Illusion
4 Só porque ela não estava lá, não quer dizer que tenha desaparecido.
Naquela manhã de sábado, Daniel Pierce estava sozinho, sentado no sofá de sua sala de estar, tentando se convencer de que, apesar de tantas incoerências, havia um caso a ser investigado. Na noite anterior, através da ligação que Lewicki fizera a Kate, ficara sabendo que a vítima, um policial, havia levado um tiro, estava, na verdade, inconsciente e seria levado ao hospital. O homem havia sido baleado no ombro com sua própria arma e nada havia sido roubado, por isso, até que ele estivesse em condições de falar com a polícia, nada poderia ser feito além da perícia da cena do crime.
Por enquanto, não havia qualquer indício que o ligasse à garota desaparecida, então não havia motivo para interrogá-lo com o objetivo de buscar informações que elucidassem o caso que esperavam que se concretizasse. Ainda era cedo para suposições e a impotência que sentia frente a fatos tão estranhos e aparentemente sem nada em comum o deixava inquieto.
– Você vai passar o seu sábado inteiro sentado no sofá olhando para uma televisão desligada só porque é teimoso demais pra admitir que coisas estranhas acontecem e, às vezes, não precisam ser explicadas? – Natalie estava sentada ao seu lado no sofá e o olhava, tinha o cotovelo apoiado no encosto do sofá e a cabeça apoiada na mão esquerda.
– Achei que você estivesse aqui para me ajudar.
– E estou. Você não pode ficar obcecado por uma coisa que não existe.
– Mas existe! – Daniel a olhou, agitado. – Tem alguma coisa errada.
– Por que acha que tem algo errado? – atenciosa, ela o olhava esperando por uma resposta.
– Ela desapareceu... Simplesmente desapareceu... – apoiou os cotovelos sobre as pernas e a cabeça nas mãos. – Não dá pra ignorar que tinha uma pessoa naquele quarto, naquela cama. Tudo bem, é uma pessoa até agora sem identidade, mas isso não devia ser incomum o suficiente para permitir que um caso fosse aberto? Uma garota simplesmente desapareceu!
Natalie ponderou e, por alguns segundos, observou Daniel que pressionava os dedos nas têmporas. Então, finalmente, disse: — Só porque ela não estava lá, não quer dizer que tenha desaparecido.
– Mas o que...? – Daniel começou e logo se interrompeu, virou a cabeça para olhar Natalie e permaneceu assim por alguns segundos, antes de se levantar e agradecer por tê-lo ajudado a pensar claramente.
Apressado, subiu as escadas saltando alguns degraus e foi até seu quarto onde tomou um banho rápido e vestiu uma roupa qualquer: não queria perder mais tempo. Já vestido, desceu as escadas do mesmo modo que subiu e, sem dar ouvidos a Lewicki que provavelmente fora acordado pela pressa nada silenciosa de Daniel e o chamava da porta recém aberta de seu quarto, saiu, encontrando um dia nublado, apesar de agradável.
Levou apenas alguns segundos para atravessar o campus até o prédio dos dormitórios. Seguiu por corredores quase desertos à procura da porta na qual uma fita amarela indicativa da cena do crime bloqueava a passagem. Esperou até que não houvesse ninguém por perto, abriu a porta e entrou no quarto, fazendo o possível para deixar a fita onde estava. Assim que entrou, encontrou o lado esquerdo do quarto vazio – Rosie certamente havia sido transferia para outro dormitório – e o lado direito estava, provavelmente, intocado, a não ser pelos lençóis sujos que haviam sido retirados. Daniel se aproximou e, sem saber exatamente o que procurar, passou a observar tudo ao seu redor. Encostada na parede estava uma mesa com livros, folhas, canetas e diversos outros materiais essenciais a uma estudante. No chão, apenas chinelos e, no criado mudo, um porta retrato que chamou sua atenção. Ele se aproximou, pegou o objeto de madeira cobrindo sua mão com a manga do suéter que usava e observou a fotografia: nela estava Karin – ou quem quer que ela fosse – ao lado de um homem que usava uniforme de policial. Eles estavam abraçados. Com cuidado, retirou a fotografia do porta-retrato e levou-a consigo.
Caminhava pelo gramado do campus em direção a sua casa quando avistou Kate andando em sua direção.
– Você não vai acreditar. – ela disse. – Ele não é um policial de verdade.
