está assim por causa de um garoto? – Eve logo entendeu, imaginando o quanto a adolescência podia ser ainda mais árdua nessas circunstâncias.
– Pelo Bobby, e por mim também. Eu sei que em algum momento ele vai se cansar e se afastar de mim... E sei que isso vai ser um padrão.
– Sabe, uma vez eu me apaixonei... – principiou, decidindo por confiar alguns fatos irrelevantes da própria vida à menina, de modo que a fizesse entender uma das lições mais preciosas que aprendera – Devia ser um pouco mais velha do que você, uns dezoito anos ou perto disso, talvez. O nome dele era Dave, e ele era sete anos mais velho. Lembro até hoje do quanto aquele imbecil me deslumbrava, e do jeito patético com que eu me arrepiava só por vê-lo... – riu, renegando a própria tolice – Nós namoramos por um tempo, e, um dia, planejamos fugir. Sair de Nova York e ir o mais longe que um tanque cheio permitisse... – Eve fez uma enorme pausa, como se fosse transportada ao passado que contava, como se se esquecesse de narrá-lo em voz alta ao revivê-lo nas recordações.
– E vocês fugiram? – Marie finalmente perguntou, rendendo-se à curiosidade.
– Eu nunca tive coragem de contar ao Dave que era mutante. Dizia a mim mesma que isso não importava, que de qualquer modo ele ficaria ao meu lado sempre me apoiando, e eu era incapaz de perceber que repetia essa história diariamente só para me convencer de que havia alguma chance de ela ser verídica. – fez uma nova pausa, porém breve. Apenas o tempo necessário para um suspiro pesaroso – Sim, nós fugimos, e parecíamos um casal de adolescentes com toda aquela empolgação, eu me sentia a pessoa mais desejada do mundo, cheguei mesmo a pensar que ele me amava pelo o que eu realmente era. Mas... Depois de três horas de viagem, nós sofremos um acidente na estrada. Chovia muito naquela noite, e o carro acabou rodando na pista, sem controle. Só paramos quando a lateral do motorista se chocou contra um barranco, e Dave sofreu todo o impacto da batida. Ele estava muito ferido, mas ainda consciente quando eu usei os meus poderes para curá-lo. Depois que eu salvei sua vida, ele me encarou nos olhos, mais profundamente do que jamais havia feito, e disse que eu era uma aberração. Naquele dia, eu aprendi uma valiosa lição, criança. Encontrar o príncipe encantado é só para os contos de fada. Nesse mundo não tem espaço para finais felizes, nem nada do gênero. Ainda mais para pessoas como nós. Provavelmente o seu poder vale mais do que qualquer garoto que venha a gostar.
– Você salvou a vida dele! – ela rebateu, indignada, como se contestar aquela realidade pudesse mudar o passado de alguma forma – O que fez depois? – Vampira perguntou, boquiaberta.
– Fiz o que qualquer garota na minha posição faria! – replicou, como se a pergunta da adolescente fosse um tanto óbvia e desnecessária – Devolvi os ferimentos que eu havia curado e roubei o carro. Abandonei o imbecil no meio da estrada e continuei a minha fuga sozinha.
Marie soltou risinhos divertidos ao conhecer o inusitado desfecho da história, e Eve acabou acompanhando-a, sentindo-se estranhamente bem ao vê-la dissipar um pouco da tristeza que marcava seus olhos joviais e infelizes.
– Esse cara mereceu isso... Mas o Bobby é diferente! Ele é tão gentil, carinhoso e sempre me faz rir. É um péssimo goleiro no pebolim, verdade seja dita – brincou, arrancando um meio sorriso de Eve –, mas ainda assim, eu sinto que ele é especial.
– Marie, eu nunca pensei que diria isso em voz alta, e muito menos pra outra pessoa, mas o meu pai é ótimo no que faz. Ele é um excelente professor, e entende as particularidades individuais dos mutantes como ninguém. Se esse garoto é tão importante pra você, peça ao Charles que tente trabalhar melhor o controle do seu poder. – sugeriu, já sentindo que começava a se afeiçoar à garota – A grande maioria das mutações pode ser ligada e desligada a mando do mutante, e quem sabe você não consegue desenvolver isso com um pouco de treino? Às vezes você só precisa exercitar e se dedicar mais do que os outros alunos para ganhar esse controle que normalmente é natural... Peça isso ao meu pai, eu garanto que ele fará o possível para ajudar.
– Você acha que isso pode funcionar? – seus olhos se iluminaram com o conselho, esperançosos.
– Acho que vale a pena tentar... Se der certo ótimo, e se não der... Bom, pior não vai ficar. – deu de ombros – O maior perigo é criar expectativas vãs, mas até uma esperança falsa é melhor do que esperança nenhuma. O importante é que você consiga se aceitar, independente do que aconteça. – concluiu com um nó na garganta, não deixando de perceber que esse conselho cabia perfeitamente a si mesma também.
