I'll always find you
1 Gift
Notas iniciais
Era uma gelada manhã de segunda-feira, acordo com o som estridente do telefone da casa tocando ao meu lado, a primeira coisa que miro é a janela da sala onde estou dormindo pela terceira noite consecutiva. Mal amanheceu, quem raios estaria ligando a essa hora? Levanto bufando e atendo com o máximo de rispidez que consigo inspirar.
– Isso são horas?! – já pergunto.
Uma voz masculina invade meus ouvidos e ele pergunta se tenho alguma ligação com Valentina Müller. Logo pergunto o motivo de um lunático estar me ligando de madrugada para perguntar se conheço alguém com o nome da minha mulher. Ele tem uma voz passiva e não retruca as minhas palavras rudes, pede para que eu me acalme e pergunta novamente minha ligação com Valentina.
– Ela é minha esposa! É pra isso que me ligou seu idiota?! – nunca mexa comigo ao acordar, ainda mais tão cedo. Ele pergunta por seus pais e eu ameaço desligar quando ele diz algo que me faz rir. O babaca me fez madrugar pra no final ser um trote, ele ia ouvir poucas e boas.
– Olha aqui seu vagabundo, vai arrumar outro pra encher o saco, ou melhor, arranja alguma coisa pra fazer nessa sua vida inútil! Valentina está dormindo no nosso quarto, não tem como ter acontecido nada.
Aquele idiota continuava calmo e pediu pra que eu me certificasse que ela estava lá, sua porta provavelmente estaria trancada, mas isso já seria uma confirmação de que ela estava ali. Ando pelo escuro corredor até o cômodo onde ela deveria estar ressonando e giro a maçaneta com cuidado para não despertá-la. Enfio minha cabeça na fresta da porta e olho para nossa cama. Me aproximo e só enxergo um edredom revirado e vários travesseiros amassados, olho bem de perto e há algumas manchas de sangue contrastando com o branco do lençol. Corro até o banheiro e um arrepio passa por toda a minha espinha e o ar parece fugir dos meus pulmões.
– Ok ela não está aqui. Então desembucha – ouço todo o discurso do rapaz na linha.
Logo que desligo, ponho-me a uma procura frenética pelas chaves do carro, estou a ponto de gritar quando lembro que se aconteceu aquilo, ela estava com o bendito carro! Pego outra chave e desço até a garagem de pijama mesmo, encontro minha moto, tanto tempo que não a uso que temo que não funcione. Ela liga na terceira tentativa, visto o capacete e saio em disparada dali.
Mal amanheceu o dia e uma chuva torrencial cobre a cidade, acelero o máximo que consigo com a falta de luz e a água atrapalhando toda a minha visão. Em 20 minutos desacelero e encontro com um par de carros policiais e uma ambulância partindo na margem do rio, só enxergo suas sirenes, e ao descer da moto e me aproximar, é que vejo o nosso carro. Desse ângulo não parece nada grave, quando pretendo dar uma olhada na parte da frente sinto alguém me segurar.
– Quem é o senhor? Peço que se retire, está numa área restrita – o fardado de bigode me avisa.
– Um de vocês me ligou, esse é o nosso carro.
– Nosso carro? – ele indaga.
– Meu e da minha esposa.
– Valentina Müller?
– Sim. Ela estava naquela ambulância? – pergunto desesperado.
– Quem me dera... – ele responde, me deixando confuso – qual é o seu nome senhor?
– Não interessa! Cadê a Valentina?!
– Não vou continuar se não se acalmar. Antes de tudo preciso saber seu nome.
– Piero Müller! Agora fala onde minha mulher está. Ela ainda está no carro?! – pergunto já correndo até nosso sedã. Choque. A parte dianteira dele está totalmente destruída e no para-brisa um buraco enorme se faz visto. Não consigo produzir nem sequer um gemido.
– Senhor Pietro – mais um que nunca entende meu nome – tenho algumas notícias ruins para te dar.
