Immortal

25 A Batalha Sobre A Colina – Irmandade vs Instituto


Notas iniciais
Capítulo dedicado à leitora Sattnin, que deu um belo presente de aniversário à fanfic (e à autora também, claro! =P) mandando uma incrível recomendação! *-* Adorei, sua lindona, muito obrigada mesmo! Recomendações são sempre deliciosas (fica a dica, pessoinhas! hahaha) =D Eu queria poder dividir esse capítulo para que ele não ficasse tão enorme assim, mas realmente não teria como... E, sejamos sinceros, se eu parasse a batalha no meio só pra que a postagem ficasse menor, vocês xingariam toda a minha árvore genealógica materna, não é verdade? =P Mas, como se trata do confronto mais esperado da fic (Hela vs Fênix), acho que não vai ser um capítulo chato de ler (assim espero!) Nos vemos lá embaixo, caso vocês tenham paciência de chegar lá! =]

A brisa daquela agitada madrugada chegou revigorante ao rosto de Eve, trazendo consigo o delicioso aroma da terra umidificada por um orvalho que já se formava, e o gentil sopro de ar logo se tornou uma pequena e breve lufada quando o jato que sobrevoava o local fez menção de pousar sobre o terreno relativamente plano.

O relógio já marcava pouco mais de três da manhã quando a nave dos X-Men finalmente retornou à floresta, trazendo Ororo e os alunos de Xavier.

O acampamento, mesmo ao tardar da hora, abrigava um completo alvoroço pelas promessas de batalha que nasceriam junto ao sol... O grande embate que definiria por fim o lado mutante a ser vitorioso, um silencioso combate que poderia, de uma vez, concluir as insanas investidas de Magneto contra a humanidade e contra os próprios mutantes que se recusaram a abraçar sua causa. Ou, em contrapartida, uma ação que poderia dar ainda mais combustível às suas maníacas investidas...

De uma maneira ou de outra, tais desentendimentos se encerrariam hoje. Seja pela queda da Irmandade ou pela queda dos X-Men...

...E a julgar pela probabilidade, Eve apostava todas as suas fichas na segunda opção.

– Vocês são muito poucos! – Hela argumentou, chocada ao se dar conta de que o último aluno já havia descido da nave, seguido por Tempestade – E essas crianças não passam de... Crianças! Como espera vencer o exército da Irmandade?

– São crianças, é verdade, mas todas foram treinadas ao longo dos anos para saber controlar e usar o máximo da capacidade de seus poderes em situações adversas como esta. Os mutantes da Irmandade não passam de soldados despreparados de primeira guerra, poucos se igualam ao nosso poderio – Charles respondeu confiante, conduzindo a filha para longe da balbúrdia para que pudesse deixá-la a par de sua estratégia no momento da luta – Mas a Fênix, sozinha, pode destruir a todos nós num único movimento. Você é a minha última esperança para lidar com ela, Eve.

– Você quer que eu mate a vadia? – intuiu num sussurro vazio, engolindo em seco só por sentir o elemento morte pulsando ávido dentro de si, apenas esperando para mais uma vez se pronunciar, sua latência estranhamente desperta assustando a portadora dos olhos mutáveis.

– Espere, acho que eu não sou o mais indicado a explicar isso... – o professor disse misteriosamente, inclinando de leve a cabeça para frente enquanto fechava os olhos, e Eve não teve dúvida de que o pai se comunicava mentalmente com alguém. Durou apenas um segundo, mas foi tempo suficiente para que Hela reparasse naquela serena expressão, observando as rugas mais pronunciadas que indicavam o avançar irreprimível da idade. E nesse mesmo segundo, a mutante sentiu aquela sôfrega necessidade de usar nele seu poder curativo como quase o fizera há menos de um dia. Mas antes que pudesse ousar repetir a tentativa, o tal segundo esvaiu-se, e o pai reabriu os olhos, fitando-a com a mesma pressa que se projetou em suas palavras – Hank já está vindo ao nosso encontro! – avisou, parecendo levemente ansioso – Ele é um homem brilhante, e está muito mais apto a algumas explicações do que eu.

Eve assentiu em silêncio, quase suspirando da mais pura frustração por sua extrema dificuldade em fazer algo tão simples... Bastaria um único e rápido toque em seu pai enquanto chamasse o elemento mais brando e belo que controlava, um único toque da infindável vida que habitava as vastas personalidades de seus poderes. Mas, era sempre impelida daquele desejo por sua própria covardia de iniciar o assunto com Charles, sem nenhuma noção de como prosseguir naquele ato que serviria como o mais sincero pedido de desculpas...

E o momento certo sempre acabava se esquivando de seus fortes e íntimos anseios, levando um brilho fracassado aos seus curvilíneos olhos.

Não mais do que dois minutos depois, um robusto homem veio na direção dos dois. Sua pele, completamente tingida de um denso azul, quase era capaz de camuflá-lo na escuridão daquela frígida madrugada. Havia uma enorme quantidade de pelos espalhados por seu corpo, estes seguindo o mesmo padrão cobalto de sua pele reluzente.

– Professor! – ele cumprimentou ao alcançá-los, dono de uma marcante voz grossa que se propagava com facilidade pelo ambiente aberto, e em seguida olhou com simpatia para a jovem moça ao lado de Charles – E você deve ser a famosa Eve Xavier? Prazer, sou Hank McCoy! – estendeu uma mão educada em saudação, ao que Eve percebeu que suas unhas eram pontiagudas como garras mortalmente cortantes, porém os olhos do homem, em enorme controvérsia, pareciam os mais afáveis dentro daquele conjunto de todo periculoso. Havia ali uma sugestão de inteligência tão afiada quando o adamantium ostentado por Wolverine, junto a um contraditório ar brincalhão e descontraído, e Eve achou aquela improvável combinação realmente bela.

A mutante retribuiu o sorriso, apertando a mão em direção à sua com surpreendente firmeza.

– Por aqui pode me chamar de Hela.

– Hela? – expôs um sorriso travesso que facilmente poderia ser confundido com um rosnado ameaçador – Não deveria então ser metade mulher e metade ossos para fazer jus ao nome? – questionou com uma perspicácia brincalhona, a voz sempre agradável e melodiosa.