– Sim, você tem razão! – ela levantou-se de um único salto, parecendo empolgada com aquela nova perspectiva. Se conseguisse conciliar Vampira e Marie... – Eu vou agora mesmo falar com o professor, e...
O corpo de Marie estagnou, e toda a sua força de vontade pareceu perecer com a cena que viu. Ela encarava fixamente um ponto a alguns metros adiante, onde um casal patinava na água congelada do enorme chafariz da Mansão X.
– É esse o garoto? – Eve perguntou, mesmo estando certa da resposta. Os olhos da adolescente ainda mantiveram-se fixos na cena quando respondeu, agora não mais esperançosos, e sim amargurados.
– É ele... – sua voz saiu pesada, carregada demais para alguém tão jovem, e só então voltou a encarar a mulher ao seu lado.
– Então fique olhando! – Eve esboçou um de seus sorrisos traiçoeiros, no mesmo instante em que Vampira notou que os olhos da filha de Charles clareavam e mudavam para uma tonalidade azulada, tão revolta que parecia abrigar dentro de si a potência das marés. Era de um azul profundo, como se a ressaca do mar se pronunciasse dentro deles, puxando em violenta e inexorável correnteza.
Eve apenas se manteve encarando o chafariz, ainda sorrindo. Ao seu menor comando, o gelo nele se liquefez de um instante a outro, e o casal que antes patinava em sintonia, agora parecia na mais completa confusão, tentando entender como seus corpos ficaram molhados ao mergulharem naquilo que deveria ser sólido, mas que mudou para o estado líquido sem que nenhum deles compreendesse a causa.
Bobby e Kitty saíram agitados do chafariz, procurando por qualquer anormalidade que explicasse o ocorrido. Eve puxou Marie para trás de uma larga árvore, de modo a se esconderem do olhar inquisidor do casal encharcado. Vampira cobriu a boca para abafar a risada que quase lhe escapou, olhando-a com incredulidade e diversão.
– Sua vez! – Eve sussurrou.
– Minha vez? – perguntou, agora confusa.
– Sim, você precisa experimentar o quanto é bom dar o troco, nem sempre temos essa chance. Tire a luva e sugue o meu poder.
– Não, isso vai te machucar...
– Eu sobrevivo. Faça logo, antes que eles entrem na Mansão e todo mundo veja! – ordenou, travessa e igualmente empolgada.
Vampira, ainda duvidosa, despiu a luva e tocou o pulso de Eve, experimentando no mesmo segundo um poder de potência inigualável sendo sorvido para si. Seus olhos se arregalaram em espanto, tamanha a intensidade da carga recebida. Eve, por outro lado, não podia ter se sentido mais desconfortável pelo toque da mutante. Era como se toda a sua força lhe fosse arrancada da forma mais desagradável possível, a visão nublando-se com maior intensidade à medida que o contato se estendia.
E mesmo quando Marie interrompeu o toque, a sensação da mulher ainda era a iminência do desmaio.
– Você está bem...?
– Garota, é bom você usar logo o meu poder, porque eu nunca mais te deixo fazer isso de novo! – avisou em tom repreensivo, mas havia um sorriso brincalhão e pálido em seu rosto nauseado. Ela apoiou-se no tronco da árvore, temendo cair – Vamos, escolha um dos poderes e faça a festa. Só fique longe da...
– Morte! – Vampira completou com um ar solene ao ter acesso não só aos poderes da inusitada mulher, mas também às lembranças. Toda ela se arrepiou ao ser apresentada ao passado dolorido de Eve, e principalmente ao sentir na própria pele cada sentimento que a atormentava, percebendo que os seus não eram assim tão cruéis. Sentiu-se a mais desleal das pessoas ao perceber que se esquecera de mencionar que as lembranças vinham junto com o pacote, mas decidiu manter isso em segredo, apenas para si, concentrando-se agora em sua pequena desforra.
Vampira fez com que uma diminuta nuvem se formasse apenas acima da cabeça de Bobby e Kitty, criando uma forte tempestade que foi sentida apenas pelos dois, ainda mais confusos ao notar os grossos pingos caindo apenas sobre suas cabeças, a nuvem os seguindo para aonde quer que eles fugissem.
Mas nem de longe aquilo a fez se sentir melhor. Porque no final das contas, ainda era a Vampira, aquela que sequer podia cogitar se aproximar mais intimamente de alguém, e isso seria sempre um tormento. E por ora também era Eve, enquanto a nitidez da vida da mulher se evidenciava em seu íntimo junto ao vasto poder que fluía em si, e essa era uma angústia ainda maior.
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