Immortal

14 Antes Que Tudo Vá Pelos Ares


Notas iniciais
"Do you hear the people sing?" =] Nada a ver com a fanfic, eu sei, mas eu achei a atuação do Hugh Jackman em Os Miseráveis sensacional (A Anne Hathaway me fez vomitar arco-íris e arrotar lantejoulas!), e como eu estou ouvindo a trilha sonora do musical me senti inspirada a compartilhar isso com vocês ^^ Espero que gostem do capítulo, lindões! Eu escrevi ele praticamente todo hoje e meus olhos estão queimando, hehehe (Outra informação desnecessária, mas quem disse que eu ligo? x])

Os sentidos de Eve, mesmo que nublados ligeiramente pelo cansaço, faziam-na encarar com frequência o retrovisor do carro em veloz movimento. Logan por vezes acompanhava a direção do olhar desconfiado da mutante, porém sua real atenção mantinha-se na estrada pela qual guiava o automóvel, ignorando o quanto os músculos de toda a extensão de seu corpo reclamavam pelas horas em que se mantinham naquela mesma posição.

A cada cinco minutos Hela empertigava-se sobre o assento estofado, visivelmente desconfortável e incomodada, porém talvez orgulhosa demais para reclamar. Wolverine também estava cansado. Aquela busca tornara-se ainda mais exaustiva após a descoberta da influência da GlobalGen em sua história, a crescente ansiedade por descobrir novas respostas fazendo com que as horas se arrastassem zombeteiramente em réplica à pressa que ambos sentiam.

Mas algo a mais perturbava Eve.

— Você devia tentar dormir... – ele sugeriu ao virar o volante numa curva mais fechada do que o normal, e a mulher novamente fitou o espelho do retrovisor ao seu lado aproveitando a nova panorâmica. Durante todas as horas em que o mutante já havia dirigido de seu turno, percebeu que Eve apenas conseguira cochilar por poucos minutos espaçados, tendo seu sono diversas vezes interrompido pela tentativa de encontrar uma posição melhor, mas todas elas mostraram-se em vão. Logo seus olhos se abriam ainda mais exaustos enquanto ela mudava e tentava ajeitar a pressão entre o corpo e o assento.

— Devíamos era encontrar um lugar decente para dormir! – reclamou, massageando o pescoço completamente tenso e dolorido e mais uma vez agitando-se sobre o couro da poltrona em busca de um conforto que não encontrou – Nenhum de nós descansou direito nesse carro, e eu preciso esticar as pernas! Não consigo dormir me sentindo uma sardinha espremida na lata... – apertou os joelhos em meio a uma careta, como que para comprovar o que dissera.

— Estamos perto, guria! Não podemos parar agora! – disse, e Eve não pôde evitar o revirar de seus olhos. Aquele homem era teimoso... uma combinação insolente de obsessão e teimosia, e Hela desconfiava de que o gênio do mutante era ainda pior do que o próprio.

— Não estamos mais perto de encontrar a GlobalGen do que estávamos antes de descobrir a existência da empresa. – cruzou os braços, a impaciência agora tão extensa quanto o incômodo muscular – Tudo o que temos é a sua lembrança de acordar em Iowa, mas mesmo que você esteja certo e a empresa seja realmente lá, ainda assim nossas opções são infinitas... Podemos levar semanas até descobrir alguma coisa! – fez uma pausa, deixando a cabeça cair sobre o encosto e soltando um suspiro desanimado – Eu quero chegar no começo de toda essa merda tanto quanto você, mas... Tem mais um motivo para eu querer parar! – confessou, relanceando o olhar ao espelho instintivamente, como se os metros já percorridos guardassem a resposta.

— Qual? – fitou-a de soslaio, notando que de fato a mulher parecia muito mais incomodada do que devia – Algum problema?

— Eu acho que estamos sendo seguidos.

— Pelo Chevrolet? – franziu o cenho, prestando atenção ao carro que os alcançava na estrada.

— Não. Pelo Porsche atrás dele... Sei que pode parecer paranoia, mas esse carro está na nossa cola desde o começo da viagem.

— É a interestadual, guria! Todos seguem essa rota.

