If You Say So
2 No Estilo Possessivo da Coisa.
Notas iniciais
No Estilo Possessivo da Coisa.
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Sam
Samantha havia passado quatro anos de sua vida se dedicando completamente a dieta vegetariana. Queria ser mais saudável e aproveitar a batida da música para salvar alguns pobres animais.
Sua mãe era uma boa mulher, “guerreira” como muitos dizem. Seu pai sumiu assim que soube a notícia da gravidez. Já que seu pedido de aborto fora ignorado. Sam cresceu com isso na cabeça, não com o caso em si, mas o porquê de seu “pai” ter fugido. Talvez por não ter condições, ou simplesmente por falta de responsabilidade. Ou talvez tinha algum sonho oprimido que uma criança não planejada atrapalharia. Perguntas que ela provavelmente nunca saberia a resposta.
Quando Charlie apareceu, tudo a sua volta de certa forma tomou novos traços. Uma presença masculina em seu mundinho não foi muito fácil de acostumar. A presença de um homem na sua casa, no começo à deixava meio sem jeito. Até mesmo desconfortável e insegura.
Ana colocava a culpa de toda a parte “dark” de sua vida nisso. Para os outros, era um trauma que o pai fugitivo causara, mas para ela apenas uma válvula de escape para fugir do mundo sem dar satisfações, apenas “me deixa quieta. Meu pai mandou minha mãe me abortar, tenho direito à tristeza e solidão.”
Ela começou com a auto punição quando tinha cerca de treze anos, e agora com dezessete era bastante difícil de controlar, mas quando sentia a necessidade de correr para o banheiro e vomitar, fazia de tudo para pensar nele, e lembrar à si mesma de que não estava sozinha, de que alguém precisava dela, de que o mundo não era uma linda flor, porém tinha um belo perfume.
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Os dois estavam frente a frente em um quarto escuro, com uma luz tremeluzindo do pequeno abajur no canto do quarto. O cheiro de lavanda do desinfetante estava deixando ambos um pouco enjoados, mas aquele quarto era o que dava para dois menores de idade com apenas cinquenta no bolso. Quarenta para o quarto, três para as camisinhas, e sete para a passagem de volta para casa.
–Está nervosa?
Ele perguntou tentando esconder o nervosismo em sua própria voz. Os dois estavam, porém nenhum queria admitir. O ar condicionado, provavelmente era o único equipamento do quarto que funcionava normalmente, e até mais que o necessário. O frio penetrava nas peles brancas, deixando-os arrepiados, e com os lábios vermelhos. Ela torcendo para o mundo desaparecer, e ele desejando que a gravidade parasse de funcionar e que o nervosismo não o atrapalhasse.
Os toques se iniciaram tímidos, calmos. Os dois ainda constrangidos com toda a situação, a nudez já não era problema, e sim o que fazer? Os corpos magros sob a luz bruxuleante de um quartinho de motel de quinta em um bairro de quinta. Os movimentos na cama de madeira, usada incontáveis vezes por outros casais, agora coberta com suas próprias roupas, pois nenhum dos dois estaria à vontade de ficar deitado nos restos de amor alheio, aumentavam de acordo com o tempo, os gemidos de leve foram aparecendo, o clima fora mudando.
Os dois estavam entrelaçados em seus casacos, usando suas mochilas como travesseiros. O cheiro de lavanda agora era reconfortante e delicado. O ar condicionado já não surtia tanto efeito. A pele ainda nua, porém não mais arrepiada.
–Você é minha.
Sam se virou delicadamente, quase tocando seus lábios nos dele.
–Sua? No estilo possessivo?
–Talvez. Você é minha como meu sangue pertence ao meu corpo. É minha como o sal pertence ao mar. Como a lua é do sol e vice versa. Como a caneta do poeta. Eu sou seu. Somos um do outro, corpo e alma. Preciso de você e quero você. Somos como o poeta e o lápis. Como o cantor e o microfone. Posso dizer que sim, é na forma possessiva.
Os dois eram conectados de alguma forma sobrenatural. Suas cicatrizes se entrelaçavam em um único tecido, um pano lindo, feito apenas de amor e dor. Companheiros eternos, guerreiros da paixão e da noite. Sentimentos diversos que se completavam, que se codificavam como um código único de amor. Um amor simples como a palha, mas ardente como o fogo. Eram os dois contra a brisa, os dois com a brisa. Eram à favor e contra. Juntos.
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Charlie
Morar com a avó, é um misto de responsabilidade e liberdade, como diz Charlie. Tudo tem que ser equilibradamente igual. Tudo precisa ser perfeitamente equalizado, para não despertar a mãe enrustida na miúda senhorinha caridosa que adora um tricô. (Apesar de sua vó odiar tricô, e ser bem mais “jovem” que ele mesmo.)
Charlie tinha consultas com o psicólogo toda quarta-feira. Era necessário. Depois que seus pais morreram, ele diz a si mesmo que adquiriu um complexo pós morte de pais. Onde a “criança” tenta não acreditar que aquilo aconteceu, e foge desse fato pra sempre. Essa “criança” passa a ignorar perguntas relacionadas aos pais, apaga todas as fotos, e finge que é um dinossauro e nasceu de um ovo.
Porém como todo bom complexado. Ele tem suas crises. Já chegou a quebrar a própria teve de quarenta e duas polegadas uma vez. Mas na maior parte do tempo ele não passava de um adolescente com os hormônios à flor da pele, que gasta a maior parte de seu tempo na internet buscando por sites, que preferimos não comentar aqui. Sites esse que vocês sabem muito bem.
Sam nunca fora um assunto de almoço de domingo com sua vó. Ela talvez nem soubesse de sua existência. Até certo domingo, quando Charlie sentou-se à mesa, pôs um pouco de arroz em seu prato e disse.
–Vó, eu tenho uma namorada. E já que mantemos relações sexuais, acho que poderia traze-la aqui. O que a senhora acha?
Qualquer outra vó do mundo ficaria abismada com esse comentário, porém a vó de Charlie era diferente. A senhorinha miúda, com cheiro de talco e flores, soltou uma breve risada e sentou-se à mesa. E começou a falar com sua voz suave de vó.
–Bem filho, eu acho que você deveria segurar esse pinto dentro dessa cueca pra não arrumar filho cedo demais. Fralda tá cara demais. E você ainda tem cheiro de mijo. Mas como diz que já mantém relações, melhor aqui, pelo menos posso por anticoncepcionais no suco dessa menina.
Charlie sabia que tinha a melhor vó/mãe do mundo. Não sabia, e nem pensava em como seria sua vida sem sua vó. Ela era simplesmente feita para ele. Era dele. E sim. De forma possessiva.
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