Notas iniciais
"Quem quer bolinho Ana Maria?"

Well acordou na floresta, em algum ponto perto da praia. A luz do sol queimando o rosto foi o que o despertou. Ficou algum tempo parado esperando o enjoo passar e logo após se pôs a andar em direção à praia.

Enquanto andava, tentou lembrar-se do que havia acontecido antes de estar ali, mas só se lembrava de ter saído de casa, tinha a intenção de ir à festa do Lorics Brasil no Rio de Janeiro, mas não tinha lembranças da festa. Com a cabeça ainda confusa, desistiu de tentar se lembrar do dia anterior e começou a procurar gente.

— Alguém! Algum ser humano nesse lugar! — gritou.

—Aqui! — gritaram vozes distantes.

Well correu na direção das vozes como se estivesse no deserto e visse um copo d’água ao longe. Quando parou no lugar que achou ser a origem das vozes, não encontrou ninguém.

— Porra! — disse Well para si mesmo. — Eu juro que eu ouvi gente aqui.

Esperou alguns segundos e gritou por alguém novamente. Vendo que ninguém respondeu, gritou:

— Será que dá pra parar com a sacanagem e aparecer logo?

— Calma, calma, pra que esse nervosismo todo? — Disse Vitória descendo de uma pedra.

— Viros? O que você tá fazendo aqui? Foi você quem respondeu “aqui”?

— Sim, sou eu mesma, e não sei o que estou fazendo aqui, e não, eu não respondi “aqui”, vim correndo pra cá quando ouvi seus gritos.

— Se não foi você então tem mais gente nesse lugar. Você sabe onde estamos?

—Sei não, ia te perguntar isso. Você disse que ouviu alguém responder “aqui”?

— Aham, eu chamei por alguém e ouvi mais de uma voz respondendo. Como se não bastasse eu não me lembrar de como eu vim parar aqui, tem gente tentando sacanear.

—Não é só você que não se lembra, só me lembro de sair da festa do Lorics em Porto Alegre e depois acordei aqui com um enjoo brabo.

— Nem fale, quase vomitei quando acordei.

Well contou a Vitória sobre as vozes que escutou, e ela deu a ideia de procurar os donos das vozes entrando na floresta. Vendo que Well estava hesitando, Vitória falou sobre a estranha facilidade de se andar naquela floresta.

...

Raquel se sentia estranha, tinha a sensação de que seus órgãos internos haviam trocado de lugar. Já devia ter uma hora que estava acordada e a sensação não passava. Lembrava-se de tudo o que acontecera antes da pancada na cabeça, depois disso, só se lembrava de acordar perto daquele baobá. Espera, um baobá? Ela se levantou no susto e começou a se perguntar em que tipo de lugar estava. Estou em Madagascar?

Pegou o celular para ver o código de área de onde estava, mas frustrou-se quando viu que estava sem sinal. Olhou em volta para ver se havia algum modo de sair dali e notou pela primeira vez um círculo de morros, com um túnel embaixo de cada morro.

Entrou pelo túnel mais próximo e saiu na margem do riacho onde Marco nadou. Teve a ideia de seguir o riacho para o caso de encontrar algum vilarejo e pedir ajuda, pois não fazia ideia do lugar onde estava. Caminhando, decidiu recapitular o que aconteceu antes de aparecer ali.

Ainda eram onze e meia da noite, mas ela já estava com vontade de sair da festa. O livro já estava na bolsa, as pessoas já estavam começando a ficar bêbadas. Ela até ficaria para rir dos micos dos bêbados, mas aquela dor chata de cabeça fazia o ato de deitar-se em casa uma proposta mais atraente que ver bêbado passando vergonha.

Pediu um carro no Uber e esperou-o chegar perto da porta do salão de festas. Quando o carro chegou, ela cumprimentou o motorista e já ia se sentar no banco do carona quando o motorista pediu que ela sentasse no banco de trás, e ao ser perguntado sobre o motivo, ele deu uma desculpa qualquer que Raquel não se lembrava. À contragosto, sentou-se no banco de trás.

