I'm lying in the ocean

2 Primeiros encontros e sorrisos com covinhas


Cheguei em casa como o previsto, exausta.

Retirei os sapatos e pendurei o casaco antes de largar a bolsa pelo chão e quase me jogar junto.

— Titi. — ele disse com seus bracinhos curtos em minha direção. — Titi.

Moro em Seoul com minha irmã Eva e o marido Sung Wang-seok. Quando terminei a escola e Eva a faculdade, nossos pais decidiram viver o restante de suas vidas pulando de um galho para o outro, sendo que na verdade não eram galhos e sim, países. No final das contas, assim que viemos parar na Coreia, minha irmã conheceu o Wang e pouco tempo depois se casou. Apesar de nossos pais terem continuado sua saga pelo Globo, eu fiquei com eles, porque Eva sempre foi mais minha mãe do que a verdadeira.

— Suuuuuuuuuuung. — foi só o tempo de lavar as mãos para ter o bebê mais lindo de todo esse mundo nos braços.

Como o pai, seu nome é Sung Wang-seok, mas para não confundir, chamamos o mais velho de Wang, e o menorzinho de Sung.

Uma embolação de línguas se mistura nessa casa, falamos em português, em hangul e as vezes em inglês, nesse último não nego, sou uma negação. O que além de patético, não faz sentido já que aprendi a falar coreano que logicamente é mais complicado do que o simples idioma do tio Sam que não entra na minha cabeça de jeito nenhum.

— Titi. — suas mãos gordinhas tocavam minha face, me apertando sem parar.

Seus olhos são minúsculos, o melhor sorriso provem de uma boca com só quatro dentinhos e seus cabelos escuros e lisinhos se arrepiam para todos os lados.

— Unnie, você chegou? — a irmã mais nova de Wang veio para a janta. As roupas, o celular, a tiara e até suas meias são do Cooky do BT21, não preciso deixar claro de quem Yoonseo é uma fã.

— Como foi o trabalho hoje? — ela perguntou sem fôlego.

Disfarçadamente reparei Eva revirar os olhos, enquanto termina a refeição e eu paparico Sung. Todas as vezes que a Yoon me encontra, as mesmas perguntas saem da sua boca, repetidas vezes e repetidas vezes, e repetidas vezes. Não a julgo tão mal justamente por no início quase também não ter compreendido que eles são apenas pessoas, não normais como os vizinhos, mas ainda, pessoas, homens como qualquer um no final das contas.

Apesar de Eva muitas vezes me tratar ainda como criança, não tenho mais a aparência e muito menos a inocência. Wang nunca me cobrou nada, sempre me senti outra das suas irmãs mais novas, porém, como teríamos gastos a mais por conta da faculdade, decidi que o certo seria arrumar um emprego, ainda mais com Eva tentando engravidar. Nossos pais sempre foram mais hippies do que qualquer outra coisa, nunca se importaram tanto conosco quanto com eles mesmos. As vezes ligam, mandam mensagens e em outras apenas um sinal de fumaça, então desde criança aprendemos a viver por conta própria.

A vida aqui como em qualquer outro país mesmo que pareça ser perfeita, não é, principalmente com estrangeiros. Com o tempo minha irmã e eu passamos a dar menos importância a esse tipo de coisa, e até ignorar várias situações por causa do apoio de Wang. As gerações vão mudando, os pensamentos e até mesmo a cultura, e mesmo vagarosamente, a Coreia está mudando.

Consegui meu primeiro trabalho através de uma das amigas de Eva, foi em uma cafeteria e além de poder beber café o dia inteiro, ainda podia comer muffins bem fresquinhos de framboesa. Também fiquei um tempo em uma loja de moda indie, onde aproveitei para mudar todo o meu guarda-roupas baseado em cores neutras e principalmente cinza, só saí quando o dono vendeu a loja e voltou para sua cidade natal. Por fim, consegui um emprego de meio período na Biblioteca Nacional de Seoul, já que faço faculdade de Biblioteconomia, meus próximos quatro semestres se passaram em meio a todos aqueles livros, documentos, arquivos e computadores. Só que infelizmente, o novo contrato só permitia que bibliotecários já formados fizessem parte do quadro de funcionários, ou seja, eu e mais três fomos dispensados.

