If I Were A Boy
4 End of time
Notas iniciais
Não. Não fizemos nada. Eu até pensei que ele me levaria pra um dos quartos e tentei desvencilhar minha mão da dele, mas ele segurava muito forte. Acho que o Logan adivinhou o que eu pensava, então nem chegou perto da escada. Agradeci a ele mentalmente. Aquela não era eu. Durante a minha transição de adolescente pra mulher eu estava comprometida. Não sabia como agir, o que fazer… Em minha relação com o Cameron sempre tivemos intimidade. Mesmo no começo. Então as coisas eram mais fáceis.
Logan parou na frente de casa. Vi uma luz sendo acesa. No meu quarto ainda.
– Acho que entraram em casa. — Saí quase desesperada do carro e minhas mãos tremiam enquanto eu procurava a chave. Pior ainda foi pra acertar o buraco da fechadura. Logan fez isso por mim e entrou primeiro. Fui atrás dele, com medo. Quando abri a porta do meu quarto, senti alívio assim que a vi deitada na minha cama vendo TV. — Por que você nunca avisa quando vem? — Perguntei. Minha mãe olhou sorridente pra mim e se levantou.
– Senti tanta saudade, meu amor! — Ela disse me abraçando. — E quem é seu amigo? Ou novo namorado? — Ri baixo.
– Mãe, esse é o Logan. Logan, essa é Olivia, minha mãe.
– Prazer. — Ele disse sorrindo e vi minha mãe ficar encantada. Que mulher não ficaria?
– E não. Ele não é meu namorado.
– Ainda tá com o Cameron? Ou pior! Não me diga que você é gay. — Ela perguntou pro Logan.
– Mãe, Logan não é gay e eu terminei com o Cameron ontem. — Olhei pra ele, que pareceu entendeu.
– Hm… Foi um prazer, dona Olivia. — Minha mãe revirou os olhos. — Só Olivia?
– Sim, querido. — Ele fingiu ser cavalheiro e beijou a mão dela. Ri. Fui até a porta de casa com ele.
– Sua mãe me achou bonito. — Revirei o olhos. — E você também.
– Que seja… — Me inclinei pra beijá-lo. Mesmo depois do beijo, Logan não me soltou.
– Você tá bem? — Fiz que sim com a cabeça. — Veja pelo lado positivo. Você não tá bêbada nem armou um barraco. — Revirei os olhos. Ele inclinou a cabeça pra frente e me deu um selinho. — Tchau, Meg. — Acenei e entrei em casa.
– Uau. — Ouvi a voz da minha mãe vindo do corredor. — Agora me conta. Como aquela praga saiu da sua vida? — Suspirei, sentando no sofá.
– Ele ma traiu com a Tracy. Mãe, eu… Como a senhora faz pra não se prender em alguém? — Ela deitou no sofá, com a cabeça no meu colo.
– Eu só… Não sei. Não achei alguém a quem me prender. E você devia tentar isso daqui pra frente. — Assenti. Ela abriu um sorrisinho malicioso. — Ele beija bem?
– Mãe… — Ela riu. — Ele beija muito bem!
– Ele é uma graça.
– É… Cafajeste, também.
– Continua sendo lindo. — Ela bateu na minha perna. — Sortuda! — Ri.
(…)
Cheguei no meu escritório e já tinha um paciente me esperando. Olhei no relógio. Faltavam meia hora pra consulta.
– Bom dia, senhor Carter. — Falei enquanto abria minha sala. — Chegou cedo hoje.
– Eu to sendo inconveniente, né, Megan? — Olha, na verdade, tá sendo sim.– Me perdoa! — Ele começou a choramingar.
– Não tem porque pedir desculpas. O que aconteceu?
– Minha mulher me largou! — Aí que ele começou a chorar mais ainda. O senhor Carter era a pessoa mais depressiva que eu já tinha visto! Será que se eu começasse a dançar em cima da mesa ele se animaria, como o Logan tinha dito? Ri do meu pensamento. — Até você rindo de mim, Megan? Eu sou tão inútil, tão sem graça… Ninguém quer ficar perto de mim. — Arregalei os olhos.
– Claro que não, senhor Carter! Olha… O que o senhor acha de mim?
– Como assim? Bom… Você é bonita. E simpática também. Tudo ao contrário de mim.
– E se eu dissesse que meu namorado me traiu esse fim de semana?
– Você tá mentindo.