— Ele também parou naquela lanchonete... Não pode ser coincidência... Em todo lugar que vamos eu vejo esse Porsche! – defendeu o seu ponto de vista com teimosia, disposta a se certificar da teoria – E sim, a placa é a mesma! – complementou antes que Logan se valesse daquele argumento.

— Quem poderia ter interesse em nos seguir? Magneto? – arriscou, permitindo-se por um momento aceitar a teoria de Eve, mesmo que ele acreditasse tratar-se de uma neurose fabricada pela falta de sono e excesso de cansaço, além das características próprias da mulher que faziam do seu gênio algo instável.

— Não sei... talvez! Mas acho que verificar não custa nada. E céus, dormir também não! Tomar um banho, usar um banheiro decente... – listou, em seguida fechando os olhos por um segundo como se desse uma nova chance ao torpor, contudo os abriu em seguida, desistindo ao convencer-se de que de fato não conseguiria descansar ali – Devíamos ter pegado o jato dos X-Men, e não essa porcaria de quatro rodas! – praguejou, fitando nada específico – Já teríamos ido e voltado várias vezes nesse tempo de viagem...

Logan não respondeu de imediato, ao invés disso levou o olhar ao retrovisor largamente inspecionado por Eve ao longo da viagem e encarou o carro de tom azul metálico. De fato, o vira por todo caminho, ora ocupando um lugar à frente do carro que Logan e Eve se revezavam em dirigir, ora mantendo-se atrás, mas sempre à vista, sempre mantendo-se perto... E, se de fato estivessem sendo perseguidos, que interesse poderia existir por trás desse encalço?

— Uma noite bem dormida, grandão, e ainda tiramos minhas suspeitas a limpo... – Eve propôs, o corpo jogado pelo banco e a cabeça ligeiramente virada na direção do mutante para observá-lo melhor, mesmo que sua visão se mostrasse incomodamente embaçada em conjunto com as pálpebras pesadas – Se esse cara continuar seguindo viagem, nós retomamos a nossa amanhã cedo, mas se não... – deixou a frase no ar, sabendo que ganhara o significado planejado mesmo sem verbalizá-lo.

— ...Eu o faço falar! – Logan completou, o tom sombrio indicando que usaria qualquer método que julgasse necessário para encontrar todas as respostas que pudesse. Eve sorriu, aliviada por vê-lo acatar sua sugestão.

Nós! Nós o faremos falar. – corrigiu-o, ainda rindo através dos lábios e do olhar – Não pense que a diversão é só sua, grandão! Eu também quero descobrir se o seu passado é tão obscuro quanto o da Lindsay Lohan... – brincou, o sorriso aumentando em seu rosto ao perceber um sutil repuxar de lábios na feição do mutante, em conjunto com um olhar reprovador que veio ao encontro de Eve de soslaio.

Seguiram viagem até a próxima cidade, o céu já pronunciando o negrume tradicional que vinha junto com a noite, poucas estrelas visíveis pela extensa quantidade de luzes urbanas que ofuscavam seus brilhos.

Ambos deixavam os olhos serem atraídos pela imagem do Porsche no lugar da estrada, ansiosos por verem qual seria a reação do possível perseguidor ao seguirem pela estrada alternativa que servia de entrada à cidade.

Contudo, contrariando todas as expectativas de Eve, o carro azul passou reto, ignorando a mudança de trajetória dos dois mutantes e se perdendo pela extensão contínua da interestadual. Hela suspirou, afundando-se ainda mais sobre o estofado.

— Tudo bem, eu errei dessa vez. – admitiu a contragosto, fungando em seguida como se reconhecer aquilo a aborrecesse – Mas espero que procurar um lugar decente para dormir ainda esteja em pé...

— Sem problemas. Você precisa mesmo dormir! – sorriu de modo acusador, portando uma expressão superior de quem diz “Eu te avisei!” e que só fez o humor de Eve piorar. Ela limitou-se a cruzar os braços enquanto resmungava e engolia xingamentos.