– E eu aposto que não é coincidência. – Daniel mostrou-lhe a fotografia.
– Invadindo a cena do crime... Por que é que eu não estou surpresa? – Kate sorriu e pegou a fotografia para observar melhor, confirmando que era o mesmo homem. – Espero que não encontrem suas digitais na cena do crime. – comentou enquanto andavam em direção ao seu carro, estacionado próximo dali.
– Eu pensei nisso. – disse, com um pequeno sorriso orgulhoso nos lábios. – Agora temos um caso?
– Agora podemos, com certeza, ligá-lo à garota. Então acho que sua resposta é sim. – ela o olhou, sorrindo discretamente.
– E para onde vamos?
– Ter uma conversa com nosso suspeito.
Os dois entraram no carro rapidamente e Kate deu partida, seguindo para o hospital em que o falso policial havia sido internado.
Aquele parecia estar sendo um dia agitado, tanto no trânsito quanto no hospital que estava movimentado demais para uma manhã de sábado e, ao chegar, Daniel se sentiu desconfortável por um momento breve. Seguiram pelo corredor de uma brancura angustiante até o quarto onde Kate havia sido informada que o homem passara a noite. Uma enfermeira negra de olhos gentis parou os dois antes que pudessem chegar à porta do quarto, afirmando que o paciente estava repousando e que não poderia receber visitas.
– Agente Kate Moretti, FBI. Este é o Dr. Daniel Pierce. – Kate mostrou o distintivo. – Este homem pode estar envolvido em um assassinato e precisamos falar com ele.
A enfermeira os olhou por mais alguns segundos e, aparentando contrariedade, deixou o caminho livre para que a dupla entrasse no quarto.
O paciente estava deitado, tinha os olhos fechados e era possível ver um curativo em seu peito, pouco abaixo do ombro esquerdo. Não parecia ter passado dos trinta e cinco anos e não havia nada que o tornasse diferente dos tantos homens de sua idade, a não ser por uma tatuagem no braço esquerdo que Daniel não conseguiu identificar. Kate se aproximou e, pousando sua mão no ombro mais distante do curativo, tentou acordá-lo, tratando-o por senhor. Seus olhos foram abertos vagarosamente e, até que seus olhos estivessem completamente abertos, Kate já havia se afastado. Ele pareceu confuso inicialmente, mas tudo mudou assim que os dois se apresentaram.
– Agente Moretti, FBI e Dr. Pierce. Preciso que responda a algumas perguntas. – o homem pareceu ter ficado rapidamente lúcido. – O que estava fazendo no campus da universidade onde foi baleado?
Os olhos dele brilhavam e parecia escolher as palavras certas durante os segundos em que permaneceu em silêncio. – Pretendia visitar alguém e fui surpreendido com um tiro antes de conseguir.
– Esta garota? – Daniel colocou diante dos olhos do homem a fotografia encontrada no dormitório e não observou nenhuma mudança sequer em sua fisionomia.
– Sim.
– Quem é ela? – Kate perguntou, sem deixar transparecer a urgência em sua voz. O homem apenas sorriu discretamente.
– Posso te colocar na cadeia pela identidade falsa. E posso investigá-lo pelo desaparecimento de Karin. Então, aconselho que responda às perguntas.
– Você pode fazer isso agora? Você tem provas contra mim? – ele disse calmamente. – Uma fotografia é tudo o que você tem? Eu não tenho nada a dizer.
– Onde você estava na manhã de ontem?
– Em um avião.
– Viagem de negócios? O que você faz? Finge ser pessoas que não é e mata estudantes?
O homem sorriu, revelando seus dentes alinhados e brancos. – Vai me prender pela identidade falsa, gracinha? Está me vendo resistir?
Kate, olhando-o com desaprovação pelo modo como havia sido chamada, permaneceu calma e fingiu ignorá-lo. – Você não vai cooperar?
Ele apenas a olhou nos olhos e disse suas últimas palavras. – Ela é apenas alguém que conheci. Karin, como vocês já sabem. Não tenho nada a ver com qualquer coisa que ela tenha feito, então, se me dão licença, eu levei um tiro e preciso descansar. Não voltem a não ser que tenham algo interessante para dizer, ou venham me prender. – Ele fechou os olhos e não tornou a abri-los.
– Simpático. – Kate disse a Daniel assim que saíram do quarto.
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