Notas iniciais
"Será que eu procuro mais gente ou como goiaba né?"

Marco havia acabado de se levantar do chão.

“Onde é que eu estou?”

Apoiou as costas no tronco de uma árvore e, pensando que estava sonhando, tentou acordar. Fechou os olhos por alguns segundos na esperança de acordar em sua cama, mas ao abri-los de novo, continuava naquele lugar estranho. Estava perto de um riacho raso que se perdia no meio das árvores.

Tentou se lembrar se foi parar no meio do mato por vontade própria, mas nada vinha a sua mente a não ser sua saída da festa do Lorics BR em Curitiba. Estava com enjôo e sentia que acabaria vomitando em local inapropriado, por isso decidiu ir embora. Não se lembrava de nada depois dos dez primeiros passos na rua.

Vendo que não ia conseguir nada parado ali, decidiu andar na direção em que o riacho descia para procurar alguém, talvez andar clareasse sua mente. Depois de vinte minutos de caminhada, começou a sentir calor. Depois de trinta, já estava pensando se seria uma boa ideia entrar no riacho para se refrescar. Depois de cinquenta, pulou de roupa e tudo no riacho. A água batia abaixo do seu peito na parte mais funda.

Enquanto tomava banho, sentiu-se observado. Olhou em todas as direções possíveis, mas não viu ninguém. Deixou para lá e seguiu o curso do riacho dentro da água. Enquanto andava, ouviu barulho de um algo seco sendo quebrado, então se escondeu embaixo da água e nadou para longe dali.

...

Lucas tinha certeza de que estava em uma ilha, já havia visto a praia de madrugada, algumas lagoas pequenas e agora observava o riacho que Marco seguia.

Havia recobrado a consciência ainda de madrugada, a tempo de ver um barco saindo rápido da praia. Tentou levantar na hora, mas a dor na nuca era forte demais, parecia que havia levado uma pancada. Só conseguiu ficar de pé depois que o barco já tinha ido.

Em vez de ficar na praia, vagou pela ilha a esmo. Andou por quase todo o litoral da ilha, sendo impedido por uma rocha enorme que descia um morro e desaparecia na água. Já estava perto de amanhecer quando entrou no meio das árvores e alguns minutos depois, ele encontrou uma lagoa de água salgada no interior da ilha. Havia muitos peixes na lagoa, estava com fome e se lamentou de não saber pescar com vara.

Para sua felicidade, encontrou uma goiabeira carregada, e perdeu a noção do tempo comendo. Só caiu em si quando ouviu o barulho de algo caindo na água. Seguiu na direção do barulho e viu um rapaz tomando banho de roupa no rio, chegou mais perto e ficou em dúvida se aquele rapaz era o Marco Aurélio.

Escondido, acompanhou Marco andando pelo rio. Estava indo bem silencioso, até pisar em um galho seco. Viu Marco submergir e não emergir mais, então saiu do esconderijo e começou a correr gritando:

— Marco! Espera! Eu sou o Lucas lá do Lorelindos!

...

Marco ouviu uma voz gritando, mas não entendeu nada por causa da água. Não queria voltar à superfície, mas queria saber o que aquela pessoa estava falando. A curiosidade venceu o senso de auto-preservação e então ele emergiu.

— Lucas? — Disse Marco.

— Caramba, achei que tinha visto miragem. — Lucas respondeu.

— Era você que estava me observando?

— Sim, eu não sa...

— Pelo amor de Deus, nunca mais faça isso.

—... bia se era você mesmo.

— Como é que você veio parar aqui?

Lucas contou o que havia ocorrido com ele antes de chegar à ilha, contou sobre o barco e suas perambulações. Marco estranhou Lucas chamar aquele lugar de ilha e perguntou sobre como ele descobriu aquilo. Marco contou o que aconteceu com ele entre a festa em Curitiba e o encontro com Lucas.

— Quem tu acha que nos trouxe pra cá? — Perguntou Marco.

