If I Die Tomorrow
2 Onde eu errei?
_ AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – Acordei de madrugada com mais um grito da Rê. Entrei no quarto dela e ela estava do mesmo jeito que dos últimos três dias. Sentada no chão, com a cabeça entre os joelhos e as mãos tampando os ouvidos.
Sentei ao seu lado e abracei-a, até ela se sentir segura o suficiente para parar. Ela me explicou algo sobre alguns pesadelos da Bete tentando mata-la.
_ Amanhã nós vamos viajar e tudo ficará bem de novo, você vai ver.
_ Mas e a Bete?
_ Nós podemos prendê-la numa caixa. Ela fica lá dentro, sem conseguir sair. O que você acha?
_ Ela vai ficar irritada.
_ Só se ela conseguir sair da caixa, o que não vai ser o caso. – Às vezes eu tenho que tratar a Rê como criança. Não a culpo por isso, nem imagino como deve ser pra ela. Mas esses monstros, esses fantasmas, esses “amigos” dela parecem coisa boba, medos de criança. Muitas vezes, tive pesadelos de como seria essa Bete e esses outros fantasmas, mas nada comparado com o que ela diz. Eu acredito, depois de anos de pesquisa, que ela realmente os veja, e em casos críticos, que ela possa senti-los. Não imagino o quão desconfortável isso deve ser.
Essa noite, dormi ao lado de Rê. Talvez assim ela se sentisse segura.
No dia seguinte, pegamos um avião até Seattle. Não demorou muito até chegarmos ao lugar que eu sempre sonhei visitar. Nada de especial nele, eu apenas tenho um amor platônico por tudo isso.
Fomos até uma praça, estava nevando. Nunca vi a Rê tão feliz quanto estava agora. Eu sabia que ela amava neve, esse foi um dos motivos dela ter me arrastado pro Canadá. Acho que toda essa euforia acabou cansando-a mais do que o esperado. Deixe-a brincando na neve enquanto fui me esquentar em algum lugar mais fechado.
_ Posso pagar uma bebida para menina mais linda do bar? – Olhei pra cima e meus olhos se encontraram com alguém razoavelmente alto, com cabelos castanhos, olhos verdes e um sorriso perfeito. Ele não estava falando comigo, mas sua voz chamou minha atenção de um jeito que seria inevitável não olhar.
Babaca, pensei. Deve ter todas as meninas na cola dele sempre que ele estalasse os dedos.
_ ALGUÉM, POR FAVOR, ME AJUDE. – Ouvi alguns gritos vindos de fora. Não era a Renata, mas vinha do lugar onde eu deixei-a.
Sai correndo e encontrei uma senhora na frente de um buraco. Procurei por Rê desesperadamente, mas nenhum sinal dela.
_ Eu estava passando e uma menina havia cavado dois buracos. Disse que se enterraria em um e no outro uma tal de Bete se enterraria. Ela entrou no buraco, mas ficou fundo demais para que ela pudesse sair. – Olhei pra dentro do buraco e vi Rê sentada com a cabeça no joelho e as mãos no ouvido.
_ RÊ, OLHA PRA MIM RÊ. – Gritei, mas ela me ignorou. – Eu vou entrar lá dentro.
_ Melhor não. – Disse aquele deus grego que estava no bar. Ele segurou o meu braço para que eu não pulasse. – É perigoso demais, você não vai conseguir. Chamem os bombeiros e os paramédicos.
_ NÃO, NÃO CHAME NINGUÉM COM A SIRENE. – Todos começaram a gritar e comentar. Ninguém entendia o motivo. Olhei pra Rê e vi que ela estava tremendo. – GENTE, POR FAVOR, FAÇAM SILÊNCIO. – Depois de gritar três vezes e do deus grego me ajudar, todos ficaram quietos. Comecei a sussurrar. – Escute o que nós vamos fazer: Chame uma equipe de resgate, mas peça para que não liguem a sirene. Quanto mais barulho, mais perturbada ela fica. Eu vou descer e vou ajuda-la. Quando o resgate chegar, eles vão nos tirar lá e ninguém precisará ir ao hospital, ok? Ótimo, deus grego, me ajuda aqui. – Ele me olhou confuso, o que me fez perder a paciência. – É, você mesmo, moreno, alto, bonito e sensual. Seja a solução dos meus problemas e me ajuda a descer.
Ele segurou os meus braços enquanto eu procurava um lugar que não fosse tão escorregadio para por o pé. Quando cheguei lá embaixo, sentei ao lado da Rê e sussurrei algumas coisas pra ela, tirei um cobertor da bolsa para cobri-la e abracei-a. Depois de uns quinze minutos, ela finalmente levantou a cabeça. Alguns curiosos (e o deus grego) suspiraram aliviados e finalmente saímos de lá.
