Ikiru
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Aoi se encontrava lá naquela cama já fazia alguns dias, quase na mesma posição. No começo lamentava por não ter ouvido a todos e parado de fumar, mas além de ser tarde de mais para lamentações, ele não podia realmente reclamar. Teve uma boa vida.
Ele olhou para o lado e pôde ver pela janela as luzes e enfeites característicos daquela época do ano. A neve branca cobria toda a rua e um boneco de neve parecia sorrir para ele. Aquela época que sempre lhe trazia lembranças dolorosas, que depois de tanto tempo já não tinha mais certeza se não fora somente um sonho.
Antes que percebesse, uma lágrima mal contida escorreu pelo rosto. Aoi olhou para a mesinha ao lado de sua cama, e suspirou quando percebeu que a enfermeira deixou seu tesouro ali em cima. Um pedaço de papel, que era a única prova de que ainda não havia perdido totalmente sua lucidez.
Não poderia ser um sonho. Não quando o sentimento ainda parecia tão vivo dentro dele. Com 43 anos de memórias que poderiam lhe passar a cabeça, aquela triste lembrança parecia ter sido a única que teimava em continuar, uma memória de algo que aconteceu há tanto tempo atrás. Talvez seu único arrependimento na vida.
~*~*~*~
Devia ter por volta dos 19 anos, um jovem inconsequente e cheio de ideias. Ele lembrava que o conhecera perto do natal, quando o frio estava insuportável, mas delicioso. Aoi adorava ir a um café que havia perto de sua casa, ficando horas observando as pessoas passando na rua e escrevendo melodias que surgiam em sua mente.
Por causa do frio que fazia, ele era o único que ficava sentado do lado de fora do aconchegante café. Seu rosto ardia com o vento gelado, mas adorava aquela sensação. Um vento mais forte fez as folhas que ele tinha em mãos voarem e caírem na calçada, aos pés de um garoto que passava. O garoto parecia ter quase a mesma idade que ele, mas era bem mais baixo e magro. Ele recolheu as folhas e as trouxe até Aoi, estendendo os papéis úmidos pela neve. Seu rosto estava meio oculto pelo cachecol grosso, mas seu olhar de certa forma o fez estremecer. Eles transmitiam uma calma e pureza que até hoje não se encontrava nem mesmo em uma criança.
No momento em que foi devolver as folhas, seus olhos se arregalaram quando acabaram encostando as mãos.
– Você está gelado! Por que não está aquecido dentro do café? — O garoto exclamou, parecendo surpreso.
Aoi ficou um tempo lhe encarando.
– O frio me agrada. — Foi a única coisa que conseguiu dizer.
– Também gosto do frio. Mas hoje ele parece estar desagradável. — Voltou a colocar as mãos dentro dos bolsos do casaco e deu uma olhada nas folhas que havia acabado de entregar. — Você toca?
– Toco violão. Eu canto também, mas minha voz não é muito agradável.
Aoi sorriu o vendo rir baixo. Era uma risada gostosa e infantil.
– Posso sentar aqui também? — O garoto indicou a cadeira a sua frente.
– Não disse que estava com frio?
– Disse que o frio parecia desagradável. Mas já deixei de senti-lo faz um tempo.
Aoi estranhou um pouco, mas sorriu. Ele já devia estar dormente pelo frio, assim como ele mesmo já não sentia mais as próprias mãos.
– Sempre puxa assunto com estranhos? — Perguntou assim que o garoto se sentou.
– Na verdade você foi uma exceção. Normalmente as pessoas não me notam. — Ele olhou para os lados como se procurasse alguém e abaixou um pouco o cachecol. Os traços de seu rosto eram delicados e era muito magro. Tinha a aparência frágil de um jovem doente. — E você, sempre conversa com estranhos que puxam assunto?
– Você foi uma exceção. Gosto de solidão.
– Prefere que eu te deixe sozinho? — Perguntou parecendo um pouco decepcionado.
Aoi o encarou por um tempo, pensando na resposta. De fato gostava de ficar sozinho, mas de alguma forma estranha ele realmente o queria por perto.
– Sua companhia parece ser agradável.
O menor sorriu novamente e Aoi corou, pigarreando e dando um gole no seu café já frio, fazendo uma careta.
– Sou Kai.
