Notas iniciais
Erros ninjas sempre aparecem. Boa leitura.

Eu estou com fome.

Mas não quero ir à cozinha porque eu sei que ele está lá. Ele sempre está.

Se eu for ele pode me machucar, mas, se eu não for, eu vou morrer de fome.

Eu não quero apanhar, mas eu estou com tanta fome. Eu tenho que ir.

Puxo minhas cobertas para o lado e ponho minhas pernas para baixo. Eu odeio o fato de meus pés ainda não tocarem o chão, eu me sinto tão limitada.

Permaneço sentada na cama esperando a coragem me pegar.

Cruzo as pernas e observo meu pijama, um conjunto de moletom branco com bolinhas rosa espalhadas. Um fofo porquinho chamava atenção no meio da blusa de mangas compridas que sobrepunha a calça. Foi a minha mãe quem me deu

– Mãe, a senhora pode comprar roupas para mim? — eu disse, cobrindo meus braços gelados com as mãos guardadas por uma luva preta com furos.

– Eu não tenho dinheiro Emma, o que houve com as que você tem? — os olhos de minha mãe estavam vidrados da lareira apagada da sala. Eu odiava quando ela fazia isso, me assustava.

– Estão velhas e rasgadas, e não me esquentam do frio porque elas tem muito furos, olha só, mãe — eu disse mostrando minha luva furada à ela, que não desvia o olhar da lareira.

– Eu vou dar um jeito, Emma.

E essa foi a última coisa que ela me disse naquele dia. Na semana seguinte ela me deu este pijama.

Eu gosto dele.

Ouço minha barriga roncando, o que me de a coragem necessária para sair da cama.

O chão está gelado.

Abro a porta do meu quarto devagar e sigo pelo corredor, meus frios pés são cautelosos.

A adrenalina começa a percorrer o meu corpo enquanto caminho até a cozinha, e por um segundo eu me permito me sentir infinita e invencível.

Desço as escadas e chego à sala. Nada, ele não está aqui. Ninguém está aqui.

Daqui consigo ouvir o som da cozinha, que soa a futebol e fritura.

O cheiro da gordura faz minha barriga roncar com mais intensidade.

Caminho até a porta aberta da cozinha e ali permaneço. Minha mãe estava fitando algo, tinha um cheiro tão bom.

Ela ainda não me viu.

Ela nunca me vê.

Sigo meus olhos pela cozinha e ali está ele. Ele está aqui, é claro que está. Ele sempre está.

Ele ainda não me viu, o que me surpreende .

Ele sempre me vê.

Alguma coisa aconteceu.

A cozinha está diferente. não ouço gritos dele, nem o choro da minha mãe.

Ele não está assistindo ao futebol na tevê da cozinha.

Ele está... Lendo?

Fito seus olhos azuis que se movem de um lado para o outro naquele papel. Sim, ele está lendo.

O que será que ele está lendo?

O que será que está acontecendo?

– E então? — minha mãe pergunta ainda de costas, presumo que seja com ele.

– É seguro, tem alimento, é ótimo. — meu pai diz ainda com os olhos no papel.

– Eu não sei se isso é uma boa ideia, irão impor a ela uma religião Argus, isso não é bom — e neste momento ela se vira pra ele.

– Aqui diz que somos obrigados a buscar ela todos os finais de semana — meu pai diz depois de guardar o papel e o pôr na mesa.

– Tem certeza de que é seguro?

– Tanto faz, Karen.

– Não precisaríamos fazer isso se você não gastasse todo o dinheiro em sua dependência alcoólica. — aperto os olhos esperando pelo som que sempre arrepia minha espinha. Me encolho involuntariamente e espero pelo som de uma agressão que não chega.

– Cale essa boca, era você quem dizia que queria dar à essa menina uma vida melhor, esta é a chance.

– Não sei se você tem razão, Argus.

– É claro que eu tenho, eu sempre tenho.