— Sei lá, nem parei para pensar nisso. Mas se aparecer mais Lorelindos aqui, vou começar a desconfiar do pessoal da Humor Lorieno.

— Ou do Da Hora. — Disse Marco em meio a gargalhadas.

Um grito raivoso vindo de trás de Lucas chamou a atenção dos dois.

— Será que vieram nos buscar?

— Espero um pouco.

Ficando em silêncio, conseguiram discernir palavras como “morre”, “logo”, “arrá” e “matei”. Era uma voz feminina e familiar para Marco.

— É a voz da Dy. — Disse Marco sorrindo para ninguém exatamente.

— Então vamos lá ver.

Correram na direção de onde os gritos vieram e encontraram Dyana com um pedaço de madeira na mão, e um escorpião morto no chão.

— Marco? Lucas?

— Sim, nós. — Disseram Marco e Lucas ao mesmo tempo.

— O que vocês estão fazendo aqui? — Perguntou Dyana.

— Não sei. — respondeu Marco.

— Nem eu. — completou Lucas.

— E nenhum de vocês dois vai me contar como vieram parar aqui nesse fim de mundo?

— Ainda estou tentando lembrar, mas o que o Lucas viu pode ser importante.

— O que você viu Lucas?

Lucas contou a Dyana tudo o que aconteceu desde a festa do Lorics até encontrar Marco nadando no riacho. Marco contou à Dyana o que aconteceu com ele até ouvir os gritos dela com o escorpião. Perguntaram a ela o que havia acontecido com ela. Dyana sentou na raiz de uma árvore e pediu para eles se sentarem também, pois a história era longa.

— Bom, eu havia acabado de sair da festa do Lorics no Rio de Janeiro, até vi o Bart e o Jadson lá, mas acho que eles não me viram. Eu estava morrendo de cansaço do passeio que eu tinha feito no Rio de dia, então saí da festa antes dela acabar. Quase chegando na casa da minha mãe, um carro cantou pneu e freou perto de mim. De dentro do carro, saíram uns homens encapuzados e armados. Me mandaram entrar no carro, e falaram que se eu não entrasse por bem, iria entrar por mal. Dentro do carro, me apagaram com um produto no meu nariz. Depois disso, só me lembro de acordar um pouco longe daqui. Acordei no limite entre a praia e a floresta, já estava quase amanhecendo, eu tava meio zonza por causa do produto e respirei um pouco pra deixar a mente mais leve.

— Nossa, bem pior que nós. — Comentou Lucas.

— Sim, continuando. — Dyana voltou a falar. — Comecei a andar pela floresta marcando o caminho, e achei um pé de jabuticaba. Comi algumas, mas estavam meio azedas então vim pra cá. Aí apareceu esse monstro aí e eu o matei com aquele pedaço de pau, e então vocês chegaram.

— Eita. Mas você disse que tem pé de jabuticaba aqui? — Perguntou Marco.

— É, tem, fica para aquele lado. Mas não estão com um gosto muito bom.

— Ilha estranha, jabuticaba, goiaba, daqui a pouco aparece uma plantação de abacaxi. —Disse Lucas.

Dyana fez cara de nojo quando Lucas falou de abacaxi, mas depois começou a rir. Marco e Lucas estranharam a repentina crise de risos de dela. Perguntaram-se do que ela estaria achando graça, e depois perguntaram a ela o motivo dos risos.

— E se eu disser que passei por uma plantação de abacaxi antes de encontrar o pé de jabuticaba? — Disse Dyana em meio a risos.

— Não brinca. — Disse Lucas.

— É verdade, mas eu passei longe, detesto abacaxi.

E então, os três ouviram o barulho da vegetação se movendo. Ao olhar na direção do barulho, se surpreenderam com Bart, Jadson e Pablo olhando para eles tão surpresos quanto eles.

— Acho que já posso começar a desconfiar do pessoal da Humor Lorieno. — Disse Lucas.