– A aparência em si é o de menos para se escolher o apelido! Você, por exemplo, se tosasse todo esse pelo passaria facilmente como um Gigante de Gelo, mas eu duvido que “Jotun” seja seu nome mutante!

Hank riu, e era como se um uivo alongado escapasse por sua garganta. Era de fato um som contagiante, e Eve acabou aderindo a ele, achando graça do escandaloso estrondo.

– De fato não. Também sou conhecido como Fera na comunidade mutante. – avisou, ainda sorrindo de forma convidativa.

– Eu nem imagino o porquê... – Eve disse num sarcasmo bem humorado, já simpatizando com o mutante que acabara de conhecer, algo um tanto raro para si. Recebeu um radiante sorriso em resposta, e em seguida Hank voltou-se para o professor.

– Em que posso ajudá-lo, Charles? – perguntou, um pouco menos sereno ao notar o semblante preocupado de Xavier, aparentemente imune às pequenas descontrações.

– Hank... Eve e eu estávamos discutindo a melhor forma de lidar com a Fênix. Mas antes de criarmos um plano de ataque, eu gostaria de saber quais foram os resultados de seus últimos estudos acerca do campo magnético da Terra. – comentou, sem conseguir disfarçar a urgência ligeiramente trêmula na voz. O sorriso bem-humorado de Hank na mesma hora se esvaiu, e seu semblante imediatamente adquiriu uma seriedade preocupada.

– Nada bom, Charles, realmente nada bom. – suspirando, McCoy revezou por um instante o olhar entre os dois, já formulando em sua mente uma explicação leiga para elucidar a gravidade da situação em que se encontravam – O campo magnético do planeta existe por causa do movimento dinâmico dos metais derretidos que existem no centro da Terra. – ilustrou com ar professoral para Eve e Xavier, agora de todo sério – Movimentos estes que criam correntes elétricas e são os responsáveis pela síntese de uma força invisível a nós, mas de extrema importância à sobrevivência; o campo magnético em torno do planeta. Meus estudos mais recentes indicam que esses metais, que deveriam estar em movimento, estão quase que completamente estáticos, e foi dessa forma que Magneto e agora a Fênix conseguiram praticamente destruir esse campo magnético e, dessa forma, comprometer nossa única proteção contra os raios cósmicos. Eles interferiram diretamente no movimento dos metais liquefeitos, levando à situação instável em que nos encontramos no momento...

– Então se a Fênix for morta o movimento desses metais vai se restabelecer? – Eve questionou, interessada, e ao mesmo tempo temendo a resposta que lhe seria dada.

– Não! – Hank replicou de prontidão, rejeitando no mesmo segundo aquela sugestão – Você não deve matá-la, ao menos não de forma brusca. Isso certamente causaria um colapso no núcleo da Terra – advertiu, a voz agora alarmada – Os metais retomariam seu dinamismo com muita rapidez e isso poderia levar a uma explosão no centro do planeta caso não ajamos com cautela. A Fênix tem total controle sobre os metais nesse momento, se esse controle terminar de uma forma abrupta, todos nós sentiríamos na própria pele algo similar ao Big Bang...

– Então estamos lindamente fodidos! – Eve exasperou-se, sentindo o sangue fugir de seu rosto e gesticulando freneticamente – Se não fizermos nada, todos acabam morrendo de câncer ou qualquer merda do tipo... Se tentarmos deter aquela vaca, o planeta explode...

– Nossa melhor chance é enfraquecê-la, Eve – Charles preveniu, parecendo tomar uma decisão – Se você puder abatê-la o suficiente, eu acho que consigo entrar em sua mente e, aos poucos, ir diminuindo seu domínio sobre tais circunstâncias...

– Isso com certeza seria o ideal! – Hank concordou, balançando afirmativamente a cabeça de modo enfático – Pelo simples fato de enfraquecer as forças da Fênix, esse poder que ela vem exercendo sobre o magma já seria atenuado. Assim os metais retomariam sua atividade aos poucos e o campo magnético se restituiria, sem maiores danos.

– E como se enfraquece alguém invencível? – Eve perguntou, sentindo o desânimo apoderar-se de si, não esperando realmente receber uma resposta de nenhum dos dois, que de fato pareciam não conhecê-la.

As horas, arrastando-se como as verdadeiras inimigas daquela prematura alvorada, finalmente chegaram ao ponto em que o sol começou a despontar timidamente pela linha do horizonte.

O que antes era a mais completa balbúrdia instalada no acampamento dos X-Men transformou-se gradativamente num inóspito e fúnebre silêncio. Cada par de olhos parecia calcular em silêncio suas chances na batalha que estava por vir, e a julgar pelo preocupado vinco formado em suas testas, a resposta prometia não ser das melhores...

Apenas um dos mutantes parecia preocupar-se com outro assunto que não fosse o iminente combate.

– O que ela tanto conversa com aquela bola de pelo? – Wolverine perguntou a Charles, irritadiço, encarando com mau-humor o modo interessado e atento com que Eve escutava o que Hank dizia, seus nervos explodindo ainda mais no momento em que McCoy deu uma sonora e teatral gargalhada com algum possível comentário da mutante, enquanto ela apenas esboçava um olhar extremamente sério e preocupado.

– Se concentre na Irmandade, Logan... – o professor o cortou com visível desagrado, chamando sua atenção – Eu preciso que você, junto à Ororo, lidere os X-Men nessa batalha. Eu estarei ocupado, e por mais que meus alunos estejam prontos, eles ainda precisam de orientação em alguns aspectos.

– Ocupado com o quê? – questionou no seu típico tom displicente, que encobria o verdadeiro interesse nos possíveis assuntos do professor. Sabia perfeitamente bem que esses assuntos incluíam Jean.

– Você sabe exatamente qual será a minha ocupação, Logan. Estarei junto de minha filha, enfrentando o poder da Fênix. E eu sei que você pretende intervir em favor da Jean – acusou ao seu modo brando, fazendo Wolverine arquear as sobrancelhas.

– Lendo minha mente, professor?