Eva sempre amou ler, nós duas amamos. Não foi uma grande surpresa quando ela anunciou ter conhecido um cara em uma manhã fria e chuvosa, enquanto entravam na mesma livraria. O fato é que Wang tinha acabado de se formar em Literatura, eles se conheceram, namoraram um tempo e quando nossos pais decidiram pular para o próximo país, se casaram. Além de outras faculdades ele ensinava na Seoul University, em uma das nossas voltas para casa, ele me entregou vários novos folhetos que ainda não tinham sido postos no quadro de vagas, sendo que um deles me chamou atenção. Uma empresa anônima buscava novos colaboradores para seu quadro de staffs, o salário era bom, o horário razoável, e mesmo nunca tendo sido uma staff, não me pareceu ser complicado.

A burocracia durou semanas, treinos, contratos de confidencialidade, e só após todo aquele processo aos meus olhos super exagerados, entendi o motivo do receio.

Era o BTS.

De verdade, foi um espanto encontrá-los pela primeira vez, o grupo onde eu estava se eriçou visivelmente, os cochichos começaram a se descontrolar, uma pequena euforia tomou conta do lugar e por um segundo só desejei voltar para casa, bem longe daquilo tudo. Meu desconforto ao encarar suas faces parecia ser recíproco, eles mostravam cansaço, tédio, e sinceramente exaustão pela reação das pessoas. Não que eu não tenha dado importância, pelo contrário aquela noite foi difícil até de dormir, porém, meus pés sempre foram fincados no chão, as fantasias que piscavam nas mentes de todas ali presentes, não tinham sido feitas para mim. Isso ficou claro no final daquela mesma semana, quando de um grupo de 15 pessoas, fui a única que permaneceu com o emprego.

Quase sete meses.

Nunca fui a maior fã de idols, meu lance sempre foram as músicas melancólicas, mas gostava do Park Won, do Paul Kim, da Park Bom. Não sei como, porém com o tempo, talvez poucas semanas, meus pés ainda permaneciam no chão, mas meus pensamentos se perdiam. Minha atenção foi captada não só pelo trabalho, mas neles em si, no tipo de pessoas que aqueles sete homens eram. Passei a admirar a responsabilidade, o foco, a maturidade, também escondia o riso quando a infantilidade reinava e sentia uma pontinha de orgulho a cada nova conquista, toda vez que eles se mostravam imbatíveis.

Um deles.

Não foram semanas, talvez somente uma. Em sete dias, um deles me desestabilizou como nenhum outro coreano durante todos os anos desde que vim parar nesse país conseguiu. Ele era alto, inteligente, responsável, desastrado, tão sério e logo depois tão infantil, perdido. No fundo todos estamos perdidos, mas o problema foi eu passar a me importar demais com isso, tanto que comecei a querer desvendá-lo.

Ouço suas músicas, penso em suas letras, durmo com o som da sua voz, sonho com ele bem perto de mim, e no meio disso tudo parece que o próprio berra nos meus ouvidos que nem ele mesmo sabe quem é.

Ah, como eu queria solucionar esse mistério.

Não só aqui, em todos os países em que deparamos visivelmente com um estrangeiro, no caso do oriente muito mais evidente, parece ser o inglês a língua adequada para a conversação, sendo assim, no nosso primeiro encontro, ainda no meio daquela algazarra ele começou um assunto devo admitir bem desinteressado apenas com o intuito de ser cortês. Porém, se eu falasse apenas inglês, que sentido teriam em me contratar se só um de sete era fluente?

— Eu nem imaginei, desculpe. — ele disse esfregando a mão pela nuca, sem graça por ter começado um papo em outra língua com uma pessoa que mal sabia o significado de "the book is on the table".

Esse foi nosso primeiro e meio desastroso "encontro".

No final daquela semana, o serviço estava quase aprendido, afinal qual o nível de Q.I. uma pessoa precisa ter para buscar pasta de dentes na despensa?

O que também entendi ali logo no início foi que o importante além de claro fazer o trabalho corretamente, é não só a forma de tratamento, mas a quantidade de vezes em que uma staff se aproxima de um dos membros, ou puxa papo sem necessidade. Sabe? Pequenas atitudes que podem mostrar muito sobre as intenções de uma pessoa naquele meio. Quando notei isso me policiei ao máximo, até porque nossa interação era mínima e eu nunca fui uma pessoa muito falante, aquele tipo que puxa assunto, que sabe levar uma conversa a toa sem aparentar nervosismo.

Eu odeio conhecer novas pessoas.

Interagir é tão, tão, tão difícil, sem contar que a maioria das pessoas não está preocupada em ouvir, somente em falar, falar e falar.

Eu gosto de silêncio.

