Im Still ...
1 Hope
Notas iniciais
Sentado em uma cafeteria lá estava ele de novo com seus olhos distantes, esperando que algo acontecesse ou que alguém aparecesse, apesar de nunca saber o que exatamente estava esperando. O jovem professor alto, de cabelos castanhos e curtos, de olhos negros e pele morena, continuava indo àquela cafeteria todos os domingos, naquele mesmo horário. Sempre se sentava na mesma mesa em frente à grande janela de vidro que lhe permitia visualizar a avenida e o movimento nas manhãs em que as pessoas saiam para poder passear e relaxar. Ele sentia aquela ansiedade que não o abandonava um minuto sequer sempre que se sentava ali e se punha a observar o movimento de pessoas ido e vindo, enquanto tomava seu café. A garçonete – já conhecida – lhe trazia o seu prato de sempre e com um sorriso simpático lhe desejava um bom dia, para mais tarde com a expressão transformada de maneira contida e cabisbaixa despedir-se do jovem ao ver a decepção estampada em seu rosto quando este ia embora.
Era sempre assim.
Em um domingo de chuva, o movimento fraco mostrava que as pessoas não estavam dispostas a sair de suas casas. Não havia circulação alguma, mas o jovem cliente assíduo estava lá, na mesa que já poderia considerar sua, com o olhar perdido nas gotas de chuva que escorriam pela vidraça. Parecia entretido com a pequena corrida feita pelas mesmas que competiam entre si com a ajuda da gravidade.
– Mais café? Acabou de ser feito – A garçonete sorriu gentilmente. – É por conta da casa.
– Obrigado – devolveu o sorriso. – O dia está realmente pedindo por um café bem quente.
– Sim! – encostou-se à mesa. – Me admira que mesmo assim o senhor tenha vindo hoje. – E assim, como ele direcionou sua atenção para a janela, depois de um breve silêncio continuou. — Parece que a espera realmente vale a pena.
– Espera? – disse dando agora total atenção a mulher que estava à sua frente.
– Sim, o senhor não vem todos os domingos esperar por alguém? – olhou-lhe curiosa.
O jovem sorriu e desviou o olhar de volta ao seu entretenimento anterior. A garçonete nada mais disse, achando melhor se retirar.
– Gostaria de saber o que tanto espero. – disse baixo, mas alto o suficiente para a mulher ouvir.
– Como?
Ele continuou sorrindo olhando para a vidraça, agora embaçada pelo ar morno que fluía da xícara próxima.
– A única lembrança que tenho da minha vida... – suspirou. – É estar aqui em um domingo nesta mesa esperando alguém. Não faço idéia de quem seja, mas eu estava esperando alguém importante. – tomou outro gole de café e soprou esperando que a temperatura fosse capaz de embaçar mais ainda a vidraça. – Só continuo na esperança que esta pessoa apareça... – parou e voltou a olhá-la em seu semblante confuso. – É estranho isso, não é? – riu sem humor.
– Mas por quê?
– Porque sinto que é a única maneira de saber quem realmente eu sou – tomou mais um gole.
– E por isso vêm todos os domingos? – A moça parecia ainda desacreditada. – Mas não me lembro de outra pessoa que tenha vindo junto com o senhor desde que começou a freqüentar. Eu sei que poderia lembrar-me.
O outro sorriu novamente mirando a mulher.
– Eu sofri um acidente há dois anos. Não acho que freqüentava este lugar antes disso.
Ela parou, ainda digerindo as informações, e ainda receosa, pareceu finalmente ligar os pontos.
– Mas então o senhor não se lembra de quem é?
– Não lembro – A mulher abriu a boca em espanto. – Óbvio que sei de coisas básicas como meu nome, onde moro, o que eu faço... Sou professor – riu da cara que a jovem fazia. – As lacunas foram preenchidas com o decorrer do tempo. Sei quem sou, ou pelo menos, suponho que estou vivendo a minha vida, mas os domingos continuam uma tela em branco – terminou mostrando em sua voz o quanto se sentia frustrado com aquela situação.
– Mas se já faz tanto tempo? E se essa espera for inútil?
– Eu realmente espero que você só esteja sendo pessimista, ou que me ofereça mais cafés grátis aos domingos – disse já lhe devolvendo a xícara vazia.
– Eu realmente lamento – tentou se recompor, terminando de pegar a louça suja da mesa e colocando em sua bandeja. – Espero que sua espera não se estenda muito e que você não enjoe da nossa comida – sorriu e se retirou.
O jovem suspirou. Conhecia aquele olhar, cansara de vê-lo ser dirigido a si. As pessoas achavam sua espera ridícula e penosa... Até ele próprio a achava absurda por vezes! Mas algo não o deixava desistir, quando acordava naquele dia da semana seu único intuito era que sua lacuna fosse preenchida.
