Imagine
1 Capítulo Único. [REESCRITO]
Notas iniciais
Ele observava atentamente o garoto a sua frente, tão quieto, sereno, belo...
Deixava que seus olhos passassem por seu rosto alvo, analisando cada detalhe minuciosamente. Via como seus olhos brilhavam ao olhar o nada, isso mesmo o nada, como se estivesse tendo a mais improvável ideia. Observava como seus cabelos curtos e negros balançavam quando o vento gélido batia nos fios, em como seus braços se abraçavam pela temperatura fria.
Também observava como ele piscava os olhos. De forma calma, lenta e graciosa. A forma como seus dedos deslizavam delicadamente pela muleta azulada e seu sorriso pequeno e adorável se formava.
Tão bonito, tão belo...
—Kisame? – ouviu a voz baixa e calma lhe chamar.
Não foi pelo vento frio que ele se arrepiou, muito longe disso.
—Sim? – tocou o ombro do menor, esperando que este continuasse a falar.
—O que tem ali? – perguntou o garoto, apontando com seu pequeno dedo para sua frente.
Kisame sorriu de lado, olhando para o garoto de cabelos negros e apertando seu ombro com pouca força.
—Neve. – respondeu simplesmente, quase em um sussurro. Não pode deixar de sorrir largamente ao ver o outro sorrir.
—E como ela é? – questionou novamente, desta vez, com a curiosidade estampada em sua voz graciosa.
—Branca. – ouviu um suspiro decepcionado após responder.
—Só isso? – franziu as sobrancelhas descontente. – Responda com mais detalhes.
—Não tem como, é apenas branca.
Ficaram novamente no mesmo silêncio. Era assim que o garoto gostava de ficar, no silêncio. Kisame, por outro lado, não ligava se estava em silêncio ou não, gostava apenas da companhia do garoto.
O moreno, por sua vez, não entendia o porquê. Ele nunca teve muitos amigos, nunca foi do tipo sociável e ninguém nunca havia mostrado interesse em ter algum tipo de interação com ele. Apenas seu vizinho, Kisame.
A questão, era que Kisame também não se socializava muito bem com as outras crianças. Talvez pelo seu tamanho e sua aparência. Até mesmo ele não gostava de se olhar no espelho, as crianças não gostavam dele por isso. Mas, o moreno era diferente, ele não podia o ver e isso facilitava muita coisa.
—Posso? – o menor perguntou, estendendo seu braço e alcançando o rosto de Kisame. Ele achava engraçada a forma que o cabelo do outro era penteado, ficava bem no topo da cabeça.
Kisame apenas se permitiu fechar os olhos, aproveitando o toque quente do amigo.
—Gostaria de poder te ver. – ele disse após um silêncio confortável.
—Você iria se assustar.
—Por quê?
—Porque eu sou feio. – ele respondeu com a voz baixa, desta vez. Desconfortável por falar algo assim em voz alta. – É melhor assim.
—Se você diz... – o outro sorriu. – Mas tenho certeza de que você é bonito, e quando eu puder ver, vou comprovar isso.
Kisame sorriu, permitindo que o garoto continuasse a tocar seu rosto.
—Apenas imagine como eu sou, Itachi.
[...]
—Ei, Kisame! – ouviu a voz irritada de seu amigo soar um pouco distante.
Suspirou frustrado, olhando para trás vendo o outro se aproximar correndo.
—Cara, devia ter me esperando! – resmungou jogando a mochila nas costas e respirando fundo. – Eu fiquei igual a um idiota te esperando na porta da escola, que merda!
—Tudo bem, Hidan, eu já entendi, desculpe.
Os dois continuavam andando com Hidan falando alto. Não que isso seja novidade, claro.
Kisame estava no ensino médio, mais alto, mais estranho. Nesse tempo, ele se surpreendeu com o número de pessoas que falavam com ele. Não amigos, apenas colegas.
De amigos, tinha apenas três. Os três tão estranhos quanto ele próprio. Imaginava que essa era a razão de serem amigos, afinal. Hidan era religioso e vivia falando sobre seu Deus para todo mundo, assustando qualquer pessoa normal. Sem contar que era a maior pessoa boca suja que já conheceu na vida, mas não deixava de ser engraçado. E também havia os outros dois, um cara que idolatrava o dinheiro como se não houvesse mais nada importante no mundo e um andrógeno homossexual que era apaixonado pelo professor de artes.
Kisame ficava feliz pelos amigos não o verem como uma aberração como as crianças o viam antigamente.
Era como seus amigos diziam: “é apenas um problema de pele, nada demais”.
Ele queria que pensassem assim antigamente também, talvez tudo teria sido mais fácil e divertido em sua infância triste e solitária. Mas, por outro lado, nunca teria conhecido ele.
Itachi.
Fazia muito tempo não o via, anos para ser exato. O moreno havia ido embora com seu tio, Madara, para fazer um tratamento em seus olhos. Os dos conversavam por ligações por algum tempo, mas depois perdeu totalmente o contato com o amigo.
Lamentável, mas ele entendia que a vida tinha esse tipo de situação e era comum pessoas perderem o contato estando tão distantes.
No entanto, sentia falta de suas conversas, de suas risadas, dos olhos dele.
