Notas iniciais
Tudo era muito novo para mim. Era um novo terreno para ser desbravado. Talvez tudo poderia ser diferente, tudo poderia ter tomado outro rumo, uma outra direção, outro sentido, caso ele não estivesse aqui.

Apesar do que todos estavam dizendo de que nessa época, a Flórida estaria quente, eu estava com muito frio. Não era acostumado com aquele tipo de clima, ou com alguma coisa parecida. Mas a experiência poderia valer muito a pena. Meu casaco ainda estava com o cheiro da minha mãe, que me abraçara antes de embarcar do Brasil, até aqui. Era meu primeiro ano no ensino médio e como todo novato, entrei em choque. Inglês não era problema, conversar, seria uma das minhas mínimas preocupações. Era o início do ano escolar, na Jhonson Stewart’s High School, e eu pude observar todo mundo se reencontrando de novo, perguntando o que tinha feito nas férias e quais eram as novidades. Essa pra mim, foi a pior parte, tanto por não conhecer ninguém, quanto por ter vontade de falar com meus amigos, que agora estavam distantes.

Eu recebi ordens de ir na diretoria, me apresentar a diretora, que era poliglota, e falava português fluentemente, graças a fama da escola, de receber alunos oriundos de vários países. Não era intercâmbio, eu iria morar nos Estados Unidos quando terminasse a escola. Nunca gostei dessa ideia de voltar pra o Brasil depois que terminasse meus estudos, ou passar somente um ano e não conseguir aprender nada, pra mim, isso é uma espécie de turismo. Pedi informações a estudantes nos corredores e logo encontrei a sala da diretora May Pillsburry, bati na porta e uma voz doce, me pediu para entrar.

— Você deve ser o aluno brasileiro, certo? — Disse uma senhorita que aparentava ter 35 anos, de cabelos loiros com um sorriso caloroso. — Peter, não é? — Questionou.

— Sim, eu mesmo — Tentei sorrir na mesma intensidade. Eu conseguia ser simpático quando eu queria, graças a isso, eu consigo fazer amizades em qualquer lugar que eu fosse. Isso era uma boa virtude, principalmente aqui —

— Seja muito bem vindo, Peter. É uma honra para nós, da Jhonson recebermos você. Sei que fará vários amigos aqui, e qualquer coisa, não pense duas vezes, em visitar minha sala! — Disse a diretora, com um tom de voz, tão caloroso quanto seu sorriso.

— Muito obrigado — Agradeci — E você tem um português muito bom, parabéns — Elogiei. Não queria ser puxa-saco, mas eu estava falando a verdade. Eram poucos os turistas que visitam o Brasil, que falam português tão bem quanto ela.

— Fico honrada de receber um elogio de alguém que tem o português como a língua-mãe. Acho melhor você se apressar, suas aulas logo irão começar, então vá até a tesouraria e entregue esse papel lá. Você receberá os horários com as salas, e seu material, tenha ótimos estudos, Peter! — Ela fala, e me dando um abraço.

Definitivamente, eu não estava mais no Brasil.

A escola era como eu pensava que era, tinha armários e decoração iguais as das séries americanas que eu assistia. A senhoria Pillsbury tinha me ensinado a chegar na tesouraria para eu não ter que precisar perguntar a ninguém. Chego lá, e falo com uma senhora que me entrega um horário, um mapa das salas, um cartão de presença e todos os livros que vou precisar no semestre. Mesmo eu chegando direto do aeroporto pra cá, contratei uma pessoa para deixar minhas coisas na minha casa, que ficava a 10 minutos a pé do colégio. Após o horário escolar, eu iria conhecer minha nova casa. Saí da tesouraria e fui para minha primeira aula: Biologia. A sala ficava perto de onde eu estava, só precisei descer algumas escadas. Um monte de gente estava entrando também, então fui diretamente falar com o professor. Entreguei meu cartão de presença, ele assinou e entregou a apostila da sua matéria, e pediu para que eu ficasse do lado dele, pra me apresentar. Alguns minutos depois que todo mundo sentou, só restavam eu e ele, de pé.

— Pessoal, este aqui é o garoto novo de quem vocês tanto falavam — disse ele em voz alta. Neste minuto, eu percebi que eu já estava sendo aguardado. — Deem as boas-vindas ao Peter!

Eu simplesmente acenei, enquanto todo mundo me desejava as boas-vindas. Como não tinha muitos lugares vagos, fui para o fundo, coloquei a mochila na carteira e comecei as anotações. Foi assim durante todos o dia. Nos intervalos das aulas, todo mundo me perguntava como era no Brasil e o porquê de ter mudado para os Estados Unidos e ter escolhido a Flórida. Era bem embaraçoso, mas como todos aparentavam estar bem interessados, respondi todos simpaticamente. Às duas da tarde, quando o horário escolar terminara, eu fui pra minha nova casa. Algumas pessoas me ofereceram carona, mas eu expliquei que eu estava morando bem próximo da escola e que não precisava.

A casa era melhor do que eu imaginava.

Ela já estava mobiliada e no andar de cima, tinha dois quartos. Tinha pedido para fazerem compras e encherem o armário e a geladeira antes de chegar, eles o fizeram. Eu coloquei minha mochila com meu material no quarto onde estavam minhas malas. O quarto tinha uma escrivaninha, onde eu coloquei os livros em cima dela. Tomei banho e fiz um sanduíche. Dois vizinhos tinham batido na porta e fizeram bolos pra mim, como presente de boas-vindas. Parece mesmo que a cidade toda estava aguardando minha chegada. Estava cansado, pelo dia cheio. Depois de colocar minhas roupas no armário e organizar tudo, eu finalmente estava pronto pra dormir. A janela do meu quarto ficava no encontro entre duas paredes do meu quarto, como se fosse uma espécie de observador. Dela, eu conseguia ver a casa vizinha, e uma boa parte da rua. Antes de fechar as cortinas, uma luz estava me chamando atenção. Era justamente a casa que eu conseguia ver, era um garoto de cabelos escuros, estava escrevendo em cima de uma escrivaninha parecida com a minha. Seu rosto era familiar, tinha visto ele na aula, foi o único garoto que não tinha falado comigo. Ele parecia bem concentrado no que estava fazendo. Não quis parecer o “vizinho curioso” então fechei a janela e fui dormir. Era um novo começo pra mim e tinha a certeza que tudo iria dar certo.

Notas finais
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