Notas iniciais
Gente essa é minha segunda fanfic e espero que gostem. Esse capítulo é introdutivo então tenham paciência com meus erros de ortografia.
Aproveitem e boa leitura!

Eu dirigia sem chamar atenção em Manhattan. Bom, eu não, mas o carro sim. A noite estava fria, mas o terno feminino e o enforcador que insistem em chamar de gravata estavam fazendo com que eu me sentisse na fornalha junto com Sadraque, Mesaque e Abedenego*! E se minha falecida mãe ouvisse algo parecido, com certeza teria me castigado por blasfemar.

Eu, Clarisse, mulher de vinte anos não posso me permitir fazer piadinhas como essas, para ninguém. Principalmente agora que eu tinha conseguido um emprego fixo como motorista particular. Nunca achei que o sonho de ser automobilista terminaria em motorista particular doméstica de um riquinho mimado, sem educação, presunçoso, prepotente e com mania de grandeza.

Na verdade, eu fiz uma lista de adjetivos enquanto o esperava do lado de fora da limusine, no frio de inverno de Nova York, na frente de uma boate com outros riquinhos, com o risco de ter um carro que não é seu ser roubado, carro esse que não conseguiria pagar nem em trezentos anos de trabalho escravo. Mas de volta a lista:

Atrevido, convencido, metido, esnobe, vaidoso, beirando a metro-sexualidade, insolente, arrogante, orgulhoso, pretensioso, desdenhoso, presunçoso, soberbo , ridículo e uma palavra que eu amo usar: pedante.

Logicamente eu não me indispunha para dizer essas coisas. Não porque não tenho coragem, mas porque há pessoas que confiam em mim à responsabilidade enorme de cuida de um marmanjo mais velho com idade mental inferior a um adolescente. Então o máximo que eu poderia fazer é olhá-lo em reprovação.

Para falar a verdade, eu poderia lhe mostrar o dedo do meio que ele nem perceberia. O garoto poderia ser sequestrado que no final do dia pediria uma massagem achando que estava entre empregados. O tipo de pessoa que só liga para o próprio mundinho imaginário onde é o centro do universo.

Eu continuei a pensar em pé, sem poder encostar em nada com as mãos nas costas por uma hora inteira de agonia. Olhei o relógio de pulso para ter certeza de que não estava enganada e depois olhei o endereço da rua novamente. Era esse o lugar, há uma hora. O coque que começara a desprender balançou quando eu me dirigi á entrada da boate. Alguns passos de chegar ao segurança careca e mal encarado meu telefone tocou.

— Alo? — parei ao atender.

— Clarisse? — a voz rouca e gasta do meu patrão ecoou do outro lado.

— Sim, senhor? — perguntei, não era para ser uma pergunta, mas a insegurança de que eu poderia estar no lugar errado me amedrontou. Uma ligação direta do Sr. Albert, por mais próxima que eu fosse dele, não podia ser bom sinal.

— Por que Parkinson não veio para o jantar? — ele suspirou cansado e eu podia até imaginá-lo apertando a ponte do nariz pela dor de cabeça que o segundo filho mais velho lhe causava. — Eu já liguei para o telefone daquele imprestável varias vezes, mas ele não atende!

“Bom adjetivo, vou adicionar à lista!”, pensei.

— Eu estou esperando por ele a quase uma hora e quinze minutos senhor, mas ele ainda não saiu da boate. — falei. Felizmente eu não tinha restrições em falar com meu chefe.

— Então aquele inútil está vagabundando por aí enquanto a mãe dele está desesperada?

Não foi uma pergunta que precisasse de resposta.

— Traga-o antes que eu o deserte ou o mate! — e o bip de chamada sendo encerrada seguiu o surto do Sr. Albert.

Olhei para meu telefone. O Sr. Albert sempre foi um homem justo, gentil, honesto e tolerante. Mas até Jesus teria problemas em lidar com aquele ser. Outra frase que seria considerada blasfêmia por minha mãe.

Bloqueei a tela do celular e o devolvi ao bolso da calça social. Dei passos largos ate o segurança que bloqueou a passagem. Dessa vez fui eu a ficar cansada.

— Nome. — ele praticamente exigiu.

— Vamos perguntar ao dono do império Garmond que — fiz uma expressão divertida —, alias é pai de um dos homens que está aí dentro. — apontei para a entrada — Então, a menos que você queira ter uma carta de demissão em dez minutos com você , sugiro que saia da minha frente. Já!

O homem olhou atônito para mim que era uma coisa inédita, mas depois olhou para a limusine luxuosa estacionada e acho que ligou os pontos. Deu espaço para uma jovem impaciente.