~~
Caminhava pela calçada ainda vazia, via as folhas secas de outono voando com o vento frio que aquela manhã proporcionava enquanto fazia seu típico caminho dominical. Virou a esquina passando por uma praça onde vislumbrava aquele caminho cercado por árvores que com suas folhas amareladas dava um contraste quase medieval com o chão rochoso. Sempre foi tentado a passar por elas. E mesmo sabendo que se simplesmente desse a volta chegaria ao seu destino mais rapidamente, tornou-se um hábito fazer seu caminho por aquelas árvores. Ainda sentindo os ventos gélidos tocar-lhe a face, virou à direita indo em direção à rua seguinte, atravessando e seguindo para a avenida tão conhecida. Caminhando mais um pouco e parando frente à lanchonete, sorriu para a garçonete, e assim como fazia todos os domingos, já ia se dirigir à sua mesa quando a mesma aproximou-se impedindo o caminho.
– Lamento... Realmente não esperava, mas ele chegou cedo e eu estava atendendo. Não tive como impedir, por isso ela esta ocupada. Acho que por hoje terá que trocar de lugar ou esperar no balcão até que ele saia – disse girando o rosto até o jovem de cabelos negros que caiam cobrindo quase que completamente o rosto. Com a pele pálida, ombros e braços fortes, tomava seu café com o olhar distante naquela vidraça. – É estranho o que vou dizer, mas ele me lembra muito o senhor. O mesmo pedido e o jeito distante. A mesma aura — riu bem humorada.
Mas o homem não dizia nada. Seu coração palpitava tentando ver o rosto do jovem como se necessitasse comprovar de quem era a face que sabia nunca ter visto antes. Seguiu em direção à mesa ignorando o comentário da mulher e apoiou-se na cadeira frente ao rapaz que lhe dirigiu seu olhar, um fino sorriso se formou em seus lábios e pôs a xícara já vazia sobre a mesa.
– Você demorou. – O jovem de cabelos negros disse lhe fitando completamente.
– Desculpe por tê-lo feito esperar. – deu de ombros, era estranho como sentia aqueles gestos familiares.
– Vai tomar café também? Eu posso esperar – encostou-se à cadeira.
– E pra onde iríamos? – O moreno atava-se a cada detalhe do jovem a sua frente, sua voz calma, e ainda assim com um tom trêmulo, o fascinou.
O outro gargalhou, escondendo o sorriso para o mais alto à sua frente.
– Nós vamos para casa, Yunnie.
YunHo sorriu, sentindo cada poro do seu corpo corresponder àquela risada que confortou-lhe o ser, sentando-se frente ao jovem e sorrindo mais abertamente quando seus olhos se encontraram.
Jamais havia visto um anjo, mas sentia que aquele à sua frente poderia ser o mais lindo de todos. Seu peito preencheu-se de ternura e involuntariamente levou a mão por cima da mesa segurando a do outro que ainda mantinha-se próxima da xícara. Um olhar doce lhe foi lançado quando sua mão alcançou a do outro que em retribuição entrelaçou seus dedos e, com o curto rubor que lhe preenchia a face, sorriu com doçura silabando algumas palavras que poderiam ser entendidas como um “Eu senti sua falta”.
– Onde você esteve? – perguntou baixo, ainda perdido na sensação que eram suas mãos juntas. Ele podia sentir a mão quente do outro pelo contato com o recipiente quente contrastada com a sua ainda fria daquela manhã.
– Pagando pelos meus pecados. – abaixou os olhos. YunHo podia sentir a dor do anjo à sua frente, e segurou-lhe mais forte a mão.
– E pagou todos eles?
– Se você está aqui, então acho que sim. – disse ainda mais baixo.
– Vamos para casa então. – sorriu gentil para o homem, passando-lhe segurança.
Ambos levantaram e seguiram para a saída. Não se importando para as pessoas que os olhavam por ainda estarem com os dedos enlaçados. Seguiram pelo mesmo caminho que YunHo fizera mais cedo, cruzando a avenida, entrando pela rua que seguia para o caminho arborizado do parque. Sim, o jovem de cabelos negros também preferia andar pelo caminho arborizado.
– Nunca pensei que faria esse caminho novamente com você – disse ainda ao acaso. – Exatamente aonde nos vimos pela primeira vez.
Seu olhar perdido vagava pelas lembranças que o jovem moreno não possuía, porém ainda assim ficou calado apenas desfrutando daquela mão macia junto a sua, o perfume amadeirado fluía no ar a sua volta, apenas ouvindo aquela voz aveludada que fazia seus sentidos aguçarem e o coração palpitar.
Continuaram caminhando, seguindo o caminho já conhecido por YunHo e pelo jovem de cabelos negros, entraram a rua e seguiram em frente até uma casa verde simples, com um andar, uma pequena varanda com um balanço, algumas plantas ao redor, um jardim não muito bem cuidado, mas ainda assim, limpo.
– Eu pedi que não mexesse no jardim, você é péssimo nisso – riu humorado ao notar algumas mudas que deveriam ter sido trocadas de vaso há algumas semanas.
– Você não estava aqui, então tive que dar o meu jeito – coçou a nuca tentando não ser pego em flagrante. Tentou sim manter o jardim bonito, mas não obteve muito sucesso. – Não vejo esta casa sem ele, mas ainda assim, sinto que ele está errado.
– Por quê? – o outro o olhou confuso.
– Vamos entrar. – seguiu a frente ignorando a pergunta e abriu a porta.