– Não é preciso. E para evitar que você faça alguma besteira, Logan, saiba que Eve e eu vamos apenas tentar controlar a Fênix, e não destruí-la. E se porventura Jean ainda estiver lá, eu vou saber e vou tomar as devidas precauções para que ela volte à diretriz de si mesma, você tem minha palavra! Posso contar com a sua ajuda? – perguntou seriamente, esperando por uma resposta que fosse verdadeiramente sincera.

– Não se preocupe, professor... Vou fazer o que me pediu. – cedeu, um pouco mais tranquilo por pensar que tentariam trazer Jean Grey de volta à direção de seu próprio corpo.

– Ótimo. Leve os alunos para o acampamento da Irmandade imediatamente. Você e Ororo estão no comando dos X-Men agora!

Xavier se afastou do mutante sem mais nada dizer ou mesmo esperar por resposta, indo em direção à filha, que parecia mais pálida do que o habitual àquela sorrateira luz da aurora. Sorriu-lhe, mas ela não se deu conta do gesto, focada como nunca em seus próprios pensamentos, tentando arquitetar alguma estratégia que pudesse colocá-la em vantagem contra o inabalável poder da Fênix. Hank já estava longe, parecendo discutir alguns aspectos da batalha com Tempestade, os poucos adolescentes em volta prestando minuciosa atenção.

– Está na hora, Eve... – Xavier disse-lhe docemente, mais uma vez sendo obrigado a conter a eterna vontade de ler e desvendar por completo sua mente, de saber tudo o que se passava naqueles dispersos olhos aflitos.

Ela assentiu, o momentâneo medo a impedindo de utilizar palavras ditas.

“E lá se vai a boiada pro abatedouro...” – refletiu distraidamente, duvidando de sua capacidade agora que estava prestes a enfrentar a mutante mais poderosa de que já se teve notícia.

O acampamento da Irmandade se estendia por uma longa colina esverdeada, repleta de tendas preguiçosamente montadas sobre a terra úmida do frio orvalho matinal. A maioria dos mutantes da Irmandade ainda estava recolhida em seus abrigos, porém a imagem escarlate da Fênix já podia ser avistada acima de um morro suavemente mais elevado. Seu cabelo vermelho-vivo esvoaçava ao comando arredio do vento, parecendo arder em chamas conforme os primeiros raios de sol o iluminavam, e num olhar mais minucioso, Eve achou-a incrivelmente parecida com a personagem de uma das obras literárias que já lera, intitulada “As Crônicas de Gelo e Fogo”.

“Pelos Sete, devo ter entrado no universo de George Martin enquanto dormia e agora estou de cara com a Sacerdotisa Vermelha!” – pensou, tentando dissimular o desagradável nervosismo causado pela batalha que logo chegaria às vias de fato, abstraindo como uma forma de distrair-se daquilo que a esperava – “Bom, mas podia ser pior! Ao menos eu não me chamo Stark...”

Xavier adiantou-se, tomando a frente.

– Renda-se, Fênix! Desista do legado de Magneto e nós partiremos sem confronto – Charles fez a tentativa mesmo ciente de que a proposta seria completamente descartada.

– Seus tolos! – a mulher rubra respondeu, seu corpo agora flutuando para além da sustentação da terra, os olhos cerrados em algoz ameaça. E por um milésimo de segundo, o tempo pareceu desacelerar sob aquele maléfico olhar, até que um potente e sonoro terremoto produzido pela própria Fênix perpetuou um intenso tremor pelo chão, fazendo com que os X-Men caíssem, desequilibrados.

O estrondo e a vibração foram suficientes para despertar os mutantes da Irmandade, que logo deixaram suas tendas num primórdio ar de confusão e desentendimento, mas logo perceberam o que ocorria e se posicionaram para a batalha como adestradas sentinelas. E embora fossem numerosos em demasia, ao menos haviam sido pegos de surpresa a julgar pelas expressões de atordoamento que predominava entre eles quando o ataque começou.

A voz conhecida e controlada de Charles chegou à mente de Hela, a mutante ainda hipnotizada pela figura de seu hostil alvo.

Filha, o comando do ataque contra os mutantes está com Logan e Ororo! Eu vou me colocar à frente, sem que a Fênix me veja, e você deve começar suas investidas contra ela o quanto antes. Boa sorte, minha querida!

E Charles já havia sumido, tão sorrateiro quanto possível.

Eve correu em direção à Fênix ao perceber que a mutante já se preparava para investir novamente contra os X-Men, e sua reação foi mais rápida do que a velocidade de um pensamento. Os olhos de Hela deixaram evidente que o elemento que daria início ao seu ataque seria a terra, e conforme Fênix levitava cada vez mais alto (ainda sem perceber a mulher que tencionava atacá-la), Eve conjurou a ascensão de várias raízes que foram rapidamente de encontro à ruiva, até que a alcançaram pelos calcanhares, enroscando-se com firmeza em sua pele e tracionando-a com violenta força novamente ao chão.

– Hoje seu assunto é comigo, vadia! – alertou, gritando o mais alto que pôde para chamar a atenção da rival e se fazer ouvir, aproveitando o elemento ao seu comando para também prender firmemente os pulsos da mulher num forte aperto, ciente de que aquilo não a deteria por muito tempo.

Fênix lhe lançou um olhar letal, desintegrando as raízes que a prendiam sem nem mesmo precisar de qualquer esforço extra para tal. Caminhou de modo comedido em sua direção, o olhar sempre contundente, e antes que Eve pudesse reagir, sentiu lascas de sua própria pele e músculos se desprenderem, dispersando-se atrás de si como poeira ao vento.

“Cacete, isso dói!” – arfou, o corpo inteiro ardendo de forma insuportável antes que finalmente se curasse.

Recompôs-se, lançando um verdadeiro tornado contra a mulher, orgulhando-se ao vê-la girar de forma compatível ao trajeto do pequeno e ligeiro furacão que a arrebatou, e Eve sorriu largamente ao ouvir o grunhido irritado que a mulher deu em resposta ao ataque repentino. Ela novamente trouxe a terra para junto de si, fazendo-a engolfar a mutante num abraço apertado, soterrando-a, esperando que fosse suficiente para enfraquecê-la na medida em que Charles precisava.

