I'm Yours
2 My Mind
Notas iniciais
Tris
Eu não estava me sentindo mentalmente bem. Alguns dias eram simplesmente mais difíceis do que outros. Hoje era aniversário de um mês da morte de Peter. Uma data que eu preferia esquecer que existia. Seria tão mais fácil e menos doloroso se eu simplesmente conseguisse apagar essa data da minha vida.
Desci do carro rapidamente e caminhei para dentro do estúdio. Eu me isolei em um canto, pra não ter que conversar com ninguém. Eu não estava afim de conversar com ninguém. Era esse tipo de conversinha informal de bastidores que me dilacerava, porque alguém sempre tinha que perguntar como estava me sentindo ou se Peter fazia falta. Eu me limitava a dar um sorriso e responder que estava tudo bem e que eu estava me acostumando a ficar sem a presença dele.
Era óbvio que não estava tudo bem. E é claro que as pessoas não se importavam verdadeiramente com isso. Elas queriam mostrar que se solidarizavam, mas no fim, se sentiam aliviadas quando a gente não despejava nossas frustrações e dores em cima deles. Ou simplesmente perguntavam por curiosidade, na esperança que eu dissesse alguma coisa usável em uma capa de jornal.
O almoço com os amigos de Shauna tinha sido um dos raros momentos em que eu não havia me sentido exposta nem deslocada. Eles eram agradáveis e em momento nenhum tinham feito comentários ou insinuações. Ao contrário de todo mundo, eles não estavam ávidos por detalhes ou informações. Eles haviam mantido uma conversa informal e agradável, além de me tratarem super bem. Eu havia me esforçado ao máximo para ser simpática e tentar não derramar minha melancolia em cima deles.
Eu também agradecia imensamente a Tobias, que havia tomado posição e me ajudado a passar pelos paparazzi. Ele era um fofo e pelo o que eu havia escutado, um advogado competente e praticamente mortal. Eu havia escutado ele contando sobre o último caso que ele havia vencido e ele me parecia o tipo de pessoa que não aceitava um não como resposta e que não gostava de perder.
— Tris, minha linda, vamos começar a arrumar o make? — Jeff pergunta, me dando um abraço em seguida — Não que você precise — Ele acrescenta, sorrindo pra mim — Se você sair dessa forma em qualquer campanha, é sucesso, na certa. Eu agradeço a Deus por a maioria da sociedade não ser dotada de uma beleza extraordinária, senão, pessoas como eu estaria em emprego.
— Gentileza a sua — Eu respondo, dando um sorriso e o acompanhando o outro canto do estúdio — E Jeff, você é o melhor — Eu me jogo na cadeira e fecho os olhos. Jeff começa a trabalhar no meu rosto, cantarolando alegremente. Ele era o melhor maquiador da atualidade e era um amor de pessoa. Um dos poucos que, assim como Shauna, verdadeiramente estavam lá por mim, sempre.
Por mais que eu tentasse evitar, minha mente sempre acabava divagando até Peter e eu costumava ficar me lembrando da nosso história juntos. Eu o havia conhecido a minha vida toda. Nós praticamente havíamos crescido juntos. Nós tínhamos começado a sair três anos atrás e desde então, mantivemos um relacionamento sério e estável. Eu mal conseguia pensar nele sem ter uma vontade imensa se chorar.
Eu estava evitando ao máximo qualquer resto da presença dele na minha vida. Eu tinha tirado das paredes e dos porta retratos todas as fotos em que ele aparecia e as tinha guardado em uma caixa e depois a jogado no fundo do meu guarda roupas. Eu também havia me livrados de presentes, joias e bilhetinhos. Havia apagado o contato dele do meu celular e apagado as fotos.
Eu estava trabalhando como uma louca, tentando preencher o vazio e ocupar o espaço com qualquer outra coisa que não fosse lembranças dolorosas. Eu era o tipo de pessoa que tentava encobrir e sufocar a dor na esperança que ela fosse embora.
Tinha dias que ela ia embora. Ou não ia, mas pelo menos não me machucava tanto. Mas tinha dias que era como se ele estivesse ao meu lado e eu não pudesse alcançá-lo de maneira nenhuma. Eu nem tinha tido a chance de me despedir.