Gosto de ficar sozinha com meus fones e meus livros. Fazer uma caminhada perto do rio Han, ou andar de bicicleta. Tomar sorvete de chocolate debaixo das árvores de Sakura e também de assistir filmes tristes.

Eu demoro a confiar.

A permitir que as pessoas entrem e me conheçam, realmente me conheçam. Não gosto de perder tempo com quem não merece, prefiro mil vezes sair sozinha do que com uma multidão de pessoas vazias e superficiais. Tenho muitos conhecidos, mas poucos amigos e esses preciosíssimos, neles confio quase plenamente, pois minha total confiança está em Eva. Minha irmã, melhor amiga, mãe, exemplo.

Eu sou difícil.

No final da terceira semana, após mais encontros mudos, expedientes finalizados e corridas até a estação de metro, eu o encontrei.

Todos pareciam bem cansados, dispersos e até entendiados desde cedo, principalmente os mais novos. Avancei para o elevador agradecendo por estar no horário dessa vez, pronta para a prova de Linguística Documentária.

— Eva? — pus o celular na orelha ajeitando a bolsa, mordi um pedaço do sanduíche de presunto com queijo e apressei o passo. — Estou saindo agora, escuta, não consegui falar com o Wang, diga a ele que vou voltar de carona com a Mina.

Ao fundo pude ouvir os resmungos do pequenininho que de certo queria pegar o celular para falar com a melhor tia que já pisou nesses solos.

Eu amo o Sung.

De todas as pessoas que existiram, existem e existirão nesse planeta, aquele serzinho minúsculo foi a primeira a qual eu amei sem nem ao menos conhecer, de alguma forma sinto que ele também é meu.

Andei distraída tentando entender o que aquela criança falava, não notando assim o corpo que vinha com tudo na mesma direção que eu bem na curva do elevador.

— AAAAaaah. — meu grito começou alto e foi diminuindo antes de cair no chão.

Meus olhos se arregalaram, os dele acompanharam, suas mãos se apertaram em minha volta antes que como todos os nossos pertences eu voasse até o chão.

A adrenalina correu pelas minhas veias pelo susto e pela proximidade acompanhada do contato direto que seus dedos mantinham. Seguidamente eu pisquei, como se ciscos invisíveis cobrissem meus olhos ao ser posta na posição inicial, aquela com os dois pés no concreto.

— Aigo! Me desculpe, eu não estava prestando atenção. — ele era tão atrapalhado.

Abanei os braços em sua direção já que de nada adiantava falar " pelo amor de Deus " , pelo menos minha comida estava intacta e juntos começamos a recolher nossos pertences espalhados, onde agradeci por nada ter sido quebrado. Percebi que só faltava o meu exemplar de "21 lições para o século 21" do Yuval Noah Harari que descansavaem suas mãos.

Três semanas, 21 dias inteiros em que nos conhecemos e esbarramos e convivemos e pela primeira vez ele me olhou.

Ele realmente me olhou.

— Eden-shi, não é? — disse utilizando o sufixo de um jeito formal. — Você gosta do Yuval Hanari? — sua voz parecia mais que surpresa, incrédula, me perguntei se os olhos de alguém deveriam brilhar daquela forma. Se a pele de alguém conseguiria ter a cor exata de caramelo claro. Se o perfume de alguém poderia impregnar tanto o meu olfato daquela forma.

Confirmei com um aceno, prendendo a respiração com seu sorriso que me manteve por segundos cativa em um universo paralelo onde sua covinha irradiava. Apesar de sentir uma coisa esquisita bem naquele momento, eu sabia que não podia e nem devia me deixar levar, ele era um idol.

Infelizmente aquilo foi o começo.

Minha seriedade quanto ao trabalho não mudou, só que uma pequena fresta me passou despercebida. Fui incapaz de manter meus pensamentos centrados em algo que não fosse ele.

Kim Nam-joon.

Quis anular esses sentimentos desnecessários, mas além dele não me ajudar, atrapalhava. Nossa interação que deveria ser baseada em poucas palavras e pouco contato se transformou em conversas infinitas. Qualquer coisa, toda esbarrada acidental nos corredores ou quando os ajudava diretamente, o assunto mais interessante ou mais banal levava a minutos e minutos a fio de olhares atentos, covinhas fundas e vontades suprimidas.

Nunca, nunca nenhum sinal foi avançado fisicamente, entretanto, na parte sentimental, por dentro e talvez pelos lados e até por fora, eu estava ferrada. Nunca, nunca tinha conhecido alguém como ele, que ao menos chegasse aos pés dele.