Ele entra em sua viatura e eu o sigo correndo, não aguento mais sua enrolação. Fechamos as portas e ensopamos os bancos.
– Existe a possibilidade de que alguém estivesse a usar o celular de sua esposa? – ele pergunta. De um saquinho plástico ele tira o celular de tela trincada, um iPhone 5C azul, só poderia ser o dela.
– Não, não existe – me falta o ar.
– Esse sedã estava andando em velocidade não permitida, ainda mais com toda essa chuva, quando liguei a sirene e me pus a segui-lo, a motorista perdeu o controle, eu vi o carro derrapando e prensando toda a lateral direita naquele poste – ele pausa e suspira – liguei para a emergência e logo após partilhar nossa localização, desci da viatura, mal enxergava o carro com toda essa chuva e ao abrir sua porta não achei nada lá dentro além desse celular espatifado. A tela estava congelada numa mensagem escrita para um tal de “Encantado” mas nunca foi enviada... Apertei os botões e a tela apagou, consegui encontrar a ficha médica na tela bloqueada e você era o único contato de emergência dela.
– Você chegou a ler a mensagem? – pergunto, com o fiapo de voz que ainda me resta.
– Nossa filha não está bem, estou no hospital e antes que acorde já devo estar de volta. Não me ligue – ele diz como uma máquina – era isso que estava escrito, é uma evidência que eu não poderia esquecer. Havia uma criança com ela no carro não?
– Não – eu respondo – e sim.
– Não entendo senhor, seja mais claro.
– Ela está grávida – eu digo, ainda com esperança.
– Ela estava sem cinto e voou do carro com a batida, deve ter caído na margem e a chuva a arrastou para a correnteza.
– Vocês precisam encontrá-la! Façam o que for preciso! – eu grito.
– Mal conseguimos enxergar um palmo a nossa frente com essa chuva, as equipes de busca já estão avisadas, logo que o tempo se amenize começaremos.
– Não! Ela não vai esperar! Ela pode estar lutando pela vida se segurando numa margem desse rio! Precisamos ser rápidos!
– As buscas jamais seriam eficazes com esse tempo, daqui algumas horas o sol deve levar essa tempestade embora. Vou te levar pra casa e assim que começarmos te ligo.
– Jamais! Eu vou procurar minha mulher! – saio da viatura e a água da chuva se mistura com as lágrimas em meu rosto. Corro até a margem e começo a gritar – Vale! Valentina! Eu vou te encontrar! Eu sempre vou te encontrar!
Corro pela margem e ouço o policial gritar na mesma intensidade que eu.
– Não faça isso! Você pode ser arrastado para o rio!
– Pelo menos vou ter mais chance de esbarrar com ela se isso acontecer!
– Você precisa estar aqui!
– Pra quando ela voltar? – eu paro e olho para trás, ele me alcança.
– Para dar a notícia aos seus entes queridos. Não gosto de dar falsas esperanças, o rio Itajaí é traiçoeiro... Ela estava de quantos meses?
– Ela está de 7 meses – eu digo entre dentes.
– Sinto muito meu rapaz, ela não teria força contra essa correnteza – ele diz mais alguma coisa que eu me recuso a ouvir. Um grito gutural atravessa minha garganta e a toda velocidade corro pela margem.
Minhas panturrilhas ardem e de tanto correr já não sinto mais o frio das grossas gotas daquela maldita tempestade em minha pele, perdi a voz de tanto que gritei seu nome e não consigo parar de correr, chorar e gritar no vazio até que sinto minhas pernas falsearem, minha cabeça bater em algo duro e oco, e tudo virar um breu.
Acordo com algo vibrando em meu bolso, meu celular, sento no meio daquele lamaçal, a tempestade se tornou garoa e levo o aparelho até meu ouvido.
– Onde você está?! Não precisamos de mais uma vida perdida além da sua esposa!
– Ela não morreu senhor bigodes! – não cheguei a perguntar o nome dele e tampouco tinha interesse em fazê-lo – eu vou encontrá-la!
