I'm Not a Hero
3 We’re just dead souls in an empty body
Notas iniciais
“A recordação da felicidade já não é felicidade; a recordação da dor ainda é dor.” Lord Byron.
Quando achou que já tinha ganhado uma boa distância da fronteira, Hinata parou de correr e foi para o solo. Ajoelhou-se perto de um riacho, sentindo o corpo todo doer, tanto da luta quanto da corrida. Com o byakugan desativado, ela se pôs a lavar os ferimentos mais sérios e o rosto.
A situação atual pareceu finalmente entrar em sua mente. Estava livre! Podia finalmente buscar ajuda! Podia finalmente ajudar a livrar Konoha da ditadura na qual se encontrava! Mas aí pensou subitamente nos companheiros e preocupou-se. Já fazia um dia desde que tinha saído do País do Fogo, o que totalizava dois dias longe de Konoha, já que passara um dia só para chegar até a fronteira. Esperava que eles não tomassem a culpa por si, mas sabia que eram esperanças em vão. Masao implicava com o grupo desde que se tornara Hokage... Se ele fizesse algo a qualquer um de seus amigos... Ela fechou o punho e parou de pensar em tais coisas. Não era hora para aquilo! Tinha que se concentrar em sua missão: Suna.
Levantou-se e voltou a correr. As árvores começavam a ficar mais escassas e o clima cada vez mais quente. Meia hora depois, Hinata estava tentada a parar de novo e tirar o maldito colete ninja para ver se ajudava um pouco na ventilação, mas acabou vendo a entrada de uma vila e suspirou aliviada. Não era Suna, é claro, pois estava muito em evidência; deveria ser uma vila qualquer do País do Vento.
Andou pelo caminho de areia que dava até os portões, até adentrar o vilarejo. Continuava quente lá, mas ela logo avistou uma lojinha de conveniência. Podia comprar água e pedir direção até Suna, talvez. Suna... quantas vezes ela tinha visitado a vila? Duas; no máximo três. E aquilo tinha sido há muito tempo.
Alguns dos habitantes caminhavam tranquilamente pelas ruas. Hinata cobriu-se com sua capa, puxou o capuz para cima e foi andando de cabeça baixa até a loja. Queria ser o mais discreta possível — apesar de que alguém andando todo coberto por uma capa negra, de dia, era bem suspeito.
Adentrou o estabelecimento. Não havia ninguém lá. Suspirando, ela tirou a capa, mostrando a roupa ninja que usava: o colete ninja dos jounins de Konoha (que o Hokage surpreendentemente não mudara) e por baixo deste uma blusa preta de mangas longas, onde, nas mangas, encontrava-se o símbolo de seu clã; havia também a calça ninja roxa, diferente da maioria que era preta. Hinata optara assim. Era a única coisa que a lembrava do lilás de suas antigas vestimentas quando tinha quinze anos... Era a única coisa que a lembrava de quem costumava ter sido.
— Com licença... Tem alguém aí?
Ela ouviu um barulho de caixas caindo e logo depois uma garota apareceu atrás do balcão, toda afobada. Era mais baixa que Hinata e tinha os cabelos castanhos curtos e soltos.
— Sumimasen! — ela disse, curvando-se toda desajeitada. — Chegaram algumas caixas e eu estava tentando organizar os novos produtos na dispensa, por isso não a ouvi chegar...
— Tudo bem. — Hinata interrompeu, de seu modo calmo, bem diferente da garota a sua frente. — Você poderia me dizer o nome dessa vila?
A garota levantou a cabeça surpresa e pela primeira vez lhe encarou de verdade; ela avistou o colete, a bolsa ninja e os cortes no corpo de Hinata e soltou um grito esganiçado, encolhendo-se junto à parede.
— Uma ninja! — Hinata lhe olhou surpresa, enquanto a adolescente encolhia-se o quanto podia, com lágrimas nos olhos, evitando encarar Hinata diretamente. — P-por favor, não me machuque. Você pode levar t-tudo, tudo! Por favor!
— E-está tudo bem. — a Hyuuga disse, tentando acalmar a menina. — Eu não irei machucá-la.
