I'm with you
1 Capítulo 1 - The Day we Meet
O toque era suave e preciso. Na tela, traços se juntavam e copiavam a paisagem atrás de si. O modo como as cores se mesclavam, demonstrava o interior da jovem loira que pintava. A garota colocava seus sentimentos naquela pintura e refazia no quadro a imagem que observava pela janela. Na tela, os tons de azul se juntavam com os de verde e vermelho, revelando a imagem que aos olhos de qualquer outra pessoa poderia parecer surreal. Uma ultima pincelada como assinatura e o quadro estava finalizado. Um sorriso curvou-se nos lábios da jovem, que estava satisfeita com o próprio trabalho. Passou as costas da mão pela testa, pousando o pincel sobre a palheta e deixou por cima da mesa, logo se afastava e admirava o quadro que havia pintado.
Ela não conseguia entender perfeitamente sua obsessão por plantas, folhas e árvores. Apenas sentia-se bem ao pintá-los, sentia-se calma o suficiente para encarar o mundo em sua volta. Na tela, um céu incrivelmente azul contrastava com a grama verde e a majestosa árvore de folhas vermelhas, bem no centro da imagem. O dia não estava tão bonito como na imagem, mas seu humor estava. A garota girou nos eixos e deu uma olhada pelo quarto, seu ateliê improvisado. Várias pinturas de autoria da jovem decoravam as paredes, algumas telas em branco estavam agrupadas no chão e em pontos específicos pelo quarto. Prateleiras mal-colocadas apoiavam potes com pincéis e tintas em pasta, alguns suportes para as telas ficavam no canto do quarto e apenas a luz que entrava pela janela iluminava o local.
Sophie levantou-se do banco em que estava e girou um pouco o tripé em que a tela estava deixando-a em direção ao Sol para que secasse mais rápido. Sem pressa, a garota saiu dali e foi em direção ao banheiro. Tomaria um banho e iria comprar algumas coisas para o jantar. Entrou no banheiro e fechou a porta, enquanto sentia o corpo pedir por água quente. Despiu-se e entrou no Box, ligando o chuveiro e deixando que a água caísse por seu corpo. Suas mãos estavam sujas de tinta, o que não a deixava surpresa. Soltou os cabelos que estavam presos por uma presilha e os molhou, deixando a cabeça embaixo d’água.
Era incrível como sua vida havia mudado em tão pouco tempo. Com a perda do pai, a vida de Sophie ficara de cabeça pra baixo, mas agora tudo estava diferente. Ela ainda não se sentia bem o suficiente para tocar no assunto, mas estava forte o bastante para fingir que não a afetava como antes. Mas só fingir, afinal, ninguém sabia como a garota se sentia realmente. Algum tempo depois, o chuveiro era desligado e a garota se enrolava na toalha, saindo do banheiro. Foi até o quarto e abriu o armário, procurando alguma roupa confortável o bastante.A garota ouviu passos subindo a escada, e logo em seguida, a voz:
— Acabei de chegar, Sophie. Você prepara o jantar, querida? — A voz da mulher era semelhante à de Sophie, a diferença quase imperceptível. Aurora, mãe de Sophie, trabalhava no hospital da cidade como enfermeira, e passava o dia inteiro fora.
— Claro, só vou comprar algumas coisas.
Sem paciência para escolher roupas, a garota pegou um shorts jeans qualquer e uma regata branca, agradecendo mentalmente pelo tempo bom. Vestiu-se e secou os cabelos deixando-os soltos e colocou um all-star preto. Desceu as escadas de dois em dois degraus e foi para a cozinha. Sem a mãe saber, a garota escondia o próprio dinheiro em cima da geladeira, num dos enfeites que tinha ali – E já aviso, eram muitos. A cozinha estava arrumada, era pequena, mas organizada. A casa em si não era tão grande, mas era confortável. Lar doce lar. Dinheiro no bolso, a garota se virou e seguiu pelo corredor de entrada, notando a presença de alguém na sala de estar. A garota parou na porta e acenou levemente para o rapaz que estava lá dentro.
— Oi Thom. Chegou cedo hoje... O que aconteceu? O bar fechou mais cedo? — Por mais que o tom de voz da garota fosse irônico, estava estampado em seu rosto que não achava um pingo de graça naquilo. O rapaz de cabelos claros apenas sorri e voltou sua atenção para a TV, onde passava um jogo qualquer de futebol.