A família dele ainda era sua vizinha e pelo que descobriu por seu irmão mais novo, Itachi havia realizado uma cirurgia para poder enxergar. Ele ficava feliz por isso, muito mesmo. Mas o medo e a insegurança tomavam conta de todo seu interior quando pensava em Itachi voltando para Konoha.
O que será que o amigo iria pensar depois que o visse?
—Kisame! Merda! Eu estou falando com você!
Ele piscou algumas vezes olhando para Hidan, que o olhava de forma questionadora.
—Credo, você estava fazendo umas caretas estranhas. – o amigo religioso riu, dando um soco amigável no braço de Kisame. – Vou indo, nós nos vemos amanhã.
—Ah... sim, até amanhã. – viu o amigo atravessar a rua e entrar em uma casa pintada de branco.
Continuou andando sozinho, faltava pouco até chegar em sua casa.
Ele se surpreendeu ao ver um carro em frente à casa ao lado. Pelo que sabia, Fugaku-san não gostavam que estacionassem nada, – nem mesmo uma bicicleta –, em frente à sua casa. Ele se aproximou, indo em direção a Sasuke, irmão mais novo de Itachi que conversava com um garoto loiro.
Era uma das raras vezes que Sasuke estava sorrindo.
—Ei, Sasuke-san. – chamou aproximando-se mais e chamando a atenção dos dois garotos. – Tem visitas?
—Não exatamente. – ele voltou a sua típica expressão indiferente enquanto o garoto loiro continuava sorrindo simpático para Kisame. – É apenas o Itachi e o Madara.
Ele sentiu uma pontada no peito. Medo, insegurança, saudade voltando juntas e de uma vez só. Sem contar que, apesar de tudo, sentia alegria também. Ele agradeceu a Sasuke, sem ao menos saber o porquê. Estava tão surpreso e alegre que nem sabia o que fazer e muito menos como agir.
Aliás, o que ele deveria fazer? Ir ver Itachi? Mas e se o moreno se assustasse? E se o Uchiha não quisesse mais ser seu amigo?
Ele foi para sua casa, trancando-se em seu quarto e pegando um pequeno espelho que havia lá. Seu reflexo era o mesmo, o mesmo garoto estranho e bizarro de antigamente.
Pensou em ligar para um de seus amigos e pedir conselhos. Mas já até sabia o que aconteceria, seria conversa jogada fora e nenhum conselho que se preste.
—Kisame! – ouviu a voz de sua mãe soar abafada atrás da porta. – Desça, você tem visitas.
Respirou fundo. É óbvio que Itachi iria o visitar, mas isso era ótimo de fato, não era? Queria dizer que o amigo ainda gostava e se lembrava dele. Isso queria dizer que ele deveria parar de ser tão inseguro e ir ao encontro dele, Itachi não era do tipo que acabava com amizades pela aparência.
Pelo menos ele achava.
Decidiu descer, trocou de roupa, arrumou o cabelo e se olhou no espelho novamente.
O que pode acontecer de pior?
Quando ele desceu as escadas, Itachi estava lá. Impecável como sempre.
O cabelo estava maior, ele estava mais alto e tinha um ar de maturidade que intimidou Kisame. Seus olhos passavam pela casa, analisando cada canto daquele lugar que costumava passar as tardes na infância. Gracioso como sempre e, por incrível que pareça, mais belo ainda.
Kisame se aproximou do sofá, hesitante.
—Itachi? – chamou fazendo com que o outro se virasse com um sorriso grande nos lábios.
—Kisame! É você? – ele se levantou de onde estava sentado, indo de encontro ao maior. – Você é bem alto.
—É... – coçou a nuca constrangido.
Ele realmente não via problema ou não queria ser mal-educado? Gostaria de poder ler mentes, principalmente do Uchiha que sempre fora um grande enigma.
—Olhe, eu posso enxergar agora. – Itachi falou com um sorriso adorável nos lábios. – Não é incrível?
—Com certeza. – sorriu fraco, tentando não transmitir seu medo.
—Algum problema? – Itachi perguntou após notar o desconforto de Kisame. Ele realmente não tinha mudado nada. Continuava percebendo que as pessoas ao seu redor não estavam bem apenas pelo som da voz.
—Não, estou feliz por você ter voltado. – abriu um pouco mais o sorriso. – Faz muito tempo.
—É, faz mesmo. – o moreno concordou. – Finalmente eu posso voltar para cá, vou morar com minha família e iremos ser vizinhos novamente.
A alegria do outro era quase contagiante.
Ele se assustou quando sentiu a mão de Itachi tocar seu rosto. A mão quente, do mesmo jeito que era antes. Itachi olhava atentamente para seu rosto, como se estivesse perdido em pensamentos por breves minutos.
—Você não é como eu imaginei. – ele comentou deixando que o outro sentisse um calafrio.
—Eu disse que eu era feio, não é?
—Mas eu não disse que você é. – ele se surpreendeu novamente com a resposta. – Digo que, é ainda melhor do que eu imaginava.
Kisame corou, afastando-se um pouco do toque do outro.
—Você... está falando sério?
—Sim, eu estou comprovando que você é bonito, com meus próprios olhos. – ele falou calmo. – Eu disse que faria isso, não é mesmo?
Kisame sorriu, ainda com as bochechas coradas.
Fora um idiota por ter sentido tanta insegurança. Seu sorriso aumentou quando sentiu os dedos do moreno em sua mão.
—Kisame, você quer me mostrar a neve?
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