I'm Not Hydra
7 A Desconhecida
Notas iniciais
– Tá conseguindo respirar direito, amorzinho? – Julia levantou a cabeça de Simmons, puxando seu cabelo para trás. – Por que essa carinha triste, Jemma? É só um pouquinho de sangue. Tem muito mais de onde esse saiu.
Jemma já havia apanhado muito em Low Newton. Ao contrário do que podia parecer, Jemma Simmons odiava seguir ordens. Na S.H.I.E.L.D. ela reaprendera a confiar nas pessoas, a trabalhar em equipe, mas fora preciso muito treinamento e apoio para que ela se tornasse uma cientista apurada e eficiente, apta a trabalhar com pessoas harmonicamente.
– Você... Pode fazer melhor... Do que isso, Julia. – Simmons murmurou, cuspindo sangue no chão impecável daquela sala escurecida. – Você é uma Thompson, lembra?
Julia respirou fundo silenciosamente, ainda tendo em mãos o cabelo castanho-claro e ensanguentado de Jemma.
– Não me desafie, Simmons. – a loira bradou com os dentes cerrados. – Estou tentando ser amigável.
– Por que não me mata logo de uma vez?
Julia fechou os olhos com força ao ouvir a pergunta de Simmons e puxou o cabelo dela mais ainda, fazendo com que o queixo da britânica se erguesse um pouco, mas não tanto que a permitisse vê-la.
– Você já viu o que um gato doméstico faz com sua presa?
– Não.
– Ele apenas brinca com o animalzinho, um rato, um lagarto ou qualquer coisa menor do que ele. Quando ele abocanha o animal, ele apenas o prende em seus dentes, sem a mínima pretensão de devorá-lo. É exatamente isso que eu estou fazendo com você nesse momento, Jemma.
Simmons não respondeu nem perguntou coisa alguma. Apenas remexeu-se na cadeira desconfortável, percebendo que as algemas estavam realmente machucando seu pulso. Julia, por sua vez, parecia inquieta, por mais que suas palavras expressarem a segurança e a frieza que realmente habitava dentro de seu ser. Mas Jemma Simmons a conhecia mais do que qualquer outra pessoa. E Julia, com certeza, estava se segurando. Talvez, ao fim das contas, houvesse alguma humanidade dentro de Julia Thompson, uma humanidade que a impedia de torturar sua melhor amiga deliberadamente sem que isso causasse nenhum transtorno à sua massa cinzenta e nublada.
– Você está se segurando. – Simmons falou firmemente, tentando não esboçar um semblante abatido pela falta de ar. – O que está te impedindo, Julia? – ela a desafiava cada vez mais. – O que está te prendendo?
– Já chega! – Julia esmurrou a mesa com violência e procurou por sua faca preferida dentro da mala. – Vamos ver como ficará seu belo rostinho quando eu começar a mutilá-lo.
– Senhorita Thompson.
A voz de um agente barbudo e inquieto invadiu a sala bruscamente, no momento em que Julia percorria o contorno da face de Simmons com a faca que reluzia quando o agente abriu a porta, permitindo a entrada de luz naquele quarto escurecido.
– O que é? – ela perguntou rudemente. – Eu ordenei a Victoria que não me interrompesse enquanto estivesse trabalhando, então – ela ficou de pé e aproximou-se do agente, que já tocava o coldre procurando sua pistola. – É bom que seja um ótimo motivo, ou você vai pagar caro pela desobediência dela.
– Isso não será necessário, Julia. – A voz de Hand surgiu da mesma porta de onde o agente saíra segundos atrás. – Você vai querer atender a essa.
– ATENDER A QUÊ! – Julia avançou em direção a Hand com a faca empunhada e com sua paciência se esvaindo mais a cada segundo. – Fala, Victoria!
Hand apenas virou um tablet em direção a ela, sem dizer uma palavra.