– Me chama de Aoi. — Respondeu deixando sua xícara de lado.
Começaram a conversar sobre alguns assuntos aleatórios e logo perceberam que tinham muito em comum. Não demorou muito para que se tornassem amigos. Sempre se encontrando naquele mesmo lugar, onde Kai esperava mesmo que cedo, sentado na cadeira de madeira do lado de fora do café. O frio cortante não parecia lhe incomodar. E mesmo o outro insistindo para que entrassem no estabelecimento, ele se negava dizendo que gostava da privacidade que aquele lugar dava.
Kai era sempre alegre e falava como se não tivesse mais ninguém para conversar além de Aoi. Parecia ter certa aversão a outras pessoas, se encolhendo e nunca dizendo nada quando tinha mais alguém presente.
– Toca pra mim? — Kai perguntou mais uma vez e o maior negou com a cabeça, o vendo fazer uma cara emburrada.
– Já disse que só toco em apresentações.
– Então por que me mostra essas partituras se nunca vou ouvir? — Ele jogou as folhas a sua frente, se recostando de braços cruzados como uma criança fazendo birra.
– Por que não vai me ver no bar que sempre toco? — Aoi insistiu novamente, o vendo negar pela milésima vez. Já estava ficando meio irritado com a negação dele. — Por que não?
Seu olhar ficou triste por um momento e ele olhou para o céu, parecendo pensar em algo. Kai sempre fazia aquela mesma expressão quando o outro falava algo como ir para outro lugar ou o chamava para sair.
– Eu sempre fui muito doente, Aoi. Desde pequeno minha mãe me mantém em casa para me proteger de tudo e de todos.
– Ela não te deixa sair? Não acha que já está grande pra pedir permição?
– Não é tão fácil... Ela precisa de um tempo pra aceitar.
– O que quer dizer?
Kai emudeceu e suspirou fundo novamente. Ele era sempre misterioso quanto a isso, sempre escondendo o que parecia pensar e o torturar todos os dias. Mesmo que o maior sempre perguntasse e ele se negasse a contar, nunca insistia. Talvez por medo de tirar seu mistério, talvez por não querer realmente saber.
– Não pode se apresentar aqui?
– Nesse café? Alguns dos meus fãs não gostam daqui. Por isso venho sempre pra compor, assim não me incomodam.
– Por que não gostam daqui?
– Dizem que é assombrado por um garoto, que fica sempre olhando pela janela. — Aoi indicou o alto do café. — Eu não acredito nessas coisas.
Kai começou a rir alto. Aoi o encarou, estranhando aquele súbito ataque de risos.
– Esse “fantasma”, Aoi, era eu. — Suspirou fundo depois de finalmente parar de rir, esperando sua respiração tranquilizar. — Como eu disse, era uma criança muito doente e vivia de cama. A única coisa que conseguia me distrair naquela época era olhar a rua pela janela.
– Então você mora em cima do café?
– Isso. Só não sabia que havia causado esse boato. — Kai apontou para si mesmo e sorriu. — Tudo bem que eu sou muito mais pálido que o normal, mas eu não parecia estar morto. Só meio mal humorado, talvez.
Aoi sorriu junto, não por que achou engraçado, mas por que Kai conseguia lhe contagiar com qualquer sentimento que estivesse sentindo.
– Não acredita em fantasmas? — Kai perguntou, fazendo uma expressão parecida com a de uma criança curiosa.
– Não. Você acredita?
– Acredito. — Deu uma pausa, olhando para os lados novamente antes de voltar a encarar o maior. — Sabe, quando meu pai morreu, minha mãe dizia que a alma dos mortos continua na casa durante um ano, até ela terminar os assuntos pendentes e finalmente ir para o plano espiritual. Eu lembro que durante esse tempo, eu sentia alguém afagar minha cabeça antes de dormir, como meu pai fazia.
– Se eu fosse você, teria medo, isso sim. — Debochou, ainda descrente.
– Não ria, é uma história bonita! E não tem como ter medo de alguém que você gosta.
Aoi acenou positivamente, mais como se pedisse pra mudar de assunto do que realmente concordando. Deixou as folhas de lado e olhou para dentro do café pelo vidro da vitrine, vendo a movimentação do horário e o pequeno palco vazio no centro daquela cafeteria.