Adentrando na casa, pôde ver a sala de estar enorme, ampla e quase sem moveis, um piano negro de calda dava uma beleza singular ao local, pequenas poltronas de couro davam um toque sutil ao ambiente, com o tapete felpudo preto que contrastava contra todo o ambiente de cor clara bem diferente da simples fachada. Mais ao fundo podia ver a porta e uma mesa que dividia a cozinha, com armários trabalhados em madeira branca rústica talhada, enquanto entravam bem a frente daquela deslumbrante sala que dava diretamente a escada que levaria ao segundo piso, onde ficava o quarto. O único cômodo do segundo piso da casa.
YunHo seguiu diretamente para cima deixando o outro ainda a porta. Subiu as escadas indo em direção ao quarto, tinha que esclarecer uma última lembrança e sabia que só aquele homem seria capaz de lhe devolver a última lacuna a ser preenchida ou abrir a porta para a mesma.
– O que está errado, YunHo? — disse à porta do quarto enquanto via o outro sentar-se na cama e remexer na gaveta do criado-mudo.
– Não há nada errado – disse ainda ignorando o outro.
– Por que você foi à cafeteria hoje? – perguntou desconfiado.
– Por que eu não iria? – o encarando finalmente, levantando e seguindo para o outro ficando à sua frente, tão próximo que fez o rapaz de cabelos negros afastar-se.
YunHo levou a mão ao rosto do anjo. Era ainda mais lindo de perto, sua face agora levemente rubra pela sua aproximação, mostrava que realmente não era a primeira vez que ficavam tão próximos. Isso também contando como quando pegou em sua mão e ambos saíram pelas ruas de dedos entrelaçados e ele nada disse, ou quando mencionou do seu primeiro encontro por aquele caminho, somente comprovava o que supusera quando entrou na cafeteria naquela manhã. Era ele a quem esteve esperando por tanto tempo e eram íntimos o bastante para tais liberdades, e se seu coração palpitasse tanto quanto o seu estava naquele momento, já sabia qual o próximo passo a ser dado.
Desceu os dedos pela sua face, passando pelo pescoço vendo a pele leitosa arrepiar-se e o jovem arfar quando a mão parou em seu peito. Sentiu aquela palpitação tão palpável como se estivesse com o coração do outro na palma de sua mão.
– Sabia que eu estaria lá? – O anjo à sua frente disse em um sussurro, a respiração falha ao notar os lábios do outro tão próximos. Sentiu o hálito quente bater em seu rosto e os lábios pousarem nos seus, como um experiente degustador que primeiro sente a textura para depois aventurar-se a prová-la em busca de mais.
– Eu esperava que sim.
E tomou os lábios do anjo definitivamente, provando seu gosto, o sabor daqueles lábios doces e não mais desconhecidos. Explorou cada recanto daquela cavidade, desvendando cada centímetro, procurando por alguma lembrança. A reconheceu, sabia que já havia provado dela, seu sabor único, os lábios que encaixavam perfeitamente aos seus, os movimentos sincronizados e logo mais necessitados, provando que o outro ansiava por aquele beijo tanto ao ponto de não se conter. YunHo levou a outra mão à cintura fina, sentindo o outro enfiar os dedos em seu cabelo se entregando completamente àquele beijo, agora profundo e cada vez mais forte. Sentia os dentes chocarem-se, as línguas travarem luta por dominação, aqueles dedos que lhe puxavam mais o couro cabeludo o empurrando novamente em direção à cama. Sentiu as pernas baterem na madeira e logo estavam deitados. O anjo por cima, agora com as mãos em cada lado do seu corpo o olhava ansioso, os lábios avermelhados devido a força do beijo, os olhos nebulosos de puro desejo, mas ainda sim questionadores.
– YunHo?
– Hum? – tocou lhe o rosto a fim de aproximá-lo. Estava prestes a atar-se novamente aqueles lábios tão saborosos quando o outro o parou.
– Qual é o meu nome?
O moreno sorriu, mas nada disse.
– Você não sabe não é?
– Eu sei o seu nome. – tentou novamente puxá-lo.
– Então o diga. – YunHo desistiu de tentar aproximá-lo novamente, simplesmente suspirou desviando do olhar questionador do outro. – Sabe por que você não sabe, YunHo? – mexeu nas mexas castanhas agora analisando cada traço do rosto tanto tempo inexplorado por seus olhos, vendo cada novo traço, vendo a antiga cicatriz que o outro havia ganhado quando ainda muito jovens, enquanto seus dedos vasculhavam algo na cabeça de YunHo se detendo na parte acima de sua orelha parecendo ter encontrado o que procurava. Sorriu triste, selou seus lábios brevemente com o outro e se afastou – Porque você não lembra.
Riu em desgosto, encostando-se à cabeceira da cama tomando o travesseiro e o abraçando. YunHo sentou à sua frente e riu falsamente derrotado, ajeitando a mexa que insistia em querer esconder aqueles grandes olhos.
– Por que você está dizendo isso? – tentou amenizar a voz. A verdade parecia-lhe inútil, por que eles simplesmente não podiam continuar como se estivesse naquela situação desde sempre?
– Por que um traumatismo craniano e dois meses em coma induzido não vem sem seqüelas, YunHo – respirou fundo. – Você não mudou nada na casa, o piano continua intacto depois de dois anos – sorriu triste, olhando tudo à sua volta. – Você não me chamou pelo nome uma única vez sequer – voltou sua atenção para a gaveta do criado ainda aberta, fechando-a. — Se lembrasse as coisas que aconteceram, nada seria assim.
