Ignorância

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Fiquei toda confusa com os gêneros, botei amizade porque eu realmente fiquei confusa a TW: TRANSFOBIA Boa leitura :)

— Reunião depois da janta? — Daniel questionou sem entender.

— É. Eu quero conversar com todo mundo, será que dá? — perguntou Rafa colocando uma nova garfada na boca.

— Dá. — concordou André. — Mas agora estou curioso sobre o assunto. Dá uma dica.

— Não vou dar dicas. — Rafa encerrou o assunto e voltaram a jantar falando de trivialidades.

Assim que terminaram de organizar a mesa e guardar a louça, Rafa voltou ao quarto para buscar um caderno e logo voltou com ele em mãos.

— Rafa, você vai mostrar os desenhos que estava fazendo? — perguntou a irmã mais nova.

— Vou sim, Lua. Quer ficar para ver?

— Quero! — concordou e sentou-se em seu lugar na mesa.

— Então. — começou. — Todos aqui conhecem a sigla LGBT, certo?

— Você fez todo um drama para falar para seus pais que você é lésbica? — André questionou e riu.

— Não sou lésbica e também não sou bi. — reclamou. — Posso continuar explicando?

— Pode, meu anjo. — Daniel disse calmo já entendendo onde a conversa terminaria, pois só havia sobrado uma letra.

— Certo. Eu sou trans. — confessou, surpreendendo André.

— Trans, Rafaela?

— Fica quieto, André. — reclamou Daniel.

— Você é um garoto? — Luana perguntou tentando entender em meio às lembranças das explicações de seus pais.

— Hoje eu sou. — disse com um sorriso para a irmã.

— O que você quer dizer com hoje, Rafa? — Daniel perguntou usando o apelido ao refletir sobre o fato de que o nome era feminino.

— Pensem comigo. — pediu o garoto. — Estão vendo esse círculo azul? — questionou ao mostrar o caderno. — Ele representa as pessoas trans binárias. Ou seja, um homem que as pessoas diziam ser mulher; ou uma mulher que as pessoas diziam ser homem. — tentou explicar de forma simples por causa de sua irmã.

— Certo. — concordou Daniel para mostrar que seguia a ideia.

— Só que existe outro círculo. — Rafa continuou ao virar a página e mostrando um círculo vermelho. — Ele representa as pessoas não binárias.

— O que são pessoas não-binárias? — Luana perguntou confusa enquanto balançava suas pernas.

— Eu sou uma pessoa trans não-binária. Dentro deste círculo — apontou para o vermelho. — existe muitas pessoas diferentes. Eu sou gênero fluído.

— Você flui entre um garoto e uma garota? — André questionou enfim se manifestando.

— Isso. — concordou. — Na verdade existem dias que eu não me sinto nem garota e nem garoto, mas podemos falar disso outra hora. — comentou sem graça. — No momento eu ficaria feliz se pudessem me chamar como se eu fosse um garoto.

— Eu tenho um irmão? — Luana perguntou simples e Rafa sorriu.

— Entendi. — concordou. — Posso ir brincar?

— Pode, querida. — aprovou Daniel e a garota saiu às pressas da mesa.

— Gênero fluído, Rafaela? Que merda é essa? — André questionou irritado enquanto via o filho virar a página para um desenho com os círculos azul e vermelho que tinham uma interseção em roxo com a escrita "trans".

— Gênero fluído é o que eu sou. E eu agradeceria se me chamasse apenas de Rafa. — pediu.

— De onde você tirou um negócio desses? Não se sentir garota ou garoto? Isso não faz a porra do menor sentido! — André gritou e Rafa estremeceu com a voz irritada.

— Eu… — a voz embargada o fez recuar em sua fala. — Eu esperava um pouco mais de compreensão… — murmurou enquanto saia da mesa com seu caderno.

— André, por que falou desse jeito? — Daniel perguntou calmo.

