If i remember

6 Welcome to the broken toys section


Dawn tamborilava os dedos sem parar, o que não me ajudava em nada em me concentrar para ajeitar as fotos.

Estávamos tentando colocar minhas fotos de infância, até a adolescência, numa espécie de linha do tempo. Já estávamos naquilo há três semanas. Dawn e eu já havíamos tirado os gessos de nossos braços e pernas, e eu já tinha ido a uma tonelada de sessões no psicólogo. Eu pensava que só de ver as fotos, alguma memória voltaria, mas nenhuma respondeu a chamada. Minha última esperança era de ir ao local onde elas tinham sido tiradas, e acontecer o mesmo que tinha acontecido quando toquei o espelho. Eu ainda estava confuso quanto a isso, por que eu me lembrei daquela simples coisa, e não do resto? Aquilo também não me ajudava em nada.

– Só falta mais um pouco – Dawn murmurou. – Mais um pouco e teremos nosso mapa.

– Mapa? – indaguei puxando uma foto minha na praia.

– Tente imaginar o que estamos fazendo como um mapa do tesouro. Só que o tesouro ta na sua cabeça e está divido em pedaços. – ela puxou a foto da minha mão e riu – Estamos fazendo uma trilha para colher esses pedaços em busca do grande prêmio.

– E qual é o prêmio?

– Sua vida de volta.

Depois que ela disse isso, decidi apenas me concentrar na minha tarefa. Minha vida deve ter sido boa, pensei olhando para as fotos.

– Ah menos que você tenha sido um babaca, senão paro agora mesmo – Dawn esbravejou. – Vamos, fale seu mantra junto comigo!

– Se eu um dia fui um babaca, não serei mais – entoamos juntos.

Ela pegou um biscoito do prato e o mastigou com avidez. Nat tinha conquistado mais uma adoradora de seus biscoitos. Toda visita de Dawn, ela fazia uma fornada de biscoitos, e Dawn aceitava sem hesitar. Mas ainda era estranho como Nat e Dawn conseguiam ser assustadoras. Dawn eu até entendia, com suas roupas agressivas, mas Nat, a primeira vista, é só uma doce garotinha. Me perguntava se ela dormia com uma faca debaixo do travesseiro.

– Ah, quase esqueci – Dawn disse cuspindo algumas migalhas na mesa. – Antes de começarmos a irmos de um lugar para o outro juntos, minha irmã quer que você jante com a gente hoje.

– Eu não sabia que você tinha uma irmã – eu limpei algumas migalhas do meu braço.

– Você não sabe nada, Evan Rowe. – Por alguma razão, aquela frase me era familiar – E é por isso que eu estou aqui.

– E é só ir jantar com vocês? Só isso?

– Só. Não precisa levar nada, nem vestir nada especial – Dawn abocanhou outro biscoito. – Caralho, tua irmã faz uns biscoito muito foda. Tem como ela me passar a receita?

– Não sei, tem que falar com ela. E você sabe cozinhar, Hansen? – peguei o penúltimo biscoito do prato.

Eu nunca me perguntei sobre alguma habilidade que Dawn poderia ter, e até aquele momento, me faltava à coragem para perguntar a ela.

– Não, não sei – ela declarou. – Vou pedir pra Tessa fazer alguns.

– Tessa?

– Minha irmã – Dawn confirmou.

No final da tarde, Dawn e eu conseguimos ajeitar as fotos, e estávamos prontos para começar a pesquisa. O pedido de Tessa, irmã da torturadora, para eu ir jantar com elas, me fez pensar um pouco a respeito. Achei que ela só queria ver se eu não era nenhum maluco sem teto que estava enganando a irmã. Mas Dawn era muito esperta para cair num truque barato, se bem que ela poderia deixar alguém no hospital, se ele irritá-la. Só de pensar nisso, me da arrepios.

Não precisa vestir nada especial, ela havia dito. O meu arsenal de roupas não era, e ainda não é, de uma grande variedade. Tínhamos quatro jaquetas e blusas, duas calças jeans, dez camisetas, três pares de tênis, e uma camisa social preta. Nada de especial, mas também nada esfarrapado. Peguei uma camiseta cinza escura, uma calça jeans preta, um All-Star ao qual eu me apeguei, e uma jaqueta de um azul profundo com duas faixas vermelhas no braço direito. Me olhei no espelho e suspirei. Como ela disse, nada de especial, pensei.