Um momento de silêncio se instalou naquele quarto. Nenhum dos dois parecia querer quebrá-lo, mas YunHo viu que era necessário.
– Você tem razão. – sentou-se ereto olhando firmemente o rapaz, fazendo-o encará-lo. – Eu não sei o seu nome, mas eu sei que você morava aqui comigo... – suspirou. – Que dormia nesta mesma cama, que cozinhava pra mim. – coçou a nuca. — Que gostava de andar com os dedos entrelaçados aos meus. E que, por algum motivo, aquele piano não era meu para que eu tivesse autorização para mexer nele – desviou o olhar para a porta. – Eu sei que sou um professor, que gosto de ler, que sou caseiro, apesar de gostar de dançar. – voltou a encarar o jovem. – E que apesar de dizerem que eu sofri um acidente de carro, a única cicatriz que possuo é na cabeça e em um único lugar. – Seu semblante tornou-se serio. – Não foi um acidente, não é?
– Não.
– E você me pediu para que o esperasse naquela cafeteria em um domingo, não foi?
– Sim.
– E você é a única pessoa que sabe quem eu sou realmente – afirmou.
O outro o olhou surpreso. YunHo prosseguiu.
– Um professor teria pelo menos três ou dois livros didáticos na biblioteca e eu tenho todo gênero de livros, mas nenhum pedagógico – continuou. – Em compensação, tenho uma lógica dedutiva que me assusta às vezes, sou capaz de contabilizar e analisar espaços em pouco tempo após adentrá-lo. – remexeu no cabelo mostrando o quanto o deixava desgostoso não ter as respostas para tantas perguntas e as respostas que tinha que não condiziam com as mesmas. – Tenho pesadelos em que sempre acordo abalado apesar de não conseguir me lembrar de nada. Não tenho parentes nem a lembrança de nenhum, apesar de ter o retrato de uma mulher na sala que suponho que seja minha mãe, mas não sinto carinho algum ou lembrança. Ao contrário de tudo que disseram que eu era, você foi o único que, apesar de não ter me dito absolutamente nada, me é familiar em alguma coisa – o encarou.
– E por isso você trouxe um estranho pra casa?
– Um estranho que sabia exatamente onde eu morava, – sorriu. – que não ficou impressionado com a entrada da sala de estar e que não achou estranho eu ser tão próximo no primeiro encontro — concluiu vitorioso.
– E você continua um monstro da dedução, Sherlock Holmes.
Riu alto. Jogando o travesseiro no outro que também riu.
– YunHo... – chamou-o com os braços e o fez escorar-se à cabeceira junto a si, lhe laçando a cintura e acomodando-se em seu peito. – A última vez que acordamos juntos, passamos uma hora nesta cama em silêncio. – pegou a mão de YunHo e voltou a entrelaçar seus dedos. – Sim, eu gosto da sensação da sua mão quente entrelaçada à minha. Sempre me fez sentir seguro – aproximou-a do rosto e beijou-a. – E você tem razão, não era um professor, apesar de sempre ter tido todo o tato para isso, por isso a agência te deu essa profissão.
– Agência? – perguntou confuso.
– Você na verdade é um policial, Yunnie. Estava em uma missão de campo quando foi atingido na cabeça por uma bala.
– Como é? – o olhou assustado.
O outro riu.
– Eu achava que você sabia demais pra ser um simples policial municipal, mas eu também vivia viajando, nunca que iria imaginar que você era um agente – suspirou. – Nos conhecemos por acaso quando ainda éramos adolescentes, depois que minha mãe morreu e eu fui para o abrigo – parou. – Mas eu acabei sendo adotado. – ajeitou-se sentando ao lado de YunHo, agora preferindo ficar frente a frente com ele. – Foi estranho porque adolescentes da nossa idade não são adotados. Em geral, ficam no abrigo até completar a maioridade e eu torcia que comigo fosse assim. Não queria me separar de você, era meu único amigo lá, mas não foi isso que aconteceu.
Parou por um instante, as lembranças ainda tão vivas e dolorosas em sua mente. Era sempre assim, desde que tinha memórias de tempos que nem seu ser de agora existia. Conhecia YunHo e quando se via perdido nele, o destino os separava, sempre de forma trágica. A maldição que lhes fora jogada perduraria ainda por quantas vidas?
– Anos depois nós nos encontramos de novo, você já era um homem feito e eu também. – sorriu fraco. — E com o tempo acabamos descobrindo que o que queríamos realmente não era só a amizade. Não tivemos muita dificuldade em aceitar que queríamos um ao outro, e em poucos meses já morávamos juntos. Gostávamos um do outro, então por que esperar? E você sempre foi péssimo cozinhando – lhe encarou brincalhão fazendo o mais alto sorrir. – Uma vez quase pôs fogo na casa e conseguiu destruir a minha cozinha – fez um bico enorme. – À noite, depois do jantar, você sempre me pedia para tocar o piano. Era a única pessoa que só conseguia se concentrar em uma leitura ouvindo música. Tinha noites que me fazia tocar por horas. Você era muito mal comigo, Yunnie.