Entrei naquele lugar, orgulhosa da minha própria coragem. Mas não era esperado menos da jovem que foi criada no canto pobre e problemático dessa cidade. Subi os degraus tão graciosamente quanto uma mulher de negócios.

“Sinceramente, este não é o lugar para um homem tão influente com ele.”, pensei. Mas assim que vi prostitutas, caras que pareciam traficantes e garotos novos brincando de ser adultos, pensei melhor.

— Se bem que aqui tem bastante gente do mesmo tipo.

Um cara que cheirava álcool olhou em minha direção.

— Oi gracinha... — disse se aproximando.

— Licença? — disse num tom de voz calmo e controlado que junto do olhar assassino o afastou em um segundo. Vasculhei o lugar com os olhos, mesmo que as luzes que piscavam incessantemente não facilitassem.

Mas logo identifiquei as costas daquele otário. Ele estava debruçado contra o balcão do bar com uma copo de bebida na mão. A jaqueta de coro brilhava estranhamente contra a luz baixa. A cada segundo mais revoltada me aproximei, quando estava perto o suficiente cutuquei forte um de seus ombros.

— O que você... é? — ele nem conseguia enxergar quem estava ali. Não que me conhecesse.

— Levanta. Seu pai me mandou vir te buscar e ele está furioso! — não queria mas aquele era meu trabalho.

— Manda ele pro... — ele virou rápido quando percebeu que o barman estava tirando a garrafa de uísque caro de perto dele. — Ei! O que você está fazendo?

Olhei para o barman que além de sem graça tinha há uma expressão de quem não sabia o que fazer, passando a responsabilidade para mim.

— Pode levar. — eu disse puxando o braço do homem deplorável — e envia a conta para esse endereço. — dei o cartão de visitas para ele.

Saí dali o mais rápido possível ou o que a velocidade de um bêbado descontrolado permitia. Antes de descer as escadas dei uma sacudida para que ele prestasse atenção no que estava fazendo. Odiava tanto estar aqui, tanto servir de babá para um homem de quase 25 anos.

Atravessei a rua e abra a porta de limusine, o joguei lá dentro como um saco de batatas, ele não valia muito mais. Dei de ombros, pouco me importava, ele ao lembraria de nada mesmo! Esperei que o individuo se acomodasse para fechar a porta. Depois que entrei no automóvel saí dali.

Liguei o rádio que era um dos poucos aparelhos que eu estava acostumada ali. Lovers on the Sun** começou a tocar enquanto eu atravessava a cidade com o trânsito pesado. A janela que separava o banco da frente com a parte de trás foi abaixada.

— Quem é você? — ele perguntou.

O farol fechado me deu a oportunidade de olhar pelo retrovisor. Ele estava com dificuldade para tirar a jaqueta. E não parecia muito bem, olhei para o painel e apertei o botão para que o espelho dupla face subisse e eu pudesse voltar para casa em paz. Mas eu era a única que queria isso porque o som do vidro sendo abaixado veio de trás de mim. Eu não sou uma criança para brincar de quem é mais insistente. Alem do mais eu estava dirigindo. Então simplesmente olhei para frente.

— É surda ou muda? — ele perguntou.

Eu fiquei em silêncio e esperei ate que o farol abrisse. Quando abriu, eu segui em frente.

— Não acho que seja surda, é muda? — ele continuou e se aproximou de mim e trouxe o cheiro de álcool com ele.

Eu assenti, talvez se ele pensasse assim me deixaria em paz.

Ele riu.

— Você sabe que eu não to tão bêbado para não lembrar que você me deu um sermão lá atrás, né?

Suspirei cansada. Lógico que eu pensei isso.

— Não foi minha intenção, me desculpe. — meu tom finalizava a conversa, mas acho que ele estava bêbado o suficiente para não perceber.

— Qual o seu nome? — ele estava sentado totalmente desleixado na ponta do assento.

Achei que se eu desse todas as informações de uma vez ele se cansaria de perguntar.

— Eu sou Clarisse, sou a motorista particular da sua família e enquanto estiver aqui seu pai me encarregou de levá-lo para os lugares que você quiser, mas hoje eu irei te levar para casa.

Ele bufou protestante.

— Eu só perguntei o seu nome. — disse e usou o controle para subir a janela.

Eu realmente não sabia se ficava agradecida ou ofendida. De qualquer forma ele continuava sendo um cretino.

#

Nem sempre fui obrigada a ser um capacho, mas a vida não é o felizes para sempre, nada é. E por mais que pareça logo acontece algo para tornar tudo insuportável.

Eu fui direto para a faculdade depois de terminar o colégio, mas como sempre eu não fiz o que eu queria, entrei no curso de direito para agradar meu pai.

