If I Die Tomorrow
4 Você faz eu me sentir como o pôr-do-Sol
Confesso que fiquei com muita raiva da Renata. Ela realmente não quer minha ajuda e isso vai mata-la de jeito ou de outro.
Sentei numa cadeira de rodas e me conduziram até o seu quarto. Me disseram que não demoraria muito para o efeito de alguns remédios passar e que ela estaria um pouco grogue.
_ Oi Thamires. – Ela sorriu. – Já estou com o seu rim dentro de mim?
_ Renata, seu corpo rejeitou o rim. – Ela me olhou séria e depois começou a rir. – Do que você está rindo?
_ Eu não sei, acho que estou em choque. – Mais risos. – Meu corpo não gostou do seu rim.
_ Isso pode ser engraçado pra você, mas nós estamos perdendo nossa viagem, tem um cara atrás de mim o tempo todo e você terá de ficar no hospital. Te colocaram na lista de transplante, mas adivinha? Você não é prioridade. E agora, definitivamente, você precisa de atenção 24 horas por dia. Um tipo de atenção que eu não tenho permissão de te dar porque todos acham que nós somos uma família.
_ Não precisa ficar nervosa comigo. Quer ir embora? Pois bem, vá. Bete e Chris me farão companhia.
_ Você voltou a ver a Bete?
_ Sim, ela esteve comigo na cirurgia. Coisa que você não fez. Disse que estaria comigo o tempo todo e não estava lá quando eles me colocaram sobre uma mesa e me abriram.
_ Eu não estava lá porque eu também estava salvando a sua vida!
_ Eu já disse que não quero essa dívida pra mim! E mesmo assim, você não perde a oportunidade de jogar na minha cara que não tem vida social por causa de mim! Admita que eu sou um problema e saia do meu quarto. Vá curtir sua viagem.
Sai do quarto e vi o deus grego conversando e rindo falando no telefone. Passei por ele, tentando passar com a cadeira de rodas em cima do seu pé, mas não consegui porque eu não consigo mexer direito com essa coisa. Acabei derrubando algumas coisas, o que chamou a atenção de alguns médicos que me ajudaram a ir até o meu quarto.
_ Então, já decidiu que dia você vai sair daqui? Você está instável, não vai demorar muito. – Disse o deus grego, entrando no quarto.
_ Mark, coloca na sua cabeça que eu não vou deixa-la sozinha. Nem agora e nem daqui a dois anos. Ela rejeitou meu rim, ótimo, vou continuar com ela até que arrumem outro doador.
_ Você não precisa fazer isso. – Ele me ajudou a deitar na cama. – Você sabe. Nós conhecemos ótimas clínicas em que podemos interna-la. Você pode terminar sua viagem e deixa-la com a gente. Temos horários de visita todos os dias.
_ Imagino que o seu cérebro seja do tamanho de uma ameba, porque até agora você não entendeu que não tem a menor chance de eu deixa-la pra trás.
_ Eu pessoalmente terei um cuidado especial com ela, te garanto.
_ Você não vai conseguir me convencer.
_ O meu dever é te orientar a fazer a coisa certa.
_ Não, o seu dever é me dar opções. Eu escolho uma e você apenas balança a cabeça em concordância. Só saio daqui se for com ela, acostume-se com isso. Agora sai do meu quarto que eu quero dormir.
_ Tudo bem, mas amanhã você terá de sair do hospital.
_ Por quê? Eu acabei de fazer uma cirurgia, estou incapacitada.
_ Só podemos te manter aqui se algo realmente grave acontecer. Na próxima vez que entrar neste hospital, será como acompanhante e não como paciente.
Que filho da puta, pensei. Passaram-se quatro dias da nossa viagem e nós estamos presas no hospital. Fiquei imaginando como nós conseguiríamos pegar um avião pra Londres se ela mal consegue levantar da cama. Não tem a menor chance de nós continuarmos essa viagem se ela não fizer o transplante e não há ninguém para doar o órgão.
Quando consegui ficar de pé e finalmente andar, pude dar algumas voltas na cafeteria. Conversei com algumas pessoas, sim, foi inevitável. E de novo eu estava fazendo amizades no hospital, mas é impossível controlar o tédio. O lado bom disso é que, com alguns amigos médicos, consegui mais uma noite atoa no hospital. Meu quarto garantido ao lado do quarto dela e um pouco de atenção extra.