Não demorou muito até encontrarem uma pousada simples que já anunciava ter vagas pelo letreiro iluminado, e mesmo o lugar sendo simplório, era mais luxo do que os dois tiveram desde que se engajaram nessa viagem, e Eve estava grata por saber que nesta noite dormiria sobre o conforto de um colchão.

Desceram do carro e ambos passaram a alongar os músculos em sinal do mais puro alívio ao sentir que seu espaço não se resumia mais a um cubículo fechado que permitia uma variedade muito restrita de posições. Eles caminharam de encontro à recepção, vislumbrando a imagem convidativa e simpática de uma velhinha sorridente atrás do balcão.

— Boa noite! – a senhora cumprimentou, alargando ainda mais o sorriso ao ver possíveis clientes entrarem no estabelecimento, os olhos gentis e curiosos se revezando entre os dois – Os senhores têm reserva?

— Não, mas gostaríamos de uma. – Eve adiantou-se, extremamente ansiosa pelo merecido descanso que viria logo em seguida àquela pequena burocracia.

— Claro, temos vagas sobrando. Os negócios estão meio ruins das pernas depois de todo esse terrorismo entre humanos e mutantes, sabe. Parece que as pessoas têm medo de sair de suas casas, e não há como culpá-las, as coisas estão instáveis ultimamente... – a velhinha tagarelou, e Wolverine e Hela encararam-se, confusos.

— Instáveis? Como assim? – a mutante perguntou, sem de fato entender o que a mulher quisera dizer. Sabia que a situação entre humanos e mutantes nunca fora a mais tranquila, mas algo no timbre daquela senhora parecia soar assustado.

— Não ficou sabendo, querida? Desde o pronunciamento do Magneto na mídia as pessoas estão apavoradas, o país está virando um caos. Veja! – ela tirou detrás do balcão um jornal do dia, apontando para a manchete que ocupava a primeira página, as letras garrafais do título que introduziam a notícia fazendo o queixo de Eve despencar. A foto ao lado do texto mostrando uma verdadeira multidão tentando cruzar os limites do país e fugir – Americanos atravessando a fronteira entre os Estados Unidos e o México ilegalmente, dá para acreditar? – a mulher negou algo com a cabeça, dobrando novamente o jornal e o guardando. Logan e Eve mais uma vez trocaram um olhar preocupado sem nem ao menos ter ideia do que Erik falara nesse pronunciamento que causasse tamanha balbúrdia, mas a julgar pela fama de Magneto, cortesia não poderia ser. – Mas e então, meus queridos, que quarto vão querer? São parentes ou um casal? – perguntou de modo quase indiscreto, ainda sorrindo.

Ao mesmo tempo em que Eve respondeu que eram “Parentes”, Logan replicou serem “Casal”, arrancando um olhar de extrema confusão da mulher. Em contrapartida Hela revirou os verdes olhos sem a menor paciência. Fitou Logan com raiva antes de novamente dirigir-se à senhora que os atendia.

— Na verdade somos os dois. Eu e meu irmão aqui somos adeptos ao estilo de vida incestuoso da Cersei e do Jaime. Sabe como é, né, depois de toda essa repercussão na ficção nós pensamos “Por que não?”, e desde então estamos metendo bronc...

— Ela está brincando! – Logan interrompeu-a ao notar a feição extremamente chocada e assustada da idosa, os olhos arregalados agora captando um sorriso extremamente gentil e bem-humorado do mutante, como que para tentar reverter aquela primeira impressão nada convencional – Somos recém-casados e gostaríamos de um quarto de casal, por favor. – ele sorriu ainda mais largamente, e Eve sentiu-se obrigada a acompanhá-lo naquele gesto como que para selar um acordo de paz. A senhora acabou sorrindo também, aceitando que tudo não passara de uma brincadeira estranha, e indo em busca de uma das chaves dos vários quartos vagos.

— Eu só preciso que um de vocês preencha o check-in... – ela lembrou, colocando sobre o balcão uma folha no formato A4 e emprestando uma caneta que estava presa a uma corrente metálica para que ele preenchesse os dados requisitados. Logan levou pouco tempo na tarefa, e quando finalmente a terminou, pousou a caneta sobre o móvel e sorriu do jeito mais charmoso à senhora.