A menina fungou e lhe olhou com olhos úmidos e infantis.
— Mas ninjas são maus... E mentirosos...
Hinata sorriu docemente.
— Sim, é verdade... Mas nem todos são assim. Tem uns que são realmente boas pessoas. — e subitamente ela pensou nele e tratou de afastar tais pensamentos. — Eu me chamo Hyuuga Hinata. — curvou-se cordialmente. — E você?
A garota ainda lhe olhou hesitante por um momento antes de curvar-se também.
— Midori Asaye... — endireitou-se e depois pulou ao ver novamente os cortes de Hinata. — Você está ferida!
— Está tudo... — a garota já tinha saído de sua frente e ido até a parte de trás da loja, onde provavelmente ficava a dispensa. —... bem...
Asaye voltou com álcool, algodão e band-aids e fez Hinata sentar-se em uma cadeira, passando a cuidar de seus cortes.
— Arigatou, Asaye-chan... — a garota apenas sorriu em resposta, fazendo um curativo em um dos cortes. — Por que você tem medo de ninjas?
Os olhos da menina ficaram melancólicos.
— Ninjas invadiram nossa vila dois anos atrás e destruíram tudo... Incendiaram casas e mataram alguns habitantes... Entre eles, meu otou-san e minha okaa-san...
— Eu sinto muito. — disse sinceramente.
— Está tudo bem, Hyuuga-san. — a garota falou voltando a sorrir, passando o algodão embebido em álcool no corte na bochecha de Hinata. A Hyuuga fez uma careta, sentindo o machucado arder. — Ah, por favor, me desculpe. Você tinha perguntado o nome da vila, né? Aqui é a Aldeia do Caramelo. Nosso caramelo é o melhor que tem! Você quer provar? Eu tenho um pote lá dentro, é só...
— Iie, não precisa... — negou, rindo. — Eu só gostaria de me nortear um pouco. Acho que posso me orientar agora...
Ela sabia onde estava; já estivera ali antes, em uma missão com Kiba e Shino. Fez um mapa em sua mente. Não estava assim tão longe de Suna, ainda bem. Asaye terminou e as duas levantaram-se. Hinata repôs a capa e puxou o capuz, ficando de costas para a porta.
— Arigatou, Asaye-chan, você não precisava ter cuidado de mim. — disse baixinho, lembrando-se de Neji. Era ele que sempre estava ao seu lado, cuidando de si como a uma irmã mais nova. Por favor, que você esteja bem. — Eu...
Não pôde concluir a falar, porque outra pessoa adentrara a loja. Hinata observou a figura com o canto dos olhos; usava uma capa parecida com a sua, e só isso foi o suficiente para causar-lhe desconfiança.
— Oh! Bem vindo! — Asaye apressou-se em dizer. — Deseja algo?
— Hm... não. — a voz era grave, de homem. Hinata não reconheceu tal voz... então por que tinha a sensação de conhecer o encapuzado? Achou que ele havia lhe encarado por um segundo, mas não dava para saber com certeza, já que seu rosto estava ocultado na sombra do capuz. — Me enganei de lugar.
E saiu.
— Nossa, que frio. — Asaye deu de ombros. — Então Hyuuga-san...
— Asaye-chan, me desculpe, mas eu preciso ir. — deu-lhe algumas notas de dinheiro e saiu apressada, nem ouvindo quando a garota tentou dizer “não precisava!”.
Não sabia por que estava fazendo aquilo, mas aquele cara lhe parecera suspeito demais. Ele usava a mesma capa que ela, ocultando-lhe o rosto, e à Hinata parecia óbvio que o homem fazia aquilo com o propósito de não lhe reconhecerem, porque era a mesma coisa que ela fazia. Mas a Hyuuga sabia os seus próprios motivos, enquanto os dele eram desconhecidos para si.
Seguiu-o discretamente, camuflando-se entre os habitantes da vila, que pareciam alheios às duas pessoas suspeitas com capas pretas andando por aí.
