Imaginariun's Pub
1 #1 : O Pub / A História de Docinho
Difícil entender aqueles dias que nem mesmo você se entende. Eu tenho um emprego essencialmente burocrático, faço pouca força física, mas muita força mental e por isso sinto o desgaste natural da cabeça. Procuro sempre fazer algo que me anime, em uma espécie de limpeza mental, mas isso não vem ao caso hoje. Agora é hora de falar sobre um lugar que conheci em uma noite dessas de muito estresse.
Um curioso e enigmático Pub.
Eu me lembro como se fosse ontem. Era uma sexta-feira invernal em meu bairro, Campo Grande. Jovens e adolescentes se acotovelavam nos carentes focos de entretenimento noturno, apesar do clima pedir um Edredom e cama. Eu não era um deles. Gosto de, as vezes, curtir minha própria solidão. Lendo um livro, vendo um filme e, em vezes mais raras ainda, andar sem rumo apenas escutando o som da mente. Eu andava, ainda vestido a caráter com meu terno/fantasia pela Rua Campo Grande, beirando a linha do trem. Quem conhece o lugar, sabe que é um lugar não muito bonito de andar, e também nada seguro. Mas era silencioso o bastante para mim e não pensava nos riscos. Meus pés me levavam enquanto o vento soprava frio, assobiando cantigas de escravos das fazendas que formaram aquele lugar. Novamente, para quem conhece, depois do Viaduto Alim Pedro, o soturno lugar só fica mais escuro e solitário. Continuei andando e passei pelo conjunto de prédios. Ao longe, ví uma placa atípica. O neon dizia apenas "Imaginariun's Pub". Lembrei dos anúncios em neon da década de 90, que já eram artigo de moda antiga. Hoje, eram Vintage. Mas aquele lugar me atraiu. A única luz na fachada escura era o neon piscante. A fachada, mesmo no escuro, dava-se para ver que era bem cuidada. Duplex com varanda superior, paredes chapiscadas, com beirais e adornos criteriosamente lisos, janelas de grade de ferro e telhado colonial de caimento frontal. Não vi luz interna nenhuma, então desisti de entrar.
-oi-disse uma voz feminina atrás de mim. Me dei conta do perigo do lugar e me virei lentamente. Agarotausava uma calça jeans milimetricamente posta em seu corpo voluptuoso. Coturnos femininos escuros nos pés, jaqueta de couro preto levemente aberta, mostrando a blusa regata branca decotada por dentro. Na cintura, um cinto caído, que mais parecia um coldre Steampunk das histórias que, vira e mexe, eu leio. Mas o que me chamava mais atenção do que a forma de se vestir ou a forma delicadamente brutal de beleza do corpo, era seu rosto. A mulher brasileira é definitivamente a mais bela do mundo por carregar consigo o mundo. Os olhos levemente afunilados, lembrando o oriente tanto em físico como em maquilagem, escondiam as iris grandes e amendoadas dos índios, os lábios carnudos da Espanha e a pele cor de jambo doce de verão da nossa terra. Nesses momentos que me sinto agraciado por ser mais um vira-lata, como li em um artigo de miscigenação. Os cabelos, presos em coque, deixando duas mechas molecas cair nas laterais do rosto, eram azuis escuro, e aquilo definitivamente dava mais um toque sensual a visão.
-é mudo?
-não... não. Eu só estou meio embaralhado. É só.
-perdido?
-não. Moro aqui. Conheço esse lugar.
-um homem de terno aberto e olhos profundos não é o tipo de coisa que se vê muito por aqui. Sozinho?
-sim. De certa forma.
-não entrou por quê? O Pub está aberto.
-está? Eu não vi nenhuma luz acesa lá dentro. E também não iria entrar.
-pra quem fica olhando vinte minutos um Pub, no frio, parece mesmo que você não iria entrar. O Pub é no porão. Se entra pela lateral- disse a beleza noturna avançando pela pista e entrando no portão de grade. Se virou e soltou um sorriso travesso com os lábios pintados de vermelho Ferrari.
-se você quisesse entrar, até deixaria você pagar uma bebida. Mas que pena. Boa noite-disse enfim se virando e caminhando pela servidão jardinada da casa antiga. Até então não havia percebido a escada lateral. O impulso de entrar aumentou enquanto pensava na travessa proposta daquela garota com estilo motoqueiro. Não perdi o sentido de perigo, porque o maior risco de um homem não é em ruas escuras, mas em curvas como aquela menina tinha.
Enfim tomei coragem e avancei pela rua. Ao ultrapassar o portão, vi o pequeno caminho de tijolos vermelhos e um pequeno canto destinado a algumas plantas e um singelo gramado. Gnomos, não tão grandes do que um pinscher, estavam dispostos no chão, dizendo uma mensagem clara de "se pisar em meu gramado, o paucome". Zangado, encostado em uma pedra, com seu rostinho taciturno, tinha a mão dentro do paletó vermelho e em um devaneio, vi-o puxar da casaca uma Magnum 44 Clint Eastwood e me mandando circular.
