Ilusões
31 Capítulo 31
Notas iniciais
Sakura
Uma visita surpresa nunca pode ser coisa boa, né? Ou é parente chato vindo doente, para se aboletar na sua casa; ou alguém para te avisar que Fulano foi preso, ou que Cicrano morreu. No caso do nosso amiguinho aqui foi para quê? Me dizer que me ama? Há! Eu que morri, depois dessa!
Não. Eu não podia ficar com ele. Por mais tentador que aquela proposta fosse...
O idiota não iria virar bebum à toa. Ele gostava sim do que fazia, mas, talvez por medo de algo, estava desistindo, me pondo sinicamente como razão para largar o trabalho. E bebia para esquecer, ou amenizar a pressão que sentia nas costas. Eu não sou estúpida. Já vi isso acontecer antes... Minha mãe já havia tentado largar a carreira, dizendo que precisava cuidar da filha. Mas não deu muito certo não. Logo em seguida, ela começou a sentir falta e perdeu um parafuso da cabeça. E então, voltou para o showbiz para perder o restante dos parafusos em meio ao estresse que isso lhe causava. É uma trágica história, porém, muito comum. Quantas pessoas são vistas nas telas, mas depois, simplesmente somem? Muita gente não se dá conta e esquece que aquelas pessoas existiram, porque não fizeram muito sucesso, mas elas estão lá, em algum lugar, se contorcendo dentro das sombras que a própria cabeça cria. A diferença é que alguns se dão conta mais cedo, a tempo de pedir ajuda. Outros não se dão conta, ou simplesmente não querem assumir os problemas. Mas eles estão todos por aí, sim. Atores, cantores, apresentadores, modelos... Esse é o problema desse tipo de profissão, em que a pessoa é submetida a uma superexposição. A falta de privacidade sufoca mais do que eles imaginavam que poderia. Ou então, é o deslumbre que a fama causa, transformando alguns em pequenos monstrinhos metidos, arrogantes, frescos, e mais um monte outras coisas desprezíveis.
Mas é claro que isso não vale para todos. Há os que se salvam de tudo, mantendo os pés no chão. Acontece que o Sasuke, infelizmente, não era uma delas.
Além disso, não quero ser uma desculpa pela qual, mais tarde, ele possa se arrepender. Talvez ele nem tenha percebido o que estava fazendo, mas era óbvio aos olhos externos. O último filme dele tinha sido um sucesso, e a crítica apenas o elogiou. Quem, que não gosta do que faz, produz algo tão bem feito? Ele estava tentando mentir para si mesmo. E eu passaria o resto da minha vida com a consciência me matando por tê-lo prendido, ou feito perder algum tempo comigo.
Além disso, o cabelo dele era mesmo invejável. Err.
— Você ama o meu cabelo?
— Sério, cara, que xampu você usa? Ou você faz hidratação num salão?
— Você ama o meu cabelo!
— E quem não ama? Não tem um fiozinho de frizz pra contar história!
— Você está falando sério?
— Você quer um espelho, para ver?
— Como é que você consegue fazer isso? — imaginei que estivesse se referindo ao fato de irritar-lhe.
— Sei lá. É um dom que tenho.
Ele não respondeu. Levantou-se do chão, bufando, e saiu do box, se enrolando na única toalha que havia pendurada na parede. Secou-se, vestiu seu boxer, e me deixou ali, naquele chão frio, me sentindo péssima comigo mesma.
Será que eu estava mesmo cometendo um grande erro?
Ele poderia tentar algo aqui, mas acontece que ele já estava mais consolidado lá. A cultura aqui é diferente, e ele poderia não ter a mesma sorte. O mesmo valeria para mim, indo para lá. E eu estava me dando bem aqui.
Além disso, eu tinha mais um pequeno grande problema. A Ino. Era um PROBLEMÃO, na verdade. Se ela descobrisse as coisas que eu fiz com seu príncipe, eu estava ferrada. Ela não disse nada, mas eu sabia o quão chateada havia ficado por ter ido naquela viagem, ao invés de ter lhe dado o bilhete premiado. Mas eu tive meus motivos, e ela é minha melhor amiga! Não tem como traí-la desse jeito — mesmo ela não o amando de verdade! Mas na cabeça dela, ela amava sim. Ela é uma fã, como eu sou fã do Metalica. Em níveis diferentes, mas acho que entendo um pouco. E isso já era o suficiente para fazer de mim uma traidora. E de traições, eu já estava cheia!