O local para onde ele se encaminhava ficava numa parte mais isolada da aldeia e os habitantes começaram a desaparecer por ali. Hinata estreitou os olhos e apressou o passo quando ele dobrou uma esquina. Quando ela dobrou a mesma esquina, viu-se sem saída, e o homem não estava à vista. Apertou os lábios, percebendo que havia caído em uma armadilha. Sentiu uma presença atrás de si, mas não deu tempo de se virar.
— Que tal brincarmos de pega-pega? — o estranho encostou uma kunai em seu pescoço. — Te peguei.
•••
Tiraram a venda de seus olhos e ele piscou por causa dos raios de sol que penetravam no espaço entre as árvores, dando uma claridade exagerada a floresta. A primeira coisa que viu foi Masao e, ao seu redor, seus subordinados. O Hokage aproximou-se dele, com aquela pose arrogante e olhar superior.
Um dos guardas que havia lhe escoltado até ali o forçou a ficar de joelhos na terra perante o Hokage, que lhe encarava, agora literalmente, de cima. O rapaz não se abalou, apenas o encarou da mesma forma, mesmo que seus pulsos estivessem presos em algemas atrás de suas costas, seus cabelos estivessem sendo puxados e ele estivesse sendo forçado a se ajoelhar perante um idiota a qual ele não reconhecia como seu superior.
O olhar prepotente de Neji Hyuuga, mesmo numa situação como aquela, continuava lá, intacto.
— Onde ela está? — Masao perguntou. Era alto, tinha cabelos lisos e negros que batiam em seus ombros e olhos verde-escuros.
— Não sei do que está falando.
— É claro que não sabe. — deu um sorriso debochado e saiu de sua frente, apontando para uma das árvores. — Me diga, então, quem fez isso.
Neji finalmente notou. Na maior árvore do local, pregado ao tronco com kunais, estava um corpo. Kunais transpassavam os pulsos, pregando-os nos galhos, deixando os braços estendidos, cada um para um lado, como se ele estivesse em uma cruz.
A carcaça já começava a apodrecer, e urubus amontoavam-se ao redor, disputando entre si um pedaço de carne. Havia várias partes do cadáver em carne viva, e Neji sequer foi capaz de identificar quem era. Era uma cena grotesca.
Mas o que mais lhe chamou atenção foram as letras cravadas no tronco, em cima da cabeça do que um dia havia sido uma pessoa: HH.
— Hyuuga Hinata. — Masao disse com um sorriso vazio, virando-se para Neji. — De alguma maneira, sua querida prima foi capaz de fugir e matar seis dos meus guardas. Que tal começar a falar, Hyuuga?
Surpreendentemente, Neji sorriu com escárnio.
— O que quer que eu fale? — rebateu. — Hinata-sama fez o que todos da vila tinham vontade.
Masao não demonstrou um resquício de sentimento, mas seus olhos verdes estavam embebidos em fúria.
— Levem-no para junto dos outros. — e antes dos guardas o levarem para o que Neji tinha quase certeza ser a Sala de Tortura do Hokage, Masao inclinou-se e sussurrou, com um sorriso sádico. — Vai se arrepender de não me falar nada agora, Hyuuga. Quando eu tiver acabado, você e seus amiguinhos vão implorar pra nunca terem nascido.
•••
— Mas antes de eu te matar, me responda algo: por que está me seguindo?
— Suspeitei de você. — Hinata murmurou. — E estava certa...
— Hm. Então você é uma ninja.
— Hai. E não vim pra brigar. Eu só... fiquei curiosa.
Ela o ouviu suspirar e baixar a kunai, antes de se afastar um pouco. Hinata virou-se para o estranho e surpreendeu-se ao ver seu rosto. Ele analisou bem a face da garota e então parou nos olhos, parecendo perceber algo.
— Hyuuga.
— Uchiha Sasuke...
— O que faz por aqui? — ele perguntou estreitando os olhos. — Konoha finalmente está caçando seus nukenins?
Ela cruzou os braços, em uma pose defensiva. Subitamente, notou que ele falava no plural. Então ele sabia de Naruto... é claro, o mundo shinobi inteiro sabia.
— Não... Eu não... não sabia que você estava por aqui. Eu só... eu...