— Muito obrigado! – pegou a chave e passou o braço esquerdo em volta da cintura da mutante, tentando esconder o melhor que conseguiu a ausência do anel de compromisso no dedo anelar. Eve teve que suprimir a vontade de rir, ao invés disso aceitando o pequeno teatro e levando a mão às costas do mutante – E perdoe a brincadeira! Minha esposa é muito... espirituosa!

— Ah, a senhora nem faz ideia do quanto! – Hela não evitou mais o sorriso travesso, e, com a mão agora dentro da blusa de Logan, começou a passear os dedos pela pele do mutante, sentindo-o enrijecer e de repente não representar mais o seu papel tão bem quanto antes – É que esse homem me tira do sério, sabe?

— Minha querida, eu me lembro bem de como é o amor juvenil – a doce velhinha disse inocentemente, sorrindo sempre cheia de simpatia a oferecer.

— É verdade, o amor juvenil... – Eve concordou ao som de um suspiro exagerado, agora com as duas mãos por dentro da camisa de Wolverine, acariciando-o afetuosamente como se formassem o mais doce e apaixonado dos casais. – Por que não conta a esta amável senhora como nos conhecemos, benzinho? – ela propôs com um sorriso radiante no rosto. Logan fechou os olhos por um segundo, como se tentasse controlar a raiva, mas ainda conseguiu recompor o sorriso ao novamente levantar as pálpebras.

— Eu duvido que ela queira ouvir, amor.

— Óh, eu ficaria encantada! – a senhora disse, seu tom ainda mais gentil e receptivo do que antes.

— Sim, eu também ficaria absolutamente encantada em ouvir! – o sorriso de Hela agora foi da mais pura zombaria, e o riso quase escapou ao notar o olhar letal que o mutante lhe direcionou.

— Quem sabe numa outra ocasião? – ele recusou como um verdadeiro lorde após um de seus sorrisos de tirar o fôlego, e Eve sorriu em direção à mulher que os recepcionava.

— Perdoe o meu marido, ele está cansado. A viagem foi longa... – explicou-se. Inclinou-se mais na direção da idosa e sussurrou, porém alto o suficiente para que o mutante pudesse ouvi-la – E ele morre de vergonha de admitir que me conheceu num salão de beleza enquanto passava a sua sessão diária de laquê...

— Ora, quem deve se desculpar sou eu por importuná-los e tomar o tempo de vocês, meus queridos! Espero que desfrutem do quarto e tenham uma ótima noite.

— Certamente teremos! – Eve piscou para a mulher, e no segundo seguinte viu-a corar com enorme intensidade pelo sentido que a hóspede dera àquela saudação de boa noite inicialmente inocente.

— O café é servido a partir das sete! – a senhora os avisou antes que os perdesse de vista, já rumando em direção ao quarto. Os dois viraram os rostos para encará-la e lhe agradeceram, por fim saindo do campo visual da recepcionista.

E bastou ficarem sozinhos para que a mutante gargalhasse tudo o que reprimiu na presença da outra mulher. Desfez o abraço que dava em Logan, fitando a carranca do mutante como um troféu.

— O que foi tudo isso? – ele finalmente perguntou, sem qualquer traço da antiga gentileza na voz, mantendo o olhar fixo apenas no caminho, sabendo que se olhasse para Eve sua raiva só aumentaria.

— Quem pergunta sou eu! Quarto de casal? Meu querido, eu quis fazer essa parada para dormir, e literalmente dormir! Sabe, tirar o meu tão merecido sono de Odin! O que você estava pensando?

— Não temos muito dinheiro e eu não sei até quando essa viagem ainda pode durar. Por isso o quarto de casal e não dois de solteiro! – falou com irritação, ainda aborrecido pelo papel desnecessário que acabaram de encenar, as narinas dilatando-se charmosamente pelo momento de raiva.

— É, eu sou obrigada a admitir que isso também faz sentido – Eve refletiu, mordendo os lábios numa expressão pensativa – Ah, mas pra que todo esse mau humor, benzinho? Somos recém-casados, ainda é muito cedo pra desgastar o casamento com brigas! – caçoou, novamente rindo de toda a situação, achando-a hilária demais para continuar mantendo o controle, ainda mais com a fúria que notava nos olhos de seu parceiro de viagem.

