Ilusões

1 Apenas não era ela


Jason encarava a garota sentada ao seu lado no ônibus alugado pela escola Vida Selvagem, a mesma que dizia ser sua namorada. A paixão queimava em seus olhos de modo que, tudo que ele pôde fazer foi aceitar e sorrir constrangido, mesmo ainda não fazendo ideia de quem a garota era. Píper era seu nome, e ela era incrivelmente bela.

Por algum motivo ele não pensava assim.

Havia sim em sua mente alguns relances, ele mentira quando dissera que não se lembrava de nada. Havia uma garota; longos cabelos escuros em trança, camiseta roxa com um pano branco disposto por cima — como uma toga. O rosto era borrado, mas de algum modo ele sabia a cor dos olhos fechados e que ela sorria de modo que fazia em raras ocasiões.

Mas não fazia ideia de quem seria, como ele podia sentir-se tão certo a respeito de alguém que ele sequer lembrava?

Ele aceitou que Píper McLean, a descendente índigena, era sua namorada. Ele aceitou abraçá-la, beija-la, e, finalmente, sair em uma arriscada missão, repetindo para si mesmo: "ela é minha namorada e eu a amo". Ele chegara a verbalizar isso, acreditando que pudesse ceder à mentira.

E então ele, Leo — que ele realmente reconheceu como melhor amigo, Píper e Annabeth chegaram ao Acampamento Júpiter, ele viu. Uma garota corria por Nova Roma, dois galgos brilhantes correndo logo atrás de si. Sua trança voava. Atrás dos galgos, vinham três pessoas, que ele reconheceu imediatamente — Octavian, o aúgere, Hazel, a filha de Plutão, e Frank, o filho de Marte — e um garoto seguia ao lado da garota de trança, que ele nunca vira na vida, mas com certeza era belo, desde o cabelo preto, os olhos verdes e a pele morena.
Seu sangue pareceu correr mais rápido, a raiva despontando.

Era errado, Píper estava abraçada ao seu braço esquerdo e, mesmo assim, ele sentia ciúmes de outra garota. Não iria negar que, se Annabeth não tivesse quase que saltado no garoto moreno, ele mesmo teria o feito, mas com intenções bem menos pacíficas — então aquele era o famoso Percy Jackson.

E, de repente, a morena de tranças parou, acompanhada por seus galgos. Os demais passaram correndo, como se preparando para lutarem contra os invasores, quando a loura grega beijou o filho de Poseidon e Jason finalmente deu as caras.

Reyna.

Subitamente, a realização de quem era a garota o atingira. Junto a si, era a pretora, sua melhor amiga, que sempre esteve ao seu lado. E que, na noite em que ele sumira, havia se declarado, no mesmo café em Nova Roma onde se conheceram. Simplesmente pagou a conta, disse que amava-o e saira, como se não fosse nada.

Reyna estava com medo.

E ele a amava.

Mesmo que a menina odiasse a si mesma, tendo como únicos orgulhos o título de filha de Belona e o de pretora, ele e Octavian, desde que conseguia se lembrar, gostavam dela — por isso a inimizade crescente. Da menina atrevida, guerreira e inteligente como ninguém. Agora ela era uma mulher, que o mirava com aqueles olhos de diamante.

Quebrados.
Não haviam diamantes escuros. Quando ficaram cara a cara, Jason viu cacos foscos em seus olhos e um sorriso cheio de vazio.

Se lembrou da noite passada em sua cama, pensando em como se declarar devidamente para Reyna na manhã seguinte. Aceitar seus sentimentos. De acordar no colo de uma garota que com certeza não tinha nada em comum com a pretora.

Não podia magoar Píper McLean; ela realmente estava apaixonada por si. Mas com certeza o sentimento não era nada comparado ao de Reyna.

Jason a abraçou como uma velha amiga e viu os olhos furiosos de Octavian. Ressentidos, odiosos. Perdedores.

Naquela noite, durante o banquete, ele viu quando os dois sumiram, logo no início. Depois, voltavam; o áugere com uma expressão abalada sempre vinha dez minutos depois da pretora com olhos avermelhados pelo choro.

Ela não tinha nada a ver com Píper.

E era quem tinha seu coração.

Jason nunca se martirizou tanto por ter um amor correspondido, mesmo que de forma torta.

Quando o cupido disse-lhe que ele conhecia um pouco de amor, não se referia à McLean, e sim àquela tarde na cafeteria em Nova Roma, onde, enquanto ela se erguia para chamar a atenção dos galgos, ouviu a frase sair quase que em um suspiro pesaroso dos lábios meio avermelhados pelo suco de morangos.

Jason a respondeu voltando ao Acampamento com outra garota. E em seguida com a notícia de que abandonaria o lugar para atravessar o país e morar em Long Island, no Acampamento Grego, deixando sua casa, a casa dela, deles, para trás. Deixando-a para trás.

E Jason se odiou por não poder negar o pouco de esperança que tinha plantado em Reyna desde sempre.

Mesmo agora, em seu pequeno apartamento em Wall Street, vendo Píper avançar para beijá-lo.

Ele fecha os olhos, não porque queira sentir melhor o beijo, mas porque assim pode imaginar que é Reyna quem está ajoelhada em seu colo, tirando sua camisa enquanto ele desfaz o fecho do sutiã.

Píper usa um sutiã rosa com rendas, mas Jason gosta de pensar que ele é preto e liso, como da vez em que a chuva colou a camiseta branca de Reyna em seu corpo e ele pôde ter um vislumbre da roupa marcada.

Suas calças estão no chão, e seus olhos ainda fechados. Ele se lembra da última grande festa romana que participou, de como ele quase contou à Reyna o que sentia, só para vomitar no colo da mesma.

Era fraco para bebidas.

Talvez por isso estivesse relativamente bêbado, não o suficiente para vomitar na garota que agora rebolava e gemia sobre si, mas o suficiente para que, sempre que abrisse os olhos visse as imagens borradas de Píper se formarem na pretora quando ela se afastava um pouco dos olhos nublados.

E ele amava se entregar àquela doce ilusão.

Notas finais
Fiquei confusa quanto a classificação.
Não está explícito o sexo, ao meu ver.
Eu quis fazer o Jason sofrer, não sei o porquê.
Eu estou voltando com minhas fanfic's. Devagar, de forma preguiçosa.
Mentira, eu estou me matando de estudar por risco de reprovar, mas não vem ao caso.
Essa eu escrevi algumas semanas atrás, e, honestamente, gostei do resultado, tal como outra one-shot que está para ser publicada, se a repercussão dessa for boa.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!