– Ok, eu posso falar com a dona do café um dia desses.
– Não tem problema seus amigos e seus fãs não virem?
– Gosto mais de você do que dos meus amigos ou fãs.
Aoi pareceu perceber somente depois o que havia acabado de dizer e corou, desviando o olhar para a mesa.
– Precisa ser até o natal! — Kai sorriu e pareceu entender, mas ignorou o significado do que o outro dissera por educação.
Apesar do alívio, no fundo Aoi preferia que o menor desse mais atenção ás suas palavras. Ou que ao menos ficasse igualmente constrangido.
– No Natal aqui deve encher, não acho que eu consiga vaga para me apresentar. — Disse ainda meio cabisbaixo.
– Consegue sim! Sei que Satsuki te deixaria tocar aqui. — Ele pareceu animado. Era quase como se tivesse certeza do que estivesse falando. — Ainda mais no natal.
– O que tem de tão especial no natal?
– É uma data importante... Se você tocar pra mim nesse dia, eu te conto.
Aoi suspirou desanimado e concordou com a cabeça, voltando a olhar para as partituras. Ele sempre acabava cedendo as vontades do outro, se fascinando com cada reação, e começava a não ligar mais pra isso. Seus sentimentos já estavam embaralhados há algum tempo. Embora Aoi sempre fosse uma pessoa extremamente alegre e um tanto escandalosa, não fazia muitos amigos naquela época. Até que Kai acabou se tornando alguém valioso. Não só porque marcava o tempo batendo na mesa enquanto compunha, mas também emocionalmente. Embora essa segunda parte ele nunca tenha dito claramente.
Era mais um dia que o frio habitual continuava lhes fazendo companhia. Kai estava distraído novamente olhando para o céu, enquanto alguns flocos finos de neve caiam. Ele ficava cada dia mais triste, mais distante. E isso fazia o peito do maior doer de alguma forma.
Mas naquele dia Aoi se encontrava ansioso, contendo da melhor forma que conseguia a novidade que tinha pra Kai, esperançoso de que ele se animaria com a surpresa.
– O que tanto olha? — Aoi perguntou depois de um tempo, já sentindo o frio aumentar.
– Quero me lembrar de como a neve é bonita. — Ele voltou seus olhos de forma alegre.
– Você fala coisas estranhas.
Kai se limitou a dar mais um sorriso, mesmo que triste. Na verdade ele parecia sorrir por qualquer coisa, mesmo que o xingasse ele provavelmente riria e até mesmo concordaria. Porém, muitos poucos dos seus sorrisos pareciam ser alegres ou verdadeiros. A maioria deles era daquele jeito, meio tristes e vagos.
– O que queria me contar? — Kai perguntou sentindo o peso dos olhos do maior sobre si.
– Ah, tenho uma surpresa pra você! — Aoi se empolgou e tirou um panfleto que carregava dobrado no bolso, estendendo a frente do olhar curioso. — Olhe as apresentações.
Ele ficou lendo os nomes das pessoas que se apresentariam dia 25 de Dezembro no panfleto, que o outro havia pegado hoje naquele café. Até que seu rosto se iluminou ao ver o último nome da lista.
– Você vai tocar aqui no natal! — Ele exclamou sorrindo, fazendo seu peito se aquecer novamente.
Era assim que Aoi gostava de vê-lo: Sorrindo radiante, sem aquele semblante triste que ele parecia carregar nos últimos dias.
– Desta vez, sem desculpas! Você vai me ver tocar. — Disse, não escondendo o furor ao conseguir arrancar dele qualquer sorriso que fosse.
– Claro! É um dia especial.
Continuou observando Kai, tentando entender porque vê-lo alegre o deixava tão feliz. Ainda mais quando se dizia respeito a Aoi, que sempre fora tão arrogante e antissocial naquela época. E agora se via tão ansioso por chegar aquela data que nunca achou importante, somente para poder tocar para Kai, e ver seu sorriso dirigido a ele, somente ele.
O natal chegara em pouco tempo, trazendo junto aquele clima animado que coloria e iluminava as ruas durante noite. O café estava cheio, sendo que a noite de atrações daquele lugar era muito popular pela região. E em uma cidade pequena, casais e pessoas que não tinham com quem celebrar se reuniam ali para comemorar aquela data na companhia de uma boa refeição e um pouco de música ao vivo.