Sempre a cuidadosa, sempre responsável, sempre querendo ajudar os outros. Mas meu pai não viveu para presenciar mais esse ato de devoção. Ele morreu com um ataque fulminante, enquanto trabalhava para me ajudar a pagar a faculdade.

A decepção e a falta de dinheiro me fizeram ter que trancar a matricula. Só havia um problema, como eu iria pagar um enterro, o aluguel, me alimentar sem um bom salário? O emprego de meio período que eu tinha não servia nem para bancar o aluguel. E o seguro de vida não era acessível para uma menor. Fora que eu estava praticamente desistindo. Mesmo que suicídio nunca tenha sido uma opção, meu pai nunca aprovaria, e mesmo passando mil anos eu concordaria com ele. Ele tinha um ditado que mesmo sombrio me fazia parar e refletir: “Aqueles que não querem viver não merecem a vida!”

E era a pura verdade, então quando eu estou pensando em coisas que seriam como desistir da vida, eu penso em quantas pessoas continuaram lutando e a vida decidiu desistir delas.

No dia seguinte a morte do meu pai eu faria mais uma divida, precisava enterrá-lo. Ele merecia isso. Antes de eu sair de casa recebi uma ligação.

— Alo? — eu ainda estava cansada, depois que recebi a noticia nem tive tempo para lamentar e mal parecia que ele tinha morrido, era como se ele fosse entrar pela porta com aquele smoking de mordomo e bagunçar meu cabelo reclamando da dor nos joelhos.

— É da residência dos McDonavan? — a voz da moça da cobrança já me dava medo pelo que estava por vir.

— Sim. — me encostei á parede e fechei os olhos para me controlar. Esse não era o melhor momento para uma cobrança.

— Nós do Banco Chase agradecemos pelo débito pago e gostaríamos de saber se o responsável pela conta gostaria de fazer um cartão Premium. Será que eu poderia falar com a Srta. McDonavan?

Eu estava raciocinando ainda. “Cartão Premium”. Esse tipo de cartão era para pessoas com muito crédito com o banco.

— Espera um pouco! — eu abri os olhos e percebi que mal podia enxergar — O que você disse?

A linha teve um momento de silêncio antes que a atendente falasse.

— No nosso sistema consta que todo o débito foi quitado hoje ás nove e cinqüenta e cinco. — ela tinha um tom de confusão e desentendimento que ultrapassavam a linha telefônica. — Bom... Então parabéns sua divida foi quitada.

— Obrigada. — disse mais confusa.

A ficha só caiu depois que eu desliguei o telefone. Mas isso podia não ser algo bom, afinal eu pensei que quem quer que seja tinha depositado na conta errada. Quando cheguei á porta vi um cartão dobrado no chão, o peguei e o abri.

“Se precisar de algo não exite em ligar.” — dizia o pedaço de papel.

Dentro dele tinha outro cartão, um cartão de visitas da empresa e o contato pessoal de Albert Garmond. Eu precisei ler e reler o nome e depois pesquisar para ter certeza de que era a mesma pessoa que eu achava que é.

Não, aquilo era real. O dono e chefe majoritário de um império multibilionário tinha deixado um cartão debaixo da sua porta.

Eu fui à funerária e lá me disseram se eu precisava de mais alguma coisa porque os preparativos já estavam todos feitos. E me trataram tão bem que eu me senti estranha. Na mesma noite foi o velório, foi algo reservado e eu não conhecia metade das pessoas que foram, eu conhecia muito pouco do meu pai, algumas pessoas da família da minha falecida mãe foram e eram um dos poucos que eu conhecia.

Todos me deram os pêsames e eu saí logo, não aguentava ver as pessoas com do de mim. E não aguentaria mais um minuto olhando para meu pai que estava ali sem vida, alguém que eu amei a vida inteira, que era parte de mim, aquela cena era surreal.

Eu ainda não tinha chorado e me sentia mal por isso. As pessoas podiam não dizer, mas também achavam estranho que a única filha de Douglas McDonavan não tivesse derramado uma única lágrima durante o velório. Eu saí de lá, não aguentava mais aquele lugar. Eu andei pelo parque que tinha no cemitério. Em meio as cerejeiras com as folhas que formavam um tapete rosa claro, pois estávamos no outono.

É estranho como as coisas lindas como as flores e folhas de cerejeira não duram um ano. Era como meu pai ele não durou quanto eu queria. E frases estranhas como essas continuavam vindo na minha cabeça, era como se eu estivesse bêbada, mas sem estar alegre, talvez com o humor de ressaca. Eu não aguentava mais escutar de pessoas que nunca se importaram que eu poderia ir viver com eles e que eu poderia pedir qualquer coisa. Como se fosse meu aniversário. Aquelas pessoas que faziam isso só para se livrar de um falso peso na consciência, tão falso quanto elas.

