I'm Not a Hero
1 Preface
Notas iniciais
“Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.”
— Friedrich Nietzsche.
A pressão do chackra que usava para dar saltos maiores e chegar mais rápido à vila, ia quebrando os galhos das árvores à medida que corria por eles. Não conseguia se controlar. Fúria era tudo o que sentia. Outro fracasso, outra missão sem sucesso. Outra missão com informações falsas, com esperanças falsas.
Estava furioso. Furioso e cansado.
Cansado de correr atrás de uma amizade que parecia a muito perdida. Cansado de tentar salvar alguém que não queria ser salvo.
Ultimamente, tudo o que ele pensava era em desistir de resgatar Sasuke. Tinha se tornado ridículo, patético, e parecia cada vez mais um sonho de uma criança iludida. Todos já tinham perdido as esperanças até aquele momento, mesmo Sakura. Até ela tinha admitido que Sasuke não se arrependeria e que nada voltaria a ser como antes. Menos Naruto.
Até aquele momento, pelo menos.
Agora tudo parecia se esclarecer em sua cabeça, como acordar de um genjutsu. Parecia claro como água agora que finalmente se permitia pensar naquilo. Toda a amizade que eles haviam tido parecia ter acontecido em um passado muito distante, em uma vida perfeita que Naruto definitivamente estava longe de ter, assim como Sasuke.
Havia se passado um ano desde a Quarta Grande Guerra Ninja, Naruto estava agora com seus dezessete, quase dezoito anos. Eles haviam vencido; Madara e Obito foram derrotados. A paz reinava entre as Cinco Grandes Nações, não sabiam por quanto tempo, mas reinava.
O custo, contudo, fora alto demais. Shikaku, Inoichi, Shizune, Anko, metade do clã Hyuuga, Chouji, Chouza e metade do clã Akimichi, a mãe e a irmã de Kiba... jovens e velhos de todas as partes, todas as vilas. Kakashi. Todos mortos.
Ao final, tudo o que se podia ver eram corpos, sangue e pessoas feridas, física e emocionalmente. Não houve comemoração. O que iriam comemorar? A morte de tantos companheiros? Não. Houve apenas o alívio, porque finalmente terminara.
Naruto suspirou. Konoha tinha se reerguido lentamente, mas tinha conseguido. Não era mais tão bonita como costumava ser, ou talvez fosse apenas o Uzumaki que não a via mais do mesmo jeito. Não lhe trazia mais tanta alegria ver os rostos esculpidos dos hokages ao longe, porque tudo o que conseguia pensar era que a paz pela qual todos eles morreram — inclusive seu pai —, era algo passageiro demais pelo qual não valia a pena pagar um preço tão alto.
Sim. Uzumaki Naruto havia se tornado um poço de negatividade, pensamentos amargos e infelicidade. Não sabia quando exatamente havia ficado assim, mas não tinha mais volta. Seu objetivo de ser hokage também parecia, assim como o suposto resgate de Sasuke que ele prometera à Sakura e a si mesmo tantos anos atrás, idiotice.
Não queria fazer parte daquilo mais. Não queria ter que ficar atrás de uma mesa assinando papéis e mais papéis, burocracia atrás de burocracia. Não queria mandar ninjas para missões sabendo que alguns nunca mais voltariam.
Tinha se tornado um pouquinho amargo, era fato, mas estava tudo bem. Perto dos amigos que ainda restaram, conseguia se sentir feliz — ou quase. Havia um tipo de vazio em seu peito que eles não conseguiam preencher, assim como sabia que havia no deles também, mas estava tudo bem. Tinha que ficar tudo bem.
De súbito, lembrou-se de Hinata. Estava evitando-a desde a guerra, admitia. Uma atitude covarde, realmente, mas ele simplesmente não conseguia se decidir em como se sentia em relação a ela e não queria magoá-la, apesar de saber que era exatamente aquilo que vinha fazendo durante aquele ano.