Aoi se encontrava em um dos cantos do estabelecimento, passando os olhos ao redor a procura daquele que não havia visto o dia todo. Já era quase hora dele se apresentar, e a falta da presença do único que lhe importava o deixava ainda mais nervoso.
– Estou aqui. — Ouviu uma voz mais fraca ao seu lado e se assustou ao ver que era Kai, parado em um canto meio escuro ao lado do balcão.
– Está se escondendo?
– Não... Mas prefiro ficar aqui. — O tom de voz que ele usava era baixo, causando uma sensação estranha no maior.
– Achei que não viria. — Aoi disse se sentindo aliviado.
– Disse que era uma data especial. Claro que viria! — Sorriu parecendo mais feliz que o normal, embora seu semblante também parecesse mais cansado e frágil. — Depois que se apresentar, pode me encontrar lá fora?
– Certo... — Aoi estranhou o tom de urgência com que o outro falava, mas tentou não ligar, sua vez estava chegando e a ansiedade já tomava conta.
– Boa sorte. — Kai disse antes de apertar seu ombro como se lhe desse coragem.
O maior segurou com mais força seu violão e foi a caminho do pequeno palco que havia no centro daquele café. Ele já devia estar acostumado a tocar para tantas pessoas, mas aquela ocasião era diferente e seu coração disparava em antecipação.
– Boa noite. — Aoi disse ao microfone, vendo a atenção de todos se voltarem à ele. — Como só tocarei uma música essa noite, gostaria de dedicá-la a uma pessoa especial. — Seus olhos se fixaram em Kai, e embora o músico não pudesse enxergar direito graças a falta de iluminação, percebia o rosto surpreso.
Começou a dedilhar o violão para ter certeza de que estava no tom certo e começou então a tocar. A melodia preenchia o lugar e todos pareceram se calar para prestar atenção na música.
Em nenhum momento da música, Aoi desviou seus olhos do amigo. Começou a sentir a garganta apertar quando percebeu que Kai estava prestes a chorar, e sua voz ficou mais rouca que o normal. Aoi fechou os olhos para conseguir se concentrar melhor e terminar sua apresentação.
Quando voltou a abrir os olhos, ouvindo os aplausos de todos os presentes no café, olhou por onde Kai estava antes e percebeu que este não estava mais lá. Agradeceu devidamente ao público que parecia ter gostado da música e se retirou, deixando seu violão em um canto junto com seus pertences. Lembrou então do que Kai havia lhe pedido e caminhou até o lado de fora, onde o encontrou parado, olhando a neve cair.
– Adorei a música. — O menor disse ainda parecendo encarar o nada. A voz mantinha o mesmo tom baixo. — Obrigado.
– Não está com frio? — Aoi percebeu que o outro não trajava seu sobretudo. E naquela noite a temperatura parecia ainda mais baixa graças ao vento.
– Já disse que deixei de sentir frio. — Kai olhou para sua direção. Os olhos brilhavam mais que o normal, lacrimejados. Mas ele não parecia realmente triste.
– Como não?
– Desculpe não ter contado antes. Mas sei que ficaria com medo se eu tivesse dito. — Kai se aproximou mais e ergueu a mão para tocar o rosto de Aoi, que ao invés de sentir seu toque, percebeu que a pele do menor parecia uma massa de ar gelado.
– O que quer dizer? — Aoi se encontrava visivelmente confuso e assustado.
– Lembra-se da história que eu te contei sobre meu pai? — Kai praticamente sussurrava, com medo do que ele mesmo revelava. O maior fez um mínimo sinal em concordância para que pudesse continuar. — Hoje eu completo um ano.
Aoi finalmente compreendeu o que acontecia. Mas não queria acreditar que aquilo era real. Por que era assustador, impossível, triste. Seu interior doía, e sem perceber, lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.
– Eu gosto de você, muito mais do que deveria. – Disse erguendo a mão para limpar a lágrima do maior, mas se deteve ao ver Aoi recuar de leve. Sorriu. — Parece que agora você acredita, né?
Aoi permaneceu quieto. As teimosas lágrimas contrastando com seu olhar assustado. Kai deu um passo para trás, se afastando. Queria tanto abraçar o outro, mas sabia que não poderia.