Ele nada respondeu, ao invés disso concentrou-se em colocar a chave na fechadura e abrir de vez o aposento, também disposto a gastar todas as horas que restassem até o amanhecer dormindo. Estava exausto, e indisposto demais para dar corda às troças de Eve.

Entraram no quarto, e Eve olhou desanimada para a única cama de casal que se dispunha ao longo da quase totalidade do perímetro do recinto. Suspirou longamente, encarando Logan com seriedade.

— Sorte sua que eu não tenho pudores idiotas. Mas juro que se você invadir o meu lado da cama ou roncar no meu ouvido eu te arremesso para fora da sacada. – comentou despreocupadamente, jogando a mala num canto qualquer do quarto.

— Não se preocupe, a cama é sua. Eu me viro no chão.

— Você quem sabe... – ela deu de ombros, separando uma muda de roupa e o encarando em seguida – Mas eu vou me sentir uma megera sabendo que deixei você dormir no chão no começo do nosso casamento – sorriu –, mas eu também posso conviver com essa culpa! Sobra mais espaço pra mim! Se não se importa, marido, vou tomar um banho...

— Disponha! – ele respondeu agora com algum traço de diversão, parecendo não mais tão irritado com o ocorrido. Só a perspectiva de ver um lugar em que poderia descansar sem maiores preocupações já parecia motivo o bastante para melhorar seu humor.

Enquanto Eve se trancava no banheiro, Logan foi em busca de lençóis e travesseiros extras no armário. Ficou feliz ao encontrá-los, e não demorou para improvisar uma cama no chão, o mais macia que as reservas de cobertas permitiram. Deitou-se em seguida, aguardando que a mulher saísse do chuveiro para então usá-lo, observando as finas rachaduras no teto e falhas na pintura como fonte de distração.

Mas o cansaço provou-se mais forte, e Logan adormeceu, tão rápido como não fazia desde a morte de Jean. E, ao menos essa noite, os sonhos constantes que o faziam reviver a perda da mulher não vieram perturbá-lo. Depois de muito tempo, dormiu em paz, ainda que sobre um chão duro e frio.

Acordou cerca de duas horas antes do amanhecer, e mesmo que os músculos reclamassem do mau trato de descansá-los na dureza daquele leito, sentia-se renovado, pronto para enfrentar quantas viagens mais precisasse e encarar com firmeza as verdades que se escondiam junto ao seu passado.

Levantou-se com cuidado, evitando acordar Eve. Percebeu que ela dormia um sono calmo e profundo, aproveitando bem mais as horas de folga do que Logan. Ele foi até ela, observando-a por um instante, e a cena o fez sorrir. A mutante estava completamente largada ao longo do colchão, ocupando praticamente todo o espaço que as dimensões da cama permitiam, a posição de bruços da mulher fazendo com que metade de seu rosto se amassasse contra a almofada. A outra metade se escondia atrás dos fartos fios de cabelo, e aquela cena foi meio asfixiante para o mutante.

Wolverine ajoelhou-se ao lado da cama e arrastou o cabelo da mulher delicadamente com a ponta dos dedos, afastando-o da pele de Eve e dando-lhe uma visão mais ampla de seu semblante tranquilo, levado da realidade pelos universos oníricos que vêm junto à inconsciência, um meio de abrandar as desmazelas dos momentos despertos.

Sua mão demorou-se na nuca da mulher, o polegar acariciando com leveza a maçã do rosto de Hela, ainda em sono profundo, aparentando ser a criatura mais frágil da Terra, quando na verdade era justamente o contrário.

Logan levantou com certa rudeza dali, obrigando-se a espantar aqueles pensamentos. Pegou uma das toalhas que a pousada oferecia e foi até o banheiro, disposto a tomar uma rápida ducha e já se preparar para dar continuidade à viagem. Mas ao fitar novamente Eve, decidiu que esperaria o tempo que fosse necessário para que ela acordasse sozinha, e só então partiriam. Ela tinha feito por merecer aquela trégua.