Dawn tinha escrito o endereço num pedaço de papel, mas como eu ainda não sabia ler direito, pedi que Harry me levasse até lá. O vento gélido fazia as minhas orelhas formigarem, enquanto eu encarava a entrada da casa de Dawn. Subi os três degraus da varanda, bati quatro vezes na porta e me encostei no batente.

– Desencosta – Harry gritava o mais baixo que podia. – Primeiras impressões são o que conta – eu desencostei e deixei as costas reta. Olhei de novo para Harry, e ele fez um sinal de okay com a mão. Logo em seguida ele foi embora.

Ouvi passos vindos em direção a porta, e deixei os ombros rígidos. A porta se abriu com um solavanco, e Dawn apareceu. Ela me olhou da cabeça aos pés, e franziu as sobrancelhas.

– Por que você ta parecendo uma estátua? – Ela perguntou.

– Harry disse que primeiras impressões são tudo, então quero fazer direito. Alias, o que é primeira impressão?

– Você não deveria ouvir tanto o que te dizem. E pra sua outra pergunta, depois te explico.

– Tudo bem – eu relaxei os ombros.

– Vem logo! Minha irmã ta te esperando! – ela agarrou o meu braço e me puxou para dentro.

Quando entrei na sala de estar, achei que Tessa estaria ali, mas ela não estava. Perguntei para Dawn onde ela estava, e ela respondeu que estava na cozinha. Dawn pediu o meu casaco para guardá-lo, e o entreguei depois dela pedir cinco vezes. Estava muito entretido com a decoração da casa para prestar atenção com qualquer coisa. Eu nunca havia vista uma casa tão bonita quanto aquela, mas não depreciando Victoria. Me sentei no sofá de cor caramelo, ainda olhando lâmpadas e algumas cômodas. Dawn avisou que iria avisar a irmã, e eu apenas assenti. Depois de ver tudo o que pude, fiquei olhando para os meus joelhos, e batendo as pontas dos dedos na coxa. Tive aquela sensação de que alguém tava vindo, e fiquei de pé. Vi a cabeça de alguém não muito mais alta que o sofá, ela deve ser uma pessoa muito baixinha, pensei. Me arrependi do meu pensamento na hora que vi Tessa. Seus cabelos eram castanhos torrados cheios e ondulados, seus olhos eram tão negros quanto a noite mais escura que eu já tinha visto, e por cima deles, pousava um óculos de armação preta com um formato quadrado, o nariz dela era fino e seus lábios não eram cheios em demasia. Ela vestia uma camiseta laranja clara, e uma saia marrom sobre as pernas. Mas o que tinha me pegado de surpresa era que Tessa estava sentada em uma cadeira de rodas. No hospital, sempre vi pessoas em cadeiras de rodas. Geralmente quem usava eram os idosos que já não tinha forçar para andar, ou que nunca mais poderiam andar. Tessa parecia ter apenas três anos a mais que eu.

– Então, você é o famoso Evan Rowe? – Tessa perguntou, enquanto a irmã empurrava a cadeira para frente.

– Acho que sou – respondi com um leve tremor na voz. – Me desculpe. Eu achei que você...

– Andasse? – ela completou – É, três anos atrás eu tinha algum uso pra minhas pernas – Tessa deu um tapinha sobre a saia. – Desculpa a minha curiosidade, mas é verdade eu você não se lembra de nada?

Eu assenti.

– Nossa! Isso sim deve ser legal! – ela exclamou.

Dawn deu um solavanco na cadeira para chamar a atenção da irmã, que a ignorou. Ela deu outra sacudida.

– Para de falar isso! Que tal eu bater na sua cabeça pra ver se você ainda acha legal? – Dawn ameaçou.

– Ta bom, ta bom, parei. Me leva um pouco mais pra frente – Tessa pediu.

Dawn avançou e Tessa bateu seus joelhos nos meus. Dawn recuou um pouco.

– Bem vindo ao setor dos brinquedos quebrados, Evan Rowe – Tessa saudou-me estendendo a mão.

– É bom estar aqui. Eu acho – eu apertei sua mão.