Sabe aquele bom humor? Então, esqueçam. Tudo tinha ido por água baixo ao ver Thomas em sua sala. A garota foi em direção à entrada e logo saiu da casa, batendo a porta atrás de si. Tudo bem que sua mãe era jovem e muito bonita, aliás. Mas o marido morrera em menos de quatro meses, ela não tinha um pouco de consideração? Sophie não conseguia entender isso. Não entendia como a morte de seu pai a afetara tanto, e afetara tão pouco a mãe. Pelo que se lembrava, eram felizes. Além disso, Thom não era a melhor opção. Francamente, uma mãe não deixaria sua filha namorar alguém como ele, e em seu caso, sua mãe namorava com ele. Deixe-me explicar: Thomas era um bêbado, preguiçoso que batia em Aurora. Sophie não entendia como sua mãe continuava com ele. O cara raramente era visto sóbrio, trabalhava, mas o que recebia no trabalho gastava em bebidas. Segundo a própria mãe, ele estava melhorando, mas nada confirmado. Pensar naquilo deixava a garota irritada. Com passos firmes e céleres, a garota seguia em direção ao supermercado, perdida em pensamentos. Algumas pessoas estavam na rua naquele fim de tarde, mas não muitas. Assim que entrou no supermercado, Sophie foi até o caixa três e cumprimentou uma amiga que trabalhava ali.
— Alice! O que aconteceu? — A jovem morena irradiava alegria. Dava para perceber no modo como a garota se movimentava e como sorria. A baixinha sorriu triunfante para a amiga e se curvou sobre o balcão que as separava.
— Soph, babado! Tem um gato novo na cidade. Ele veio aqui hoje comprar algumas coisas... — Sophie notou que a garota ia falar até não poder mais e agradeceu mentalmente por conhecer Alice. Querendo ou não, a baixinha fazia a garota se sentir melhor apenas por sorrir.
— Alice, calma. Vou ter que comprar algumas coisas. Passa na minha casa hoje e me conta tudo, ouviu?
Aquelas palavras eram mágicas para Alice. Num aceno exagerado com a cabeça, a morena confirmou e virou sua atenção para um cliente que estava esperando ali. Sophie adentrou o mercado e foi passando pelas prateleiras, olhando os produtos e pegando o que era necessário. A lista era grande, mas hoje, compraria o suficiente para fazer o jantar. Pegou uma cesta que encontrara vazia no chão e foi colocando os produtos que escolhia dentro da mesma. Não sabia o que faria para o jantar exatamente, mas sabia que teria que fazer o jantar para quatro pessoas. Alice sempre parava para comer em sua casa. Pouco tempo depois, pegara o ultimo produto que precisava e o colocava na cesta, riscando o ultimo item da pequena lista de compra que havia feito mentalmente. Caminhava em direção ao caixa, o exato caixa que Alice trabalhava. A amiga já havia saído agora uma senhora de cabelos grisalhos era a atendente.
Sophie apoiou a cesta no caixa, lembrando-se do ultimo item que faltava. Após alguns segundos tentando convencer a senhora que logo voltava, foi em direção ao corredor dos cereais a passos acelerados. Pegou quatro caixas de seu cereal favorito e virava-se para voltar ao caixa quando esbarrou em alguém e levou um tombo, caindo no chão junto com as caixas que carregava.
— Ai! Porque não olha por onde anda? — Estava nervosa, não pelo tombo em si, mas pelo fato de que todos que passavam ali olhavam para ela e riam. Recusando a ajuda, arrumou brevemente os cabelos e se ajoelhou, pegando as caixas que estavam espalhadas. Por um momento, tentou não rir da situação. Levantou-se do chão, aceitando a ajuda de um rapaz que pegara uma das caixas.
— Foi mal. Você está bem? — A voz era rouca e firme ao mesmo tempo em que parecia ter um tom aveludado. Os olhos castanhos pareciam achar graça da situação. Sophie não sabia dizer se ele achava graça do fato de ela ter caído ou por ela estar olhando feito uma idiota para ele.
— Estou ótima. — Pronunciou brevemente, olhando para as caixas rapidamente, certificando-se que todas estavam ali. Sussurrou algo como um “com licença” e afastou-se, não ousando olhar para o rosto do garoto outra vez. Seguiu rápido em direção ao caixa, sentindo um incomodo no joelho. Se pudesse, esconderia a cabeça num buraco para ninguém vê-la, mas com certeza aquilo seria bem mais constrangedor. Chegou ao caixa alguns segundos depois, deixando as caixas no balcão, quando sentiu uma mão lhe tocando o braço.
— Olha, eu já pedi desculpas. Não era a minha intenção te derrubar. Eu só queria pegar o meu cereal favorito. — Disse, erguendo a mão e mostrado a caixa de cereal. Seus lábios estavam curvados num sorriso de canto encantador, enquanto os olhos castanhos estavam fixos nos orbes azuladas de Sophie.
— Eu já disse que está tudo bem. E vai ficar melhor ainda se você esquecer esse assunto.
O rapaz parecia que ia protestar, mas desistiu quando Sophie virou o corpo para a atendente e entregou o dinheiro enquanto um garoto que deveria ter no mínimo treze anos colocava tudo num saco de papel. Assim que o mesmo terminou, a atendente recebia o dinheiro do rapaz que havia trombado com Sophie e assim que a mesma saiu do mercado, o rapaz foi atrás. Nem mesmo empacotando os cereais.