Julia Thompson sentiu a faca pesando repentinamente e o metal gelado escorregou entre seus dedos até encontrar o chão ruidosamente, sem que a loira imponente desse conta disso.
– Isso não é possível.
Julia pareceu cochichar para si mesma, como se estivesse tentando se convencer daquilo. Tomou o aparelho das mãos de Victoria Hand e aproximou a imagem, num zoom que extrapolou a escala de pixels. Ela estava nitidamente alterada. Voltou a diminuir o zoom até que pudesse examinar direito o rosto da mulher que aparecia com um copo de café em uma mão e um telefone celular na outra, no que parecia ser uma conversa bem agradável. A pele pálida e o sorriso – falso – e familiar lhe deram um embrulho no estômago automaticamente. Ela não devia estar viva.
– Ela não devia estar viva. – Thompson continuava. – Você sabe disso!
– Por isso interrompi sua pequena intervenção com a Agente Simmons, Julia. Sabe o que isso significa.
– Ah não – ela devolveu o tablet a Victoria como se o simples fato de segurar aquilo lhe causasse ânsia. – Isso eu não permito!
Saiu da sala, batendo a porta ferozmente. Julia não estava pensando direito, se é que isso não era uma constante na sua vida. Saber que ela estava por aí, andando, respirando... Vivendo... Era demais para ela. Precisaria terminar o trabalho mal finalizado por alguém. E em seguida matar o alguém incompetente ou traidor que permitiu que ela saísse ilesa daquele “acidente”.
– E quanto a Simmons? – Hand perguntou, enquanto Julia já caminhava longe no corredor. – O que faremos com ela?
– Você é a chefe, não? – Julia gritou de longe. – Não precisa de mim para decidir isso, Vic.
Julia simplesmente adorava fazer isso: Deixar as pessoas em conflito.
– Claro, mas eu pensei que você...
– Olha – Julia freou sua passada e a encarou novamente, fazendo as botas rangerem em atrito com o chão. – Você sabe que aquela desgraçada é prioridade no momento. – ela disse simplesmente. – Não me importa se vocês vão matar a garota com ou sem mim. Simmons não sabe para onde os outros agentes foram, acredite. Podem arrancar os dedos dela com um alicate, mas ela não pode falar o que não sabe.
Julia arrancou novamente, em direção ao fim do corredor. Victoria não ousou pronunciar uma palavra. Apenas ela e Simmons conheciam a fúria que Julia cultivava por Bethany. Era algo incontrolável que só se saciaria com gosto de sangue. E Julia estava indo cobrar o sangue que lhe pertencia. Todos aqueles anos buscando vingança... Julia não a deixaria escapar dessa vez.
– Ah – ela levantou o dedo, sem voltar a olhar para Hand. – E se quiserem a cientista viva, é bom que tratem de leva-la para a ala médica antes que todo o sangue dela se esvaia... Se bem que – Julia deu um passo errante e lentamente virou-se para Victoria outra vez. – Há essa altura ela já deve ter feito algo para conter o sangramento. Simmons estava quase conseguindo escapar das algemas quando eu saí da sala.
Victoria Hand ouviu um grito agudo vindo da sala onde Simmons estava.
Dois disparos secos ecoaram pelo corredor, fazendo a mais velha olhar assustada para trás.
– O que foi que eu falei? – Julia pronunciou sorrindo, enquanto Hand procurava sua pistola, sem sucesso. – A garota não é nada boba, Vic. Ela foi treinada por mim, lembra?
Hand correu em direção a seu escritório ao perceber que estava sem sua arma. Julia corria na direção oposta, seguindo a passos largos para o estacionamento onde deixara o quinjet. Ouvia mais disparos e apenas os ignorava como se tivesse passado anos vivendo em meio à guerra. – o que, de certa forma era bem verdade.
– O que houve aqui?! – Hand empunhava uma 9mm enquanto interrogava um guarda ferido no chão.
