Ignorância Fatal
1 Ignorância fatal
O tempo estava nublado, embora o âmbito escuro carregasse um ar pesado de um desconhecido contraditório. A cerâmica que outrora soltava um ar fresco de detergente de pinho agora parecia manchada por gotas de água sanitária. Algo não estava bem, não ali naquele quartinho de açougue.
No canto da porta, um homem se remexia enquanto as mãos acompanhavam uma melodia drástica por meio de um recente tique nervoso. Seu sistema nervoso parecia afetado e sua mente vagava por montanhas escuras e lagos tenebrosos.
— Blo... Blo... Aca... — Soltava o pobre infame deitado ao chão frio e grudento do estabelecimento mal refrigerado. Suas palavras se confundiam com os sons dos demais equipamentos que guardavam carnes e derivados. Seu corpo se contorcia num ritmo melodioso, como um ator faria em qualquer peça de dramaturgia. Mas aquilo não era uma peça. Era a vida real, e ao contrário de qualquer outra peça mal escrita, aquela era feita por mais um contador de blasfêmias humanas. Blasfêmias reais.
Sua língua continuava a se embolar na esperança da formação de palavras. O chão que outrora fora branco agora permanecia ensaguentado, como se todas as misérias do dia fossem resultados de uma rachadura com dutos lacrimais.
Mas a dor do pobre corretor de imóveis não era só sentimentos, afinal, sentimentos por si só não soltavam sangue. A causa da sua dor era na verdade a falta dela. Contraditória, pulsante, dolorosa. Era esse o motivo. Ou, como qualquer mortal diria, a situação era deplorável. As orbes do infeliz permaneciam intactas como azeitonas no canto exterior do açougue. Seu corpo ainda tentava se remexer quando a hemorragia o venceu, antes que um tiro inimigo o fizesse. Seu coração parou, seu sangue formou bolhas, sua história se congelou. Simples assim.
O melhor destino acabara de ser traçado, afinal, era isso ou suportar dois tiros e cada um dos buracos negros que antes ocupavam seus olhos. Ah, o destino... Tão doce e frio. Tão vingativo... Tão real.
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