I'm Not In Love
1 Fuga.
Notas iniciais
Quarta-feira
Tinha o “conhecido” primeiramente, quando fugia silenciosamente, no meio de uma tarde tranquila de quarta-feira. Uma fuga um tanto esquisita, não é? Geralmente, fazia com gosto as aulas de Educação Física. Jogar era uma forma de alívio para as aulas anteriores. Entre cálculos, fórmulas e questões, e correr com uma bola pelo meio da quadra grande, ela certamente preferia a última.
Todo ano, eram escolhidos meninos e meninas do Fundamental Dois e Ensino Médio para fazerem apresentações de abertura dos Jogos Internos anuais do colégio. Eles pegavam qualquer um da arquibancada, dane-se se você não sabe dançar. Ela realmente não sabia dançar, não mesmo. Era como se pedissem a um desenhista sem experiência em escalas, que subisse o Monte Everest em um determinado tempo. Estava totalmente fora de cogitação. Sem chances.
Andava o mais rápido possível, já que ainda estava um pouco perto da escola, e um dos funcionários poderia muito bem avistá-la fugindo. Mas a essa hora, quase ninguém andava pelas ruas. Alguns carros andavam aqui e lá, transmitindo alguns ruídos pelo caminho, e depois a estática tomava conta do lugar. Começou a desacelerar os passos, respirando fundo e acalmando os nervos.
De início, a ideia parecia a melhor do mundo. “Uau, nunca tramei algo assim antes”, pensou. Por alguns momentos, achou-se um gênio descobrindo a fórmula para a cura do câncer. Fugir lhe pareceu a melhor opção.
“Que merda eu fui fazer”, pensa agora, irritada consigo mesma. Passou pela sua mente dar meia volta, seguir o caminho do ginásio, pedir desculpas ao professor e sentar na arquibancada, para esperar ser chamada a dançar na frente de todos, e...
“Não”, pensou, tirando aquela ideia ridícula da cabeça. Fugir já foi humilhação o suficiente; chegar lá parecendo um cãozinho pego pela carrocinha era demais para ela. “Já estou aqui e continuarei.” Com os olhos fechados, respirou fundo novamente e seguiu em frente.
Ao chegar perto da esquina da Rua 34, virou bruscamente para a mesma e acabou tombando em alguma coisa extremamente alta. Com o impacto da batida, caiu de costas no chão, atirando a bolsa um pouco longe.
– Ai! – Reclamou. Pelo que pareceu, a coisa com qual ela se chocou, não sofreu nenhum dano. Mal saiu do lugar. Já ela... Tinha as costas em chamas. Porém, sabia que eram cortes superficiais, fáceis e rápidos de curar.
– Precisa de ajuda, criança? – A “criança” sentiu uma pontada generosa de deboche na voz um pouco grave do outro. Estendeu a mão para ela, que desviou-se e levantou sozinha, pegando a mochila no chão.
– Não, obrigada. A “criança” não precisa de ajuda. – Ela respondeu com quase o mesmo tom de escárnio, se não fosse pela dor que sentia nas costas. Ela contorceu-se um pouco com o ardor, e voltou, ou tentou voltar a andar; se não fosse parada pelo alto, e quase levada ao chão novamente.
– Ops. – Disse ele, segurando consideravelmente forte em sua cintura, enquanto ela ficava com mais raiva ainda da situação. Oh céus, se alguém visse isso...
– Solte-me agora. – Ela, ainda com a face avermelhada pela raiva, se soltou das mãos do garoto, que por mais que tentasse, não conseguia parar de achar graça daquela coisinha minúscula se agitando em seus braços. Ela transparecia fúria por não ter chegado em casa ainda. – Dá pra parar de rir? – Ela gritou reclamando. Ajustou pela milésima vez a mochila em suas costas. – Eu não vejo graça.
Ela começou a andar, ou melhor, bater os pés ruidosamente pelo asfalto, fazendo com que os cabelos ruivos e curtos chacoalhassem contra os olhos e empatasse a visão. Sem perceber, ela era observada por uma figura estranha, de cabelos negros médios, que curiosamente mantinham um tom azulado quando chegavam às pontas onduladas, tornando-o uma pessoa misteriosamente única.
Estava chegando perto da casa, finalmente. Já passavam das três e meia da tarde, ela supunha. Perdeu um valioso tempo com aquele ogro que a derrubara. “Um ogro com belos olhos cor de mel, se não minha mente não engana”, refletiu.
Entrou em casa silenciosamente, já que essa não era uma hora convencional de chegar e sua mãe certamente a perguntaria o motivo de estar em casa a essa hora. Subiu as escadas na ponta dos pés, tentando não se mexer muito.
Ela viu a mulher dormindo no meio da cama de casal, enrolada por um lençol até a cintura. Respirava levemente, e pareceu que não acordaria tão cedo. Ela sabia que a mãe tinha o sono pesado, então foi tranqüila ao seu quarto.
Deixou a mochila encima da cama, e dirigiu-se ao banheiro. Estava se preparando psicologicamente para a dor que sentiria quando entrasse debaixo do chuveiro. “Droga! Só há banheira na suíte da minha mãe. Se eu entrasse lá, seria arriscado demais.” Ela pensou várias vezes, em várias possibilidades. Poderia tomar banho em seu chuveiro, mas sentiria muito mais dor. Poderia entrar silenciosamente no quarto de sua mãe, e tomar banho em sua banheira, porém, corria o risco de ser descoberta. Ou também poderia esperar pela hora que ela volta para casa toda quarta-feira (que há aula em tempo integral), e pedir educadamente à sua mãe para que ela tomasse um bom banho em sua banheira. Mas aí, os cortes poderiam inflamar se não fossem limpos a tempo.
“Que se dane a dor.” Ela decidiu entrar debaixo do chuveiro, mesmo sentindo as costas pinicarem e tudo. Estava pagando um preço, afinal.
–X-
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