– Por que eu sinto que você está sendo dramático? – voltou a lhe tomar as mãos, puxando-o novamente para encostar-se em seu peito.
– Porque você dizia que eu tinha que praticar. Um pianista não podia perder a prática nunca. Sempre usava essa desculpa, seu cara lavada. – acusou-lhe indignado.
Desta vez, YunHo foi quem se desatou a rir.
– Então, você é um pianista? – disse ainda humorado. – Não toquei no seu piano, até apertei algumas teclas até descobrir que não sabia como fazer uma melodia com ele, por isso deduzi que não era eu quem o usava.
Ambos riram. Depois de algum tempo em silêncio o outro continuou.
– Éramos dois mentirosos, YunHo.
– Como?
– Eu toco piano por hobby e você nunca foi um simples agente da polícia como me fez acreditar. – disse baixo começando a sua confissão. – Trabalhava para a NIS*, vivia correndo risco de vida e se seus inimigos soubessem de mim poderiam usar isso contra você – riu sem humor. – Então, você tinha outra “família”.
– Família? – repetiu surpreso.
– Você tinha uma esposa e dormia algumas vezes com ela quando me dizia que tinha que fazer plantão, ou que iria contribuir em alguma investigação importante que poderia lhe dar uma promoção. E eu acreditava piamente.
– Mas... Eu não estou entendendo.
Se isso fosse mesmo verdade onde estaria sua família, então? E se tinha uma esposa, então, por quê?
– Eu nunca procurei saber a verdade porque me era mais do que conveniente que você passasse mais tempo fora de casa do que comigo. Ter um policial como companheiro não é fácil, ainda mais na minha profissão.
– Seja mais claro, parece que quanto mais você tenta explicar mais confuso fico.
– Eu sou um assassino de aluguel, YunHo – separou-se do outro, sentando de costas para o moreno à beira da cama e suspirando frustrado – E pra resumir toda a nossa drástica historia, eu recebi o trabalho de matar a família de um agente que simplesmente negou a se corromper. Teria que seqüestrá-los e mataria um por um até que o agente cedesse. E qual não foi a minha surpresa ao adentrar a casa, prender a mulher e o rapaz que seriam a esposa e o cunhado desse agente, me deparei com uma foto dos dois com você nela. Você usava uma aliança dourada diferente da que eu usava e que estava devidamente escondida em meu cordão. Eu os prendi e comecei o interrogatório como me foi pedido. Descobri quem eram eles. Admito que torturei mais cruelmente a mulher, pois eu via cenas e mais cenas de vocês dois juntos, e os gritos de dor dela me fazia sentir o doce sabor da vingança tentando estancar meu ódio.
Fechou os olhos, não como se estivesse com remorso do que havia feito, mas porque ainda depois de tantos anos, sentia-se constrangido em revelar quem era realmente. Doía imaginar que deixou-se enganar tão facilmente. Havia sido treinado para ser frio, calculista e prático. Mas como tantos já diziam, o amor cega as pessoas. Jamais quis que YunHo descobrisse do que seria capaz. Era impossível para si mostrar essa face sombria para a pessoa que mais amava. Na verdade, a única.
– Mas ai eu descobri pelo rapaz que na verdade não era irmão dela, e sim o amante que ao vê-la sofrer mostrou um interesse bem mais profundo. Então, ele me revelou que seu casamento era apenas fachada, que os dois não tinham nada haver com você, que eu parasse de torturá-la. Porém, as pessoas que me pagavam queriam a sua cabeça – suspirou. – Mesmo revelando que não era verdade que eles tinham haver com você, ainda assim, minhas ordens eram para matá-los, mas quando eu ia puxar o gatilho você atirou em mim – riu. – Acho que o maior choque da minha vida foi ver a sua cara quando me viu apontando a arma para você assim como estava fazendo comigo.
O outro se mostrou surpreso. Sentando-se ao lado do rapaz, não sabia que ação tomar, as palavras que ele pronunciava doíam em seu ser, não por seu conteúdo, mas pela melancolia que o anjo passava através delas.
– YunHo, eu fui adotado pra ser treinado pela Coréia do Norte. Eu morri oficialmente no acidente de carro que matou a minha mãe, fui vendido como um animal pra ser domesticado para caçar e matar pessoas. E era o que eu vinha fazendo desde que pus novamente os pés na Coréia do Sul. Possivelmente alguns dos seus companheiros foram mortos por mim. Você talvez já saberia meu codinome e para quem eu trabalhava. Iria me matar, apesar de saber que suas ordens seriam de apenas me prender e levar a interrogatório na NIS.
Olhou o outro ao seu lado que não esboçava nenhuma reação. Voltou a mirar a cama.
– Naquela manhã, nós dois combinamos de no domingo ir àquela cafeteria porque eu queria ter um passeio agradável pelo parque com você e poder comer o prato especial de domingo que havia provado uma vez e queria desesperadamente a receita. Nunca imaginamos que em algumas horas eu estaria com a perna sangrando e apontando uma arma para sua cabeça e vice-versa.
Olhou o outro com certo desespero.