— Por que isso é ridículo, Daniel. — reclamou tentando manter a calma. — Nunca vi uma merda dessas na minha vida toda. Aposto que arranjou isso na internet.

— Olha. Vai tomar um banho e descansar, eu vou falar com… Nossa criança…

André concordou ainda irritado e saiu do local enquanto Daniel foi até o quarto de seu filho.

— O que foi? — Rafa perguntou enquanto terminava de arrumar seu material para o dia seguinte na escola.

— Obrigado por confiar na gente e nos falar. — agradeceu sincero e abraçou o adolescente. — Dê um tempo ao seu pai, okay?

— Okay. — concordou retribuindo o ato. — Desculpa não ser como vocês queriam… — pediu encabulado.

— Ei, ei. — o pai chamou a atenção. — Nada disso, você é perfeito. Não ouse repetir isso. E do jeito que você gosta de enfiar coisa errada nessa sua cabeça, eu vou te lembrar que você não foi adotado só porque gostamos da Luana. Adotamos vocês porque amamos vocês dois, está bem? Você é tão importante quanto a Luana.

— Obrigado… — agradeceu chorando. — Eu pensei nesse momento de tantas maneiras… Eu estava com medo…

— Seu pai é um idiota, mas eu vou conversar com ele sobre isso. — Rafa riu das palavras e concordou.

Assim que Daniel saiu de seu quarto uma Luana apareceu constrangida.

— Posso dormir com você?

— Claro. Venha aqui. — concordou e viu a menor ir até sua cama.

— Como eu vou saber que você é garoto ou garota? — Luana perguntou enquanto se arrumava na parte de dentro da cama.

— Assim que acordar e me ver você pode me perguntar.

— Tá bom. — a irmã concordou e esperou a mais velha apagar a luz e se deitar também.

— Boa noite, Lua. — desejou enquanto mexia em seu celular.

— Boa noite, Rafa. — desejou se aconchegando perto das pernas do irmão.

[...]

— Já esfriou sua cabeça sobre o Rafa? — Daniel perguntou deitando-se no seu lado da cama.

— Se estiver falando das asneiras que a Rafa disse ontem, eu ainda tô puto.

— Eu gastei meu almoço todo de hoje fazendo pesquisas sobre gênero fluído e não-binários. Rafa tinha razão, é um negócio muito grande, André. Estamos desatualizados sobre algo que fazemos parte.

— Fazemos parte, Daniel? Somos gays.

— Somos uma ova, eu sou bi, idiota. — reclamou. — Não apaga minha orientação.

— Orientação? Que caralho, homem?

— É como falam hoje em dia: orientação sexual. — explicou mais calmo. — Sabia que existe orientação romântica? Aliás, lembra quando o Rafa disse que também pode se sentir sem gênero nenhum? Eu descobri que as pessoas estão neutralizando as palavras, só que eu achei bem difícil de usar… Acho que estou meio velho para ficar aprendendo tanta coisa nova… — brincou rindo. — Mas eu posso fazer esse esforço pelo nosso filho. — continuou o monólogo. — Agora faz sentido ele ter ido atrás de ser menor aprendiz e gastar tudo em roupa masculina.

— Cala a boca, Daniel. — reclamou o marido. — Você tá se escutando? Olha o tanto de merda que você tá falando.

— Merda?

— Isso é a coisa mais nada a ver que eu já ouvi. Desde quando alguém pode ficar mudando assim?

— André. — chamou o marido e controlou sua vontade de gritar. — Eu não passei anos ouvindo de todo mundo que eu era um indeciso e uma vadia e alguém que trai fácil para simplesmente fazer o mesmo com o meu filho. Se você foi um privilegiado aceito pelo seus pais, meus parabéns. Mas você não ouse não fazer o mesmo com nosso filho. — disse apontando o indicador no peito do outro. — Eu passei uma hora pesquisando sobre o assunto e ligando para amigos que me disseram as mesmas coisas que você.

— Viu? Até seus amigos concordam.