Tinha outra coisa o incomodando também. Kyuubi. O maldito monstro que vivia dentro de si. Ela andava impaciente, irritada e louca para se libertar. Não sabia o que a maldita raposa tinha; eles até estavam tendo uma relação razoável durante a guerra e um pouco depois disso (Naruto ainda não conseguia controlá-la, mas já era um começo), mas poucos meses antes ela começara a ficar assim. Ele sempre aguentava, resistia, mas duas noites atrás... Naruto perdera a consciência. Desmaiara. Quando acordara, estava bem longe de onde tinha acampado e bem mais próximo de Konoha, e suas roupas estavam rasgadas.
Olhou para as roupas. Como explicaria isso a Hokage? Suspirou.
Começou a diminuir o passo e se acalmar, sabendo que estava chegando cada vez mais perto da vila. Tudo ficaria bem quando chegasse lá. Ninguém o condenaria por ter falhado em conseguir qualquer informação sobre o paradeiro de Uchiha Sasuke, porque ninguém tinha mais esperança ou vontade de que ele voltasse. O Uchiha havia se tornado um nukenin, havia se aliado a Akatsuki (mesmo que tivesse sido há muito tempo e hoje ela nem existisse mais) e, mesmo não participando da guerra ao lado dos outros dois Uchihas (ninguém nem ao menos sabia onde ele se encontrava), ainda era mal visto pela maior parte da população da vila.
Quando finalmente pousou na terra, em frente aos portões de Konoha, seu coração falhou uma batida. Parecia que havia acabado de receber um soco na boca do estômago, porque todo o ar faltou de repente. Era como um flashback, como quando aparecera para lutar com Pain e tudo o que vira eram destroços do que antes era uma vila.
Era a mesma coisa agora.
Os portões estavam despedaçados e ele pulou sobre os escombros, apenas para encontrar corpos e sangue pelas ruas. Começou a correr, procurando algo, qualquer coisa que não fosse corpos e mais corpos e sangue e dor, gritando para encontrar uma única alma vivente que pudesse lhe explicar que merda estava acontecendo ali. Não apareceu ninguém. Ao invés disso, ele pulou e desviou de uma kunai, jogado de maneira tão desleixada que lhe surpreendia pensar que alguém realmente tivera a esperança de ter lhe acertado.
O que o chocou mais, porém, não foi isso. Foi o fato de que, ao se virar, o que viu não era o que esperava.
Não era um inimigo ou uma pessoa distraída que jogara a kunai. Fora um morador da vila. O mesmo morador que ele lembrava claramente de ter sorrido e gritado junto com a multidão que o levantava, o aplaudia e o reconhecia por ter salvado a vila das mãos de Pain.
Sentiu o coração pesar, porque o olhar que via no rosto daquele homem era o mesmo que recebia quando criança. O mesmo olhar de desprezo, nojo e, mais do que tudo, medo.
— Por quê? — Naruto murmurou mal sentindo as palavras saírem.
Mas se surpreendeu ao ouvir o soluço de uma mulher ao lado daquele homem.
— Por quê? — foi ela que perguntou. — Por quê? Achei que amasse essa vila! Achei que era o herói daqui! Você enganou a todos. — a tal mulher soluçou, sendo amparada pelo homem, murmurando que ela devia calar a boca, murmurando que Naruto a mataria se continuasse a falar, lhe olhando com receio. Ele nem mesmo era um ninja; havia pegado uma kunai de um dos corpos espalhados no chão. — E daí se ele me matar? Meus filhos... nossos filhos estão mortos! Todo mundo, todo mundo... E a culpa é dele! Desse monstro! Monstro, monstro, monstro!
E suas palavras ecoaram na cabeça do Uzumaki. Monstro. Há quanto tempo ele não ouvia alguém o chamando assim?
— S-saia daqui. Saia, moleque raposa! — outro morador apareceu, se arrastando, machucado, para perto de um corpo morto de uma menina. Ele chorou sobre seu corpo. — Já não foi o bastante destruir a vila e matar tantas pessoas? Quer realmente destruir a todos nós? Bem, acabe logo com isso. Mate todos! Destrua tudo! — gritou, mas sua voz e seu corpo tremiam, temendo a morte que provavelmente viria logo.
Naruto tentou aproximar-se dele, chocado, mas o morador gritou completamente aterrorizado, tremendo e lhe olhando com os olhos arregalados.
