Notas iniciais
Aqui contamos repetidamente com palavras como Noite, variando a cada estrofe seu sentido. Embora possa ser livremente interpretado, minha intenção foi destacar a noite como uma fonte de angústia.

Traga-me, azeda noite

O brilho azul pálido da lua

Que escondes acima das trevas espessas

A muralha negra chorosa encharcando a terra

Não posso enxugar suas lágrimas, dama eterna

Mas contemplando-a um pouco mais

Consigo enxugar as minhas

Pois sei que além do seu choro

Há uma valsa de estrelas tremulantes

Traga-me, noite escura

Os odores suaves das flores jovens em meu jardim

E com eles virão as lembranças foscas de tardes douradas

Perdendo-me no embaraço da memória

Encontrarei descanso sob a senhora, noite minha

E quando recostar-me

Afogado nos breus negros que me rodeiam

Deixarei que entre em mim, treva imensurável

Mas me sussurre bons sonhos, com suas brisas sombrias

Traga-me, errante noite

As tardes cinzentas em que sorri para crepúsculos

Sobre nuvens lacrimosas e seus torrenciais lamentos

Sem medo do anoitecer e dos pesadelos que com ele viriam

Ontem eu sabia, velha amiga

Que acima das nébulas amarguradas

Acima da cinzenta tarde chuvosa

Havia um Sol para sempre dourado

Retornando, alguma hora, para trazer-me conforto