Manteve-se concentrada em fazer com que Fênix fosse cada vez mais engolida pelo elemento, dispensando uma exorbitante energia naquela tarefa, percebendo a resistência da mutante frear a real potência de seu poder.

Você já consegue entrar na mente dela? – Eve lançou a pergunta ao pai, admirada por perceber que até mesmo sua voz mental soava falha e entrecortada pelo descomunal empenho destinado àquela tarefa.

Nem chegou perto ainda... – a resposta chegou desanimada e concisa.

Eve soube que não poderia mais manter aquele breve duelo de resistência com a outra mutante, e antes que pudesse cogitar alguma solução, acabou baixando a guarda pela completa exaustão daquela direta medição de força, e bastou um segundo de involuntária hesitação para que Fênix ressurgisse à superfície, criando um vasto raio de destruição por onde emergira.

Hela foi arremessada para trás, porém conseguiu equilibrar-se a tempo de impedir a própria queda. Percebeu o ódio estampado no semblante da mulher que, com mais intensidade ainda do que da última vez, arrancou enormes lascas da carne de Eve, deixando grande parte de seus ossos expostos naquelas várias feridas esburacadas. Ela perdeu todo o ar, respirando com imensa dificuldade ao experimentar pela segunda vez aquela sensação de indizível aflição.

“E aí, McCoy, estou parecida o suficiente com a deusa da morte agora?” – pensou repleta de humor negro, achando difícil ordenar a própria mente.

Notou a mutante se aproximar com funestas intenções, e antes mesmo de se curar completamente, Eve passou a controlar o fogo, incendiando com altas labaredas o caminho que ainda se interpunha entre as duas, visando retardá-la o máximo possível. Essa precaução deu-lhe uma pequena vantagem de breves segundos, mas foi o suficiente para que suas camadas de músculo e pele se refizessem antes de novamente enfrentá-la.

Fênix agora flutuava acima do fogo, em nada afetada por ele, direcionando o corpo para cair bem em cima da mulher de verdes olhos, que por sua vez rolou com respeitosa agilidade para longe, levantando num pulo e acertando um chute alto e ligeiro, ciente do próprio pé deslocando o nariz da ruiva num golpe certeiro.

– Bem na fuça, biscate! – comemorou, um pouco cedo demais, o sorriso sumindo de seu rosto no instante em que a antiga Jean, com sangue pingando das narinas, a ergueu do chão, arremessando o corpo da adversária de modo que ele atravessasse vários metros além e colidisse num violento baque contra o grosso tronco de uma árvore. Hela não pôde conter o grito desesperado de dor assim que sentiu sua coluna se deslocar por conta do choque, e antes mesmo que seus olhos adquirissem a coloração arroxeada da vida, eles se encharcaram de volumosas lágrimas, que rolaram indisfarçadas por seu rosto contorcido de agonia.

Seu corpo caiu no chão, perfurado por vários e graúdos galhos na região das pernas, abdômen e ombro, transpassando-os completamente. A visão de Eve se embaçou, e seus gritos cessaram para dar passagem a um estado que beirava os limites da inconsciência.

Eve! – Charles berrou em sua mente, parecendo mais preocupado do que a mutante já vira, e sentiu que o pai pretendia ir ao seu encontro.

Eu vou ficar bem! – ela uniu toda a força que ainda lhe restava para responder, sem saber se dizia ou não uma mentira – Fique onde está! Não estrague tudo deixando que ela te veja e acabe descobrindo seu plano... Continue... Continue tentando entrar...

E tudo escureceu num borrão indiscernível, e o que antes era dor, agora não passava de um leve e irritante formigamento...

Não muito longe dali, Wolverine enfrentava uma enérgica batalha com três mutantes em concomitância, notando um cenário onde apenas o desfavorável prevalecia sobre os X-Men ao redor de todo o perímetro da batalha. Um de seus oponentes tinha o corpo coberto de escamas e alardeava uma língua bifurcada se projetando para além das voluptuosas presas peçonhentas, movimentando-se com a rapidez e desenvoltura de uma serpente. O seu segundo rival era uma mulher extremamente corpulenta, o volume desproporcional de seu corpo se traduzindo no triplo de força física e disposição. E havia o terceiro, que lançava grossos espinhos produzidos pelo seu próprio corpo.

E foi no meio dessa batalha isolada, que Logan ouviu o sofrido grito que identificou ser de Hela, um som que por si só pareceu capaz de rasgar seu coração em centenas de pedaços, tamanho o desespero derramado por aquele conhecido timbre. Foi dominado por um profundo medo, que jamais sonhou ser capaz de sentir, e de repente percebeu a estupidez que era permitir que Eve, sozinha, enfrentasse Jean em toda a sua interminável selvageria.

Ele procurou por sua localização com o olhar, aflito ao não encontrá-la onde principiara suas ações ofensivas contra Jean. Foi então que viu o corpo da mulher, alvejado de múltiplos galhos, cair sem controle a uma distância parcialmente longa do início de sua batalha. Viu também Jean caminhar sem pressa, porém incisiva, pelos longos metros que havia de distância até Eve, a mulher dos verdes olhos maleáveis agora aparentemente fora de si.

Wolverine urrou com toda a potência que sabia ser capaz, investindo com renovada energia e fúria contra os mutantes que barravam seu caminho. Voltou-se em primeiro plano para a mulher toda feita de curvas convexas, sem dúvida a mais forte dos três, contudo também a mais lenta. Suas duas garras foram juntas em direção ao busto, bem entre os desconcertantes seios anormalmente grandes, e os ataques potencialmente violentos que vinham da mutante cessaram assim que ela caiu ao chão, criando um breve tremor no local em que o corpo tombou após bambolear.

Virou-se ao homem que expelia espinhos, alguns já cravados em seu bíceps esquerdo e peitoral. Lançou cegamente as garras num golpe impetuoso contra o rosto do rapaz, e chegou a vacilar quando sentiu as presas do homem serpente cravadas firmemente em sua perna. Enquanto uma mão dividia a cabeça do garoto dos espinhos – fazendo a cinzenta massa cerebral se espalhar junto ao sangue – a outra decepou a cabeça da suposta cobra, ainda presa inabalavelmente em sua carne.