– Eu não seria capaz de matá-lo, YunHo. – pausou. Queria a certeza que o maior acreditava em suas palavras, o outro apenas lhe olhava apreensivo, fazendo assim o rapaz levantar-se exasperado. – Eu precisava fazer alguma coisa. Logo outros agentes chegariam e as pessoas que queriam a sua cabeça também. Eu torcia que os seus agentes chegassem, mas não foi assim. Eles iriam matá-lo, YunHo. – engoliu em seco. – Eu só sabia que tinha que te proteger. Acho que o choque de me ver matando tantas pessoas tão friamente deve ter feito você despertar, então quando dei conta, você avançou pra cima de mim e por reflexo eu me esquivei e atirei em você – pausou. – Na sua cabeça.
O jovem de cabelos negros pode ouvir o outro arfar ao seu lado. YunHo não esperava por essa, a pessoa causadora de tudo, era o anjo à sua frente? Seria ele o tal anjo da morte ou algo assim?
– Foi uma atitude tão precipitada – riu sem humor. – que normalmente eu teria matado você na hora. Por sorte ou destino apenas pegou de raspão, mas mesmo assim você caiu inconsciente. Nessa hora tudo pareceu parar, como em um filme, e como se eu já tivesse vivido aquilo diversas vezes, você morrendo na minha frente, por minha culpa – fixou seus olhos em suas mãos que se retorciam tentando conter o nervosismo.
– Você... você não tem que continuar se não quiser. – Estava assustado, nunca pensou que as coisas tivessem sucedido daquela forma.
– Não, me deixe terminar – tomou novamente o fôlego e continuou. – Os outros agentes chegaram, mas eu simplesmente não tinha ação nenhuma. Achava que havia realmente matado você. – mirou o outro ao seu lado, o rosto retorcido pela dor daquela lembrança. — E eu só queria um fim de tudo, mas os agentes me deixaram inconsciente antes que eu me juntasse a você. – Ele respirou fundo, tentava segurar as lágrimas que lhe banhavam os olhos em busca de liberdade, mas não permitiu que saíssem — Graças a YooChun eu soube que você estava vivo – sorriu. — Mas eu não teria o mesmo fim.
– Mas...
O rapaz não permitiu que YunHo continuasse prosseguindo seu relato.
– Fui enviado à Coréia do Norte como agente duplo, uma missão suicida na verdade. Fui fazer o que eu havia sido treinado por eles para fazer, com a promessa de YooChun que se eu pagasse pelo que havia feito, eu morreria assim como você, Yunnie, e poderia começar uma nova vida.
YunHo não precisou muito para entender, então o agente, a pessoa que ele era, havia morrido, e com uma nova identidade, ele podia viver tranquilamente sua vida, sem medo de ser descoberto. Sem vestígios, sem lembranças.
– Demorei a conseguir tomar coragem para voltar a essa cidade, tive que mudar também, mas hoje acordei decidido a ir à cafeteria que havia dito que queria ir... Pelo menos por hoje, eu me permitiria ser masoquista. Daí você apareceu como em um conto. E aqui estamos nós dois.
O silêncio reinou naquele quarto. O ambiente pesado rondava as duas pessoas ali. O medo, receio, o lamento. Era óbvio esse sentimento vindo dos dois homens que há muito tempo eram destinados um ao outro.
– Por que você foi hoje à cafeteria? – o maior quebrou o silêncio opressor, sua voz soou fria. O mais velho já esperava por isso.
– É nosso aniversario, YunHo. – disse baixo desviando seu olhar para o nada, confessando uma das únicas lembranças que o fazia sorrir nesses últimos dois anos. Esse era o único dia em que se permitia lembrar do sorriso de YunHo e desfrutá-lo sem que a culpa corroesse suas tão preciosas boas lembranças, que agora se viam fracas dentro de si – Como temos apenas dois dias de diferença eu sou do dia 4 e você do dia 6, comemoramos juntos no dia 5 de fevereiro. Que é hoje. – riu melancólico.
Observou YunHo, esperando alguma repulsa, alguma atitude que lhe mandasse para longe mas o outro apenas ouvia sem esboçar qualquer atitude.
– YunHo? – chamou receoso.
O moreno desviou os olhos aos seus e sorriu forçado.
– É uma historia difícil de acreditar, sabia? – riu nervoso. – O pior é que eu acredito nela e a aceito como o que aconteceu realmente. Mas é como se fosse uma simples história de uma noite em que eu bebera demais e simplesmente estou ouvindo que caí na rua, bati a cabeça e por isso fui parar no hospital. – suspirou frustrado. – Não existe diferença entre as duas historias. Não posso dizer que estou feliz em saber a verdade, — coçou a nuca ainda confuso. – e não vou mentir e dizer que estou sentindo alguma diferença entre esta e a outra história sobre o acidente. Eu simplesmente não lembro e não vou lembrar. – fixou seus olhos no outro, sério. Queria passar a certeza daquelas palavras. – Minha amnésia é irreversível.
Sentiu uma leve pontada em seu peito ao ver o rosto do anjo voltar a se retorcer em dor. Sabia que a informação que havia dado o afetou duramente. Mas assim como ele estava sendo sincero sobre suas histórias sem lhe poupar de uma dolorosa verdade, também não lhe diria mentiras. Seria sincero. Não por vingança, mas porque sabia que aquela seria uma conversa que poderia decidir seus destinos definitivamente.