— Ei... Espera. — A jovem parou e viu o garoto se aproximar, com uma expressão indiferente no rosto. — Acho que não começamos muito bem. Sou Gabriel, cheguei ontem aqui na cidade.
Ele inclinou-se para beijar o rosto da jovem, mas Sophie se esquivou, desviando o olhar.
— Sugiro que não seja tão distraído, Gabriel. Ficar derrubando as pessoas por ai não é tão legal assim.
— Bom, para começo de conversa, a culpa também foi sua. Isso não teria acontecido se você não fosse tão desastrada. E tão pequena. Sinto que só o fato de respirar perto de você pode quebrar um dos seus ossos.
O tom brincalhão na voz dele começava a irritá-la. Observou Gabriel por alguns instantes, com as sobrancelhas arqueadas. Ela pensou em protestar, mas nenhuma resposta brilhante lhe veio à mente.
— Humpf.
O sorriso no rosto do rapaz pareceu aumentar com aquela reação, o que a deixou mais irritada. Não se lembrava de tê-lo visto antes, o que a fez se lembrar do que Alice havia falado. Ele deveria ser o tal cara novo. De certo modo, Sophie não o achou tão espetacular assim: ele era alto, tinha cabelos negros, e os olhos eram levemente puxados e também escuros. Não era nem magro e nem musculoso demais; não havia nada nele que chamasse tanta atenção.
— Me chamo Sophie e, acho que ouvi falar que alguém tinha chegado na cidade. Bom, em todo o caso, seja bem vindo.
Ele arqueou as sobrancelhas, o sorriso aumentando em seus lábios.
— Bem que me avisaram que as notícias correm rápido em cidades pequenas. E, hum, obrigado pelas boas vindas.
Ela fungou, virando o corpo para ir para casa.
— A conversa está ótima, mas eu tenho que ir.
— Ah, claro. A gente se esbarra por ai.
Ela podia jurar que aquela frase soou meio sarcástica, mas não queria nem discutir. Virou-se e seguiu para a casa, sem pressa. Assim que chegou, encontrou com Alice na porta.
— Você demorou. O que aconteceu, foi fabricar as coisas?
— Eu estava preocupada com você, sua ingrata. — Disse séria, abrindo a porta da casa e entrando, sendo seguida por Alice.
— Comigo? Por quê?
— Eu vi a carrocinha agora a pouco e pensei que eles tinham te levado.
Ambas riram, numa troca de palavras tão amigáveis que comoveria qualquer um. A mãe de Sophie nem sequer ligava mais para a presença de Alice, afinal a morena considerava o lugar como sua segunda casa. As garotas conversavam enquanto Sophie preparava o jantar, até que Alice resolveu voltar no assunto que queria ter iniciado no mercado.
— Ah Sophie, você devia ter visto. Rolou um climão, sabe? E ele bem que faz o meu tipo. Ainda nem perguntei o nome dele, mas me dê apenas um dia e eu consigo saber onde ele está morando e o telefone. Se bobear, descubro até o tipo sanguíneo.
— Eu não duvido nada. E você sempre fala coisas desse tipo, mas chega na hora, não consegue falar com o cara.
—... Eu sei. É que eu simplesmente travo. Mas dessa vez vai ser diferente, tenho certeza.
Particularmente, Sophie sabia bem o porquê dela simplesmente “travar”. Mas ela não falaria nada, claro.
— Mas enfim, eu encontrei com esse cara hoje.
— Jura? Espera, como pode saber que era ele? — Sophie passou a alface e tomate para Alice ir cortando.
— Hum, resumo: nos esbarramos no mercado, eu cai, ele veio pedir desculpas e se apresentou. Disse que chegou ontem na cidade.
Alice cortava o tomate em rodelas, concentrada, tão concentrada que Sophie duvidou se ela estava realmente ouvindo.
— Então, uma troca de olhares e se apaixonaram? Típico.
A morena revirou os olhos e olhou para Sophie em seguida.
— Ei, eu não disse que estou apaixonada. E ele nem é grande coisa... Da forma que você havia falado, eu pensei que ele fosse um deus grego ou algo assim...
— E então, vocês decidem ficar juntos e superam um monte de problemas, e a família dos dois são contra esse namoro por que a sua família torce para o São Paulo e a dele para o Corinthians... E daí vocês decidem fugir e ter vários filhos... — Alice tagarelava sem parar, ignorando o que Sophie havia dito, criando uma história sem pé nem cabeça.
A garota começou a dar risada, sabendo que não adiantaria nada protestar ou falar algo enquanto a amiga estava naquele momento de criação. Basicamente, o jantar foi feito em meio às fantasias de Alice, que dissera que um dos filhos de Sophie se chamaria Richarlisson.
Após o jantar, as garotas foram para o quarto de Sophie ficar jogando conversa fora, como de costume. Ficaram conversando até pegarem no sono.
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