Logan, vá ver Eve imediatamente! – o professor suplicou, a voz aturdida e temerosa não condizendo com sua figura sempre tão calma e racional – Ela precisa de ajuda! – disse aquilo que Wolverine presenciara com os próprios olhos.

Já estou a caminho! – respondeu, tão urgente quanto o próprio Charles.

Com pressa, retirou ele mesmo a angulosa cabeça peçonhenta do mutante de si, ignorando por completo a tontura causada pelo veneno já injetado em sua corrente sanguínea, sabendo que ela seria uma questão passageira. Assim que se viu livre para correr, saiu em disparada na direção do corpo tombado e estático de Eve, chegando a empurrar para o lado com impaciência alguns mutantes que se punham em seu caminho.

Enfim chegou ao seu destino, derrapando numa brusca freada e ajoelhando-se em seguida junto ao corpo da desacordada mulher. Acariciou seu rosto parcialmente desperto, afastando de seus semicerrados olhos o cabelo que caíra sobre eles após a queda da mutante. Houve uma desconcertante dor gerada apenas por admirá-la, ele mesmo parecendo ter sido o alvo daqueles pontiagudos galhos.

– Eve... – ele chamou num murmúrio desolado, o peito extremamente esmagado ao vê-la vítima daqueles termos, mal sabendo disfarçar a agonia que agora predominava dentro de seu peito. Apoiou com delicadeza a nuca da mulher e suspendeu de leve suas costas ao percebê-la abrir de leve os olhos.

– Bichano... – segurou-o com pouca firmeza pelos braços, os dedos carentes de força – Eu... acho que preciso de uma ajudinha aqui... – a voz abafada e dificultada alarmou, referindo-se aos galhos que, estando dentro de seu corpo, impediam que Hela se curasse, e ali não havia vigor o suficiente para que ela mesma os tirasse.

Logan observou brevemente o espaço à sua volta, percebendo que Jean ainda estava a uma distância segura dos dois por conta das lentas e curtas passadas com que cortava o caminho, contudo deveria apressar-se antes que ela finalmente os alcançasse.

– Não se preocupe, guria – falou com transbordante ternura, acariciando mais uma vez seu rosto pálido e abalado – Isso só vai doer por um instante, está bem?

Ela anuiu de modo quase imperceptível, e Wolverine deu início às extrações, já percebendo com indisfarçado fascínio os olhos verdes se transformarem, sedentos, naquele profundo lilás assim que o primeiro galho saiu e o respectivo orifício começou a se fechar.

A cada intervenção de Logan, ela gemia, ganhando impressionante força nos dedos que rodeavam o antebraço do mutante, apertando-o como uma forma de extravasar a lancinante dor. Ele ainda dispensava olhares de soslaio pelos arredores, porém sem deixar de ser cuidadoso com os ferimentos de Eve em momento algum.

Depois do último galho retirado, o mutante dispôs os joelhos de modo a envolver as pernas da mulher contra suas coxas, e ergueu seu tronco com o intuito de aconchegá-la num apertado abraço, ainda sentindo-a bambolear com fraqueza pela indiscutível perda de sangue que ainda teria que se estabilizar. Respirou fundo enquanto ainda a mantinha junto de si, consolado, certo de que a sensação de mal-estar logo terminaria para ela. Só esperava que Eve tivesse o tempo necessário para se recompor antes que Jean os alcançasse e difundisse novos ataques... O professor nada disse, mas Logan pôde sentir um profundo alívio fluindo da mente de Charles para a sua, e Xavier então rompeu o contato, voltando aos seus afazeres.

– Você está bem? – ele perguntou apertando-a ainda mais contra si, apenas agora sentindo sua frequência cardíaca ameaçar normalizar.

Bem é uma palavra meio forte... – riu, afundando-se um instante a mais do que o necessário naquele abraço antes de se permitir desfazê-lo – Mas isso não importa agora, você precisa ir! – levantou-se, decidida a retomar sua missão o mais breve possível – A Ruivadia é assunto meu, você tem que se preocupar apenas com o cargo de babá que meu pai te incumbiu.

– Enfrentar sozinha o poder da Jean é loucura! – replicou o desabafo com notável desagrado, e Eve desviou o olhar entristecido para um dos galhos ensanguentados, não deixando passar que Logan estava sempre se referindo à rubra mutante por um nome que não mais lhe pertencia, parecendo se apegar ferrenhamente à existência de Jean Grey, quando na verdade existia apenas a Fênix.

– Sério, se manda, antes que acabe sobrando pra você também! – apressou-o, a mutante ruiva agora quase perto o bastante. Eve, no entanto, desviou o olhar pesaroso em direção aos alunos do pai, que lidavam com uma incrível e injusta inferioridade numérica – Eles não têm a menor chance, não é...?

– A desvantagem é grande, mas os moleques estão se saindo muito bem! – Wolverine comentou, visivelmente contrariado em abandonar Eve, teimoso o suficiente para se manter bem ali, ao seu lado, mesmo sabendo que seu posto era junto aos adolescentes que prometeu guiar naquele embate.

– Mas essa desvantagem vai diminuir! Pelo menos alguma coisa de útil eu posso fazer por vocês... – avisou misteriosamente, voltando sua atenção para os galhos lavados com seu próprio sangue e os incendiando.

– O que vai fazer?

Hela agora usou o poder da terra para fazer os galhos levitarem, ainda ardendo em chamas, e Logan ficou deslumbrado ao ver aqueles suntuosos olhos ganharem um inédito tom que mesclava com perfeição o castanho e o rubro pelo uso dos dois elementos simultâneos.

– Mais perto... – ela sussurrou, encarando com impaciência a mutante que vinha lentamente em sua direção, aguardando que ela se aproximasse um pouco mais e esforçando-se para esconder os galhos inflamados. Somente depois de mais três passadas, Eve lançou com força os galhos incinerados contra a Fênix, mirando com cuidado para que nenhum deles atingisse alguma estrutura vital e acabasse levando o plano de Charles ao fracasso. Dois deles atingiram os ombros da rival, e os outros dois cravaram-se nas pernas da mulher, arremessando-a para trás com a velocidade da investida.

