Immortal

27 A Batalha Sobre Nova York – Avante, GlobalGen!


Notas iniciais
Fiquei um tempão olhando pra janela das Notas Iniciais pensando como poderia me desculpar com vocês por mais essa demora estúpida... Como não consegui pensar em nada que livre a minha cara além de todas as justificativas que eu já dei (Faculdade! A culpa é dela, as estrelas nada têm a ver com isso!), então só posso pedir as tradicionais desculpas mais uma vez -.-" E de novo ratificar que não existe a menor possibilidade de eu abandonar essa história, por mais que aquele aviso laranja insista nisso, EU NÃO DEIXO meus leitores na mão, nunca, nunquinha, mesmo que algumas vezes a recíproca não seja verdadeira (dá licença, tô carente mesmo... hunf! xP) E só pra dar aquela refrescada na memória de vocês (se está atrasado na história, pare de ler essas notas já! Se não vai perder a graça =]), esse capítulo se segue logo após a morte do professor Charles - calvo - Xavier, e Eve ainda está em coma por conta da forma negligente como tentou usar o seu poder. Ao final do capítulo anterior o roubo dos documentos da GlobalGen é descoberto, e uma das chefonas da empresa decide fazer uma visitinha de comadre (sqn) à dupla Eve e Logan. Seguimos a partir daí. E, deixando o melhor para o final: minhas mais felizes boas-vindas às leitoras Lunah Miller e Evil princess, duas leitoras novas pra fazer a alegria da Arrriba aqui! Obrigada por comentarem, suas lindas, espero que continuem gostando e acompanhando x]

A lua, que naquela noite se destacava pela forma alva de um fino e arqueado sorriso, esculpia seu tênue brilho alongado pelo céu alvejado de esparsas estrelas. E embora fosse a fonte de maior fulgor em meio à imensidão escura, sua claridade foi instantaneamente sobrepujada por uma fonte inesperada de luz e calor. A sonora explosão na porção oeste da Mansão X assinalou o início daquela úmida madrugada outonal, como uma prévia da alvorada que em breve seria protagonizada nos limites derradeiros do horizonte.

Foi necessário apenas um breve instante para que os mutantes daquele prédio em luto despertassem, desnorteados, perante o raiar explosivo e trêmulo da imprevista detonação, que galgou até seu lar como uma promessa de que mais males recairiam sobre o Instituto já tão desfalcado em suas indizíveis perdas.

Um sonoro alarme bradou pelas paredes da Mansão, avisando a todos com sua desafinada melodia que o local estava sob ataque. Provavelmente o mais mortal de sua breve história, e aquela grosseira explosão não passava de uma inocente faísca se comparado ao que estava por vir...

O acerto de contas, afinal, havia chegado.

Em poucos segundos, todos se reuniram apressados em frente à entrada principal do prédio, e por todo o perímetro grossos revestimentos metálicos calçaram as portas e janelas da Mansão de modo a bloqueá-las completamente, visando impedir a entrada e a saída de qualquer um que tentasse se locomover entre o espaço externo e interno do Instituto, uma das várias medidas de proteção elaborada pelo próprio Charles Xavier ainda no auge de sua juventude e vigor...

...E que pela primeira vez em décadas se fez necessária.

O bramido prosseguiu perpetuando-se alto, atingindo com suavidade as longínquas vizinhanças do Instituto, chegando a soar como um indiscernível zumbido conforme avançava para longe e se afastava de sua derradeira fonte. Contudo, nas dependências da Mansão, o som tornava-se cada vez mais insuportável, obrigando os mutantes a protegerem o ouvido com a mão e gritar com toda a força de seus pulmões para que se fizessem entender.

Todos se entreolhavam confusos, a expressão traindo abertamente o desconforto que tal situação proporcionava.

– O que houve? – Tempestade berrou o mais alto que pôde, porém som algum foi capaz de se sobrepor à intensa balbúrdia do alarme, e o único indício de que tentara expelir algum ruído foi o de suas cordas vocais vibrando intensamente.