– A garota... A garota fugiu. – ele dizia, pressionando o abdômen que sangrava bastante. – Fugiu naquela direção.
– Como isso aconteceu?
– Eu não sei ao certo. – ele respirava com dificuldades. – Acho que ela se soltou enquanto estávamos informando a Agente Thompson sobre o aparecimento da outra agente.
– E com o quê ela te feriu? – ela inclinou o corpo para ficar na mesma altura que ele.
– Com uma faca, senhora. – ele respondeu, constrangido. – Uma boa faca militar. Talvez até seja um item de coleção, já que eles pararam de fabricar esse modelo há cinco anos.
Hand levantou-se e apertou a pistola entre as mãos, incrédula.
– Julia. – Ela pronunciou fraco, sendo tomada por um arrepio na espinha. – Ela fez isso.
(...)
– E então? Como estamos? – May perguntou, olhando fixamente para Skye.
– Acabei de burlar a segurança da instalação, o que devo dizer, foi difícil até para mim.
– A HYDRA gosta de manter segredos, sabe? – Ward comentou, apoiando os cotovelos no encosto da cadeira em que Skye estava sentada.
– É, eu percebi, Ward. – ela girou a cadeira, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio.
– Ei!
– Vocês dois, quietos! – May olhou feio para Ward. – Skye.
– Já estou dentro, já estou dentro. – ela levantou as mãos em sinal de inocência. – Jemma não está na sala. – Skye parou por um momento. – O que é aquilo no chão, perto da cadeira?
– Não, Jemma... Não. – Fitz pedia quase como numa prece. – Não faça isso comigo, por favor.
– Oh meu Deus. – Skye arregalou os olhos e Ward repousou as mãos no ombro dela. – Isso é... sangue?!
– Muito sangue, por sinal. – Ward olhou para a face de Skye, percebendo o brilho que se formava pelas lágrimas. – Precisamos voltar lá, May. Como estamos com o Bus?
– 75% operante, Ward. – Fitz apressou-se em informar. – Estamos prontos para voltar e busca-la.
– Fitz e Skye, vocês ficam.
– De jeito nenhum! – os dois responderam em uníssono.
– Não vou deixa-la para trás. – Skye bradou, cruzando os braços na frente de May.
– Nem eu. – Fitz a apoiou.
– E eu não vou deixar os dois se matarem nessa missão. – May suspirou irritada, sabendo que Skye não a obedeceria e que Fitz se apoiaria nela para permanecer irredutível. – Tudo bem. Vocês vão. Mas estarão trancados no avião quando nós descermos para resgatar Simmons. Não posso proteger todos ao mesmo tempo.
– Tudo bem. – Skye sorriu e tocou o ombro de Fitz. – Teremos cuidado, eu prometo.
– E eu conheço suas promessas, Skye. – May a olhou, desconfiada. – Elas perdem a validade no momento em que alguém está em perigo.
Skye não respondeu nada, May estava certa e ela sabia disso.
– Eu sei que você quer se arriscar por ela. Mas faremos de tudo para trazer Jemma de volta, não se preocupem.
May tocou o ombro de Skye e sorriu levemente para Fitz antes de sair em direção à cabine.
– Nós vamos conseguir, Skye. – Ward sorriu para ela, ainda buscando por redenção.
– A May acabou de me dizer isso, Ward. – ela o olhou, ainda magoada pela traição dele. – E adivinha em qual dos dois eu acredito mais?
Skye saiu da sala e Fitz só conseguiu segui-la até os dois desaparecerem em direção ao laboratório. Ward permaneceu na sala, monitorando a Central, tentando encontrar algum sinal de Simmons, quando não pôde acreditar no que via.
– Mas o que...
Ele aproximou o rosto do quadro e uma loira corria pelos corredores, até que ela parou e a câmera pôde focar bem no seu rosto.
– Julia. – ele murmurou perplexo. – Julia Thompson está... Viva?!
Fale com o autor