– Juro que não to. Isso é uma coisa normal da vida, senhor Carter. Pessoas chegam e vão, são legais e são filhas da puta depois. — Pelo menos o Cameron me serviu pra alguma coisa. O cara parou de chorar.
– Mas…
– Isso acontece com todo mundo. Não tente achar o erro no senhor.
– Eu a amo.
– Sei que é difícil. — Ele ficou falando e falando por mais de meia hora. Eu, como psicóloga, falei que ele devia ver o melhor nele. Eu já tava cansada do monólogo. — Senhor, Carter, que tal algo diferente hoje?
– Diferente? — Ele abriu um sorriso um tanto… Estranho. Sabia que ele era louco pra me pegar.
– Quem dança os males espanta.
– Na verdade, é “quem canta”.
– Também serve. — Levantei e fui até meu computador. Coloquei um vídeo live da Beyoncé no YouTube. Ele tinha jeito de gay mesmo. Duvido que não gostasse. Peguei na mão dele. End of time começou a tocar. Comecei a remexer os quadris e estava segurando em suas mãos pra que ele fizesse o mesmo. E não é que funcionou? Baixou a pomba gira no cara e em questões de segundos ele já estava dançando melhor que eu. E ele já estava virando praticamente meu amigo gay.
– Take you awaaay from heeeeere. There’s nothing between us but spaaace and tiiiiiiiiiiime… — Cantamos juntos. Minha Nossa Senhora dos Pisicólogos. Olha onde eu fui me enfiar.
– Boy come to meeee. — Cantei.
– Cooooooome to meee. — Ele fez a segunda voz.
– Let me turn your rain into suuuun… — Cantamos juntos. Até que tava divertido. Pelo menos fiz o cara gargalhar. E acho que se assumir também, mas não precisamos entrar em detalhes. Quando o show acabou, estávamos mortos no sofá. Eu sabia a coreografia inteira. E ele sabia algumas partes. Quando percebi, fiquei chocada! Se ele não saísse do armário, eu desistiria da vida.
O senhor Carter saiu de lá sorrindo, pelo menos. E marcou a outra consulta só pra duas semanas depois, e não semana que vem, como de costume.
– Se livrou da semana que vem, hein. — O garoto que ficava na recepção falou. Ri baixo.
– Algumas pessoas acham que os problemas delas são catastróficos. E na verdade são normais.
– E o que foi aquilo que eu ouvi?
– Profissional, Connor. — Ele riu baixo. — Daqui a quanto tempo chega o próximo?
– Dez minutos.
– Vou comprar um café. Quer? — Ele fez que não com a cabeça e eu fui até a cafeteria que tinha ali perto.
(…)
Logan não me ligou hoje. Nem mandou uma mensagem. Tudo bem que ele deixou claro que não queria algo sério. Mas só nos beijamos e ele já cansou de mim.
– Você tá muito na fossa. Por isso, eu fui uma boa pessoa e passei no mercado. — Minha mãe apareceu com as coisas do fondue mais os morango cortados. — E claro, vamos passar a noite toda vendo a maratona de America’s Next Top Model.
– A Joanna é uma vaca.
– Aquela mulher é o próprio Judas! — Peguei fondue. — Tá assim pelo Cameron ou porque aquele deus grego não ligou ainda?
– Sei lá. To tentando não pensar. Mãe, e se eu deixasse rolar? Sabe… Daquele jeito…
– Qual o seu problema em falar “sexo”?
– Tá. E se eu transasse com ele? — Ela revirou os olhos.
– Ué. Normal. — Dessa vez quem revirou os olhos foi eu. — Eu sei que você só teve aquele traste do Cameron. Mas, que eu saiba, é do mesmo jeito com qualquer pessoa. — Ri baixo.
– Nunca vi transa casual como algo que eu faria.
– É algo normal. É por ser mulher?
– Não sou machista.
– Mas o mundo é. — Suspirei derrotada. — Temos tanto direito a um orgasmo quanto eles. Como você consegue pensar nisso quando tem um cara lindo querendo você?
– É diferente.
– Em que, Megan? — Dei de ombros.
– Vamos ver se ele me liga de novo. Se ele não ligar, eu ligo?
– Espera até o fim de semana. Se ele não der sinal de vida, convida pra sair.
– Seria uma boa. — Ficamos em silêncio por um tempo. — E se voltássemos o filme? Justin Timberlake é gostoso pra cacete. Merece ser apreciado durante todo o filme. Não podemos perder uma parte. — E assim foi o resto da noite. Até que foi divertido.
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