Ninguém a ouviu, porém foram capazes de ler suas palavras através do movimento claro de seus lábios.

– Estamos sendo atacados! – Hank disse aquilo que já soava evidente, sua voz também muda diante do infernal alarde sonoro – Eu vou ver se consigo desligar essa droga. Logan, talvez eu precise do seu adamantium caso a entrada à Sala de Controle esteja bloqueada... – McCoy encarou-o sugestivamente, não esperando que ele entendesse tudo o que havia dito, porém ciente de que o principal de sua mensagem havia sido transmitido quando o mutante se pôs a correr do seu lado.

Percorreram num perturbador silêncio (desajustado pelo clamor gritante e incoerente que os envolvia) a pouca distância que havia, ambos tendo que se concentrar ao máximo nos próprios pensamentos para ignorar a forte dor de cabeça que ameaçava explodir seus tímpanos a qualquer momento.

Pararam apenas defronte ao aço que, como Hank previu, impedia a passagem até a sala que buscavam, já vestindo sua entrada em meio àquela cortina intransponível. Sem ousar trocar palavra alguma, Logan avançou até o empecilho e rapidamente o destruiu com suas garras, abrindo-lhes uma passagem torta e desajeitada pelo material de um cinzento fosco.

Houve uma segunda explosão no interior da Mansão, porém o estrondo desta foi abafado pelo metal que agora encobria homogeneamente a escola.

Ao conseguirem acesso à Sala de Controle, perceberam que a recente explosão chegara a afetar parcialmente o lugar. O tremor produzido pela detonação estava evidente na forma como tudo parecia desleixadamente bagunçado e, em alguns casos, estilhaçado.

– Precisamos procurar pela fiação do alarme! Deve estar numa dessas caixas de força! – Hank gritou, sentindo que cedo ou tarde sua cabeça explodiria assim como o lado oeste da Mansão.

– Que tal gastar energia agindo ao invés de pensando, peludo? – contrapôs, o humor já discriminadamente à flor da pele, instável, o psicológico completamente abalado desde que descobriu o ofício de seu nebuloso passado.

McCoy não ouviu – ou fingiu não ter entendido – o comentário mal-humorado, optando por seguir adiante em seu intuito, que parecia pouco promissor naquelas adversas circunstâncias. Após quatro vistorias frustradas, o olhar de Hank iluminou-se de súbito.

– Achei! – avisou, o timbre vitorioso conseguindo superar os decibels do alarme – Esses fios estão muito emaranhados, me dê alguns minutos pra encontrar o... – Antes que McCoy pudesse terminar, Wolverine fez penetrar suas garras na caixa de força correspondente ao alarme, destruindo-a de forma a encerrar o assunto, com apenas algumas faíscas como contra-argumento. No mesmo instante o escandaloso ruído já havia cessado, e o silêncio era a melodia mais doce e prazerosa que poderia alimentar sua audição. Hank o fitava com um misto de incredulidade e indiscutível alívio.

– Pronto, felpudo. Agora você pode ouvir seus pensamentos.

– Não era bem o que eu tinha em mente, mas... – Fera esboçou um meio sorriso, a mente finalmente límpida para ocupar-se de suas próprias questões e pronta para o rápido raciocínio que a situação pedia.

O barulho na sala de estar do Instituto era quase tão ensurdecedor quanto o próprio alarde causado pelo sistema de segurança da Mansão. Os alunos, afoitos, falavam todos numa voz esganiçada e alta, ainda visando entender o que se passava. Um mundo de vozes se mesclava numa cacofonia de gritos, frases pouco discerníveis soando soltas em meio ao tumulto.

Fomos atacados! – alguém bradou, pasmo.

Temos que defender a Mansão!

– As explosões, elas vieram de dentro!

– Nossa identidade foi descoberta...

– ...e se o professor estivesse aqui...