Respeito aos anões de jardim, sempre.
Continuei pela servidão e vi as bromélias e samambaias penduradas, todas floridas, podadas e bem cuidadas. Pareciam observar enquanto eu passava. Cheguei a pequena escada e a desci, chegando a uma gélida porta de metal que a abri. O cômodo seguinte era pequeno. Lajotas antigas nas paredes, uma luminária balançante no teto e só. Era uma ante-sala para o Pub, que era após a porta de madeira. Pela primeira vez senti medo. Onde estava me metendo? Nunca havia visto aquele Pub funesto ali. O que deveria ter atrás daquela porta de carvalho entalhado? Mas o impulso foi mais forte.
No primeiro momento, não vi muita coisa. Tudo era muito escuro, revestido por uma cortina gostosa de mistério e fumaça. Não agrediam minha respiração. Engraçado. Ao contrário. Parecia que estava novamente em Petrópolis, nas excursões escolares que fiz. O chão era de mármore negro, incrivelmente polido. Os primeiros sons que escutei foram o bater de bolas de sinuca e o som de uma chopeira enchendo um grande caneco. Andei alguns passos e minha visão foi se acostumando aos poucos. Vi sofás com mesas ocupados por pessoas não identificadas em alguns cantos. Haviam mesas vazias e ocupadas para o lado esquerdo e neste canto, um palco com um piano de dois andares, estilo Nova Orleans. Vi pessoas se mexendo e começando a tocar uma música suave de BB King. A bateria, juntamente com o violoncelo, formando com a guitarra doce uma melodia única. Haviam pilastras quadradas no meio do salão amplo e no lado direito haviam as mesas de sinuca, com luminárias emitindo uma luz amarelada que não agrediam meus olhos. Avancei até o bar. Uma extensa peça única de madeira polida, centralizada na parede final do Pub. A parede ostentava belas prateleiras iluminadas com bebidas do mundo inteiro. E quando digo mundo inteiro, estou levando ao sentido de excelência. Trabalhei muito tempo com bebidas e sei reconhecer um bom xerez ou um excelente aquavit.
-vai querer o quê, novato?-disse o barmam. Como toda a forma incomum do Pub, o barman era outra peça utópica que comungava bem. O tipo era alto, de pele escura, cabelos negros curtos e penteados, um fino bigode, como um Turco saído dos filmes de Indiana Jones. Vestia uma blusa social branca, avental negro e uma gravata borboleta singela. Mas seu diferencial era que ele era grande e forte. Quando falo grande, digo dois metros ou mais. Quando digo forte, digo Kal Drogo.
Junte isso e tenha a imagem certa, ou vá na cozinha, veja sua geladeira Eletrolux duplex e adicione braços.
-algo forte, por favor- disse sentando em uma das banquetas. Ao meu lado, na ponta extrema direita, havia um choroso homem que bebia um cowboy duplo em copo redondo e alto. Olhava a bebida, como se ela fosse um psicólogo diplomado.
-afogar mágoa?
-não. Só pra abrir a noite.
-huum. Sei o que você quer. Um Demétrio Braspoot-disse o homem se virando para a vitrine e a pia que havia embaixo. Vi o tamanho do homem e me perguntei porque alguém com aquele potencial para luta profissional estava fazendo atrás de um balcão. Somado ao fato da boa fala corteza e informal, supuz que era o proprietário do negócio. Se virou, colocando um copo redondo como de uísque e o enchendo com o preparado da coqueleteira.
-batida?
-não. Se você não gostar, não precisa pagar-disse o homem em simpatia. Olhei para o "Demétrio Braspoot" e o verti. A bebida tinha notas de canela, hortelã e gengibre, comungando com uma generosa dose de uísque 12 anos. Uísque é o tipo de bebida que sempre considerei herética a prática de misturas, mas Demétrio Braspoot deve ter sido um gênio para ter inventado tal mistura, ou um herói para tal homenagem.
-bom, né? Não duvide do Turco, menino. O que traz para esses lados de Campo Grande?
-nada. Só caminhava.
-ou certa garota de cabelos azuis o convenceu de entrar?
-como sabe disso?
-não duvide do Turco. Não duvide- disse o barman grandalhão sorrindo levemente.
Conversamos por uma hora (Ou será mais?), onde ele me contou métodos de preparo para bebidas, a forma que a canela deve ser amassada (Não raspada. Ele enfatizou isso com propriedade) e formas de tornar Dry Martini a bebida dos sonhos.
-Então. Sua história, qual é?- disse o Turco, enquanto polia um copo cristalino.
-Minha história? Nada demais. Nada de muito importante.