Inteligente, apaixonado, incrivelmente desastrado e tão certo ao mesmo tempo que completamente errado.

Ele pedia minhas opiniões mesmo quando eu julgava desnecessárias, alcançava as prateleiras altas me chamando de baixinha, emprestava os livros que achava interessante, dividia seus bungeo-ppang sempre que chegava da rua, cantava mesmo que desafinado comigo no terraço. As vezes, quando pegava no sono e pela manhã o despertador anunciava mais um dia, apesar de estar cansada, cheia de dor no corpo e ainda ter aulas depois do trabalho, eu sorria.

O que eu estava pensando?

O que tinha acontecido comigo?

Chegado mais um dia de reuniões, duas staffs e eu terminávamos de organizar a grande sala dirigida as assembleias que o CEO usava para assuntos importantes. Sozinha, distribuía os últimos copos com garrafas de água sobre a mesa, quando ele chegou.

— Bom dia. — sua voz soou em um português PER-FEI-TO.

Ele sempre carregava uma xícara lotada de café pelos corredores e sempre se queimava nos primeiros goles, era típico.

Eu sempre gostei de café, nunca de ice americano. Donuts com açúcar e canela, não com cobertura. Sempre preferi as gotículas, o barulho, o cheiro da chuva que o sol escaldante. O cinza ao azul. Os livros que as pessoas.

Só que além de falar com ele, eu queria falar com ele sobre os livros. Eu nunca quis tanto quanto queria com ele.

— Bom dia. — respondi na mesma língua com um sorriso que transparecia tudo o que deveria permanecer silenciado.

— Eden, eu ... — disse se aproximando, e sinceramente não faço ideia de como aconteceu, ou como conseguiu, mas seus pés se atracaram no tapete e além do café ter voado, ele também foi direto até o chão.

Após um tempo já deveria estar acostumada com as suas trapalhadas, mas eu não estava por isso o arfar foi alto demais, quando a xícara se espatifou junto com o restante do líquido quente que ensopava o tapete impecável, o assoalho limpíssimo, sua roupa de marca.

— Nam-joon?!! — exclamei assustada, meus pés se movendo sem nem eu mesma processar meus atos. Ele tinha se cortado. O corte dominava toda a extensão de uma de suas mãos. — Meu Deus, você está sangrando. — também nunca fui uma grande fã de sangue.

Com cuidado ele se levantou, passei por cima dos cacos que facilmente poderiam me ferir por fora, para segurar sua mão entre as minhas só para me machucar por dentro.

Nós nunca nos tocávamos.

Eu sempre buscava meios de tocá-lo.

Um palavrão baixinho saiu de sua boca, sua expressão era dolorida, seus olhos só não mais sôfregos que os meus.

— Olha a bagunça que eu causei do nada. — meneei a cabeça em concordância por ele ter estragado um trabalho de 40 minutos em apenas 1.

Decidi rapidamente chamar alguém da limpeza para dar um jeito naquilo, por algum motivo nossas mãos permaneceram juntas e como elas pareciam perfeitas juntas.

— Você tem um band-aid? — perguntou com uma pequena careta ao manchar sua jaqueta além de café, também com sangue.

Apesar do corte ser extenso foi superficial, além do band-aid eu tinha álcool gel e alguns lenços. Saímos meio desconfiados pelo corredor, seguindo depressa até os banheiros que ficavam perto da área dos armários. Meu coração batia como um louco, ninguém tinha nos visto, porém, eu sentia como se todos estivessem a nossa procura. Sob seus olhos atentos, revirei minha bolsa atrás do curativo demorando bem mais que o aceitável pelo nervosismo de tê-lo em silêncio e tão vidrado nos meus atos.

— Como você sempre está relacionado a alguma tragédia? — perguntei baixinho secando sua mão com um dos lenços, lembrando das vezes em que esquecia os passaportes, perdia dinheiro, quebrava utensílios, esbarrava em todos os móveis da empresa. Suas orbes culpadas me miravam, nem ele mesmo sabia. — Tudo bem, agora calma, vai doer um pouco.

Embebedei outro lenço com o álcool, mal encostando nele para já ter fechado os olhos, comprimido os lábios e soltado mais um ou dois palavrões. Bem, bem baixinhos, na verdade mal os ouvi.

— Eu nunca presto atenção em nada, por isso essas coisas acontecem. — resmungou. — O que eu ia falar antes é que essa é a última reunião da playlist, vim perguntar se você não quer ouvir ela pronta comigo lá no terraço mais tarde... — sua voz foi se tornando mais baixa, mais íntima, meus olhos continuaram no corte, mas eu sorria, eu sorria e eu sorria.