– Chega! – Tempestade ordenou em posse de uma voz autoritária que até então desconhecia – Isso não é uma simulação, mas vocês devem agir com a calma dos nossos treinos! Vocês já comprovaram que não são mais apenas alunos, e está na hora de provar agora o valor dessa responsabilidade. Todos nós temos uma dívida incalculável com esse lugar e com o que o professor representou para cada um de nós, e hoje precisamos mais uma vez ratificar o valor de seus ensinamentos. É uma pena que seja eu a dizer essas palavras e não o próprio professor, que morreu sem que vocês conhecessem o tamanho de seu orgulho pelos alunos que fizeram dessa escola seu lar. Hoje ele saberia dizer tudo o que vocês precisam ouvir, e talvez, se ainda estivesse aqui, esse ataque jamais chegasse aos nossos portões. Mas agora somos só nós... A postos, X-Men! Preparem-se para o que tiver de ser feito. Por Charles!

– Por Charles! – Todos confirmaram numa resposta uníssona, parecendo um pouco mais donos de si e ligeiramente emocionados pela lembrança ainda melancólica de seu mentor.

– Vão para a ala oeste, eu encontro vocês logo em seguida – Logan disse assim que retornou, correndo, à aglomeração de alunos, porém antes que qualquer resposta pudesse ser dada o mutante já havia deixado o cômodo para trás, indisposto a perder um segundo que fosse.

Continuou percorrendo rapidamente o piso liso do Instituto, adotando a direção da enfermaria sem nada na mente além de seu extremo foco, determinado a levar Eve a um local seguro antes de se permitir encarar a nova batalha. Escancarou a porta com um baque violento proporcionado por seu cotovelo, e o peito se afundou em temor com a cena que viu.

Uma mulher de cabelos extremamente pretos e fios opacos, estatura baixa e um tanto magra, estranhamente familiar aos olhos de Logan, posicionava-se ao lado da maca de Eve, rodeando a mutante desacordada em seu porte injurioso. Ostentava um sorriso maldoso à filha de Charles enquanto brandia um punhal, a lâmina pressionando perigosamente o pescoço da mutante ainda alheia ao mundo. O intenso castanho dentro das órbitas da mulher carregava um brilho tão hediondo quanto aquele semblante abjeto, e Wolverine novamente experimentou o medo da possível perda.

– Já era hora, Logan! – o sorriso da mulher se alargou ao vê-lo pestanejar, pressionando um pouco mais o gume na pele desprotegida de Hela – Finalmente nos reencontramos... Você nem faz ideia do quanto eu ansiei por isso!

Os alunos, completamente focados na tarefa que teriam de desempenhar, já traziam de leve em seus traços expressões endurecidas que fez Hank ter noção de como seria cada fisionomia daqueles adolescentes ao atingir a fase adulta, quando suas feições adquiririam um maior grau de maturidade. Era triste vê-los obrigados a crescer tão rápido, contudo também era indispensável para sua sobrevivência. Lamentou profundamente que Xavier não estivesse mais entre eles para testemunhar o súbito avanço de seus alunos, e o repentino pensamento o cegou por um ou dois segundos...

“Mas provavelmente esse progresso foi consequência da própria morte de Charles...” – McCoy pensou, permitindo-se um instante de filosofia em meio àquele caos – “...porque apenas agora eles entendem que não podem mais ser alunos... Não sem um professor...”

Afastou o pensamento angustiante, aumentando a corrida que travava na sua forma mais animalesca, os quatro membros se revezando em galope sobre o chão, avançando rapidamente até o início de toda aquela desordem. Os alunos – “Não, os X-Men, corrigiu-se – seguiam o seu ritmo com visível esforço, mas faziam um ótimo trabalho apenas pelo fato de conseguir acompanhá-lo.

Diminuíram a velocidade apenas quando avistaram o primeiro indício de fogo, uma chama prematura que já se alimentava da Mansão e ameaçava crescer às suas custas. Os invasores não estavam distantes e, atrás dos desconhecidos, uma mancha escarlate denunciava a destruição causada. Hank, mais do que nunca, teve que unir toda a sua força de vontade e um pouco mais para suprimir os instintos famintos da Fera, que queria a todo custo aflorar e punir os responsáveis por tal desrespeito à memória de Charles.