– As buscas começaram, dois barcos e uma dúzia de homens em terra, traremos o corpo de Valentina pra você. Isso eu te garanto caso ela não chegue no mar antes da gente.
A falta de empatia daquele homem me revoltava, desliguei antes que eu recomeçasse as ofensas, me coloquei de pé e segui pela margem daquele rio, todo molhado e enlameado, mas com a certeza de que a encontraria a tempo.
Andando o mais rápido que minhas pernas permitiam e vasculhando cada centímetro daquelas margens, eu consegui parar de chorar, e me pus a pensar. Tudo que me trouxe até aqui, tudo o que minha vida foi com ela e o nada que tudo seria sem ela. Tenho 28 anos, e há 9 não sei o que é viver sem essa mulher. Chutando cascalhos, começo a lembrar o dia que nos conhecemos. Era ela uma ladra, mas não o tipo de ladra que você está pensando. Era uma tarde ensolarada e eu estava num shopping com a minha então namorada, Abigail, a gente tinha 4 anos juntos, os dois com 19, aqueles namoros de colegial sabe? Eu já estava cansado mas tinha medo de ficar só, um acomodado. Enfim, tinha uma garota no meu cursinho que eu não conseguia parar de olhar, e sempre que ela dava a brecha de passar o olhar por mim, algo ardia no meu peito. Com aquele jogo de olhares ela me incendiava e sabia o poder que tinha sobre mim... Na praça de alimentação do shopping, Abigail foi arrumar uma mesa enquanto eu pegava os lanches, quando eu estava na fila para retirar, ela apareceu. A garota que invadia meus sonhos, a mulher que eu queria na minha cama. Nossos corpos se chocaram frente a frente e eu fiquei sem reação, ofegava ao encará-la. Ela sem pestanejar puxou meu rosto com força e me deu um beijo. Não foi na bochecha como qualquer colega de classe faria, seus lábios quentes encontraram os meus e mesmo me tirando todo o ar parece que foi naquele momento que ganhei um novo fôlego de vida, e eu senti que seria dependente do efeito daquele beijo para sempre. Ela com seus cabelos curtos e negros, enquanto Abigail os tinha longos e loiros, Ela com seu jeito espevitado de andar, quando meu costume era pegar princesinhas que desfilavam. Ela. Só ela.
Os anos se passaram, ela correu daquele shopping mas desde lá venho cumprindo a promessa que sempre a encontraria. Tivemos um casamento bucólico, e nosso grande sonho era gerar uma princesa. A maioria dos casais ficam com aquela hipocrisia de não ter preferência quanto ao sexo de seus filhos, mas não acredite, sempre há aquela torcida para o companheiro no futebol, ou a gatinha que você vai educar. Eu sempre quis uma menina, a delicadeza delas sempre me fascinou e ter uma dessas sendo extensão do nosso amor, era o meu melhor delírio. Ela também queria uma menina que sempre pudesse encher de lacinhos e vestidos com babados, e assim sonhávamos. Mas o destino foi um pouco caprichoso com nós dois. Casamos aos 26 anos e já começamos a tentar gerar uma vida, um ano se passou e nada aconteceu. Fizemos alguns exames e nada parecia errado, de qualquer jeito ela não engravidava, fizemos duas inseminações, uma não teve sucesso e na outra ela sofreu um aborto espontâneo na terceira semana, depois disso não quisemos mais tentar. Esquecemos do assunto e cerca de 10 meses depois Valentina começou a sentir enjoos terríveis e com 9 semanas acabamos descobrindo que seríamos pais. Com trauma da gestação passada, fomos super-protetores e eu não deixava ela sequer subir uma escada, com 16 semanas ela decidiu contar para toda a família, crente que nosso bebê estava bem e que nada de mal aconteceria. Eu também tinha essa crença... O que aquele policial fez comigo?! Não vou perder a esperança! Eu vou encontrá-los.