Agora nos olhos de Eve havia apenas o brilhante frescor da terra, e ela rapidamente virou-se para a batalha travada entre os X-Men e a Irmandade, ajoelhando-se e firmando as mãos sobre o solo, sempre encarando o mesmo ponto fixo em algum lugar à frente. Duas rachaduras se formaram no terreno entre seus dedos, avançando com vigor para o rumo da batalha, ramificando-se num total de dez novas fendas. Cada uma delas se abria, larga e profunda, quando o seu caminho cruzava com um mutante da Irmandade, engolindo-os num abismo sem volta ao fechar-se sobre o corpo e continuar seu caminho em busca de outros. Quando passavam sob um X-Men, apenas mantinham sua rota, ignorando-os.

E em menos de um minuto, não havia mais qualquer sinal dos oponentes, apenas os poucos alunos de seu pai olhavam embasbacados para a cena que lhes deu a inusitada e insana vitória, procurando em vão pelo responsável por aquele efetivo ataque final.

– Pronto... – suspirou, limpando com dedos trêmulos o suor da testa e obrigando-se novamente a levantar por mais exaustivo que fosse manter-se em pé após o enorme esforço. Encarou um Logan que parecia indiscutivelmente pasmo – Agora leve os alunos a algum lugar seguro, de preferência ao nosso acampamento, e meu pai e eu encontramos vocês lá quando...

Um novo grito alarmado e gutural escapou pelos lábios de Eve quando, mais uma vez, Fênix investiu contra si com aquele desconcertante poder de desintegrar. Hela podia sentir, a julgar pela potência com que a mutante atacou, que ela estava realmente enfurecida.

Wolverine adiantou-se alguns passos, gritando a plenos pulmões para Ororo e Hank levarem os alunos para longe dali, e logo já estava novamente ao lado de Eve, que se ocupava em criar uma contenção de galhos e raízes, fazendo-os emaranharem-se de modo íntimo e apertado num escudo elevado, o semblante contorcido pelo esforço de afastar a mulher cuja força parecia insuperável.

– Se meu pai ainda não conseguiu entrar na mente dela, eu realmente não sei mais o que fazer. – avisou, frustrada, ainda se empenhando em criar aquela barreira que, ela sabia, seria menos do que inútil.

– Faça o que for preciso – Logan fitou-a com sugerida seriedade, colocando-se à frente de Eve para que ela não absorvesse todo o impacto que Jean causaria ao alcançá-los – Hora de usar um poder mais forte... – sua voz estava melancólica, porém decidida, encarando-a com firmeza convicção.

– Não se preocupe, Logan, eu não posso matar sua amada. Acredite, não é uma questão de escolha, eu realmente não posso... – avisou de modo sucinto, indisposta a dar maiores explicações... Sua respiração a cada segundo tornava-se um pouco mais veloz e desregulada, prevendo a aproximação cada vez mais acentuada da Fênix e sem nenhuma ideia do que fazer a seguir para detê-la. – Embora, sinceramente, a minha criatividade esteja bastante escassa no momento...

Logan abriu a boca para responder, porém o estrondo da barreira orgânica explodindo suprimiu sua fala, e ambos foram arrastados pelo chão ao comando da fúria indomável da rubra mutante. Eve percebeu que ela arrancara os galhos do corpo, deixando em seu lugar os filetes de sangue que escorriam, tornando-a ainda mais vermelha...

...E foi vislumbrando aquele sangue, que Hela de súbito compreendeu como deveria proceder. A resposta havia estado lá, o tempo todo, e julgou-se uma tola por só percebê-la agora.

Pai! Eu já sei! Fique pronto pra entrar na mente dela!

Fechou os olhos, clamando pelo único elemento que não usara (além da morte), e que desde o começo era a resposta que tanto buscara – a água. Soube que seus olhos estavam agora azuis quando as pálpebras se levantaram, e concentrou-se como nunca na sua mutação, mergulhando nela a níveis que jamais ousara antes. Um arrepio estranhamente úmido tomou conta de seu corpo, e ela continuou aprofundando-se no poder reverberante do elemento e sendo levada a graus cada vez mais fundos de seu dom.

E então Eve sentiu...

...Sentiu a presença fluida do lençol freático que corria, sinuoso, próximo àquela colina que servia de palco para a batalha travada. Sentiu a água condensada em forma de nuvens rarefeitas no alto do céu, e até mesmo as gotículas invisíveis que se dissipavam pela atmosfera, umidificando-a.

E por fim sentiu a água que servia de conformação à anatomia humana, pulsando nos vasos sanguíneos, a água que delimitava em diferentes quantidades o interior e exterior de cada célula do organismo, a água que, em totalidade, ocupava cerca de 60% do corpo humano, uma percentagem suficientemente alta para que Eve pudesse tirar vantagem.

Focou-se na Fênix, sem encontrar qualquer dificuldade quanto a perceber toda a água que fazia parte da mutante, que a pertencia como sua maior vulnerabilidade naquele momento...

Os olhos de Hela intensificaram o tom azulado, parecendo incrivelmente energizados, faiscantes no pleno domínio de sua mutação. O poder que lhe fluía internamente, abrasando seus músculos por conta da vigorosa potência, dizia-lhe com clareza que Hela era tão mortalmente capaz quanto sua oponente.

Essa certeza passou a refletir-se em seus olhos tingidos de celeste.

A Fênix estancou, intuindo que havia algo de muito errado... Pela primeira vez desde que se livrara de Jean Grey, não mais continha pleno domínio de seu corpo. Podia sentir com nitidez o poder daquela estúpida garota freando o movimento agora travado de seus músculos, impedindo que suas longas pernas prosseguissem cortando devagar a distância que ainda havia entre ambas.

Aquilo, sem dúvida alguma a enfureceu, mas nem mesmo sua mente respondia aos comandos que queria dar voz! Estava aprisionada, novamente na condição cativa que tanto execrava!

Eve empurrou-a apenas com a força de seu pensamento, testemunhando pela primeira vez um olhar confuso vir daquela mulher, que de fato não compreendia como era possível ser subjugada naqueles termos em que a vantagem havia sido sempre sua. Mesmo Logan diversificava olhares céticos entre as duas, sem entender como a mutante conseguia controlar Jean daquela forma, percebendo que Eve era muito mais capaz do que qualquer um poderia supor, inclusive ela mesma.