— Não me faça querer terminar essa discussão na delegacia porque eu meti a porrada em você, caralho! — gritou de maneira a assustar o outro, Daniel raramente se alterava. — Você sabia que isso que você está fazendo é transfobia? — perguntou abaixando seu tom de voz. — Se você não der um jeito de ajeitar esse seu modo de pensar, pode me esquecer. Eu vou atrás da merda do divórcio.

— Divórcio? Endoidou, Daniel?

— Endoidei nada, André. Isso se chama amor de pai. E ele é muito maior que meu amor por você, fique ciente disso. — alertou e pegou seu travesseiro. — Não quero olhar na sua cara, vou dormir na sala. Boa noite. — desejou antes de fechar a porta do quarto.

Daniel suspirou assim que se sentou no sofá da sala. Que maravilhoso jeito de terminar sua noite.

— Pai..? — escutou seu filho chamar e abriu os olhos surpreso.

— Rafa? Você ouviu?

— E tinha como não ouvir? — riu sem graça. — Desculpa…

— Já falei que não precisa pedir desculpas.— relembrou.— Venha aqui. — pediu e bateu no espaço vago ao seu lado no sofá.

— Não queria que brigasse com o pai.

— Não é sua culpa. Ele que é um ignorante.

— Eu não achei que ele fosse… Reagir desse jeito…

— Somos dois pais presos no tempo, Rafa. Não somos perfeitos. Descobri que estou totalmente desatualizado sobre a comunidade LGBT, tem até um "mais" agora. E pensar que se usava GLS na minha época…

— Para de falar como um velho. — riu Rafa.

— E quarenta e sete anos não é velho?

— Nem tanto. Menos drama, vai.

— Mas foi muito interessante o que eu aprendi, depois você pode me dar umas aulas a mais.

— Eu ficaria muito feliz. — o garoto disse concordando com a ideia.

— Achei legal que hoje de manhã quando pedi para Luana te perguntar se queria café ela primeiro te perguntou se você era garoto ou garota.

— Eu avisei a ela que deveria me perguntar toda manhã. — explicou.

— Acho que vou ter que mudar alguns comportamentos meus. Aliás, você tem algum novo nome? Pessoas trans binárias costumam mudar de nome, não sei como não-binários fazem...

— Eu ainda estou procurando um nome que seja neutro e que me agrade, mas quando eu achar um eu te aviso.

— Então, por enquanto continuamos com Rafa?

— Isso. — concordou.

— Entendido, Rafa. — disse sorrindo e abraçou o filho.

— Você falou sério sobre o divórcio?

— Eu… — Daniel ficou receoso sobre o assunto.

— Tenho dezesseis anos, pai. Pode me falar.

— Eu fui tirado do armário a força, sabia?

— Você foi?

— É. Meus pais me pegaram com um garoto na casa dele. Foi um caos e por muito tempo eles acharam que eu era gay, até eu começar a namorar uma garota. Com esse namoro eles ficaram tranquilos, mas quando eu passei a namorar um garoto mais tarde o caos voltou e me expulsaram de casa. Eles não queriam um filho gay.

— Mas você não é gay.

— Ser bi para eles era uma ideia muito avançada. Me chamavam de confuso na família. E, bom, eu já fui taxado de muita coisa. Eu não vou deixar você passar por isso, Rafa. Você é muito mais importante que um relacionamento de vinte anos.

— É engraçado ouvir isso sendo que você me conhece há apenas sete anos.

— De repente, se você tiver uma criança no futuro, você entenda isso.

— Obrigado, pai. Seu apoio é muito importante para mim.

— Eu sei. — disse beijando a testa do filho.

"Porque era tudo que eu queria ter tido."

— Você tem que trabalhar amanhã, né? Vou te deixar dormir. Boa noite, pai. — desejou se levantando.

— Boa noite.

Viu o filho com seu pijama da seção masculina e suspirou mais uma vez esperando que André deixasse sua ignorância de lado.

Notas finais
Obrigada a quem leu ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!