_ Senhora, poderia me acompanhar até o hospital?
_ Não, nós estamos bem, ela não se machucou.
_ Tudo bem, mas é só pra ter certeza.
_ Moço, nós não nos machucamos. – Estava segurando a Rê na minha frente, como se fosse um abraço, tentando sair do meio daquela gente.
_ Eu sei minha senhora, mas é que...
_ ESCUTA AQUI... – Larguei da Rê e fui pra frente do médico. Começamos a discutir e eu explicava pra ele os mil motivos inventados do por que nós não entraríamos na ambulância.
_ Gente, o pulso dela está abaixando. – Disse o deus grego, mas eu estava ocupada demais pra ouvir. – Gente, a pressão dela está... GENTE! – Rê agora estava no colo do deus grego, desmaiada e totalmente vulnerável.
_ O QUE VOCÊ FEZ COM ELA? – Disse, indo em direção ao deus grego, tentando pegar a Rê no colo.
_ Eu não fiz nada. Eu tentei avisar, mas vocês estavam gritando. Não se preocupe, eu sou médico. Vamos na ambulância.
_ SOLTA ELA!
Conclusão: Eu, o deus grego, a Rê e o moço teimoso que queria me levar pro hospital fomos na ambulância.
Chegando lá, ela foi colocada numa maca e levada para fazer alguns testes. A principio o deus grego foi junto, mas depois ele me encontrou na sala de espera e tentou puxar assunto.
_ Você não precisa me odiar, eu só queria ajudar.
_ Eu não vou falar com você. – Continuei sem olhá-lo.
_ Por tentar ajudar? Eu sou médico, sabia?
_ Eu também sou médica, sabia? – Virei pra ele, olhando-o nos olhos. – E aquela ali é minha paciente desde que éramos adolescentes. Eu a conheço desde os sete anos. Então não, eu não gosto de você e você não tinha o menor direito de pegá-la no colo.
_ Teria a deixado cair no chão e bater com a cabeça, ter uma convulsão seguida de um ataque cardíaco e demorar tanto pra chegar ao hospital que ela perca completamente o pulso?
_ Você é ridículo. – Revirei os olhos.
_ Pode até ser, mas salvei a vida da sua paciente e ainda te fiz rir.
_ Cala a boca, vai.
Ficamos mais um tempo ali até que o médico finalmente apareceu. Fomos até o quarto em que ela estava e eu não parava de me perguntar o que o deus grego fazia aqui.
_ Hm... Então o nome da paciente é Renata. Prazer Renata, eu sou o Mark. – Disse ele, lendo o prontuário.
_ Dá pra você soltar isso? – Peguei da mão dele e encarei-o de cara feia. – Você não é “o Mark” você é o deus grego que todas as mulheres querem casar. Que vai à boate e tem todas que quiser. Eu posso te apontar uma enfermeira que você não demora nem cinco minutos para leva-la pra sair, se é que não já levou.
_ Você é irritada assim sempre?
_ Só quando estou na defensiva, Mark. – Falei ironicamente e ele percebeu, porque até então ele estava com um sorriso perfeito nos lábios, estilo comercial da Colgate, mas logo fechou a cara.
_ Quer que eu vá embora? Eu vou. Mas pra quem tem... – Ele abaixou a voz para que Renata não ouvisse. – Alucinações... É preciso de médico 24 horas por dia, e você não pode ser porque aqui consta que você é da família.
_ Ai consta que eu sou da família? Colocaram-me com que grau de parentesco? – Olhei o prontuário esperando ver a palavra “esposa”, mas não achei nada. – Larga de ser mentiroso.
_ Agora admite que precisa de um médico. Eu posso ser esse médico.
_ Mano, não vou admitir nada. Sabe por quê? Porque eu acabei de te conhecer e eu não vou deixa-la nas mãos de um maluco. Inclusive, nós estamos de férias, estamos viajando, e não queremos levar uma mala a mais com a gente. Então, definitivamente não. Você não será o médico dela.
_ Thamires? – Sussurrou.
_ Rê! Você acordou. – Pulei para o lado dela da cama e segurei sua mão. – Como você está?
_ Senhora Flerch, poderia nos acompanhar?
Eu e Mark saímos da sala. Estou ficando extremamente irritada com esse cara que está perseguindo a gente. Vou denunciá-lo por perseguição e possível sequestro. Sério.
_ A paciente precisará ser transferida pra outro hospital.
_ Por quê? O que tem de errado? Ok, ela tem algumas alucinações às vezes, mas nada tão sério assim. Deram alta pra gente viajar e só estamos aqui faz um dia, qual é!
_ Thamires, acho que não é isso que ele quis dizer. – Disse Mark.
_ Renata precisará de um transplante de rim e esse hospital não está qualificado para o serviço.
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