I'm Sorry
7 Diamond Black
Notas iniciais
Cap. 07 Diamond Black
Nico Di Angelo
Quando se tem a oportunidade de observar um escorpião, não deve desperdiçá-la. A calda comprida com o ferrão sempre alto e alerta, as pinças almejando prender uma presa, a sua cor opaca contra o sol ou o luar, como uma praga que mesmo depois de morta, sempre volta. Escorpiões eram raridades na cidade, mas quando eu era pequeno minha mãe me levara para o Deserto e me fez segurar um nas mãos, uma mistura de medo e fascínio cresceu em mim com um arrepio repentino.
Agora, naquele cômodo de paredes brancas, janelas grandes e cortinas aveludadas a ideia de ter mais uma vez aquela pequena fera na palma da minha mão era mais compreensível ao se notar o grande aquário que ia do teto ao chão, repleto de escorpiões e suas famílias.
Afastei-me do vidro ao ouvir o som agudo de saltos altos batendo contra o chão, mas não me virei, deixei que ela se aproximasse por trás e deslizasse as mãos, guardadas por luvas finas de veludo preto, pelos meus ombros até que se encontrassem apoiadas no meu peito e todo seu corpo estivesse se apoiando no meu. O leve aroma de baunilha era notável, como sempre, e delicado. Os cabelos escuros ondulados roçaram a pele do meu rosto quando ela apoiou seu queijo na curva entre meu pescoço e meu ombro.
– Como foi a viagem? – Perguntei.
Um bocejo se seguiu e eu pensei que essa seria toda resposta que eu teria.
– Interessante. – Admitiu com um ar de superioridade. – Paris é linda ao anoitecer e à luz de velas.
– Aposto que a Torre Eiffel estava admirável.
– Como sempre.
Ela se desenroscou de mim e se afastou graciosamente e só então eu me virei e deixei meus olhos a observarem. Usava um vestido de seda preto à moda antiga, como sempre fora do seu gosto, acho que ela gostava de se imaginar vivendo naquela época em que beijos eram assuntos sussurrados entre quatro paredes, corações batendo em conjunto eram como fogo ardendo sem controle e tudo era um pouco mais que um segredo dramático.
As curvas do seu corpo eram destacadas, uma abertura lateral deixava à vista uma parte de sua perna, a pele branca brilhando atrativa. Seu quadril e sua cintura eram detalhes bem delineados, assim como os seios fartos e provocativos em que o pano de bifurcava mostrando sua curva que, por sua vez, enlouquecia os olhos humanos levando-os a admirar a clavícula e o pescoço nu com apenas um colar de pérolas brancas.
Seu rosto era fino e delicado, maçãs do rosto bem definidas e poucas linhas de expressão ao redor dos olhos. Uma única linha bem charmosa se formava ao lado de sua boca – pequena e vermelha -quando sorria. A linha do nariz fino se juntava aos olhos negros como um Garnet Azul. Seus cabelos desciam soltos até o meio das costas, sedosos e brilhantes.
Quem a olha assim mal imagina que já tenha quarenta anos.
– Mas na verdade, acho que você tem novidades mais interessantes. – Ela piscou para mim.
Desviei do seu olhar e passei pelas cortinas de uma janela que ficava no canto do quarto, ao sair na varanda a luz fraca da lua bateu nos meus olhos, as estrelas continuavam em seus postos.
Encostei-me à varanda e fechei os olhos, apenas sentindo-a se aproximar.
– Ouvi dizer que é lindo, cabelos da cor do luar e sorriso de estrelas. — Ela comentou no seu tom de interesse disfarçado.
Apenas dei de ombros.
– São todos apenas boatos, as pessoas nunca o viram sorrir, é tudo inventado. Ele é moreno, cheio de espinhas e barrigudo, mal posso esperar para matá-lo.
A gargalhada que se seguiu foi tão alta e gostosa que me fez olhar para ela, os cabelos negros e encaracolados caindo em ondas enquanto seu corpo estava inclinado sobre a beirada de mármore da varanda. O vestido negro de seda emoldurava seu corpo, dando a ela um tom de nudez sensual.
Ela se virou para mim com um sorriso verdadeiro no rosto.
– Não vá se apaixonar. — Disse isso casualmente, foi minha vez de rir alto. — Por que está rindo?
Ela franziu a testa, ainda sorrindo.
– Porque, — Comecei a responder. — Se isso acontecer eu atiro em mim mesmo.
– Você não vai perceber chegar.
– Isso é bobeira. — Me afastei da beirada e minhas mãos foram instintivamente para as Glocks. — Essas armas me salvariam disso, e de qualquer forma não vai acontecer.
Ela mudou o peso do corpo de uma perna para a outra em um movimento sexy, o vestido se movendo junto com seu corpo.
– Você não vai ser capaz de puxar o gatilho.
Apenas a olhei com desdém e ela me ignorou, toda cheia do saber, colocando o cabelo de lado e começando a tecer uma trança, o vestido aberto atrás mostrando uma tatuagem de diamante negro pulsante, marcada na pele das suas costas.
Agora de perto era mais visível o cinto de armas preso às suas coxas, com uma Diamond Black para cada perna. Um sorriso de escárnio surgiu na minha boca, ela era como eu, ou melhor, eu era como ela. Uma arma não bastava e elas sempre tinham que estar por perto.
– Quando foi a sua vez, o que você fez? – As palavras saíram da minha boca sem meu consentimento.
Ela me olhou com intensidade, como se tentasse desvendar os nós da minha alma, se parecendo mais com a verdadeira mãe que ela era.
Ela pareceu pensar antes de responder, como se memórias confusas estivessem tentando alcançar a claridade por trás de seus olhos;
– Eu vivi. – Finalmente respondeu quando um sorriso doce tomou seu rosto.
Então eu soube que essa seria toda a resposta que eu teria.
Ela se aproximou de mim e me abraçou forte.
– Não o mate rápido.
– Tudo bem. – Um suspiro profundo ficou preso na minha garganta. — Mãe.
Ela se afastou de mim apenas o bastante e eu senti o cano gelado da sua arma contra meu pescoço. Meus olhos se prenderam aos dela em uma interrogação implícita, não brincávamos disso desde que eu era pequeno. Antes ela colocava sua arma sobre algum órgão vital do meu corpo como um lembrete de que minha guarda sempre deveria estar alta, tínhamos parado de brincar disso depois que eu aprendi a atirar.
Ela desceu o cano da Diamond Black até estar no meu peito. Controlei a respiração.
– Mantenha a guarda alta, DiAngelo. – Sua voz tornara-se fria.
E então ela puxou o gatilho, e tudo que me veio à mente foi a imagem da ferroada de um escorpião atingindo a presa.
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