Por alto, Hank estipulou cerca de vinte inimigos, talvez trinta, e a periculosidade no olhar de cada um indicava que os X-Men teriam um sério problema nas mãos.

– Quem são vocês e o que pensam que estão fazendo? – Fera rosnou, percebendo que seus métodos diplomáticos seriam em breve aposentados. Queria provar o sangue de todos os intrusos, e pela primeira vez desde que o animal dentro de si começou a se manifestar, esse sentimento não o incomodou nem um pouco. Seus pelos se eriçaram ao encarar o grupo, e um rosnado baixo fez tremer sua garganta.

– Somos um grupo mutante de elite, senhor McCoy, e temos um assunto a tratar com dois de vocês! Que a propósito, parece que tomaram a liberdade de se abster do conflito... – um homem alto de pouquíssima massa muscular pronunciou-se, impassível à ameaça que emanava da fera azulada – Nós não precisamos lutar hoje! – avisou, agora falando para todos os X-Men de um modo falsamente cortês – Estamos em maior número e posso garantir que somos melhor treinados. Apenas nos dê Logan e Eve Xavier, e nós partiremos sem nenhum transtorno.

– Nenhum transtorno? – Ororo escarneceu, seus olhos já esbranquiçados como uma manifestação prévia de seus letíferos raios – E o que me diz desse ataque à nossa escola?

– Pedimos perdão pelo trágico inconveniente – ele respondeu, sorrindo cordial de uma maneira que soava pouco convincente, assim como suas venenosas palavras – Mas vocês têm algo que nos pertence, e nós queremos de volta.

– Pois então venham buscar! – Fera rugiu, não mais contendo seus indóceis impulsos, saltando com sede em direção ao interlocutor dos invasores numa investida invejavelmente rápida graças aos seus instintos sempre aguçados e prontos para o ataque. Os afiados caninos se infiltraram com precisão e brutalidade na jugular do homem, que passou a trocar o discurso polido por guturais berros de dor e indiscutível surpresa, e seu grito tornou-se gorgolejado assim que Hank dilacerou sua traqueia, fazendo o mutante desconhecido se afogar no próprio sangue que ganhou rapidamente acesso aos seus pulmões – Mais alguém quer fazer sua reclamação? – perguntou com certo esforço, agora travando uma batalha quase impossível em seu íntimo para dar acesso total à Fera. O sangue escorria por sobre seus lábios azuis, e o gosto era quase tão inebriante quanto o sabor da morte que causara.

– Isso foi um grande erro, senhor McCoy! – uma mulher de pele extremamente pálida e trincada disse, e no segundo seguinte, as fendas visíveis em sua pele de mosaico arderam num brilho rubro liquefeito e esfumaçado, e uma nova explosão com jatos de lava acometeu a Mansão e boa parte dos X-Men. Vários foram arremessados para longe, porém o maior ferido foi Hank, tendo mais da metade do corpo peludo invadido pelas chamas líquidas – Peguem todos eles! – ela ordenou num tom ensandecido – E revirem essa merda de escola até que Logan e Eve fiquem a nossos pés e todos os documentos da GlobalGen estejam de novo em nosso poder!

Fera, assim como muitos dos ex-alunos, ignoraram a dor gritante das vastas queimaduras e retornaram à luta, encarando de forma conformada a fileira organizada e mortal dos inimigos. E, em seus íntimos mais sinceros e ocultos, todos sabiam que aquela seria a última batalha dos X-Men, a intuição cega de que aquele era o último dos poucos dias vividos na contagem de seus tenros anos...

...Mas mantiveram-se avançando como verdadeiros heróis. Por Charles!

Logan arriscou algumas passadas para mais perto da mulher que o contemplava sorridente, ainda ameaçando Eve com o gume rente à carne inerte.