Como evitar o sorriso?

Há um tempo ele me pegou fugindo para o terraço, depois disso lá passou a ser o nosso ponto de "encontro", sem ser um encontro. Joon apontou cada prédio, cada casa, casa ruela, todos os pedaços de Seoul visíveis lá de cima eram conhecidos por ele e também passaram a ser conhecidos por mim.

Com o tempo percebi que mesmo não sendo muito bom em demonstrar sentimentos e emoções ao vivo, ele as transborda em palavras escritas, cantadas, performadas onde mesmo que minimamente ele segura uma máscara diante de si, conseguindo assim transparecer um pouquinho do que realmente é. Essa me parece ser a sua relação com a música, por isso seu pedido me tocou tanto, por saber que embora ele não fale muitas coisas, sente. E ainda por cima queria que eu fosse uma das primeiras pessoas a ter o prazer de "ouvir" seus pensamentos.

— É melhor não. — neguei quando só o que eu queria era gritar, berrar e perder a voz depois de tantos sim's. — Ela ainda não foi lançada, o CEO não vai gostar, nem mesmo os managers.

Pus o band-aid transversalmente da melhor forma que pude, ele agradeceu em português segurando a ponta dos meus dedos no processo me fazendo erguer a vista lentamente, me mantendo cativa, prisioneira, enfeitiçada pelo seu olhar.

— Eden, ninguém precisa saber. — sussurrou.

Ninguém precisa saber.

Meu coração se agitava, ele se aproximou, sua frase ficou perdida no momento em que os dedos da sua outra mão vieram na minha direção, deslizaram lentamente pela minha face me acariciando de uma forma que nunca fizeram, mas que intimamente sempre pedi.

O que aconteceu com meus pés fincados?

— Diz que sim. — ele pediu mansinho.

Nam-joon tinha cheiro de café, sangue e canela.

Ali percebi que o "ninguém precisa saber" , o "diz que sim", não eram necessariamente sobre a mixtape. Ele queria ficar comigo. Com a mesma intensidade que eu? Não faço ideia, mas ele queria.

Suspirei.

Meus dedos se prenderam na ponta da sua jaqueta úmida, nossos olhos um dentro do outro, ele podia ouvir minha alma gritando pela dele? Cada parte da minha essência pedindo por ele?

A vontade não me deixava dormir. A curiosidade, necessidade de tocar suas covinhas lindas, tudo nele na minha opinião era lindo. Suas covinhas são fundas, quentinhas e convidativas, eu queria poder morar lá, onde seu sorriso mora.

Um sorriso sem dentes apareceu com minha confirmação sem palavras, apenas com gestos.

Sim.

Sim.

Sim.

— Eden... — o som do meu nome saindo da sua boca era incrível, o sentimento só aumentava eu não tinha mais onde me afogar, estava tomada.

Vozes.

— Namjoon-ah? — manager Sejin.

Arfei arregalando os olhos para a sua expressão de pânico. Nos separamos em um movimento brusco, abaixei a cabeça sentindo o rosto pegar fogo, presenciando nosso curto momento se perder pela mesma porta por onde o manager entrava.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou sério em um tom ameaçador.

Eu gelei.

De costas permaneci, forçando meu corpo a mexer nos lenços sujos, fechar o vidro de álcool, pegar o restante dos curativos ainda intocados, sem conseguir erguer mais uma vez a face.

— Hyung eu me cortei. — sua voz permaneceu neutra, pela visão periférica o vi erguendo a mão em direção ao manager como se nada além disso tivesse acontecido. — A Eden-shi estava me emprestando um curativo, mas eu vou me atrasar um pouco para a reunião, avise ao diretor por favor, tenho que trocar de roupa.

Silêncio.

Aqueles poucos segundos silenciosos me fizeram refletir sobre nossa relação. Até que ponto estávamos a levando? A tensão só aumentava, muitas possibilidades se desenrolaram em minha mente, mas por fim, o manager somente se deu por vencido, como se aquele incidente fosse o esperado para o líder. E francamente, era.

— Aigo!! — um suspiro mudo escapou dos meus lábios, me virei a tempo de observar o mais velho balançando a cabeça exasperado. — Como foi que isso aconteceu? — perguntou curioso.