O motorista teve que parar o carro para abastecer, e tirou do porta-luvas algo que Raquel não conseguiu ver. Ao sair do posto, Raquel começou a sentir sono, e viu o motorista colocando uma máscara no rosto. Após perceber que aquele sono não era normal, apagou.

Raquel continuou andando e avistou duas fileiras de mangueiras com um corredor no meio. As mangueiras pareciam ter sido plantadas ali por mãos humanas, até os espaços entre os troncos tinham a mesma distância. No fim do corredor, viu uma moça de cabelos cacheados, e chegando mais perto, reconheceu a moça, era Ana Luiza, que estava chupando manga.

— Morte? — Perguntou Ana Luiza.

— Lua?

— Sim, sou eu. — responderam as duas ao mesmo tempo.

— Quer uma manga? — Perguntou Ana Luiza apontando para meia dúzia de mangas.

— Quero, tô morrendo de fome.

Raquel pegou duas mangas, lavou no riacho e descascou-as no dente. Enquanto chupava as mangas, perguntou à Ana Luiza como ela havia parado ali.

— Eu lembro que eu estava hospedada em um hotel em São Paulo, — começou Ana Luiza — era um “passeio” da faculdade para a sede da Y & R, e calhou desse passeio cair justamente na semana da festa do lançamento do último livro de Legados de Lorien. No dia da festa, eu dei uma fugida do hotel, só para dar uma passada rápida na festa e comprar meu livro. Chegando lá, me ofereceram uma taça de champagne, e eu aceitei. Acho que não bebi nem meia taça, e comecei a ficar zonza, achei que tinha ficado bêbada com menos de meia taça. Comecei a andar na direção do banheiro, ia jogar uma água no rosto, para ver se acordava, mas minha visão começou a escurecer antes de eu chegar lá. Mesmo com a visão escurecida, eu senti dois pares de mãos agarrando meus braços enquanto eu perdia a consciência. Então eu acordei aqui, embaixo dessa mangueira.

— Nossa, você é fraca para bebida hein.

— Nem é isso, acho que aquele champagne tava batizado, me deram um boa noite cinderela me jogaram aqui.

— Eu fui envenenada com algum gás por algum motorista da Uber. Eu o vi colocando uma máscara no próprio rosto enquanto eu desmaiava. Depois disso, só me lembro de um baobá enorme cercado por uns morros aqui perto.

— Baobá?

— É, aquelas árvores de Madagascar.

— Lugar estranho, já viu como essas mangueiras estão muito bem organizadas?

— Notei sim, até o espaço entre elas parece igual. Eu tô doida para saber que lugar é esse, encontrar gente, encontrar abrigo para a noite.

— Então vamos andar um pouco, mais perdidas do estamos não vamos ficar.

— Bora.

Andando, conversaram sobre quem poderia tê-las largado naquela floresta, o motivo daquilo, de como o lugar era estranho, de como vira e mexe parecia haver alguma intervenção humana naquele fim de mundo, sobre a esperança de estarem apenas em alguma floresta. Viram de longe um tronco muito largo, Raquel deduziu que fosse uma sequoia.

— É, definitivamente não sei onde estamos. — Disse Raquel mais para si mesma do que para Ana Luiza.

— Por que você acha isso?

— Primeiro eu vejo um baobá, baobás da espécie Adansonia grandidieri são restritas a Madagascar. Agora tem uma sequoia, e olha a altura dela.

Ana Luiza ficou impressionada com o tamanho da árvore, devia passar dos cem metros com facilidade. Sua distração foi quebrada por vozes relativamente perto de onde estavam. Raquel também ouviu, e as duas foram andando na direção das vozes, e ficaram surpresas ao ver que do outro lado da sequoia, estavam Dyana, Marco, Lucas, Bart, Jadson e Pablo.

— Ok, isso é uma festa surpresa do Lorelindos sobre a qual não fui avisada? — Perguntou Raquel para ninguém específico.