— Hyuuga — a interrompeu, seco. —, se você não parar de gaguejar eu não vou entender nada.
Sua mente viajou até os amigos em Konoha. Estava atrasada. Tinha que chegar logo em Suna e implorar pela ajuda do Kazekage. Olhou para Sasuke; ele com toda certeza não ajudaria. Konoha não significava nada para ele há muito tempo.
— Como eu já disse, não vim brigar. — disse nervosa. — Nem sabia que você se encontrava aqui e não me interesso por isso, então você segue seu caminho e eu o meu.
— Me parece bom, mas também me parece estranho demais você nem ao menos tentar me atacar. Eu não sou o fugitivo número um de Konoha? — debochou.
— Atualmente, você não é um dos problemas principais de Konoha, Uchiha-san. — disse franzindo o cenho.
— Estou chocado. — disse ele não parecendo nada surpreso, como se soubesse muito bem da situação de Konoha... Mas isso era impossível. Ninguém fora da vila sabia. Hinata mordeu o lábio inferior, o vendo passar por ela e caminhar para longe. — Não esqueça que você não me viu aqui, Hyuuga.
E ele desapareceu em um shunshin.
Seu coração palpitava de nervosismo e, no fundo, Hinata meramente sabia que tinha que segui-lo. Ela tomou a direção oposta a Sasuke, no entanto. Saiu da pequena vila e começou a dirigir-se a Suna.
Uma simples sensação não era o suficiente para desviar-se de seu caminho. Seus amigos precisavam dela e Konoha precisava daquela ajuda.
Aquela era sua missão. E ela definitivamente não podia falhar.
•••
O chutaram novamente.
— Fale. — Masao ordenou.
Neji, deitado no chão com sangue pingando do canto de sua boca, fechou o punho do braço direito. Ele não sentia as pernas e tinha certeza que o braço esquerdo estava quebrado. A Sala de Tortura do atual Hokage era bastante conhecida; antes de Masao tomar o posto de líder, ali era onde ficava a sala de interrogatório da vila. Era um local grande composto de várias salas pequenas. Agora, não passava do lugar onde o Shimura realizava suas torturas pessoais.
O recinto atualmente era sujo e fedia a sangue e morte.
— Nunca.
Outro chute, e dessa vez veio acompanhado de um soco muito bem dado de um dos subordinados do Shimura.
— Sabe Hyuuga — Masao, que observava a tudo, suspirou teatralmente. —, os seus olhos valem um bom preço no mercado. Oh sim, o byakugan é extremamente valioso. É realmente uma pena todo o seu clã ter morrido... eu poderia ter aproveitado muito bem esse doujutsu. Bem, não importa agora, não é?
Neji deu um sorriso frio.
— Meus olhos não servirão Hokage-sama. — disse lentamente, apreciando pela primeira vez o fato de ter um maldito selo. — Arranque-os de mim e tudo o que você terá serão olhos inúteis.
— Ah, verdade. — o Shimura murmurou, semicerrando os olhos. — O selo da Bouke... Bem, vou lhe dar uma última oportunidade. Seus amiguinhos estão sendo interrogados também, mas nenhum dos meus empregados está sendo tão paciente como eu. Eu não encontrei a outra, a Yamanaka. Soube que alguns guardas meus a maltrataram no outro dia... Ela ainda deve estar se recuperando. Foi por isso a esconderam?
Sim, havia sido por isso. Sakura havia conseguido curá-la a tempo, mas Ino precisava de repouso e se sofresse as torturas que os outros sofriam, ela provavelmente não seria capaz de aguentar. Ele e os outros a deixaram escondida na cabana, torcendo internamente para o jutsu protetor que envolvia o local ser forte o suficiente para lhe garantir alguns dias de segurança.
— Bem, não importa. No final eu a encontrarei. Eu sempre encontro.
— Você não encontrou Hinata-sama.
Mais ossos quebrados por sua insolência.
