I'm Not Okay.
1 Pain.
Notas iniciais
É como se todo o ar fosse embora. Eu o puxo, mas meus pulmões simplesmente não conseguem suportar o peso de segurado tempo o suficiente para que eu possa assimilar o oxigênio em meu corpo. Um latejar insistente faz com que o mundo gire e perca o sentido, parece que nada é real, que tudo vem de uma mente conturbada e doente, que tudo não passa de nada.
Os pensamentos se vão, restando apenas o eco das palavras que machucam. Machucam tanto quanto minhas unhas arranhando a pele da parte interna de meu braço, meus pulsos, minhas próprias mãos. A dor dá algum sentido, mas não gosto dela. Arde, incomoda, mas traz a realidade à tona. Continuo puxando o ar, como se estivesse submersa em um tanque, o lateja agora em meus ouvidos, impedindo-me de ouvir o mundo, deixando apenas a sensação de minha pulsação acelerada. O Tum, Tum, Tum martela cruelmente, juntando-se ao tique-taque de um relógio que só existe em minha cabeça, tudo é fruto apenas de minha cabeça conturbada.
O sangue pulsa, aos poucos mais lento, mas a sensação de desconforto, incomodo, aquela mesma que me fizera acreditar fielmente que nada é real ainda permanece. O monstro continua a rugir. Novamente as unhas contra a carne, a dor, a busca pela realidade e pelo sentido do que está acontecendo. Durante minutos, que parecem ser horas, permaneço neste estado, no limbo entre o pânico, as lágrimas, o vazio. Um limbo.
Quero bater em algo – ou alguém, ao mesmo tempo em que quero que tudo seja tão silencioso quanto o impacto de uma pena no chão. Inexistente para todos até que assim o seja também para mim. Até que seja apenas mais um fantasma a me assombrar nos dias escuros, até que a voz seja mais uma unida às outras que insistem diariamente para que eu de um fim a tudo e a todos. Faça a dor parar, faça com que minhas unhas não mais arranhem a carne, com que parem de sussurrar, de falar, gritar em meus ouvidos. Para que o silêncio e a inexistência me rodeiem de tal formar que eu esteja no mais tranquilo dos sonhos. Um sonho do qual nunca vou acordar, sem interrupções, um voo sem escalas.
Mas ainda há a razão – ou talvez seja o medo, a covardia — e apenas me vejo esperando o cair das lágrimas cessarem e os batimentos cardíacos se acalmarem, uma paz relativa até o próximo surto, até a próxima vez em que serei engolfada pela escuridão de meras palavras afiadas e letais como facas, palavras tão velozes no que diz respeito à atingir minha mente, que pode ser facilmente um projétil, uma bala muito bem planejada. Para ferir.
Obrigo meu corpo a erguer-se do chão, posso sentir uma pressão na cabeça e nos olhos e meus movimentos são mecânicos. Um suspiro, longo demais para ser natural, pesado, como se carregasse o peso para fora – mas não o faz – uma tentativa de sorriso e a máscara está lá novamente. Ninguém nunca vai saber, ou nunca saberia se não estivesse aqui contando, se meus dedos não voassem por sobre o teclado, que agora é alvo da fúria restante. Eu a guardo, junto à outras. O Arquivo está cheio, transbordando, mas não há onde jogar fora. Talvez nunca haja.
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