Ilha Solitária
2 A cabana
Ouvi uivos. Cada vez mais perto e mais alto. Meu rosto se encheu de pavor e medo. Entrei no riacho, a água azul e gelada cobria meus joelhos, fui descendo o riacho com cuidado para não escorregar, ou uivos estavam altos demais agora, e o rio abaixo parecia não ter fim. Comecei a correr com cautela, ao longe, avistei uma pequena cabana. Apressei o passo, e ou uivos estavam tão altos que meus ouvidos doíam, precisava chegar rápido a cabana. Escorreguei. Por pouco não bati a cabeça, consegui segurar o peso do meu corpo com as mãos e depois ficar ajoelhada. Algo havia prendido meus pés. Puxei-os e eles não responderam aos meus movimentos nem ao menos se moveram um pouco. A essa altura os uivos estavam tão altos que precisei tapar os ouvidos. Mergulhei a cabeça na água para ver o que tinha prendido meus pés, Oh céus! Arame farpado! Segurei meu pé esquerdo com a mão e o puxei, ele se movimentou mas não se soltou, um segundo puxão.. AI! o arame o tinha cortado. A dor se espalhou pela minha perna e eu gritei, meu grito saiu sem som, e abafado; eu estava com medo, estava sim. Tive que esquecer a dor e me liguei novamente em meu pé direito, ele ainda estava preso, a água onde meu pé esquerdo estivera a alguns segundos estava vermelha, de tanto sangue escorrido. Coloquei a mão no arame farpado e tentei desembolá-lo. Minhas mãos estavam todas cortadas quando desisti alguns minutos depois, o arame não havia desembolado, mas havia afrouxado. Dei um puxão e meu pé finalmente saiu. GRAÇAS A DEUS! gritei, e depois me arrependi, pois esse grito havia soado alto demais. Outro uivo; dessa vez um uivo mais alto que qualquer outro e mais demorado. Me levantei, minhas pernas ardiam até os tornozelos, elas mal conseguiam me manter em pé, atravessei o arame farpado com cuidado e continuei descendo o rio, quase caindo. A cabana estava tão perto, e quanto mais perto mais alto os uivos eram, eles estavam quase chegando até mim. Olhei para trás. Os lobos estavam onde eu havia bebido água. Cheguei até a porta da cabana, MERDA! ela estava trancada. Eu não sabia o que fazer, tinha menos de 2 minutos até eles me fazerem de refeição. Remexi os bolsos. O arame! Nunca havia ficado tão feliz em ter uma arame em mão, coloquei-o na fechadura e o girei, eu nunca havia aberto uma porta com um pedaço de arame. O arame caiu no chão e quando desci a mão para pega-lo olhei para trás, eles estavam muito perto, teria no máximo um minuto e alguns segundos, e como eram tantos, pelas minhas rápidas contas, eram mais de cem. Girei novamente o arame na fechadura. Meu Deus, aquela porta não abria. Não resisti, olhei novamente para trás, o maior lobo, o que estava um pouco a frente dos outros devia ser o líder da alcateia, ele estava a uns 20 passos longe de mim. Eu não teria chance, eu morreria. Comecei a chorar ainda girando o arame. Dez passos. Abre, abre, abre! sussurrei para o arame, mesmo sabendo que ele não me ouviria. Cinco passos. O lobo líder deu um uivo super alto, o mais alto que eu já ouvirá na vida, e imaginei ser um uivo de vitória, pois logo depois todos uivaram também em sinal de resposta. Restavam-me três passos até ele me alcançar. Girei o arame para a direita e depois para a esquerda e o pressionei mais para dentro. A porta deu um tranco e abriu. No mesmo estante eu me joguei para dentro. A chave estava do lado de dentro da porta , fechei-a com pressa. Ouvi outro uivo. Sentei-me em um canto, sem enxergar nada, estava muito escuro e comecei a chorar. Minhas lágrimas caíam sobre minhas pernas e eu sabia que estava chorando pelo fato de estar feliz, pelo simples fato de conseguir estar viva.
Fale com o autor