O sol está alto, começo de tarde e começo a fraquejar, entrei numa área florestal, e mesmo temendo que não tenha forças para encontrá-la e me perca no meio do caminho, preciso seguir em frente, ela está em algum lugar precisando de mim e não vou desapontá-la. Me ponho a pensar em nosso bebê. Contamos aos nossos familiares assim que descobrimos que geraríamos uma princesa e o nome já estava pré-determinado há anos. Com Anna em meus pensamentos, e com a necessidade que eu sentia em dar uma chance a nossa filha de viver eu me pus a correr. A toda velocidade, com o ar e as finas gotas de chuva gelando meu rosto, as pernas fracas e ardentes, eu preciso ajudá-las, começo a rogar em prantos, se houver um Deus naquele céu nublado e tempestuoso que não leve a pessoa mais importante da minha vida que nem cheguei a sentir em meus braços, ela mais do que ninguém merece uma chance! Engasgado em minhas próprias lamúrias, com a esperança por um fio, sentindo que nunca teria a chance de revê-las, eu caio ajoelhado atormentado por toda sorte de arrependimentos, pensando na despedida que nunca teria a chance de dar. A última vez que ouvi sua voz foi numa acalorada discussão, na sexta-feira, três dias atrás. Uma garota da minha empresa, uma adolescente idiota me atacou, me beijou enquanto tomávamos café, ela segurou as minhas orelhas e eu empurrei com força a sua cintura, é claro que me revoltei, foi na hora que estávamos de saída e hoje eu tomaria as devidas providências. O problema é que a sub-gerente, minha subordinada aliás, é a melhor amiga de minha esposa e distorceu a história pra ela! Quanto mais eu tentava me explicar mais exaltada Valentina ficava, e eu temeroso pela nossa criança acabei ficando em silêncio, esperaria ela se acalmar para ver que eu nunca seria capaz de trair sua confiança e acabar com a nossa família. Acabei dormindo o fim de semana inteiro no sofá, até domingo à noite ela não me dirigiu a palavra e fingia que eu não existia. Eu a entendi, ela estava insegura, falava em como estava enorme e feia, e mesmo com meus sinceros elogios àquele barrigão perfeito, ela não me ouvia. Os hormônios da gravidez potencializavam tudo, e eu cria que assim que chegasse em casa hoje com a carta de demissão da garota, tudo ficaria bem. O último registro da voz da minha esposa seria um grito de desprezo? A vida parecia mais injusta do que nunca e ali ajoelhado eu só queria cair no chão, e me encontrar com elas, nem que fosse em outra vida.
A fina garoa cessou e eu senti um calor estranho sobre mim. Morto por dentro eu levanto a cabeça e sinto o sol brilhar forte e as nuvens começarem a se dissipar, não vejo beleza alguma naquele fenômeno e minha cabeça abaixa, pisco pesadamente e enxergo uma forma estranha ao longe, cerca de 200 metros de onde me prostrei. Parece um tronco meio torto escorado numa pedra, mas tem algo de estranho ali, que atrai minha curiosidade, me levanto para enxergar melhor, e quase me arrastando vou em sua direção, ao me aproximar mais um pouco aquilo se mexia, com o vento? 100 metros ou mais nos separam e tenho uma visão longínqua, porém nítida da forma que está naquele chão. Meus olhos voltam a enxergar cor na paisagem, mas eu só olho para aquele ponto fixo, corro como se estivesse na mais perfeita forma, e eu estou, me foi devolvida a vontade de viver.
– Valentina! – eu grito, me ajoelhando e pondo minha mão sob sua cabeça e a outra em seu ventre – Valentina fala comigo!
Ela parece inconsciente e está deitada toda encolhida dentro de seu casaco marrom.
– Volta pra mim meu amor! Acorda! – eu tento mexer em seu rosto, mas ele está coberto de cortes, ocasionados pelo vidro do para-brisas provavelmente.
– Eu tô aqui – ela sussurra, sem conseguir abrir os olhos.