— Verdade... Mas eu tenho homens à procura dela nesse exato momento. Eles irão achá-la e, quando o fizerem, terei o prazer de matá-la pessoalmente, coisa que eu devia ter feito há muito tempo... Oh, pobre Neji... Perderá a única família que lhe resta... — lhe dirigiu um sorriso sádico. — Não que isso vá importar, porque você já estará morto até lá. Acabe com ele. — disse ao guarda que surrava Neji, antes de sair da sala. O homem lhe deu um olhar vazio antes de curvar-se e começar a espancá-lo. Com seus braços e pernas presos, com as algemas lhe roubando todo o chackra, ele nada podia fazer.
O Hyuuga podia ouvir os brados de Shikamaru na sala a sua frente. Podia ouvir Sakura berrar de raiva e dor. E ele também podia ouvir os gritos e o choro de Tenten. E era o que lhe doía mais.
Logo, seus urros também se misturaram aos dos colegas.
•••
Sakura subiu o olhar ao ouvir o rangido da porta ao ser aberta. A visão estava embaçada, mas ela conseguiu distinguir Masao entrando na sala. A Haruno estava sentada em uma cadeira, os braços amarrados atrás da espalda da mesma, seus pés amarrados por cordas e algemas sugadoras de chackra em seus pulsos — era a mesma situação de todos os outros.
— Ela falou algo? — pôde ouvir Masao perguntar ao seu torturador, apesar de não conseguir vê-lo. Ela mal conseguia manter a cabeça levantada. Estava lhe custando muito até mesmo manter os olhos abertos. A dor que sentia no corpo não era normal... e com seu chackra esvaindo-se pouco a pouco...
O homem soltou uma negativa e Sakura pôde ouvir passos aproximando-se. O Hokage levantou seu queixo suavemente, obrigando-a a encará-lo.
— Haruno Sakura... Você era a aprendiz de Tsunade. Tão durona como ela... Querida, você pode se livrar de tudo isso. Basta me dizer o que Hyuuga Hinata pretende e pra onde ela está indo.
Sakura cuspiu em sua cara.
— Nem que você me mate, seu maldito.
Masao lhe deu um sorriso frio antes de limpar o rosto. Segurou o queixo dela com força, machucando-a.
— Sabe, Haruno... Há muitas formas de machucar uma pessoa. Pode ser física ou mentalmente, mas, independente de qual forma for, irá doer do mesmo jeito.
Sakura se perguntava aonde ele queria chegar.
— Você não falou mesmo com a tortura física. — sussurrou-lhe sem emoção. — Então vamos tentar a tortura psicológica... — ele endireitou-se e começou a andar pela sala. Havia um brilho de diversão sádica em seus olhos, apesar do rosto nunca expressar nada. — Como se sente ao saber que seu sensei está morto?
A mulher gostaria de dizer que aquele tópico não havia lhe atingido. Mas havia. A morte de seu sensei fora horrível, dolorosa. Ela não tinha mais sua mestra, seus companheiros de time, seus pais... só tinha Kakashi, seu professor. E ele também morrera, por conspirar com outros ninjas mais velhos.
— É assim que pretende me perturbar? — disse com a voz rouca. — Não vai conseguir nada com isso...
— Como se sente — interrompeu-a. — sabendo que seus pobres pais morreram por sua culpa?
Seu coração falhou uma batida. Ela não olhava nos olhos do Hokage, mas quase podia sentir seu sorriso cruel.
— Afinal, você desobedeceu a uma das minhas regras... você ajudou um habitante da vila, o curou, lhe deu comida... E eu descobri, porque eu sempre descubro. E ao voltar pra casa, o que você encontrou, querida Sakura? — ela não respondeu, recusou-se a abrir a boca. A visão ainda lhe dava ânsia e dor. — Você encontrou o corpo de seus pais carbonizados... Foi há um ano, não foi? Ah, aquele foi um dia divertido... Aquele foi meu aviso para você. Mas parece que você e seus amigos nunca aprendem, não importa o quanto eu seja paciente.
Ela sentia os olhos úmidos, mas recusou-se a chorar.
— Eu já disse que você não vai conseguir nada com isso! — berrou. — Por que não me dá logo uma surra? Por que não me mata de uma vez?
O Shimura soltou uma gargalhada fria.