Hela respirou fundo, dando início àquilo que seria sua melhor estratégia para enfraquecer sua rival, retirando, aos poucos, a água de seu corpo e desidratando-a. A umidade que escapava do corpo da Fênix realizava em pleno ar uma trajetória em espiral até a mão estendida de Hela – curiosamente delineando o contorno de um DNA em pleno ar –, que observava, impassível, a pele da ruiva começar a ganhar um aspecto ressecado e mais idoso à medida que ordenava sua mutação.

Se aquilo não fosse o suficiente para detê-la... Bom, restaria desistir de todas as suas táticas até então e tomar medidas mais... drásticas!

E por mais astuto que houvesse sido aquele ataque, Hela entendia que era ousado demais... Pelo simples fato de que, quanto mais água era retirada do corpo da mulher, menor seria o controle que Eve exerceria sobre ela, que novamente poderia dar início aos seus ataques mesmo que enfraquecidos...

Cabia agora ao pai agir o mais rápido possível!

Mas enquanto Charles ainda não determinasse seu controle sobre a Fênix, Eve permanecia retirando paulatinamente a umidade de seu corpo, sentindo sua influência sobre a rival diminuir à medida que o fazia.

E a transformação foi assustadora de tão imediata...

Pregas começaram a surgir, de início ao redor da boca da mulher, espalhando-se em seguida pelo resto de sua pele que, a cada segundo, perdia um pouco da vivacidade. Os olhos recuaram, aprofundando-se dentro das órbitas cada vez mais desidratadas, e o cabelo – sem dúvida sua característica mais marcante – perdeu o brilho sedoso, assemelhando-se agora a feias mechas ressecadas que pareciam palha num estranho e doentio tom vermelho.

Mais água continuava escapando da mutante, fazendo de sua epiderme algo flácido e mole, opaco, estranhamente irreal e enfermo. Ela visivelmente definhava, a cada segundo perdendo um pouco mais de sua exótica beleza.

Se aquilo não fosse enfraquecer, Eve não sabia de mais nada...

– Saia da minha mente! – Fênix gritou de súbito, finalmente percebendo o que acontecia, e Hela, já sem tanto controle sobre sua oponente, não foi capaz de controlar a fúria que se abateu sobre seus transmutados olhos.

Fênix, mesmo sem enxergar o cadeirante que se escondia, pôde senti-lo graças às suas investidas de invasão. A mutante vermelha virou em sua direção, os olhos alarmados e raivosos por quase não ser capaz de resistir à tentativa de Charles, quase sucumbindo ao seu poder telepático. Ela o ergueu da cadeira de rodas, dispensando muito mais esforço naquela tarefa do que antes seria necessário, e um profundo ódio a possuiu, dizendo-lhe para agir rápido enquanto ainda podia.

Eve desesperou-se ao ver o pai, fragilizado, erguido acima das árvores que o esconderam e, sem pensar, retirou mais uma generosa porção de água do corpo da outra mutante, querendo a todo custo enfraquecê-la para impedir que qualquer mal fosse feito ao seu pai...

...E de fato, sua ação realmente a enfraqueceu, porém também diminuiu proporcionalmente o controle que Eve tinha sobre a irreconhecível mulher, que soube muito bem tirar proveito disso.

A Fênix ergueu uma mão trêmula para o céu, o olhar mórbido acompanhando a direção do movimento que desembocava em Charles, ainda suspenso a uma longa distância, dono de um ar sereno de quem aceitava seu destino. A ruiva mutante gastou grande parte de suas escassas reservas de força naquele intuito, ciente de que ao menos isso deveria fazer antes que sucumbisse de vez. Ninguém jamais domaria sua mente uma segunda vez como Xavier já havia feito, nem que para isso ela tivesse que catalisar sua própria destruição...

...Afinal, surgira das cinzas, e apenas a própria Fênix se permitira voltar a elas!

Por um momento, talvez o último, Xavier dedicou-se a olhar apenas para a filha, e sentiu um transbordante orgulho, um afeto tão grande que ameaçava não caber em si. Ela também o encarava, porém de um modo assustado e descrente, talvez presa no significado daquele intenso contato visual de apenas um instante.

Me perdoe, minha querida... Sinto muito por todo mal que te fiz! – sua voz vacilou, por um segundo emudecida – Eu te amo!

Fênix realizou um breve e sutil movimento de torcer o punho, e o professor, quase simultaneamente, vomitou um punhado de sangue, e mais do líquido escarlate extravasou pelos orifícios de seus ouvidos e nariz, a pele tingindo-se de um preocupante tom púrpura...

Fênix ajoelhou-se de modo sofrível, no término de suas forças, já sem condições de sustentar nada através de seu poder agora limitado. Olhou para as próprias mãos, detestando a consistência mumificada, morta, que cobria sua pele, os músculos involuntariamente tremendo.

E assim que a mutante interrompeu o ataque contra o professor por não mais suportar manter aquele vínculo com seu poder que lhe sugava mais energia, Xavier caiu com estrondo no chão por influência da gravidade, seu corpo imóvel fazendo com que Eve corresse a passadas urgentes até o pai, a cabeça completamente vazia para o resto do mundo lhe avisando apenas que precisava alcançá-lo a tempo.

Venceu a distância rapidamente, correndo como nunca embora sua garganta parecesse se fechar ao ambiente externo, dificultando a passagem de ar numa incômoda ardência. Nem mesmo chegou a notar que Logan a seguia, também preocupado com o homem idoso que jazia estático sobre o solo.

– Pai! – chamou ao frear bruscamente sua corrida quando, enfim, alcançou o corpo tombado de Charles, seus olhos lacrimejando intensamente ao vê-lo todo banhado em seu próprio sangue sobre a face pálida, os olhos terminados numa última expressão de dor.

– Professor...! – Wolverine exclamou, incrédulo com a desfalecida imagem do homem que tanto tinha feito em prol dos mutantes. Associá-lo àquele estado letífero era no mínimo desconcertante, o cenário traduzido apenas em absurdos.

Hela prostrou-se ao lado do pai, os olhos cheios de lágrimas passando do verde para o roxo com precisa sincronia entre ambas as íris, as mãos estremecendo de ansiedade conforme se aproximavam de seu progenitor a fim de soprar-lhe o ardor de sua perdida energia.