– Podemos nos reencontrar quando renascermos, em circunstancias mais normais. — Kai sorriu novamente. Embora não estivesse triste pela partida, se sentia mal por deixar seu único amigo para trás. — Eu sempre fui doente, e só conhecia o mundo por aquela janela. Eu... Eu sei que é estranho, mas eu sempre te observava. Eu desejava tanto poder falar com você. — O rosto de Aoi ainda permanecia duro, com uma expressão que oscilava entre confusão e medo. E Kai não queria que aquele momento fosse daquele jeito. Não queria que Aoi estivesse assustado, mas não podia pedir nada diferente daquela reação. Designou-se, pronto para finalmente partir, feliz pelos dias que passara com o maior. — Obrigado por realizar meu último desejo.
Aoi avançou e agarrou o menor abraçando-o fortemente. Kai se surpreendeu, não sabendo como aquilo era possível, como conseguiam se tocar. Mas não quis saber o que acontecia, apenas retribuiu o abraço, sentindo o corpo ficar quente pela primeira vez depois de tanto tempo.
– Não tem medo de mim? — Kai sussurrou.
– Não tem como ter medo de alguém que você gosta.
Kai sorriu. Sentia seu peito apertar e uma incrível sensação o preencheu. Era quase como se estivesse vivo, mas tinha Aoi em seus braços e seu corpo não doía. Kai se afastou minimamente do abraço e começou a aproximar seus rostos. Era sua última oportunidade, afinal. Seus lábios se roçaram de leve, devagar o bastante para que o maior se afastasse caso não quisesse. Mas quem findou o contato foi o próprio Aoi, colando os lábios com uma força desnecessária em um impulso.
Demorou um pouco para que ambos realmente percebessem o que estava acontecendo, mas quando se deu conta, Kai sentiu como se pudesse derreter apenas com aquele contato. Temeu avançar ou apertar ainda mais o abraço, aquilo já era muito mais do que ele poderia desejar. Aoi foi um pouco mais intenso, sugando o lábio inferior do menor antes de finalmente se afastar.
Ambos se olharam meio sôfregos, tanto pelo beijo quanto pelo frio. Aoi não quis desfazer o abraço, com medo do que aconteceria se ele o fizesse. Estavam afastados apenas o bastante para que se encarassem. O maior sentiu seus olhos arderem sentindo o peito doer como nunca sentira antes, e sem perceber, as lágrimas voltaram aos seus olhos.
– Talvez isso não seja um adeus. — Kai disse, passando a ponta dos dedos no rosto de Aoi. Era estranho voltar a sentir a pele úmida novamente.
– Não é. Espere por mim...
Não ouviu retorno, e nem soube quando ou como, mas se viu abraçado o nada. As lágrimas se secando com o vento gelado e a sensação de vazio em seu interior.
Ele não estava mais lá.
~*~*~*~*~
Aoi voltou a dobrar o folheto de natal velho que sempre mantinha guardado no bolso. Seu tesouro. O pequeno pedaço de papel já tinha se apagado há muito tempo, mas ele ainda se lembrava de como era a anos atrás.
Estava sozinho no quarto agora. Já devia ser madrugada quando despertou. Seu corpo não doía mais, mas o sentia pesado e praticamente dormente. Não soube quanto tempo ficou ali, até ficar incapaz de se mexer. Embora não sentisse vontade de fazê-lo também. Seu olhar vagou pelo quarto pousando na TV, já ha muito tempo esquecida, chiando como se pedisse atenção. Ter aquele sonho sempre o fazia acordar com os olhos lacrimejados e a sensação de vazio. Uma sensação que não passou apesar do tempo, do casamento, dos filhos.
O ruído branco foi amuando aos poucos, tornando-se distante. Sabia que o momento havia chegado, mas não estava triste. Ele achava que a última coisa que passaria pela sua mente neste momento seria sua família ou sua carreira. Mas a consciência foi o deixando enquanto sentia o corpo cada vez mais leve. O cheiro de café dominou o ambiente, e a sensação gelada da neve em sua pele lhe arrepiaria os pelos da nuca, se fosse possível.
Viu aquele rosto já conhecido, nostálgico. Uma felicidade o preencheu, sentindo a parte que faltava se completar.
“Hey, demorou.”
~ Fim ~
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