Eu havia assistido ao fatídico vídeo umas mil vezes, tentando entender porque ele. Porque haviam atirado nele. Ele nem tinha reagido. Eu havia buscado conforto naquele vídeo, poque era a última imagem dele vivo. Era a última vez que ele estava falando, sentindo e respirando, mesmo que estivesse com medo. Mesmo que estivesse a segundos de sua morte. O meu adeus tinha sido para uma tela de televisão e eu não conseguia imaginar nada mais doloroso do que aquilo.
— Tris — Ouço a voz de Jeff me arrancar do abismo dos meus pensamento — Preciso que você abra ou olhos agora — Ele diz, suavemente. Eu respiro fundo, espantando a vontade de chorar e fazendo com que as lágrimas sejam bloqueadas — Shauna já chegou e está louca pra fazer as fotos com você. Segundo ela, você e a câmera fotográfica nasceram um para o outro — Eu dou um sorriso pra ele, que me entrega um batom vermelho.
Mais uma das minhas marcas registradas. O batom vermelho e o cabelo ondulado jogado de lado, meio bagunçado, mas que destacava meu rosto e meus olhos.
— Jeff, você arrasa — Eu digo, terminando de passar o batom.
Shauna começa com as fotos minutos depois e eu aproveito para dar meu melhor para as lentes. Eu sabia que se me concentrasse profundamente em alguma coisa eu conseguiria empurrar a dor para algum lugar afastado.
Ela me instrui a me posicionar da maneira que ela achava que ficaria com melhor visibilidade nos catálogos. Eu faço as coisas da maneira que ela pede.
— É absurdamente impossível olhar profundamente nos seus olhos e não se perder — Uma voz chama a minha atenção. Era Caleb. Eu dou um sorriso e peço um minuto para Shauna, que concede — E aí, maninha, como você está?
— Trabalhando duro — Eu respondo, sabendo que ele entenderia o duplo sentido da minha frase. Trabalhando duro para superar — E você? Eu estava com saudades.
— Vamos dizer que o papai está me levando à loucura — Ele diz, rindo — Não tá sendo nada fácil fazer ele desgrudar mentalmente da empresa.
Meu pai tinha se aposentado da presidência da empresa da família e o cargo agora era de Caleb, mas ele parecia não entender que já bastava dele dando ordens lá. Caleb estava tendo dificuldades em moldar seu próprio jeito de gerência.
— Manda a real pra ele — Eu digo, rindo — Ou compra uma passagem de viagem pra ele e pra mamãe. Aí ele some e te deixa organizar as coisas — Eu sugiro, dando de ombros e o fazendo rir.
— Mandou muito bem, maninha — Ele diz, parecendo considerar a ideia verdadeiramente — Onde você acha que é longe o suficiente e que demore para eles conhecerem o lugar todo?
— Mamãe sempre quis voltar pro interior da Espanha, onde eles passaram a lua de mel — Eu digo — Compra uma passagem pra lá.
— É exatamente isso que eu vou fazer assim que chegar na empresa — Ele diz, me parecendo aliviado por ter achado uma solução — Eu só preciso que ele fique longe tempo o suficiente para que eu molde a empresa do meu jeito e contrate quem eu acho que devo, sem ele ficar me atazanando as ideias.
— Papai pode ser incrivelmente chato quando ele quer — Eu digo, rindo e Caleb concorda com a cabeça.
— Como se não bastasse, o contrato da empreiteira com a firma de advogados está acabando e o advogado que sempre foi o responsável pela corporação vai aposentar — Ele suspira — Agora tenho que correr atrás de uma firma de advogados também, como se eu já não tivesse muita coisa pra fazer.
— Você devia tentar a Eaton & Pedrad — Eu digo, dando de ombros — Conheci os dois hoje. Parecem competentes, são jovens e formados em Harvard. São amigos de Shauna, ela provavelmente pode te dar mais informações e o telefone deles, caso você se interesse.
— Eu devia vir falar com você mais vezes — Ele diz, me dando um abraço — Te trouxe dois problemas e você resolveu os dois — Ele faz uma pausa — Te amo maninha.
— Também te amo — Eu respondo e ele me dá um abraço de despedida, dizendo que tinha que ir. Vejo quando ele para pra falar com Shauna e eles conversam por alguns segundos. Ela provavelmente estava dando informações a ele sobre Tobias e Zeke.
Eu bebo um gole d’água, respiro fundo e me preparo para continuar as fotos. Eu estava me sentindo um pouco melhor depois de conversar com Caleb, mesmo que brevemente. Jeff aproveita para retocar meu batom e dar mais uma bagunçada no meu cabelo.
Shauna da o comando e eu olho para a câmera e abro um sorriso.
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