I'm Sorry
3 Usp 45
Notas iniciais
Cap.03 USP 45
Nico DiAngelo
Os carros continuavam indo aos solavancos pelas ruas esburacadas da cidade. O ar dentro do veículo estava começando a ficar quente e abafado, mas ninguém mais parecia notar. Sirenes de polícia soavam tão longe que eram apenas um traço restante do áudio forte e alarmante original, aposto que nem ao menos sabiam para onde tínhamos ido. Mas tudo isso se passava por uma parte inconsciente do meu cérebro por que minha atenção estava mesmo voltada ao garoto. Luke tinha começado a examiná-lo e parecia mais curioso que Thalia, mas eu também tinha minha porcentagem de perguntas. Na verdade aquilo estava sendo um pouco estranho para mim.
O que vinha agora? Era para eu bater nele? Procurar a família dele e tirar cada nota de dinheiro deles antes de matá-lo? Torturá-lo? Sexo forçado?
Na verdade não é como seu eu nunca tivesse feito isso, mas olhar para ele me fazia recuar. Ele tinha esses olhos grandes com cílios loiros cobrindo quase tudo como uma cortina de luz e eram azuis, muito azuis, como o céu limpo da praia. O rosto dele era um pouco quadrado e liso, me dava vontade de tocar e puxar as bochechas para conferir se não era de elástico. Eu queria tocá-lo como uma criança quer tocar tudo oque vê pela primeira vez, queria sentir a textura da sua pele, saber sobre a vida dele e até perguntar algumas coisas. Mas claro que isso está fora de cogitação. Os cabelos loiros eram bem aparados e a barba perfeitamente feita, a boca não era mais que uma linha fina comprimida agora. Ele tinha uma ou duas pintas no pescoço que dava continuidade a ombros largos e fortes, um peitoral bem definido se destacando sobre a camiseta justa e a gravata. Mãos fortes e calejadas que me deixavam em conflito para deduzir com o que ele trabalhava.
Voltei meu olhar para os olhos azuis. Nem uma lágrima, nenhum resquício de expressão que demonstrasse surpresa, medo ou desespero. Ele só era ele, ali naquele carro cheio de criminosos com um histórico sangrento nas mãos e um pouco de dinheiro roubado.
Ele era um anjo em meio à dêmonios, mas eu não estava certo de que estávamos no inferno.
Sustentou meu olhar por alguns segundos que eu poderia ter contado nas mãos e desviou os olhos dos meus. Senti-me como Colombo quando avistou a América: agora eu só tinha que chegar mais perto e tirar tudo que eu puder daquela terra.
– Qual o seu nome? – Perguntei tocando o queixo dele com a ponta da minha arma, fazendo-o olhar para mim.
Sem resposta. Luke bocejou ao meu lado e então tirou a máscara que cobria seu rosto. Só ai percebi que ainda estava usando a minha, tirei-a com um puxão. O loiro que olhou como se tivesse visto uma espécie rara de falcão. Senti minhas bochechas ficarem vermelhas, mas ignorei.
– Eu perguntei... – Comecei a dizer devagar, enquanto passava a arma pelo seu pescoço até o colarinho aberto da blusa, descendo pela sua pele exposta e o fazendo estremecer. – Qual é o seu nome?
Ele engoliu em seco e mesmo assim não respondeu. Senti o olhar de desdém de Luke pousar sobre mim e desviar quando a banca deu um solavanco, e então ele saiu para reclamar algo com Thalia. Recoloquei a arma na jaqueta.
– Que tal outro método? – Passei a mão no cabelo, fazendo-o voltar ao lugar enquanto o loiro me observava com uma expectativa duvidosa. Estendi a mão para ele em um quase aperto de mãos. – Meu nome é Nicolas, mas todo mundo me chama de Nico. Qual o seu nome?
Ele se encolheu mais contra a parede de metal do carro. Um suspiro mudo surgiu na minha boca.
– Pode inventar um se quiser.
Continuo sem resposta. Alguns segundos depois ele sussurrou algo que eu obviamente não ouvi por que agora ele estava tremendo, muito, e as palavras saiam entrecortadas e baixas. Não me surpreenderia se ele mordesse a própria língua. Sorri com a ideia. Aproximei-me dele na tentativa de captar alguma palavra. Agora minha boca estava na altura do seu pescoço, nossas peles quase roçando uma na outra e ele sussurrando algo repetidamente.
– Eu não entendo oque está dizendo. – Digo com um tom de irritação na voz.
Ele engole em seco de novo. Eu estou tão perto que posso sentir o calor que emana do corpo dele, o medo, a hesitação. Suas mãos tremem juntas sobre o colo. Normalmente eu não chegaria tão perto de um refém nem com a guarda tão baixa, mas se aquele cara ainda conseguisse pensar algo eu lhe daria algum tipo de prêmio.
Um arrepio involuntário percorreu meu corpo me incomodando. Ele tinha aproximado a boca da minha orelha e tentava falar algo. A pele dele tocava a minha de leve e isso me deixava nervoso. Quando ele falou novamente sua voz estava quase normal:
– J... Jason...
– Hm... – Me afastei apenas o suficiente para encarar os olhos azuis, ainda estávamos sussurrando. – Seu nome é Jason?
Ele respondeu alguma coisa, mas eu não me lembro de ter ouvido alguma informação que valorizei, porque agora minha atenção estava vidrada no pescoço dele – como um vampiro faria com a sua presa – que pulsava com vida. Quase que num impulso eu beijei o seu pescoço. Ele estremeceu e se encolheu mais contra a parede e eu o ignorei.