– Mas... Mas... Você me reconheceu.
YunHo apenas acenou negativamente. Virando para o anjo e o fazendo ficar frente a frete para si.
– Não me lembro de ter visto seu rosto – levou os dedos a face clara e ainda chocada do homem. – ou de ter ouvido a sua voz. – suspirou pesadamente. – Para mim é como se fosse a primeira vez em tudo.
Memorizava-lhe cada traço, delineava suas bochechas e até chegar aos lábios tão saborosos, a sensação de posse aos senti-los junto aos seus. Queria tanto aqueles lábios novamente, chegava a ser torturante. Desvencilhou-se deles, precisavam pôr as coisas em ordem.
– Mas você foi a primeira pessoa que me inspirou confiança. Eu só sabia que estava esperando alguém, como um instinto, não como uma lembrança. Não sou capaz de imaginar você matando e torturando pessoas, não sou capaz de imaginá-lo com as mãos sujas de sangue, ou mesmo de que eu tenha sido capaz de atirar em você.
– Mas essa é a realidade – afastou-se.
– Por ser você quem está me contando, eu posso acreditar – riu. – YooChun contou-me ser um amigo de infância e eu nem sequer mencionei seu nome a você. Então, por que você mentiria para mim? O que mais eu tenho que você possa querer?
– Existe uma coisa. – as palavras saíram antes mesmo que percebesse.
O outro o olhou confuso.
– Eu não tenho nada. Nem sequer lembranças, o que pode querer de mim?
– Eu não posso te devolver as lembranças que eu te tirei, também não sou capaz de mentir e dizer que foi apenas um simples acidente, ou que eu estive viajando por muito tempo e voltei. Mas eu sou um egoísta, YunHo. Sempre fui... – mordeu o lábio inferior, nervoso. A insegurança expressada em cada palavra dita.
– O que você quer de mim? Se eu tiver, leve. Para mim, não vai haver sentindo algum perder.
– Eu quero que me perdoe... – calou-se.
– Não posso perdoá-lo por algo que eu não lembro, o sentimento não existiria apenas pelas palavras. Não existe como eu fazê-lo, me desculpe. É como se eu estivesse perdoando uma pessoa desconhecida – disse pesaroso.
O outro levantou da cama e sorriu fraco.
– Somos desconhecidos apenas. Você tem razão... Não tem como eu tentar me redimir nunca poderia fazê-lo. Eu realmente o matei não é, Yunnie?
A dor do anjo machucava YunHo.
– Eu pareço com ele?
– Ele? – o olhou interrogativo.
– Sim, o homem a quem você amou?
O outro agachou-se próximo e sorriu.
– Você ainda é esse homem, YunHo – passou os dedos em sua face. – Os mesmos traços, os mesmos gestos, o mesmo sorriso e determinação. Você sempre foi um louco, mas não tão imprudente – pausou. – Não pode trazer para casa uma pessoa a quem não conhece, lhe dar toda a confiança e depois de saber que esse homem é um assassino sanguinário que o fez perder tudo. Ainda assim, você age como se não me odiasse. Isso se chama loucura e imprudência.
– Durante todo esse tempo, eu tenho vivido como as pessoas me diziam que eu vivia – Também segurou lhe a face colando suas testas. – Todas as manhãs, acordo cedo, tomo café instantâneo e faço torradas que quase sempre saem mais escuras do que realmente deveriam sair. Sigo para a escola primária, onde eu passo o meu dia rodeado de crianças e lhes ensino sobre a vida e como devem ser adultos responsáveis. Passo os sábados planejando toda a minha semana para que no domingo eu possa ter o dia livre. – respirou fundo fechando os olhos tentando sentir o aroma do outro. – Para acordar cedo, ir à cafeteria, e ficar a horas a fio à espera de alguém. Esse é o único dia em que eu me sinto incompleto, em que eu vejo que existe algo errado. Eu deveria ter alguém, não é? Então, por que eu não estou com essa pessoa? E por que eu ainda espero que alguém apareça para me contar sobre o que me falta, sobre a parte da minha vida que não existe? – selou seus lábios aos do outro, precisava disso para que conseguisse confirmar que ele era real. – Então, hoje você apareceu.
– E foi bom? – sussurrou com os lábios ainda próximos. – Que no lugar do seu vazio encontrasse um rio de sangue, traição e mentiras?
– Eu não me incomodo de como as coisas aconteceram, não sinto falta do meu passado ou tenho muito interesse nele realmente. – abriu os olhos, queria que o outro não tivesse dúvidas de suas palavras. – Eu só sei que sentia falta de alguma coisa, de uma pessoa. Era alguém sem rosto, sem corpo, sem voz, e ainda agora depois de tudo, sem nome...
– Kim JaeJoong! – sorriu e voltou a selar seus lábios para logo em seguida voltar a levantar-se.
– Você me disse que já pagou por todos os seus pecados, como eu, que aquela pessoa a quem chamavam de assassino morreu junto com aquele agente. – segurou-lhe a mão firme. – Então esse homem que agora está na minha frente não deveria simplesmente continuar com a vida nova que lhe foi proporcionada?
– Mas eu ainda lembro de tudo, YunHo.