Mesmo sem ter hora certa ou pressa para deixar a pousada, Logan não demorou no banho. Ficou apenas tempo suficiente para despistar a sujeira da viagem de seu corpo e sentir-se novamente limpo e renovado. Pronto para outra.

Saiu do banheiro vestindo apenas uma bermuda, e dirigiu-se até a pequena varanda que dava vista ao estacionamento da pousada, fitando a escuridão que ainda dominava todos os arredores em forma de breu. Ainda demoraria a amanhecer, mas a brisa refrescante que acompanhava o orvalho foi mais do que estímulo para que Logan se mantivesse ali. A sensação lhe trazia todo o conforto que fora negado em sua viagem, e o vento frígido que tocava sua pele era mais renovador do que todas as horas de sono que tivera.

Naqueles minutos de quietude, sua mente devaneou por vários aspectos de sua vida, alguns banais, outros nem tanto. Pensou em Jean e sua morte precoce e no quanto essa realidade ainda o afetava. Por mais que os olhares da mulher demonstrassem estar instigados pelo mutante, suas ações sempre se traduziam em repeli-lo, em jamais deixá-lo ocupar o lugar que pertencia a Scott. Mas ainda assim ele sempre a quis, até que...

...Até o dia em que a perderam.

E então pensou em Eve, e como tudo havia mudado em sua vida desde que seus caminhos se cruzaram, sem muita cortesia no começo. Por meses a perda de Jean lhe pareceu um fardo maior do que seus ombros podiam suportar, e agora tudo o que ele vislumbrava era a oportunidade de um recomeço.

Finalmente o maldito recomeço!

Logan não saberia dizer quanto tempo gastou em meio àqueles devaneios, mas surpreendeu-se ao ver os primeiros raios de sol despontarem, anunciando enfim o amanhecer. E com a fraca luminosidade, o mutante foi atraído pela vista das proximidades do estacionamento, e sua boca entreabriu-se em surpresa e incredulidade. Encarou Eve de soslaio, percebendo-a já acordada, sentada sobre a cama com o topo da cabeça apoiado sobre os pulsos, como se passasse mal.

— Tudo bem? – ele perguntou, aproximando-se da mulher com preocupação, e uma segunda vez ajoelhou-se ao lado da cama, tentando analisar seu rosto, porém ele ainda se escondia atrás dos braços de Hela.

— Tudo bem... Alguns pesadelos de criança nos perseguem mesmo com o passar dos anos. – explicou, finalmente, encarando-o – E você aí, querendo se livrar da sua amnésia! – brincou, mas seus traços eram tristeza.

— Sei de algo que vai te animar! – ele sorriu do modo mais afetuoso que ela já vira, segurando a mão de Eve entre a sua e fazendo-a levantar.

— Espero que seja álcool. Nada como dirigir depois de um porre...

— Olha o que está estacionado ali, bem naquela calçada... – Logan levou-a até a varanda, apontando para alguns metros além do estacionamento da pousada.

— Eu não acredito! – Eve riu, esfregando os olhos como que para comprovar não estar à mercê de nenhuma ilusão de óptica causada pelo sono – O Porsche azul, eu sabia! – sorriu triunfante – E o fato de ele ter disfarçado a entrada na cidade é a maior prova de que esse filho da puta está nos seguindo!

— Ei, guria... – ele a chamou, a voz macia atraindo a atenção imediata da mutante – Obrigado!

— De nada! – respondeu prontamente, mas em seguida franziu a testa, confusa – Obrigado pelo o quê?

— Por me ajudar. Eu não chegaria tão longe sem a sua ajuda. Obrigado! – repetiu, o modo intenso com que falava soando complexo demais para o cérebro recém-acordado de Eve processar.

— O que eu posso dizer? Você estaria completamente perdido sem mim... – caçoou, esboçando um sorriso metido. Logan não se intimidou, e manteve o mesmo tom veemente.

— Se eu puder te recompensar de alguma forma... Não sei que tipo de tragédia ou tristeza marca o seu passado, mas se for algo com que eu possa ajudar...

