Notas iniciais
Eu estava olhando arquivos antigos no meu computador quando encontrei essa história. Ela é muito pessoal, mas decidi postá-la de qualquer jeito, se refere a um tempo do ano passado em que passei por muitas dúvidas e sofri muito por amor, a história é quase como uma conversa entre meu eu exterior e interior.

Eu estava ali, andando por um lugar um tanto cheio, vejo uma garota parada, ela fitava o chão, sem piscar uma única vez, as pessoas, com pressa, esbarravam nela, uma, duas, três vezes, sem ao menos desculparem-se, ela ignorava tanto, a inércia empurrava-a para trás e para frente, mas ela sempre voltava á mesma posição, sem parar, encarando o chão, como se esperasse algo dele.

Esperando, talvez, que ele permitisse-a levantar, talvez tendo apenas uma conversa com um velho amigo, algo do tipo “já cai tantas vezes, estou aqui de novo, sentiu minha falta?” talvez... O que era? Parei também, tentando por um segundo desvendá-la, quando, para a minha surpresa, mesmo com os olhos cheios d’água ela contorceu os cantos dos lábios em um sorriso. Olhei para os lados, estávamos sozinhas. Ela levantou o rosto, olhou para mim, estava séria novamente.

-Tudo bem? – eu perguntei

Ela sorriu novamente, dessa vez mostrando seus dentes, era um sorriso lindo, porém tão melancólico, preso naquele mero movimento toda a dor do mundo. Senti que ela ria da própria angústia, não conseguia entender, ela não deveria estar chorando? Ela estava basicamente, podíamos ver o brilho da água em seus olhos há metros de distância, ela deveria estar fazendo tanta força para que não caíssem. Não por um motivo tolo como se aquilo fosse borrar a maquiagem dela – que, por sinal, ela nem usava – mas porque aquilo demonstraria para todos “está doendo” poderiam pisoteá-la agora que estava caída.

Mesmo com aquele sorriso, que denotava toda sua tristeza, pude ouvi-la, ela manteve a boca parada, naquele sorriso constante, mas ouvi sua voz.

-Não... Eu sou muito estúpida?

-Estúpida? – perguntei sem entender

-Por estar assim por ele...

Olhei em volta e de repente estávamos cercadas por casais, que andavam de mãos dadas, se abraçando, beijando, rindo... Assustei-me um pouco, voltei meu olhar para ela novamente, que permanecia com a mesma expressão.

-Isso depende – respondi incerta

-Eu duvido tanto dele... Ele causa isso também, quer dizer, uma hora está tão fofo comigo, diz gostar muito de mim, na outra me diz que todos dizem que ele e alguma garota são almas gêmeas, os dois relembram os tempos em que estavam juntos, ela diz que ainda estariam se ele não a tivesse trocado... Eu nem o conhecia nessa época... Alguns dias depois ela começa a namorar, ele demonstra estar triste, apesar de dizer que ela é absolutamente linda e parecer abatido pelo novo namoro ele diz que não vale esperar por ela, pois não gosta dela, gostaria apenas de ficar com ela.

Esperei que ela continuasse.

-Eu disse “eu acho que talvez eu possa te amar” demonstrando toda a incerteza, mas também demonstrando a possibilidade de eu sentir algo tão imenso por ele, algo que ambos abominamos e taxamos como algo especial demais, algo difícil de sentir, que eu senti apenas uma vez e ele duas, se não me engano. Eu disse isso. Ele apenas respondeu “ah...” foi tão frustrante. Eu deveria ter ficado calada, não deveria? O que eu faço? Quero que ele me ame... Ou pelo menos tenha toda a incerteza do mundo, mas tenha a incerteza de que ele pode me amar. O que eu faço pra isso acontecer?

-Gosta dele tanto assim?

-Já imaginou passar o resto da vida com alguém? Eu imagino com ele. Eu não sou do tipo que gostaria de experimentar apenas um homem a vida toda, até agora não experimentei nenhum, mas, caso eu consiga tê-lo, o medo de não poder consegui-lo mais uma vez me faria grudar nele pra sempre... Ele disse que iria me aguentar pra sempre, respondeu “claro”, na realidade, mas acho que ele estava brincando, ele não costuma brincar com sentimentos, ele pelo menos diz que não mente sobre isso... Vou acreditar nele...

Ela olhou para os casais a nossa volta, o sorriso se desfez, ela voltou o olhar para o chão, seus lábios se contorceram novamente por alguns segundos, voltou a olhar para mim, vez e outra observando, triste, as carícias alheias.

-O desejo é bem forte... Estou sempre nos imaginando juntos, sonhando com ele, desejando por sua mão, seu corpo, seus lábios – ela começou a acariciar uma das bochechas – faço esse gesto direto – falou com um sorriso sereno – lembrando quando ele fez o mesmo – novamente a expressão séria dominou sua face – obviamente não é o mesmo. Mas não é só isso... – ela virou o rosto

-Isso o que?

-Ele... Diria até que ele seja a minha razão de estar aqui ainda. São tantos problemas. Pais, família, amigos, percebe que não podemos mais confiar? Em nada, ninguém. Dói. Não quero guardar tudo somente para mim, mas se não há alguém confiável nesse mundo, como podem esperar que eu conte? Que eu partilhe a dor? Acaba que não... É impossível. Sofrer... Sozinha. Esse é o destino.

Notas finais
Desculpem pela dificuldade que tive em adicionar os gêneros. Espero que gostem dessa histórinha.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!