— Oh não, querida... Está muito mais divertido assim. Então, como você se sente sabendo que seu companheiro de time Uchiha Sasuke preferiu ser considerado um foragido a voltar para os amigos?
A menção de Sasuke fez seu coração palpitar dolorosamente.
— Pare. — não passou de um murmúrio, que Masao ignorou.
— Você o amava muito, não é mesmo? Talvez ainda o ame... E ele nunca se importou com você. Pobre, pobre menina... Sempre tentando se mostrar importante, sempre tentando melhorar, sempre tentando ficar mais forte para ver se assim podia andar ao lado dele, convencê-lo a desistir de seu caminho de vingança e voltar... Mas você não pôde, não foi Sakura? — disse com falso pesar. — Você falhou. Você não conseguiu salvar Sasuke, assim como não conseguiu salvar seu sensei, assim como não conseguiu salvar seus pais...
— Pare! — disse mais alto, sentindo a garganta se fechar.
—... assim como não conseguiu salvar Uzumaki Naruto...
— PARE!
— Oh? — ele arqueou as sobrancelhas, observando com satisfação as lágrimas rolarem pelo rosto da garota. — É triste ouvir a verdade, não é mesmo, Sakura? Eu estava lá no dia. Eu vi e ouvi tudo. Você o culpou. Culpou seu melhor amigo, aquele que sempre a protegeu... Bem, quem poderia culpá-la? Afinal, o Uzumaki sempre foi como uma bomba prestes a explodir... Mas eu tenho que agradecê-lo, afinal, se não fosse ele, Konoha nunca ficaria tão debilitada e eu não teria assumido o poder. Se não fosse por Uzumaki Naruto, Sakura, nem você ou os outros estariam sendo torturados agora... Ele sempre foi um monstro.
— Lave sua maldita boca pra falar dele! — ela gritou. — Ele foi cem vezes o homem que você nunca será!
O Hokage sorriu.
— O que é isso? Pensei que você o odiasse e o culpasse pela destruição da vila e morte dos habitantes...
Sakura balançou a cabeça negativamente. Ela nunca havia culpado Naruto. Nunca. As lembranças invadiram-lhe a mente, de forma dolorosa.
— Você está de brincadeira comigo! — ela disse fracamente. Tinha curado tantos habitantes aquele dia... e tantos haviam morrido em suas mãos... — Todos sabem que Naruto nunca faria isso! Ele ama essa vila mais do que a si mesmo... ele já a salvou tantas vezes! Ele não tem motivos, ele...
— Basta, garota. — a conselheira a interrompeu. — Você quer ser presa junto com os outros?
Todos os seus amigos, todos aqueles que haviam defendido Naruto e se recusado a acreditar que era culpa dele a situação de Konoha, haviam sido trancados em uma cela. Shikamaru, Ino, Chouji, Iruka, Neji e sua prima Hanabi, Lee, até mesmo Gai e Kurenai... até mesmo Hinata, que chorara e gritara para todos que o que eles planejavam fazer era a maior injustiça que poderiam alguma vez cometer.
E Sakura concordava plenamente com ela. A Haruno enviou um olhar suplicante para Tsunade, que estava ao seu lado, mas a Senju não retribuiu o olhar, preferindo se perder em seus próprios pensamentos. Ela parecia tão fraca, tão velha e tão, tão cansada... A decisão estava tomada e Sakura nada podia fazer. Decidiu então por manter-se calada. Não podia ficar trancada em uma cela... Se Naruto aparecesse, e era um grande se, ela queria vê-lo, queria vê-lo ao menos por uma última vez, ver se ele estava machucado... Seu melhor amigo... Ele era o herói, não o vilão, mas todas, absolutamente todas as provas apontavam para ele. Naruto era o culpado.
Ela afastou-se do grupo de ninjas reunidos. Os conselheiros haviam reunidos líderes de cada clã para decidir o que iriam fazer a partir daquele momento. O líder do clã Hyuuga era um homem que Sakura não conhecia; Hinata que deveria estar ali, já que seu pai estava morto e ela era a herdeira do título, mas por defender Naruto tão fielmente, os anciões não a aceitaram e a trancaram com os outros.