-Deixa disso, garoto. Todo mundo aqui nesse salão possui uma história diferente. Tá vendo o pianista? Tiago “Docinho”. Paulista, veio pra cá com 19 anos depois de receber um ótimo emprego de motorista de um grande Empresário. Era órfão e salvou o homem em um acidente de carro, enquanto era motoboy. Passou a trabalhar para a família, de terno e gravata. Um bom salário, em uma boa cidade, mas tinha um porém.
-ah, essas histórias ele sempre é mulherengo, ou roubam alguma coisa e ele leva a culpa, coitado.
-mais ou menos isso. É um rapaz de ouro. Gosta de ler e estudar, e sempre tocou na noite. O porém dele foi a filha do patrão. Vi ela uma vez e garoto, aquilo era o Diabo.
-feia?
-Não. A tentação em pessoa. Ele contou que desde quando pisou na mansão no Joá, era assediado pela garota. Só que com funcionários perto e a família, ela era bem mais contida. Um belo dia, no meio do ano, o Empresário viaja a trabalho e a mãe para São Paulo, visitar os pais. A garota ficou sozinha em casa, por uma semana, e a primeira coisa que fez foi dar férias para todos os funcionários. Ato até então não questionado pelo pai, que devia esses dias de férias. Ela fez de tudo com o rapaz, e ele não pode fazer nada.
-de tudo, como?
-De ter que opinar se ela havia ficado bonita enquanto provava as lingeries curtas que havia comprado, até dar a toalha no banho.
-Puts, que sacanagem. Tem mulher que estiga mesmo.
-Mulher é algo que você não compreende, mas acaba entendendo alguns míseros pontos. Ela gostava dele. Amor, meu jovem. Uma garota nascida em berço de ouro, que tinha ciência de ser linda, com sangue de empresário nas veias. Você espera que ela fizesse o quê? Ela atacou sem dó, nem piedade. Ela fez totalmente certo.
-e o que aconteceu?
-Ele disse que era uma sexta. Estava de plantão no final de semana inteiro, exigido por ela. Estava no quarto dele, na casa dos empregados, quando o rádio toca. Se arrumou rapidamente e rumou para a casa grande. Quando chegou na sala, estava aquela deusa completamente nua, em pelo.
-Nossa.
-o cara estava determinado a não fazer aquilo, Novato. Ele não podia transar com a filha do chefe. Mas quando se é jovem, a razão fala bem menos do que a vontade e rolou.
-rolou?
-pelo final de semana inteiro. Em todos os lugares possíveis e impossíveis da casa. Em cada canto exótico e diferente da cidade. Tudo estava mil maravilhas. Ela iria voltar a estudar na faculdade, na segunda feira e seria bem mais fácil os encontros. Ele já pensava alto, quando simplesmente no Domingo, o patrão chegou.
-ih, pegou eles dois?
-Na cozinha, de forma louca. Ele me deu um parecer da cena, mas eu só tento imaginar. Ela, vestida com a blusa social dele, pendurada em duas frigideiras e sentada na bancada central da cozinha, gritava coisas como “Me preenche” ou “Bate na minha cara, meu cachorro”.
-ih, que merda hem.
-Calma. O mínimo era ele ser despedido com justa causa, certo?
-o pai dela tentou matar ele?
-não. O pai dela é empresário. Ele paga pessoas para fazer isso, mas não foi o caso. Sobrava, eu acho, um resto de consideração ao rapaz. Ai só denunciou ele por estupro e ficou tudo numa boa.
-o que?- disse quase cospindo minha terceira dose de Demétrio Braspoot.
-Ele não sabia, mas ela tinha malditos 17 anos. O pai pressionou, e ela deu parte.
-que desgraçada.
-não acho, pobre menina. Ela estava nervosa, eu acho. Todo mundo erra sempre. Todo mundo vai errar. Escuta o resto. Docinho achou que iria apodrecer na cadeia, mas passou um mês e veio um policial soltando ele.
-o que aconteceu?
-Todas as acusações simplesmente sumiram. Nem a ficha dele havia algo. Para o Estado, ele nunca havia pisado em Bangu.
-isso porque?
-não consegue imaginar?- disse o Turco sorrindo e minha mente voou.
-Ele engravidou ela?
-gêmeos, meu compadre. Gêmeos. Doutor Coelho, esse rapaz. Mas sugiro que não diga essa alcunha. Ele não gosta muito. No final virou genro, casou com a dondoca e faz Direito na PUC.
-Nossa. Isso é uma história.
-Todos nós temos uma história. Talvez com menos reviravoltas "a la México", mas o lance é como você conta a história.
-enrolando o Novato, Turco?- disse a doce voz da menina de cabelos azuis.
-só esquentando ele para você, Banshee. Só esquentando ele. Agora vão para algum canto. Essa é por minha conta. Volte qualquer dia desses que eu lhe conto algumas histórias mais interessantes sobre esse lugar que você chama de Bairro- disse o Turco colocando mais um Demétrio Braspoot no copo, enquanto Banshee me puxava para o canto dos sofás. Ela estava alegre. Estava lá algo que se valia a pena morrer.
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