Com afinco permaneci de pé e com a compostura intacta. Após uma leve resumida dos fatos, com alguns pequenos elementos inventados e também deixando de fora a parte em que procurava por mim, sem mais olhar ou virar na minha direção, Nam-joon se retirou agradecendo a ajuda de costas, não chamando mais atenção desnecessária para nossa proximidade.

Mesmo assim, o manager me olhava diferente.

— Eden-shi? — chamou antes que eu passasse pela porta.

Pisquei demoradamente ao me voltar para ele que se aproximou não muito, porém, o suficiente para poder manter a voz baixa.

— Você foi a única que restou daquele grupo, correto? — dúvida, suspeita, receio, perspicácia, ele ainda não estava totalmente satisfeito. Concordei com um leve balançar de cabeça e esperei que completasse. — Sim, eu me lembro. Bom, só quero ter certeza que suas funções dentro da empresa permanecem claras. Por favor, verifique se a sala já está pronta e depois volte para os seus afazeres normais.

Um sorriso nada reconfortante marcou suas feições, aquilo foi um aviso. Meus olhos tremeram, minha primeira reação foi abaixar a vista, mas a mantive erguida e sem deixar transparecer nada. Com uma pequena reverência atravessei o corredor a passos largos, implorando que a vontade de chorar passasse rapidamente.

O manager tem razão.

Eu tinha uma função dentro dessa empresa, e poderia ser facilmente substituída, mas ele não.

O que eu estava fazendo?

Nam-joon era rico, famoso, influente, intocável, inalcançável.

O que eu era?

Uma estrangeira sem posses, sem influência alguma e que ainda não tinha terminado a faculdade, mas mesmo assim acumulava sentimentos por alguém como ele. Tinha virado uma sonhadora quando eu nunca fui de sonhar, ele me tornara assim.

Claramente, ninguém precisava ter um Q.I tão alto para perceber que essa simples atração jamais funcionaria, que nossos mundos são distintos. Parecem e são. Isso nunca daria certo. Essa cena no quarto dos armários me fez perceber outra coisa, segredos.

E eu nunca quis ser o segredo de alguém.

O terraço.

Lá senti a brisa fria atingir minha pele antes que as lágrimas fizessem isso por ela. Além de chorar as escondidas ainda tive que voltar ao trabalho e fingir que estava tudo bem o restante do dia, foi horrível.

Quando cheguei em casa Eva de imediato soube que algo estava errado, ela sempre sabia, por isso me seguiu até o quarto.

— É por causa dele? — perguntou sentando na ponta da minha cama, acariciando meus cabelos, fazendo novas lágrimas surgirem somente com o carinho.

— É. — funguei.

Eva sabia sobre ele, nunca pude esconder nada dela.

— O que houve? — perguntou baixinho.

Fechei os olhos com força, afundando a cabeça no travesseiro.

— Nós quase nos beijamos. — admiti o erro de mais cedo, ainda de alguma forma sentindo o cheiro que ele carregava consigo. Minha garganta doía por se manter silenciada. — Eu gosto dele Eva, eu gosto dele.

Passei o restante da noite revirando nossas memórias como uma estúpida, e foi ali que decidi me afastar.

Eu nunca quis ser o brinquedo de ninguém.

Sung se agitou no meu colo avistando a mãe trazer seu prato cheio de comida, ele adora tteokguk. No mesmo instante a porta de casa se abriu, logo Wang apareceu na cozinha e agora sim podíamos todos jantar.

Yoon ainda esperava minha resposta, embora minha mente tenha sucumbido a meses atrás. Sorri para a mais nova de um jeito simpático, contando o que ela queria saber de uma vez.

— Hoje o Jungkook cismou de fazer hotteok — sempre entrego suas cartinhas para o maknae, trazendo de volta umas mil polaroids que ele separa especialmente para ela. —, ele sujou a cozinha inteira, mas a ahjumma disse que quando foi limpar, já estava tudo organizado. — Sério? Eu vi o hotteok no twitter até comi na volta da escola. — seus olhinhos brilhavam, ela não pararia em uma, não é? — Mais o que unnie?

Desnecessário confirmar que passamos todo o jantar ouvindo seus devaneio sobre o BTS. Wang e Eva trocavam olhares complacentes, eu tentava ignorá-la dando atenção ao Sung, recebendo várias colheradas pela face da criança que não sabia alimentar nem a si mesma, porém, está disposta a me entregar sua comida.

Horas depois, já no quarto de banho tomado e roupa trocada, antes de abrir os slides da próxima prova, História da Cultura e da Comunicação, eu pensei só mais uma vez nele.

E novamente, de gota em gota, eu me afoguei.