— Demônio! — a mulher de antes tornou a gritar. — Você não tem um pingo de humanidade. É um monstro sem sentimentos! Saia daqui, raposa!
E Naruto saiu. Eram acusações ridículas e injustas, e ele sentia-se inflar de dor e raiva. “Raposa”. Por que lhe chamar assim novamente? Já não tinha recebido o maldito reconhecimento por ser Uzumaki Naruto, e não Kyuubi? Correu até o prédio da Godaime. Ele estava quase todo destruído, assim como o resto da vila. Não havia nada nem ninguém lá. Rangendo os dentes, tornou a correr, não encontrando mais nenhum corpo vivo durante o caminho. Parou assim que avistou o clã Hyuuga; estava destruído, sim, estava e de lá ele podia sentir o cheiro dos corpos apodrecendo, mas ainda tinha uma parte em pé e ele podia ver silhuetas.
Desesperado, chegou lá em apenas alguns segundos, mas, novamente, teve que se desviar de um ataque.
— Nani...?
Olhou para o cara que havia tentado atacá-lo; um Hyuuga. Distraiu-se tanto que por pouco não era acertado por um soco mais do que potente. Ao olhar para quem tentara acertá-lo, sentiu algo estranho revirar-se dentro de si.
Sakura o encarava com os olhos alarmados. Ela rapidamente se afastou dele, voltando para um pequeno grupo de ninjas que tinha ali, todos em posição de ataque.
— Naruto — ela murmurou chorosa —, por quê?
Já era a segunda mulher que lhe perguntava aquilo em menos de dez minutos. Era ele que se perguntava: por quê?
— O que houve Sakura-chan? — passou os olhos pelo grupo; a maioria lhe era desconhecida. Todos estavam terrivelmente machucados, no entanto. — Kiba, Shino... Onde estão os outros? Por que estão me atacando? Não sou eu o inimigo! Vocês enlouqueceram?
— E eu que pensei que você não poderia ser pior. Quanto cinismo! — Kiba rosnou e Akamaru ao seu lado fez o mesmo. — Veio terminar o trabalho, Kyuubi?
— Me expliquem o que está acontecendo! — exigiu começando a se irritar.
— Naruto! — Tsunade abriu caminho entre os ninjas, que pareciam fazer uma barreira. Ela tinha os olhos cheios de lágrimas; sua aparência não estava jovem como costumava ser. Ela estava velha, fraca e terrivelmente machucada. Era óbvio que havia lutado e dado tudo de si. — É impossível... NÃO FOI ELE! — gritou para alguém atrás de si, e Naruto viu os dois conselheiros, Homura e Koharu atrás dela. Os conselheiros estavam impecáveis e era igualmente óbvio que deviam ter se escondido em algum canto com o que o Uzumaki esperava ter restado da população.
E a Senju tossiu sangue. Sakura apressou-se até ela, nunca tirando os olhos do Uzumaki. Quando ele ameaçou dar um passo até elas, outro ninja o atacou. Desviou de novo, nunca atacando de volta.
— E quem foi então, Tsunade? — ouviu a voz fraca de Utatane Koharu, a velha conselheira, interromper o silêncio sombrio que se instalara ali. — Nós vimos. Você viu! Quanta audácia voltar depois de tudo o que fez moleque!
— Não. — podia sentir a voz dela fraquejando, como se ela estivesse muito fraca para sequer falar. Como se ela não tivesse certeza se o que dizia era certo. — E-era um genjutsu... Naruto nunca seria capaz... Ele ama essa vila!
— Pare de tentar defendê-lo, Tsunade! — dessa vez foi Homura quem falou, encarando-o com desprezo. Sabia que qualquer movimento que o Uzumaki fizesse os ninjas a sua frente defenderiam... Enquanto ele não se transformasse, tudo estaria bem... — Konoha está destruída, tudo por causa de imprudência sua e de Sarutobi em permitir que esse monstro vivesse aqui! Deveriam tê-lo expulsado assim que ele tivesse idade suficiente para andar!