– Quem é você? – ele perguntou, defensivo, tentando com dificuldade manter a atenção nos olhos da mulher e não na faca hostilmente brandida.

– Ah, que tola... eu sempre esqueço que com você as apresentações precisam ser refeitas... – lembrou, como se pedisse desculpas – Meu nome é Barbara e eu sou uma das responsáveis pelo bom funcionamento da GlobalGen... Imagino que agora você já consiga prever sozinho o motivo da minha visita, não?

Logan nada disse, apenas manteve-se analisando a situação o melhor que pôde, e todas as suas conclusões apontavam para o enorme perigo que aquilo significava para Eve em seu estado ainda comatoso.

– Eu estive lá quando nós transformamos você nessa espécie bruta de... Animal! – Barbara prosseguiu seu discurso, disposta a tirá-lo do sério – Foi um experimento e tanto... Seus gritos quando o implante de adamantium chegou ao fim e o metal começou a se consolidar e pesar em seus ossos... Foi como o mais belo arranjo de ópera. Seu desconsolo de ter a memória apagada em seguida, foi um pagamento mais do que justo pelo serviço desleal que você prestou à GlobalGen! Eu só não esperava que mesmo depois de tudo, você ainda traria problemas para nós... – disse, e pela primeira vez seu sorriso vacilou num tremor de raiva, levando apenas um instante mínimo para se recompor – E agora, cá estamos nós de novo, cobrando o preço por sua rebeldia e estupidez.

Logan mais uma vez manteve-se resoluto, sem perder o contato visual com a mulher e tentando demonstrar uma calma que nem de longe sentia.

– Você não tem nada a dizer? – ela perguntou, mais curiosa do que ofendida pelo duradouro silêncio do mutante.

– Só aquilo que você já devia saber... – sorriu, indiferente – Aquilo que devia ser óbvio. Nós não estamos mais em posse dos documentos da GlobalGen – blefou, esperando soar convincente e satisfazendo-se com o brilho de dúvida e ódio no olhar escuro da mulher.

– O que vocês fizeram com os arquivos? – sua voz aguda pestanejou com ódio, agora dispensando por completo o irritante sorriso zombeteiro e, talvez sem perceber, aumentando um pouco a pressão da faca contra a pele de Hela. Um filete discreto de sangue desceu pelo pescoço desprotegido da mutante desacordada, e Wolverine obrigou-se a manter a frieza na voz.

– O que qualquer um faria. Vocês são uma ameaça a todos os mutantes que não foram recrutados, e Eve e eu temos bagagem de sobra pra ocupar o topo de toda essa merda. Os documentos estão bem guardados e seguros, mas não vão continuar assim se qualquer coisa acontecer a um de nós... – desviou o olhar alusivo para o sangue gotejando do pescoço de Hela, e Barbara deu-se conta do que fazia. Ela riu.

– Então vocês querem barganhar conosco? – questionou num irritante tom trocista, mas para o alívio de Logan, diminuiu consideravelmente a pressão que a faca exercia sobre a mutante.

– Só queremos a garantia de imunidade nessa guerra. Nós devolvemos os documentos e ficamos com um cargo na GlobalGen, mesmo que baixo, não importa. Apenas algo que assegure nossa segurança. – inventou, sabendo que jamais aceitaria ordens de pessoas como aquela, não uma segunda vez. Apenas precisava de tempo, e consegui-lo era crucial.

– Você já traiu a empresa uma vez, o que me levaria a acreditar que não tornaria a fazê-lo?

– Nada... Mas vocês não têm escolha, a não ser pagar pra ver. Sua melhor chance de continuar com o que fazem é manter o anonimato, e isso só vai acontecer se você aceitar minha proposta.

– Chantagem... – ela o corrigiu, enfurecida.

– Ou isso. Chame do que quiser.

– Pois bem... – disse, a raiva um pouco melhor controlada em seu timbre metódico – Comece me devolvendo tudo o que foi roubado e eu garanto que vocês terão um espaço na GlobalGen.