— Por incrível que pareça, já ajudou... – ela disse, pela primeira vez séria, sem nenhuma insinuação de escárnio nas brilhantes íris verdes que o encaravam sem vacilar em momento algum, mantendo aquelas palavras firmes como as fortalezas que eram.

Logan beijou de leve os lábios de Eve, apenas um roçar tímido de suas bocas, percebendo que sequer pensara antes de agir. Encararam-se por um segundo inteiro que pareceu infindável, e quando deram por si seus lábios novamente se reclamaram, macios, quentes e aconchegantes como poucas coisas eram capazes de ser.

Dessa vez o beijo tomou proporções mais íntimas, mais profundas e exigentes à medida que o resto do mundo passava a perder a importância e tudo o que restava era a forma harmônica com que se tocavam, e o temor que apenas crescia pelo simples fato de aquela proximidade esbravejar como isso parecia o certo.

Logan prensou-a contra a grade de contenção, apertando seus corpos com afinco como se quisesse transformá-los numa única e indistinta matéria, ainda explorando-a com seus lábios sedentos e sendo correspondido em igual intensidade. Eve levou uma das mãos até a nuca do mutante, apertando-a, sem jamais interromper os lábios que deslizavam sobre os seus, sem jamais se opor a eles ou oferecer qualquer resistência que os freasse.

Seu coração pareceu dobrar o ritmo quando ele a apertou num forte abraço, uma contenção que não lhe dava qualquer rota de fuga mesmo que ela fosse tola o suficiente para tentar escapar. A pele desnuda do abdômen de Wolverine provocou uma pressão maior contra Hela por conta dos fortes braços que a circundavam de forma completa, como se fossem capazes de preencher antigos espaços vazios que ainda doíam.

Eve desceu seus lábios não mais do que dois centímetros, mordendo o queixo do mutante e beijando-o logo em seguida, a barba por fazer naquele ponto perpetuando um delicioso formigar na pele da mutante.

Foi quando, como um golpe do destino, eles sentiram um estranho odor invadir suas narinas. Permaneceram estáticos por um breve instante, tentando entender do que se tratava, até que o som crepitante do fogo atingiu o quarto em que estavam, e toda a pousada já parecia ruir ao comando das chamas que prometiam engoli-la.

Antes que qualquer pensamento coerente pudesse ser traduzido em ação, a pequena e familiar pousada explodiu num estrondo ensurdecedor, tão arrebatador quanto a rajada de intensa luz que marcou o início daquele fatídico dia que mal começara. A intensidade da explosão cegou Logan e Eve, e seus corpos foram jogados em direções diferentes do quarto, totalmente expostos à magnitude da detonação.

Ao lado do Porsche azul, um homem sorria.

“When she was just a girl

She expected the world

But it flew away from her reach

So she ran away in her sleep

And dreamed of para-para-paradise

Para-para-paradise

Para-para-paradise

Every time she closed her eyes

Ooohh

When she was just a girl

She expected the world

But it flew away from her reach

And bullets catch in her teeth

Life goes on

It gets so heavy

The wheel breaks the butterfly

Every tear, a waterfall

In the night

The stormy night

She closed her eyes

In the night

The stormy night

Away she flied

And dreamed of para-para-paradise

Para-para-paradise

Para-para-paradise

Whoa-oh-oh oh-oooh oh-oh-oh

She dreamed of para-para-paradise

Para-para-paradise

Para-para-paradise

Whoa-oh-oh oh-oooh oh-oh-oh

La-la-la-la-la

Still lying underneath the stormy skies

She said oh-oh-oh-oh-oh-oh

I know the sun's set to rise

This could be para-para-paradise

Para-para-paradise

This could be para-para-paradise

Whoa-oh-oh oh-oooh oh-oh-oh

This could be para-para-paradise

Para-para-paradise

This could be para-para-paradise

Whoa-oh-oh oh-oooh oh-oh-oh

Ooohh

This could be para-para-paradise

Para-para-paradise

This could be para-para-paradise

Whoa-oh-oh oh-oooh oh-oh-oh

Ooohh, oohh...”

(Paradise – Coldplay)

Notas finais
Quem gostar de barracos assim como eu vai se fartar na continuação desse capítulo =P