Ignoto.
1 Capítulo 1
Num momento de privacidade Gisele quis ficar sozinha no camarim a fim se despedir, ter suas próprias lembranças. Olavo manteve-se.
- Olavo, ninguém pode descobrir isto, ninguém!
- Eu já falei que não precisa se preocupar, Docinho. E lhe beijou num espicho de lábios a maçã da bochecha. Vamos lá, ânimo, hoje você está se aposentando e o mundo inteiro lhe espera.
- Você vai me mesmo se mudar para Boston?
- Acho que Washington é mais a minha cara e, bem, estou pensando em fazer contatos políticos. Ele descerrou os lábios e ergueu uma sobrancelha, fez cara de pomposo. Talvez até precise de sua ajuda.
- Você pode contar comigo sempre. Você sabe. Um tamborilo de trotagem humana transpôs o limiar do camarim onde, até então, Gisele estava sozinha com Olavo.
- Gisele, todos estão lhe esperando. Uma bicha esguia de altura e com fineza afetada no corpo disse quase gozando, sentindo-se o viado mais importante de São Paulo.
- Eu já vou. Me dê só alguns segundos. Meu marido está no camarote?
- Sim, ele, sua mãe, as crianças...
- Eu já vou, só um minutinho.
E a bicha saiu rebolando o quadril pontudo de gazela.
- Its time, Gi. Olavo caçoou.
- Nos vemos em Boston. Era a forma sutil de encerrar a conversa. Levantou-se graciosa donde estivera sentada e abrangendo o maxilar com os dedos chupados e magrelos trouxe para perto aquele que, sem dúvidas, era o grande amor da sua vida. Eu te amo. E beijou-lhe com a fúria de mil reis a língua suculenta e cremosa de sabor. Logo saiu, despediu-se do mundo, dos desfiles; a modelo maior, top model, Gisele Bundchen.
Meses se passaram.
Olavo nasceu no interior da Bahia e com dezoito anos foi viver na Suíças aos custos de um contrato estabelecido. Se era dom ou esperteza ninguém sabe, mas como investidor cambial aferiu lucros em juvenil mocidade que pouquíssimos grisalhos aferiram em vida adulta. Foi contratado. Salário estúpido de alto, comissões, moradia, veículo, putas escandinavas e, quando quisesse, o jato do Credit Suisse a sua disposição. Hoje com 22 anos figurava entre os jovens mais influentes do mundo numa lista muita mais discreta e importante. Não era um Mark Zuckerberg, tampouco podia equipara-se a qualquer rapazote que descobre fortuna e a goza nas vistas do mundo. Era muitíssimo discreto! Beirando as beiradas beirava sempre. Detinha 3% do grupo Rede Globo.
- Três por cento, Olavo?!
- Você é Roberto Marinho Filho, conseguirá.
- Eu tenho 51%, não posso abrir mão de mais nada.
- Compre de outros acionistas e me venda por um valor simbólico.
- Isto é difícil.
- Você não quer entrar no grupo, Roberto?
- Quero. Meu pai sempre quis. Eu realizarei o sonho dele, mesmo que post mortem.
- Ok. Escute. Você falou que estaria disposto a investir 5 bilhões de francos. Eu lhe consigo a mesma vaga por 4 bilhões. Use o gap para comprar minha participação nesta empresa. Faça isto e o sonho dos Marinhos estará realizado.
- Ok, Olavo.
Detinha também participação no capital fechado de investimentos do relevante George Soros. Olavo é, de sua geração, um pródigo, a virgula errônea, o exclamo na indaga, um ponto mal posto, a divergência, o erro, o torto, o cara. Acertara todas as previsões e constituíra no decurso de pouca idade uma fortuna avaliada em três bilhões de francos. Estava agora, alguns meses póstumos à aposentadoria de Gisele Bundchen, numa sala de reuniões na casa de Boninho. Havia festa no jardim engrinaldado da mansão; atores globais e uma garota em especial que ele conhecera no réveillon.
Se aproximou, estava chique, de gel no cabelo, a dentição polida, exalando forte cheiro de Paco Rabanne. Nathalia... — Ela girou nos calcanhares tão elegante que o seu vestido constituído de seda, soltinho nas coxas, dançou num assomo bailarino e logo caiu aos cambitos brancos igual leite, delicado, de talho fino. Olavinho. Pensou em estapeá-lo na cara, mas corria boatos de que era um de seus patrões. Só vim te dar um beijo, estou de saída. Se cuide, huh? Rouquidão braba na voz. Era moço, mas o tom enrouquecido e a pose sempre ereta o tornavam figura imponente, respeitável. Me tire daqui, Olavinho. Era tudo o que ele precisava ouvir.
Lembrou de acordar no outro dia em uma suíte de estalagem com a calcinha dela intrincada no nariz. Levantou, bochechou Listerine e parou de ombro escorado no alizar da porta. Lembrou-se. Lembrou-se como adorava as calcinhas dela. A tecelagem sempre barata, despachada, uma espécie de algodão. Nunca pequenas demais; o tamanho certo é a chave. A de hoje, amarela e com bolinhas pintadas na inteireza despontava o tom pueril de Nathalia. Lembrou-se de regatá-la dentre os gomos de um rabinho empinado, pequeno, dois brotinhos de perfeito encaixe na palma. Lembrou-se de como montou-lhe a corcova, de como varou a canaleta intrauterina, de como largou em golfadas o prazer voluptuosos de sua fervura, brancas como mingau de Maisena, no mais íntimo esconderijo daquele corpinho. Riu-se. Beijou ela que deitada ainda adormecia. Arrumou de paletó e foi-se. Deixou sozinha, na suíte do Fasano, Nathalia Diil.
- Gisele! Atendeu o celular com boa vontade, animado, enquanto pagava a conta do hotel.
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