– Você vai ficar bem meu amor – eu começo a tentar pegá-la no colo e ela geme alto de dor, lembro de algo que ouvi quanto a não mexer no corpo de pessoas acidentadas, ela pode ter quebrado algo e eu não quero piorar – eu vou chamar ajuda, força meu anjo.
Beijo sua testa e me levanto, tiro meu celular do bolso e meu sangue gela ao ver o aviso de “Sem serviço” brilhar na minha tela. Tento manter a calma e começo a dar voltas por ali, como poderia ser deixado na mão numa hora dessas?! Solto um grito de frustração e jogando o celular longe me reaproximo de Vale.
– Me perdoa? – ela pergunta baixinho.
– Você não fez nada amor – eu respondo, tentando bloquear as lágrimas.
– Eu sempre confiei em você ok? Queria ter aproveitado meu último fim de semana contigo...
– Você ainda vai ter muitas chances, não fala assim! – não consigo mais segurar o choro e molho seus curtos cabelos – por que você saiu sozinha nessa chuva amor?
– Pontadas. Sangue. Anna. – ela sussurra com grandes pausas – meu orgulho idiota... Não me deixou te acordar. Me perdoa?
Quando mais uma vez pretendo responder que não há o que ser perdoado, ouço um barulho de helicóptero voando baixo e me levanto num ímpeto. O policial deve ter mandado me procurarem, sabia que eu estaria pela margem! Quase entro no rio, grito e aceno com os dois braços, o piloto me vê e pousa numa área descampada a 50 metros de nós. É um alívio enxergar aquele casal fardado se aproximando, colocam minha esposa numa maca, devidamente imobilizada e eu os sigo, segurando forte em sua mão, me assusto com a temperatura fria de sua pele. Entramos no helicóptero e ao cobri-la com uma manta térmica vejo que ela perdeu a consciência, ainda há pulso mas é claro que me assusto ainda mais. Sussurro em seu ouvido sobre como tudo vai ficar bem e nem percebo quando aterrissamos no hospital, tudo é muito rápido, ela recobrou a consciência mas a colocam numa sala que não posso entrar. Minutos aterrorizantes se arrastam e uma médica sai daquela sala e grita algo sobre a criança ainda estar viva e que precisava de um obstetra plantonista com urgência.
– É a minha esposa lá dentro, eu preciso entrar! – eu vocifero, segurando forte no braço da médica. Ela me lança um olhar de compaixão.
– Pois vista um daqueles aventais azuis e me siga – ela diz apontando para um armário atrás de um balcão. Eu obedeço.
Entramos naquela sala e estão limpando a minha menina, ela encontra meus olhos com sofreguidão e eu corro até ela para afagar seus cabelos e tentar trazer um pouco calma ao seu coração. Sua pele já está toda limpa quando o tal obstetra chega, fecham a porta e uma luz forte me cega por um segundo, ela deve ter sido anestesiada antes de eu entrar e o doutor já começa as incisões. Ela não tira seu olhar do meu e não emite som algum, só aperta forte a minha mão, também não consigo desviar o meu olhar do dela e a nossa conexão só é interrompida por um chorinho estridente sinalizando que há vida na minha princesinha. Mais uma vez minhas lágrimas saem do controle e choro como um bebê quando o médico põe a criança no lado esquerdo do peito de Valentina, coberta com uma manta amarela, e surpreendentemente ela a segura com os dois braços e sorri para a menina. O mundo parece voltar ao normal.
– Obrigada por dar uma chance a ela – Vale sussurra, levantando o olhar – por nos encontrar.
Eu afago a delicada cabeça de nosso bebê, minha garganta está embargada e eu não conseguiria responder que eu que a agradeço por ter aguentado firme e Anna ter uma chance, só sorrio de orelha a orelha e puxo sua cabeça para dar um beijo em sua testa com a franjinha já seca. Transbordo de gratidão e me demoro com os lábios em sua cabeça, quando decido olhar minhas meninas novamente, ao soltar sua nuca e abrir meus olhos, sua cabeça pende para trás e Anna é retirada de seus braços. Ao me situar nesse mundo novamente, ouço um som contínuo vindo da máquina que deveria estar medindo sua pulsação, mas só há uma linha reta ali e nesse ponto tudo fica nublado.