Voltei para o meu quarto, com passos pequenos. Tendo que subir dois andares de elevador. Alguns enfermeiros e internos ajudaram-me um pouco até chegar a meu andar.
_ Vamos passar no quarto da Renata? – Perguntou o enfermeiro Dênis.
_ Não, eu passei lá antes de descer. Ela me disse que tentaria dormir. – Continuamos em direção ao meu quarto, com passos cada vez menores, até que ouvimos um alarme. – O que isso quer dizer? Fogo?
_ Não, não. Senta aqui. – Dênis me colocou numa cadeira de rodas e saiu correndo segurando um carrinho com algumas máquinas.
_ Dênis? O que houve? O que... Ah! Ninguém me conta nada nesse hospital. – Levantei-me cuidadosamente e fui andando até o meu quarto. Eu não tinha nenhum problema pra andar, mas meus amigos internos concordaram que seria bom se eu encenasse uma tentativa de ficar em pé.
Deitei em minha cama e adormeci esperando por alguma notícia.
Quando acordei, percebi que os médicos estavam agitados. Mark, Dênis e mais um pessoal entraram no meu quarto para me dar as notícias.
_ Renata sofreu uma parada cardíaca. – E quando ele disse isso, eu estava prestes a ter um ataque cardíaco de tão forte que o meu coração bateu. – Nós conseguimos trazê-la de volta, mas precisamos fazer o transplante o mais rápido possível. O corpo dela não está mais suportando a ausência e quanto mais demorarmos, mais tempo durará a recuperação.
_ Tem alguma notícia boa? – Perguntei, olhando pra Dênis que, até então, não abriu a boca.
_ Alguns enfermeiros e alguns internos resolveram fazer o teste para ver se são compatíveis. Nós não devíamos fazer isso e provavelmente vamos sofrer muitas consequências, mas o Doutor Mark falou com o nosso chefe da cirurgia e ele permitiu que um de nós doasse pra ela. Mais tarde sairá o resultado.
Os quatro saíram do quarto sem dizer mais nada. Deus grego me olhou como se me condenasse, particularmente isso me incomodou. Eu não pedi para ninguém fazer nada pela gente. Que ótimo que fizeram, mas eu nunca seria capaz de pedir uma coisa dessas.
Horas depois me apresentaram quem seria o doador. Jordan. Um residente do terceiro ano. Olhei-o de cima a baixo, tentando imaginar se ele seria um marginal ou viciado em drogas. Não conseguia vê-lo fazendo nenhuma dessas coisas. Ele parecia aquele tipo de cara que aparece em casa depois de um longo dia de trabalho, beija a sua mulher e vai falar com seu filho de três anos. Pra surpresa do filho, ele aparece com um filhotinho de labrador em mãos. Os três ficam felizes e se divertem com o cachorrinho. Ser feliz, me divertir, ter uma família. Coisa que eu não posso me dar o luxo de fazer.
Comecei a reparar em sua aparência. Bonito, muito bonito. Não tão bonito como o deus grego, mas imagino que meros mortais não conseguem ser tão bonitos quanto o Mark. Seus olhos brilham e isso me conforta. Até parece que ele está doando um rim pra uma estranha por livre espontânea vontade. Olhei em sua mão e procurei alguma aliança, mas ela estava vazia. Ok Jordan, já podemos nos casar.
Nós trocamos algumas palavras e ele me fez rir algumas vezes. Na verdade, não queria fazer amizade com ele já que está mais do que na cara que, em partes, eu estou pressionando-o a fazer algo que ele não quer, mas me desesperava saber que Renata está desacordada a mais de duas horas.
Isso também desesperou Dênis. Ele revezava o meu quarto com o dela. Trazendo notícias cada vez que ela respirava ou movia um dedo. É Dênis, eu sei que ela está respirando, até porque ela não está em coma.
_ Eu estarei na cirurgia. Cuidarei dela pra você.
_ Eu sei que sim. – Sorri pra ele, que estava a ponto de ter um colapso nervoso. – Não precisa ficar tão nervoso assim.
_ Se eu contar algo, você promete não contar a ninguém?