– Não, não vai ser assim. Primeiro você vai soltar a minha amiga aí, depois vai acabar com o ataque à Mansão e bater em retirada com seus soldadinhos desse lugar! E só depois eu considero a minha parte no acordo. Ou chantagem, pouco me importa.

Barbara ergueu os lábios num sorriso ferino e carente de alegria, um riso baixo e confiante tremendo em sua garganta e soando como uma trilha sonora medonha.

– Eu realmente não queria chegar a esse ponto tão cedo, mas você me obriga, Logan! – suspirou, balançando a cabeça em negação – Imagino que você conheça um dos projetos mais recentes da GlobalGen que vem tomando toda a nossa dedicação e esforços nos últimos anos... – comentou, quase casualmente – Se você se deu ao trabalho de ler os arquivos que roubou, certamente está a par da Praga, nossa mais nova fonte de investimento...

Logan, à menção do título daquele projeto, estancou. Recordou-se de Hela, há poucos dias, lhe mostrando o conteúdo das pesquisas que agora a mulher citava. Quando ainda estavam em Centralia, logo antes de Xavier e Ororo irem buscá-los naquelas colinas esquecidas e amaldiçoadas, um projeto intitulado A Praga Mutante chamou a atenção de ambos.

O silêncio se perpetuou mais longo do que Wolverine gostaria, mas desta vez não encontrou palavras para quebrá-lo. Barbara o fez por ele.

– A Praga Mutante foi uma idealização que tomou as diretrizes de nossas pesquisas logo depois que conseguimos resultados satisfatórios com a Cura. Sabe no que consiste essa nova ideia, Logan? – perguntou maldosamente, já sabendo a resposta a julgar pela expressão indisfarçadamente amedrontada em seu rosto.

– Por que não me refresca a memória? – pediu com displicência, e por mais que Barbara odiasse o tom subversivo do mutante, prosseguiu seu relato com calma.

– Trata-se de um nano-vírus, como você e a Xavier devem ter lido. Um microrganismo criado em laboratório com atributos muito... Interessantes! Tem propriedades infecciosas altíssimas, uma vez que a pessoa entra em contato com essa infecção é quase impossível não contraí-la... Existe pouco mais de 97% de chance de se infectar, não importa se você é humano ou mutante... Mas um de seus fatores mais curiosos e que rendeu anos de pesquisa à GlobalGen é que, uma vez que a infecção esteja instalada no organismo, ela só adquirirá significado clínico quando se liga a uma mutação bem específica na cadeia de DNA, se é que me entende. – sorriu com enorme prazer, degustando de seu próprio discurso – Assim que o nano-vírus atinge o núcleo celular e reconhece a desprezível mutação que confere poderes a vocês, uma série de eventos passa a ocorrer com o mutante infectado, diferente do humano, que ao contraí-lo permanece assintomático. O nano-vírus tem preferência por células que se replicam rapidamente, por isso alguns sistemas são mais violentamente afetados que outros. Como por exemplo, as células intestinais. Alguns experimentos já comprovaram que a Praga tem como principal sintoma agudo uma diarreia violentíssima, capaz de levar o portador a um estado de desidratação grave em poucas horas.

– Aonde você quer chegar com isso?

– Num estágio mais avançado da doença, o que significa apenas um ou dois dias pós-infecção, os nano-vírus já terão destruído boa parte das células do seu sistema imune. – continuou explicando, como se sequer tivesse percebido a breve interrupção – Sua medula vai se esgotando exponencialmente à medida que não dá conta de repor todas as células mortas, e você fica suscetível a todo o tipo de doença possível e imaginável. Um mero resfriado, que antes era debelado de seu corpo com facilidade, agora pode ser seriamente fatal. Algumas cobaias morreram cinco horas após contraírem o nano-vírus, por conta da própria diarreia agressiva, outras acabaram morrendo por doenças oportunistas. Mas no fim de tudo, não importa. Em três dias, no máximo, você certamente estará morto se for um mutante.