Um enfermeiro me empurra para o canto e meia dúzia de pessoas se revezam em reanimá-la. Ligam o desfibrilador, e mesmo com uma dezena de tentativas, a máquina ligada a ela continua a emitir aquele som e exibir aquela maldita linha reta. Minhas pernas perdem toda a força que tinham readquirido e eu caio ajoelhado, sem reação. O tempo para. Eles se afastam dela. Uma mulher nega devagar com a cabeça. O tempo continua parado. Eles começam a desconectar todos os fios do corpo dela e o médico começa a suturar a ferida em seu ventre. Sinto uma mão em meu ombro. O tempo volta a passar.
Eu abaixo o olhar e quando o levanto é para soltar um grito gutural, me levanto num ímpeto e me ponho a correr, a vida volta a não fazer sentido e eu preciso fugir, apagar a memória de Valentina daquele jeito da minha cabeça. Desço todas as escadas e a porta automática daquele lugar me deixa ir. Ao chegar na calçada, me permitindo enxergar todos aqueles carros vindos de ambas as direções, eu estaco. Uma voz dentro de mim faz meus pés virarem chumbo e eu percebo que não posso nem quero fugir. Ainda há alguém precisando de mim ali. Na mesma velocidade que fui, eu volto, me tranco no banheiro e choro. Como nunca me permiti na vida, soco o lavatório e me balanço como um bebê, soltando altos gemidos de revolta contra tudo. No meio de todo o desastre aquela voz continua a gritar em meu subconsciente, eu levanto o olhar.
– Não é hora para lamúrias, levanta essa cabeça! – aos prantos e engasgando eu falo comigo mesmo, olhando no espelho – Anna precisa de você, ao invés de reclamar deveria agradecer pela dádiva que te foi concedida. Você encontrou Valentina! Teve sua chance de perdão, além de tudo te deixou o melhor que ela poderia te oferecer, sua filha! Um ser minúsculo totalmente dependente de você, ela só tem você! Anna é uma extensão do amor de vocês, você nunca vai ficar sem a Vale, pois há um pedacinho dela naquela criança, agora lute por ela!
Acredito em minhas próprias palavras, espantado com a força que nunca imaginei que teria eu lavo meu rosto e saio daquele banheiro. Uso um telefone público instalado ali para contar tudo e pedir ajuda para a minha irmã, ela já está a caminho quando subo para UTI neonatal. Pergunto pela recém-nascida de um parto de emergência e a enfermeira me informa que ela está bem, mesmo com só 31 semanas, ela já é uma guerreira e nem vai precisar de respirador. Eu consigo sorrir e abraço forte aquele desconhecida e aos poucos vou guardando a dor bem fundo no meu peito.
Vinte dias se passaram, Beatrice, minha irmã, cuidou de tudo com relação a minha esposa, eu preferi não ir no velório, fiquei com nossa filha, pois ainda lutava para deixar nas minhas memórias só o último momento de Valentina com vida, o calor de sua testa sob meus lábios. Acabei reformulando o nome da nossa princesinha, é Anna Laura, com os significados de graciosa e triunfadora respectivamente, ela merecia um nome de princesa guerreira. Hoje finalmente vou poder levá-la pra casa e com a ajuda de todos eu sei que vou conseguir. A família de Vale está aqui, a minha também, ao sair daquele hospital eu olho para o céu com meu anjinho nos braços e o sol brilha triunfante. Sinto aquele mesmo calor sobre mim, como de quando eu a encontrei nas margens daquele rio, o melhor tipo de paz me invade, a de espírito, e eu sorrio com a certeza que enquanto Anna Laura precisar de mim, estarei aqui, e assim que for a hora, naquela imensidão azul, eu vou encontrar minha Valentina.
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