– Então antes de me pedir perdão por tudo, não está buscando se perdoar? – disse questionador. – JaeJoong, eu não te prometo ser o homem que você amou, não posso ser como no passado, mas eu estive esperando por um longo tempo para simplesmente te deixar ir agora.
– YunHo...
– Eu não quero ficar mais sozinho. Não me importo com o passado, eu realmente não sou capaz de me importar com ele. – levantou-se. – Mas me importo se não conseguir mais ver você.
– Por que está dizendo essas coisas?
YunHo puxou JaeJoong colando seus corpos.
– Porque meu coração não me fazia me sentir tão vivo como agora – passou os braços do outro por seu pescoço deslizando a sua mão até chegar em seu ombro o puxando para um abraço. – Porque nunca tive tanta ânsia de tomar uma pessoa para mim, porque agora eu não vejo mais como essa casa poderia ser sem você, porque quero ouvir você tocando piano, quero vê-lo enquanto cozinha, quero saber como é se sentir amado... – enterrou o rosto no pescoço de JaeJoong, saboreando a sua pele, deslizando seus lábios quentes por ele, sorrindo ao ver a pele branca arrepiar-se. – E se é isso que estou sentindo agora, quero saber como é amar.
– Como pode dizer essas coisas assim tão facilmente?
JaeJoong já estava entregue, a verdade já entregara-se a ele no momento em que os dedos de YunHo tocou os seus naquela cafeteria. Jamais quis estar em outros braços, preferiria ter morrido. Na verdade, morreu, todos os dias longe do único homem que amou.
– Não é fácil. – passou a mão pelas suas costas, apertando ainda mais o abraço. – Mas eu já perdi uma vida de lembranças e se eu posso encontrar uma forma de conseguir essa vida de volta nem que seja só através das suas lembranças, eu quero, JaeJoong. Só fique comigo... – afrouxou o abraço apenas para poder olhar mais uma vez nos olhos daquele homem.
– YunHo...
– Eu não sei se isso vai parecer clichê, mas eu não me importo – levou as mãos afastando novamente a franja que insistia em cobrir aqueles olhos amendoados. – Não acho outra forma de explicar, mas eu confio em você. Acredito em cada palavra e sei que deve ter sido mais doloroso para você do que foi para mim. Sofrer com suas memórias é pior que não tê-las. – delineou os lábios volumosos e chamativos. – Mas eu realmente te esperei, e agora que está aqui não posso te deixar ir. Porque meu coração não é a minha memória. Ele te reconhece, bate e dói porque é você, porque foi ele quem me disse que você viria. Eu ainda te amo, JaeJoong... Mesmo sem memória, eu ainda te amo. – E novamente beijou o mais velho. Com vontade, sem restrições, matando toda a luxúria e dependência que criara em tão pouco tempo por aqueles lábios.
O mais velho sorriu, os olhos penetrando nos do moreno a sua frente. Como poderia dizer não? Como poderia ir e deixar a chance que a vida havia lhe dado? Talvez este seria seu castigo, lembrar-se de tudo; e o alento para YunHo, não lembrar. O homem que ele amava estava ali, lhe dizendo que ainda o amava e que não importava o passado. Esta era a vida que merecia, sabia disso, seria castigado com a lembrança e seria pago com a nova chance. E seu amor não sofreria. Deus estava lhe compensando.
– Yunnie... – Somente sorriu, sentido seu coração palpitar e aliviar-se, iria compensar por todo aquele amor, dedicaria sua eternidade a isso. – Você acredita em destino? Que duas pessoas simplesmente estão destinadas a se encontrarem não importa como ou em quantas vidas?
– Se você estiver em todas elas...
Finalmente JaeJoong se permitiu baixar a guarda, queria estar em seus braços, e seria dele. Aproximou-se do mais alto e beijou-lhe a testa.
– Então como eu posso ir? Se a única coisa que eu sempre quis, sempre irei querer está à minha frente dizendo que me ama? – sorriu — Sabe o quanto eu te amo, YunHo?
– Eu vou saber. Você irá me mostrar. – devolveu o sorriso passando a mão pela nuca do outro lhe massageando e puxando para que finalmente pudesse tê-lo em seus braços por completo. — Temos uma vida inteira para isso. – beijou e tomou aquele homem para si inteiro com todas as suas feridas, lembranças, e principalmente, amor. Queria tudo de JaeJoong e sabia que teria. Ele lhe pertencia assim como YunHo sempre pertenceu a ele.
Fim!
Notas finais
sala de estar - http://24.media.tumblr.com/tumblr_m6a6tkHfzY1qd80qgo1_500.jpg
cozinha - http://24.media.tumblr.com/tumblr_m67vonoGwd1rzcw1no1_500.jpg
quarto - http://www.alamaula.com.br/img/timthumb.php?src=/uploads/102/1/Classified/920638/quartos-planejados-aldeia-da-s-675_big2.jpg&w=650
E ai gostaram? Espero que sim. Essa fic é o FIM da historia desses dois, ou seja, existe uma longfic por trás desta, mas que não postarei agora só quando eu estiver com ela pronta. Mas quem quiser se aventurar nas pontas soltas fiquem a vontade e criem, a imaginação é de vocês.
É isso ^-^
reviews???
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