No escuro da noite eu dormia acordada olhando para a lua e me perguntando coisas estranhas. Aquelas coisas que você se pergunta quando descobre que não é imune a morte e que as pessoas a sua volta também não. Não que eu não soubesse que eu poderia morrer, é que eu no tinha uma verdadeira ciência disso.

— Como eu sou uma maldita egoísta, meu pai se foi eu estou pensando na minha morte. — eu disse olhando para cima.

#

Nesse dia eu só fui para casa e deixei o resto com os outros. Mergulhei na depressão por uma noite, uma única noite. Não dormi, não comi, nem chorei, só fiquei olhando para o nada enquanto tentava lembrar da última vez que eu tinha conversado de verdade com meu pai.

Eu lembro que foi quando ele saiu da casa, pois iria trabalhar como mordomo numa casa de gente rica. Eu nem me importava de ele ir, iria ser melhor, mas eu me lembro de toda noite querer ele aqui comigo. Ele vinha todos os domingos e os passava comigo. E segunda bem cedo ele saía. Lembrei também que a última vez que o tinha visto vivo foi de madrugada, quando eu acordei para deixar o café da manha pronto e ele acordou com o cheiro de torrada e me acompanhou na cozinha.

Eu mal sabia que seria a última vez que sentiria o cheiro do café dele ou que eu nunca mais ouviria um sermão por encher a minha xícara de açúcar. Ou ainda olhar ele vestido com aquela camisa velha que ele adorava usar para dormir. E esses pequenos detalhes me fizeram remoer.

No dia seguinte eu levantei e me arrumei para sair. Não me importei em comer nem em mais nada. Eu tinha só que fugir de dentro daquela casa. Fui para Manhattan, não demorou muito mais que uns quarenta minutos de metrô. Meu ponto final foi a sede da empresa que o Sr. Garmond era dono.

Andei até o prédio e me perguntei se as paredes de espelho dupla face eram blindados. Fui até a entrada e a porta de vidro se abriu. Só a recepção era maior que minha casa. Tudo em tons de cinza e prata. Eu fui até o balcão e uma mulher alta e magra me atendeu. Se eu estivesse em um bom dia eu me questionaria sobre qual a necessidade de manter o cabelo preso do jeito que ela prendeu e eu até perguntaria se estava apertado.

Eu a olhei e ela me deu um sorriso.

— Em que posso ajudar?

— Eu preciso falar com Albert Garmond.

Ela olhou para mim com um sorriso divertido no rosto.

— Minha querida, você terá que marcar uma hora para a menor visita que seja e infelizmente eu não acho que o Sr. Garmond poderá te atender — nem o sorriso simpático escondia a empatia e a grosseria que ela queria transmitir.

Olhei para ela.

— Você não vai me anunciar ou coisa do tipo? — perguntei ainda esperançosa.

— Não. — ela ainda sorria. Isso estava me deixando enjoada.

Dei as costas para ela e fui me sentar no sofá caro que tinha ali.

Peguei meu celular e o cartão na bolsa. Eu esperei que aquilo não fosse uma pegadinha de alguém. Disquei o número pessoal e esperei enquanto o bip da chamada continuava. Quando eu estava para desligar e ir embora alguém atendeu.

— Alo? — a voz masculina e roca me atendeu.

— É o Sr. Garmond? — eu perguntei olhando para a recepcionista que ainda me observava.

— Quem é?

— É a pessoa para quem você deixou um bilhete debaixo da porta com um cartão...

— Clarisse? — eu fui interrompida. Ele sabia realmente quem eu era?

Eu fiquei em silêncio por um milésimo de segundo enquanto tentava pensar. Bom, não consegui.

— Sim. — eu falei. — E eu estou aqui no endereço do cartão, e falei com uma recepcionista muito simpática que disse que eu não poderia subir.

Ele tossiu do outro lado da linha.

— Você está aqui? —ele perguntou ainda com a garganta irritada.

— Sim. — eu respondi. Essa conversa foi muito estranha.

— Só um minuto. — e desligou.

Eu olhei para o celular.

— Com licença. — a recepcionista chamou e eu olhei para ela que deu um sorriso conformado. — Acompanhe-me.

Eu acho que não precisaria mais marcar um horário.

Notas finais
* Conto bíblico onde esses três personagens foram presos numa fornalha.
**Musica de David Guetta feat. Sam Mart.
Demorou mais eu postei. Comentem e favoritem a fanfic, isso ajuda na divulgação!
Bjjs*** da Autora empolgada.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.