_ Prometo. – Olhei-a desconfiada. Fazia tempo que alguém não me confiava um segredo.
_ Eu já conhecia a Renata. Nós fizemos teatro juntos por três anos e sempre ficávamos no mesmo grupo. Eu era considerado o mais criativo e ela quase nunca falava, mas no palco ela se transformava em outra pessoa. Ela agia como se as coisas realmente estivessem acontecendo. Lembro que chamei ela pra sair umas quinhentas vezes, mas ela sempre estava ocupada demais saindo com uma tal de Bete que eu achei que elas fossem namoradas e parei de tentar. Eu não esperava encontrar ela assim, provavelmente ela nem lembra da minha existência. Não que eu ainda seja apaixonado por ela, eu não sou. Mas doí ver uma amiga nossa nesse estado, precisando urgente de alguém para continuar a viver.
_ É você nem imagina. – Revirei os olhos. Ele foi até o outro lado e abriu a persiana para que eu pudesse vê-la sendo levada para a cirurgia.
_ Dessa vez vai dar certo. – Ele disse, segurando minha mão. – Nós vamos fazer o possível, vai dar certo. Vocês terminarão a sua viagem.
_ Minha viagem agora tem sido de hospital para hospital. Vou acabar morando aqui.
_ Não diga isso. A recuperação vai ser mais fácil do que você imagina, eu te garanto. E no final vocês só terão que se preocupar com que roupa vestir para fazer compras.
_ Você é meio gay, né guri?
_ Tenho quatro irmãs, sei bem como é isso.
_ Ah, isso não é desculpa pra sua sexualidade.
Dênis se despediu e disse que nos víamos depois da cirurgia. E senti realmente descansada. A única coisa que preciso fazer é ficar deitada, dormindo, fazendo absolutamente nada. Me preocupava o fato de que a Renata não tivesse a mesma mordomia que eu, mas era um alívio, depois de tanto tempo sem dormir, a única coisa que tenho para fazer é isso.
Fiquei fazendo contas mentalmente, pensando em como eu ajeitaria a recuperação dela no meio da viagem. Não que a viagem fosse extremamente necessária, mas se ela quiser continuar, terei que me programar direitinho para isso. Não deve demorar muito, né? Quer dizer, vamos contratar um médico para ficar com ela 24 horas por dia, então ela terá dois médicos particulares em cada lugar que ela for. É, não vai demorar muito para ela estar curada. E depois, partiremos para a cura das alucinações. Depois que ela ficou algum tempo sem receber visitas indesejáveis de Bete, comecei a ter a esperança de que isso poderia desaparecer.
Fiquei pensando no que eu faria pra Jordan. É meio difícil aceitar que um estranho está doando um rim para a minha amiga sem mais nem menos. Ok é uma coisa bonita, mas eu nunca tive nenhum tipo de contato com ele antes disso tudo acontecer. Eu teria que recompensá-lo de alguma maneira, mesmo que ele não queira. Talvez eu pudesse pagar, mas alguém ai sabe se compra de órgãos é ilegal? Ou então poderia fazer um bolo de chocolate. Nada é tão caro que um bolo de chocolate não pague. Palavras sábias da vovó.
De repente, me peguei rindo sozinha. Todos esses pensamentos retardados estavam me confundindo. E ideia de ter uma vida normal com a Rê. Quem sabe um dia eu e o deus grego não saímos num encontro duplo com ela e Dênis. Ou ela e Jordan. Seria perfeito, principalmente a parte em que eu e deus grego nos casamos.
Sonhei com isso. Eu tendo uma vida de casada com o Mark e Rê tendo uma vida de casada com o Dênis. Dênis era o tipo de cara perfeito, na verdade, Dênis, Mark e Jordan eram o tipo de cara perfeito. Mas doía cada vez que um deles fazia a Rê rir. Esse é o meu dever. Cuidar dela é o meu dever. Fazê-la rir é o meu dever. Cobri-la de noite e segurar a sua mão é o meu dever. Definitivamente, esse relacionamento dela com o Jordan ou com o Dênis não daria certo, porque nenhum deles seria capaz de fazê-la tão feliz quanto eu faço.
Levantei mentalmente a hipótese de que talvez eu estivesse me apaixonando por ela.
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