– Está tentando me assustar? – rugiu, estreitando os olhos castanhos com fúria.

– Acho que seria um tanto sensato você se assustar, Logan. Os nano-vírus já passaram da fase de teste, e nós trouxemos a Praga para cá hoje. Basta o meu comando para soltá-la bem em cima dos X-Men, o foco perfeito para dar início a essa nova era sem a aberração mutante, e uma vez solta, ela se espalhará rapidamente. Então não me irrite com seus joguinhos e me dê logo aquilo que eu quero, e que por direito me pertence! – ordenou com uma autoridade ameaçadora, mantendo-se sempre atenta aos olhos castanhos de Wolverine.

– Pra quê? – exaltou-se – No momento em que eu der o que você veio buscar, a Praga vai invadir a Mansão do mesmo jeito! – exclamou, sensato – O que me garante que você não vai matar todos hoje aqui?

Barbara ampliou ainda mais o já enorme sorriso, deixando a pergunta no ar por um instante antes de usar as próprias palavras de Logan para respondê-la.

– Nada... Mas você não tem escolha, a não ser pagar pra ver.

Wolverine encarou-a com rancor e ódio, vendo-se sem saída. Sem nenhuma outra palavra dita, ele deixou a enfermaria, ainda com a sombra vil do brilho vitorioso que invadia a face da mulher lhe assombrando com inerente apreensão.

Sentiu-se um verdadeiro traidor quando retornou, após poucos minutos, com a pesada pilha que ele e Eve retiraram das prateleiras secretas da empresa. E que agora voltariam a elas, impunes, extinguindo seus planos de denunciar o holocausto mutante que presenciaram.

– Os documentos não estavam com vocês, é? – ela escarneceu assim que o viu regressar com os diversos arquivos em desfalque na empresa, um brilho fortificado em seus orbes prontos para o pior dos assassínios.

– Deixe o Instituto em paz – Logan disse, assumindo o risco daquela barganha ao entregá-la sua melhor chance de defesa naquelas circunstâncias.

– Não se preocupe. Vocês terão exatamente o que merecem! – lambeu demoradamente os finos lábios com satisfação ao sentir o peso exorbitante dos vários papeis que finalmente estavam novamente seguros, em seus protetores braços, indiscutivelmente fieis à GlobalGen e seu legado. Com a mão livre, tirou um walkie-talkie do cós da calça, apertando o botão que a comunicaria com os mutantes aliados a ela do outro lado da Mansão – Podem soltar a Praga! – avisou aos sons agudos do aparelho, sem jamais deixar de encarar Logan, permitindo-se a expressão mais trocista que foi capaz de vestir.

Wolverine avançou dono de uma raiva irracional para cima de Barbara, disposto a usar todos de seus vastos métodos para fazê-la se arrepender, porém sem paciência elaborada para tal. À meio caminho da mulher, suas garras já estavam expostas, reluzindo todas as pequenas luzes que foram únicas testemunhas das mentiras ali ditas por ambos os lados. Cravou-as no ventre da prepotente mulher, subindo o punho até seus discretos seios, tatuando em sangue a pele rasgada de Barbara, que sequer teve tempo de mudar sua expressão, e morreu ainda sorrindo.

Apenas quando o adamantium que saía dos nós de seus dedos ganhou um aspecto totalmente escarlate, o mutante percebeu o que fizera e sequer conseguiu arrepender-se. Jogou o corpo desfalecido para longe de si, arfando quando uma voz soou no mesmo walkie-talkie ainda preso à mão de Barbara.

Já está feito! – disse, aquela simples frase selando morbidamente o destino dos mutantes.

Notas finais
Depois de tanto tempo sem escrever eu espero não estar perdendo o jeito com a história... Quanto mais parada eu fico na fanfic, parece que os bloqueios criativos aumentam ¬¬' Beijos, beijos, suas lindezas, espero ver vocês nos comentários! ;*