— Ele nunca faria isso... Ele quer ser hokage... — disse com a voz falha, encarando o loiro, quase suplicante. Suplicante por ouvir uma negação. — Ele... Naruto ama a vila... Ele não tem motivos para ter feito isso! É um engano! Um erro!
— Olhe o estado de Konoha! Olhe como ele a deixou, olhe quanta gente ele matou. Ele enganou a todos, Tsunade! Uzumaki Naruto é um monstro que não pode ser controlado ou aniquilado. A decisão já está tomada.
— Me expliquem agora que porra está havendo! — berrou. Percebeu todos se retesarem, receosos.
Tsunade levantou a cabeça para encarar-lhe, temerosa. Ela não tinha se afastado, mas ele poderia reconhecer aquele sentimento no fundo de seus olhos cor de mel.
Um dos três sannins lendários, a hokage de Konoha, aquela que sempre o espancava e que ele considerava como sendo de sua família. Tsunade. Com medo dele.
— O que está acontecendo, baa-chan? — dessa vez seu tom foi mais baixo e acanhado, não ousando se aproximar para não ser atacado novamente. — Quem destruiu a vila? Por que está todo mundo me culpando?
Ouviu os conselheiros resfolegarem com sua audácia.
— Eu estava procurando por Sasuke, mas a missão falhou e eu voltei! — apressou-se em falar, aflito. — E vi essa destruição!
— Não tente fingir Naruto, você parecia saber muito bem o que estava fazendo! — foi Sakura quem gritou dessa vez, fazendo tudo ficar pior. Ele nunca imaginaria que receberia tal olhar novamente, muito menos dela.
— Baa-chan, fale logo o que está acontecendo! — exigiu. — Que tipo de pegadinha é essa?
Tsunade soluçou, o surpreendendo, porque ela raramente chorava. Tudo o que ela conseguia pensar era em como os conselheiros eram estúpidos. Naruto nunca faria aquilo. Mas ela tinha visto. Não fora um genjutsu. Fora real. Mas não podia ter sido real.
A carta com a resposta do lorde feudal chegara cedo demais, quase imediatamente. Ele mal pensara, é claro. Agora todo o mundo shinobi sabia. Menos Naruto. Ele não tinha ideia, era o que ela podia ver por sua expressão. Ou ele não lembrava, ou ele era um ótimo mentiroso... ou ele não tinha culpa.
— Diga que não foi você, Naruto... — implorou. — Diga!
Mas ele não podia, porque uma parte do que acontecera duas noites atrás invadiram sua mente, como um flashback, tão repentino que ele fechou os olhos. Sua cabeça pesou e ele grunhiu de dor e caiu de joelhos no chão, segurando-a, suplicando internamente que aquilo parasse. Ele não queria ver aquilo. Ele não queria admitir que as acusações eram verdade.
Mas eram.
Ele lembrava agora.
Levantou os olhos para os ninjas a sua frente, parando em Kiba, Shino... e Sakura. Sakura, com seus enormes olhos verdes, lhe encarando com aquele mesmo desprezo de antes. Todos lhe encarando com o mesmo desprezo com o qual ele vivera a vida toda.
Alguém, ao longe, gritou algo, mas um dos Hyuugas tampou sua visão e depois disso, ele só olhou para Tsunade, sentindo os olhos arderem.
Como tudo mudara tão de repente?
Seu corpo tremeu ao finalmente dizer, quando percebeu que ele não negaria, quando percebeu que era tudo verdade:
— N-Naruto... — respirou fundo tentando manter-se firme, tentando não demonstrar medo. Era tarde demais, porque o loiro já havia notado como ela estava se encolhendo, e ela não pôde conter as lágrimas ao dizer as próximas palavras. Tossiu um pouco mais de sangue. — Uzumaki... Naruto... Você está expulso de Konohagakure no Sato e do País do Fogo por ter se descontrolado e atacado a vila em forma de Kyuubi no Youko... A partir de agora, você será caçado internacionalmente e considerado como um nukenin rank-S e nenhuma das Cinco Nações descansará até ter sua cabeça empalhada... Seu... seu nome será conhecido em todo o mundo ninja por “Naruto” — sua voz falhou. —, “o demônio desertor”.
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