E, pela primeira vez desde que conjurara seu poder de cura, não foi vida que ele trouxe.

O corpo de Charles continuou estático e indiferente ao toque daquele poder que prometia sanar todos os males, e o que houve foi totalmente inédito. Eve, assim que tentou curar o pai, ao invés disso recebeu uma elevada carga elétrica em todo o seu corpo, e aquela sem dúvida alguma foi a dor mais aflitiva e perturbadora que já experimentara. Ela gritou numa mescla de agonia e surpresa, interrompendo involuntariamente o terrível contato, e uma voz repreensiva falou em sua mente, quase como se fosse o subconsciente de seu poder, avisando-a.

A vida não pode adentrar onde a morte já habita.

– Que porra de história é essa? – ela berrou, fora de si, ignorando o estranho fato de que discutia consigo mesma – Você vai curar meu pai, sua mutação de merda! – lançou-se novamente contra Charles, tocando as duas mãos espalmadas em seu peito antes que novamente recrutasse a vida para obedecê-la.

Dessa vez a resposta conseguiu ser ainda mais violenta, e aquela espécie de choque veio muito mais intensa, como uma advertência que ratificava a importância de afastar-se. Voz nenhuma se pronunciou dessa vez, porém o recado havia sido dado.

Logan, profundamente tocado pela melancólica cena, pousou uma mão solícita no ombro da mulher, os castanhos olhos que a mutante tanto adorava direcionados a ela com enorme compaixão.

– Não adianta... Ele se foi...

– Não se meta! – respondeu no seu melhor tom alterado, desvencilhando-se irritada de um toque que deveria ser consolador, mas que a enfureceu profundamente. Voltou a atenção a Charles, dessa vez os dedos encostando-se ao rosto do pai com os mesmos olhos lilases e determinados, sem nenhuma sombra de hesitação.

O grito bradado por Eve pareceu durar uma eternidade aos seus próprios ouvidos, e foi impossível evitar que seu corpo se contorcesse em posição fetal, tamanha a agonia que dominou cada porção dele. Lágrimas brotavam em seus olhos como se estes fossem verdadeiros mananciais, e os dentes trincavam-se em dolorosa tensão.

– Você está se machucando! – Wolverine ditou o óbvio, segurando-a pelos braços com uma firmeza decidida, disposto a tirá-la dali.

– Sai! – rugiu, lançando contra o mutante uma enorme bola de fogo que o acertou bem no peito, apartando-o para alguns metros além, o suficiente para que ele não mais se intrometesse naquele assunto que não era seu.

Eve arqueou o corpo sanguinolento do pai, envolvendo-o à mesma maneira que Logan a abraçara há pouco, e fechou com força os olhos, seu organismo já protestando antecipadamente pelo que estava prestes a fazer, uma parte pequena de si implorando para se afastar da aflição antes mesmo que tentasse novamente curá-lo.

E dessa vez, quando a dor veio muito mais forte do que tudo que Eve já sentira, ao invés de se afastar da fonte daquele suplício, ela apertou ainda mais o pai contra si, como que tentando aumentar a superfície de contato entre eles, desprezando seu íntimo em cacos e concentrando-se como nunca em seu poder, obrigando sua voz já rouca a gritar com muito mais potência e desalento, e Logan viu profundos cortes se abrirem em vários pontos de seu corpo e rosto, tingindo imediatamente a roupa que a vestia de um vívido vermelho pelo sangue que vertia volumoso das feridas.

Logan começou a correr para ela, mas antes que tivesse tempo de chegar, um pequeno campo de força translúcido se formou entre o apertado espaço do abraço de Eve e seu desfalecido pai, explodindo ao expandir-se com rapidez. Charles foi jogado para o centro da colina, e Hela foi arremessada no exato sentido oposto, permanecendo caída precisamente do mesmo modo que a queda da detonação lhe deixou.

– Não, guria, não! – Logan foi até ela, tocando com cuidado as feridas abertas de seu vistoso corpo como se fossem suas, de certa forma sabendo que eram. O horror tomou conta de si ao perceber que as feridas mantinham-se abertas, seu semblante inconsciente e alheio – Por que você não está se curando? Por que não está se curando? – repetiu a pergunta como um verdadeiro alucinado, sua voz soando cada vez mais alta, cada vez mais embargada por não ver qualquer reação da mulher que, mais do que tudo, ele queria ao seu lado. – O que você fez, menina? – deixou-se cair de joelhos, erguendo a nuca de Eve para perto de seu próprio rosto, roçando-o contra o dela sem se importar com o sangue que acabou passando para si.

E chorou copiosamente, ainda com o corpo de sua guria nos braços.

“I see the landscape before me

So beautiful it makes me smile

Those whispering sounds in silence

Reaching for me, trying to warn me, once again

Wake up to sense the violence

Right and wrong, clear and strong

Whispering sounds in the darkness

The time will come to undo what you have done

What if the seas can't save you

From the fires of this world

You left no trees to keep you

On the surface, when the day comes

The push that you gave derailed me

On my knees, broken seals

Your vagary led to the silence

I can't hear you.

Please cast the die

Paint the horizon with the right shade of red

When the oceans rise

Mother cleans the slate and the cradle becomes

Your grave

What if the seas can't save you

From the fires of this world...

You left no trees to keep you

On the surface, the oceans rise

[...]

Pray no, you should not pray now

Must believe in yourself

All the choices you make

Will define you in the end

Truly, we're a lost cause

A tiny rhymless word

In the poem of time

What if the seas can't save you

From the fires of this world

You left no trees to help you

Back to surface, when the oceans rise”

(Wrecking The Sphere – Sonata Arctica)

Notas finais
Só pra descontrair o momento de provável ira que vocês devem estar sentindo da minha pessoa, deixa eu compartilhar um negócio que descobri não faz muito tempo... Eu nunca fui de criar os nomes "shippáveis" dos meus personagens, mas nessa fanfic o shipp Logan + Eve dá LoVe! Não é muito amor? (Literalmente) xP Tá, agora que venham os xingamentos, eu aguento!!! x___X