Isso me lembra de uma coisa que minha mãe, certa vez, me disse. Não sei se ela tinha muita consciência do que dizia, mas agora me fazia mais sentido. Ela disse:
— Todo mundo tem uma alma gêmea. Mas diferente do que agente pensa, ela não é aquela pessoa com quem ficamos para o resto da vida. Ela é aquela pessoa que passará ligeiramente, apenas para fazer a diferença na sua vida.*— eu ainda não sei se ela estava certa sobre essa história de alma gêmea, mas parecia fazer sentido. Ele me fez ver que nem tudo o que parece, de fato, é. Eu havia o julgado mal, com base nas minhas experiências anteriores com a minha mãe, me esquecendo de que ele não era ela. E graças a ele, consegui ver o que eu realmente queria fazer da vida. Escrever. Atuar atrás das câmeras, nos bastidores, e ver o que eu escrevi acontecer diante dos meus olhos. Ver minhas histórias se tornar, de certa forma, realidade. Ele fez a diferença na minha vida por isso, e jamais o esquecerei.
Sem falar que eu estaria sendo extremamente estúpida por trocar uma amizade por um homem. Quinhentos homens podem passar pela sua vida, enquanto sua amiga continuará sempre ao seu lado.
Tem coisas que, quando somos pequenos, não entendemos muito. E quando crescemos, nos frustramos por que nada é como agente pensava que iria ser. E a vida te prega peças, no qual nós mesmos escolhemos como encaixar essas benditas pecinhas. Eu poderia ter aberto meus braços para ele, e ter arruinado sua vida, ou mesmo a minha. Assim como, eu me arrisco agora a arruinar nossas vidas, nos separando. Não há como saber. Porque a vida, sem dúvida alguma não é feita apenas de amor. Aliás, amor é a menor peça disso tudo. O que realmente importa é quem você é, e o que você faz...
Suspirei.
Fui deixando um rastro de água até meu quarto, para pegar uma toalha no meu guarda-roupas. Depois que me vestir, fui até a sala, com um envelope na mão. Sasuke estava sentado no sofá, vestido, com os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para os sapatos. Sentei ao seu lado e lhe entreguei o envelope.
— O que é isso?
— Seu agente esperto achou que eu estava grávida, e meu deu esse dinheiro como suborno, ainda por cima. Não gastei nadinha, pensando no que fazer com isso. Mas já que você está aqui, estou te devolvendo.
— Ele não está mais trabalhando comigo!
— Bom, de qualquer forma, esse dinheiro não é meu. Fique com ele!
— Eu também não quero isso! Jogue fora, então.
— Doe a alguma ong que precise de dinheiro. A mídia adora ver algum famoso engajado em causas sociais. — ele hesitou, mas acabou pegando o envelope, e o guardou dentro da jaqueta.
— Então é isso?
— Espero um dia poder vê-lo atuando com algum roteiro meu.
— Se fizer uma história para um filme, quem sabe?
— Eu ainda tenho que amadurecer mais, para chegar ao cinema, mas um dia eu chego lá sim. — sorri. E ele sorriu de volta, um sorriso forçado.
Ele passou a noite aqui. Dormiu no quarto que era da minha mãe. No dia seguinte, fui com ele até o aeroporto para que comprasse uma passagem de volta. Eu lhe disse que poderia ficar mais tempo, se quisesse, mas ele insistiu dizendo que era melhor ele ir logo. Ele conseguiu passagem para dali a três dias. Nesse meio tempo, o levei a alguns pontos turísticos de Paris. Me disse que já havia visitado a cidade, mas somente a trabalho e, por isso, não conhecia muito a capital.
E então ele foi embora. Para nunca mais vê-lo. Pessoalmente, isto é! Pois ele continuou a produzir outros filmes, e manter a fama de bom mocinho. E ironicamente, ou não, investiu o dinheiro numa Associação de Alcoólatras Anônimos. Mais tarde, soube que se casou com outra atriz lá, sem que ninguém soubesse. Ele fazia de tudo para manter a vida particular longe dos holofotes. Bem que fazia...
E eu continuei com meu trabalho, feliz da vida. Ou quase isso. Mas tudo bem, porque não tem como alguém ser plenamente feliz, certo? Felicidade constitui-se de momentos... Não é constante.
Mas se eu o amo? Prefiro não responder isso. Isso deixará uma cicatriz em mim, mas, como todas as escolhas que fazemos, essa também têm duas faces: a da tristeza, em abandonar sua possível alma gêmea; e a da felicidade, por vê-lo realizar seus sonhos, e os meus, é claro. Mesmo que não estejamos juntos...
Fim
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