Naquele momento eu o queria. Queria ele aqui e agora, de um jeito que nunca senti antes, mas também queria esperar, levá-lo para o meu quarto, o prender na cama e fazer o que eu quisesse fazer a noite inteira.
Ele estremeceu de novo e seu rosto se contorceu em uma careta quando minha mão foi para o seu quadril. Meu corpo estava grudado no dele. Eu beijei seu pescoço de novo e de novo e quando ia mordê-lo ele tentou me afastar com a mão. Eu segurei suas duas mãos juntas em cima da sua perna e ele se remexeu inquieto contra chão. Eu olhei de novo para seus olhos e vi medo ali, insegurança e nojo e aquilo me deixou desconfortável, mas não o suficiente para parar.
Eu mordi seu pescoço e ele arqueou as costas, tentando soltar as mãos. Sentei-me no seu colo, pressionando suas pernas com as minhas e ainda segurando suas mãos desajeitadamente. E então eu o beijei, ou quase isso, porque ele se mexeu inquieto e não abriu a boca, me deixando um pouco desapontado, pensei que isso seria um pouco mais fácil. Ele mordeu a minha boca e aquilo me deixou um pouco nervoso, saquei a arma em um movimento rápido de soltar as mãos dele e apontar a Glock para seu abdômen.
– Não se faça de difícil. – Sussurrei com a minha boca colada na dele, pingando sangue de onde ele tinha me mordido.
Ele parecia prestes a chorar quando abriu a boca e me deixou beijá-lo, mas aquilo ainda era meio robótico. O gosto salgado e metálico do sangue e o gosto da boca dele, uma mistura de chiclete de menta e o gelado do sorvete.
– Me beije também. – Murmurei irritadiço apertando a arma contra suas costelas agora.
Ele hesitou, tremendo e me beijou de um jeito que eu não esperava. Ele tomou minha boca na sua envolvendo nossas línguas em uma mistura de beijo e guerra e eu não sabia mais qual dos dois estava perdendo nem qual estava ganhando. Nossos dentes bateram de leve e ele recuou, mas eu o puxei de volta, retornando ao beijo de um jeito violento que ele quase não conseguia acompanhar. O rosto dele estava ficando quente e o meu também. Minha outra mão envolveu sua cintura, mas não muito, pois minha arma continuava apontada forte contra ele, mas eu mal tinha consciência da Glock e do perigo que ela representava, por que tinha faíscas entre nós dois e aquilo estava prestes a incendiar.
Ouvi passos como se a metros de distância e a voz de Luke pronunciada em alto e bom som:
– Ah cara. Que nojo. Vão fazer isso num quarto de verdade.
– O que eles estão fazendo? – Perguntou Thalia do banco do motorista.
– Nada. – Luke abaixou o tom e continuou. – Vai que você inventa de experimentar a moda.
Afastei-me um pouco do loiro, Jason, os dois arfando e dei uma risada fria e seca. Encarei o rosto dele quando me levantei e guardei a arma: ele estava vermelho como sangue, os olhos azuis arregalados e as pupilas dilatadas. A boca vermelha, um pouco inchada e cortada no canto onde eu o mordi sem perceber. Ele se encolheu o máximo que pôde e evitou olhar para mim.
Girei nos calcanhares com um sorriso de escárnio no rosto.
– O nome dele é Jason.
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Tivemos uma pequena recepção quando chegamos. Aquele lugar era como uma cidade debaixo do asfalto normal, mas não exatamente o esgoto. Eram vários cômodos e até algumas quase casas que abrigavam todas as pessoas da gangue e tudo o que precisávamos.
Os adolescentes e as crianças se aglomeraram em volta das vans para ver o que tínhamos conseguido e olhando de vez em quando para o armamento. Empurrei Jason para fora e os cochichos começaram.
A pele dele tinha quase voltado à cor normal e tínhamos amarrado suas mãos com algemas que roubamos da polícia em alguma fuga de prisão, cobrimos sua boca com fita isolante e ele estava quieto, calculando tudo e todos em volta. Revirei os olhos e o empurrei de novo, ele saiu tropeçando e cambaleando. As pessoas começaram a rir.
Um grupo de integrantes entre dezesseis e dezoito anos veio apreciar minha presa. Clarisse La Rue saiu à frente me olhando com desafio, mas ao mesmo tempo respeito.
– Tem um riquinho interessante ai Di Angelo.
Dei de ombros e empurrei-o para ela, que o agarrou com as mãos de brutamontes pelo braço, depois o mediu com os olhos como se calculando o peso dele e quinze formas diferentes de derrubá-lo em uma luta.
– Cuidem do meu convidado enquanto eu falo com o meu pai. – Falei dando uma piscadela para os garotos e garotas restantes do grupo. Rostos quaisquer para mim.
– Pode deixar. – Clarisse me olhou com um olhar meticuloso.
Eu a puxei de lado e falei em voz baixa.
– Não exagera La Rue, eu não quero um corpo morto de noite.
Ela levantou uma sobrancelha, mas não questionou.
– Tudo bem. Só vamos fazer uns reparos nele.
– Mas não toque nele. – Ela me olhou sem entender. – Não toque nele daquele jeito.
– Ah, entendi. – Ela tentou piscar mas foi uma tentativa falha e só a fez ficar mais feia.
Balancei a cabeça com se tivesse ficado legal e virei as costas, enquanto ouvia o som de um murro estatelando contra carne humana e murmúrios de socorro abafados por fita isolante.
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