— Sakura... — ela virou-se para Kiba. Os dois trocaram olhares cúmplices. Kiba parecia cansado, e realmente estava. Sua mãe e sua irmã estavam mortas, e metade de seu clã também havia ido embora. — Eu também não acredito que tenha sido ele... o Naruto sempre foi um idiota, mas cara... eu o conheço desde pequeno. Ele nunca seria capaz disso, eu sei. Mas... mas mesmo que ele não tenha exatamente culpa, a Kyuubi nunca seria liberada se ele não se descontrolasse...
A Haruno lembrou-se da primeira vez que presenciara Naruto transformar-se na Kyuubi... ele a atingira, a machucara. Não era Naruto, e sim a raposa agindo por ele, mas mesmo assim, aquilo só acontecera porque o Uzumaki não controlara suas emoções e a deixara sair...
— Mesmo assim, Kiba! — ela disse sofregamente. — Eles estão sendo injustos! Expulsá-lo da vila... do País do Fogo... e ainda o considerarem um nukenin! É horrível!
— Eu sei, Sakura, mas o que podemos fazer? — disse tristemente. — Se o Naruto continuar aqui, eles vão linchá-lo! Ele vai ser perseguido, temido e odiado... O melhor é deixá-lo ir, pra que ele possa se esconder e viver longe daqui, longe de todos os olhares... E se ele por acaso aparecer aqui... seja cruel com ele! Você já está na mira por ser sua companheira de time... tem alguns líderes querendo expulsá-la também... e se Naruto tiver qualquer desconfiança que nós ainda acreditamos nele, ele não vai querer ir embora e isso só piorará tudo...
Apesar de não querer admitir, Kiba estava certo.
Então, uma hora depois, quando um Naruto atordoado apareceu, surpreendendo a todos, Kiba lhe olhou por um momento antes de começar a gritar com o Uzumaki.
Sakura tentou ser cruel também, mas o máximo que conseguiu foram algumas palavras e um olhar de desprezo que na verdade não era pra Naruto, e sim pra ela mesma e pra todos os outros. A dor nos olhos do Uzumaki era quase palpável, e ela pensou consigo mesma que os únicos monstros ali eram eles, não Naruto.
Mas ele não negou nada.
Mesmo quando Tsunade suplicou para que ele dissesse que não tinha culpa naquilo, Naruto manteve-se calado. Como se achasse que a culpa era dele. Como se soubesse que a culpa era dele.
Em algum momento Hinata aparecera, gritando para pararem com aquilo, mas o ninja que representava os Hyuuga colocou-se a sua frente, impossibilitando a Hyuuga de fazer qualquer coisa. Naruto sequer a reconheceu. Ele meramente prestava atenção em Tsunade, que parecia mais quebrada do que algum dia havia sido.
Então, ao término das palavras da Godaime Hokage, o Uzumaki levantou-se do chão e, sem olhar para nenhum deles, deu-lhes as costas.
E Sakura nunca esqueceu a visão de Naruto indo embora. Tudo o que pôde fazer foi ficar lá, parada, vendo-o afastar-se lentamente de si e de todos... para sempre.
Soluçou. Todas as noites ela tinha pesadelos, e em todos os seus pesadelos eram as costas de Sasuke e Naruto que ela via. Em todos os seus pesadelos ela os via afastar-se, e mesmo que corresse e corresse, ela nunca conseguia alcançá-los, e eles afastavam-se mais e mais e mais e mais... até sumirem e ela acordar pra mesma realidade de seus pesadelos.
Eles haviam ido embora e ela não conseguira fazer nada para salvá-los.
Sasuke ainda estava em algum lugar, provavelmente... mas Naruto... ela sabia. Todos sabiam, na verdade. Shimura Masao anunciara, poucos meses depois de virar Hokage, para toda a vila, que matara um monstro...
— Então, Sakura... — Masao disse, inclinando-se para perto da garota. Ela lhe encarou, os olhos vazios, esperando a dor que as palavras dele causariam. Surpreendentemente, ela sabia o que ele falaria antes mesmo dele começar. — Como você se sente ao saber que Uzumaki Naruto está morto?
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