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1 Silêncio


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01 – Silêncio

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—Bem, Milo. Estes são os pesquisadores brasileiros que ficarão em casa e a filha deles.

Se houve algo que o loiro ficou encasquetado era com aquela família. Fazia algum tempo que seus pais abriam as portas de casa para estrangeiros e assim conseguirem renda extra. Os tempos de fartura na pesca estavam escassos e seu pai já não tinha a mesma força. Para ficar com eles e cuidar de sua família que desistira de suas ambições.

Os estrangeiros tinham cabelos castanhos, com exceção da mulher de olhos amendoados, cujo o cabelo era negro como asas de corvos. Seu pai disse-lhes que o homem era Leandro, a mestiça oriental se chamava Lia e a filha deles, Hana. Encarou a menina.

Hana olhava o nada misterioso no chão, tinha uma expressão sem vida, cabelos nos ombros e ridiculamente lisos. Parecia magrela demais até para seu gosto.

“Nem parece uma brasileira” – pensou consigo.

—Milo poderia olhar a menina Hana, não? – disse o pai com um largo sorriso. – Ela não pode acompanhar o tempo todo os pais no ofício e ela não conseguiria se virar.

—Ei, por que eu?! – resmungou o grego.

—A menina não fala, é muda.

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—Tá de brincadeira, né?

Milo ignorou a mulher atrás de si, que cobria o corpo com o lençol. Estava se vestindo, enquanto a ouvia rir, incrédula. Frequentemente ia a casa da mulher para “estudar anatomia” quando lhe convia.

—Milo Scorpio virou babá de uma adolescente estrangeira.

—Se eu disser que no país dela ela já é adulta, você acredita? Nem eu! – riu o loiro. – Tem cara de pirralha e é muda!

Milo terminou de se vestir e saiu, só acenando para a mulher.

—São sempre esse tipo de homem que fica de quatro por garotas sem sal. – riu a mulher após ele sair, como que comentasse consigo. – Tô vendo que perdi minha distração predileta.

O grego saiu do apartamento e a chuva caía torrencialmente. Praguejou estar ficando encharcado e nem viu que passou pela garota estrangeira que devia estar cuidando. Só foi notar que era seguido no cais do porto, ao olhar para trás.

A chuva havia se transformado em garoinha fina aquela altura. Mas estavam ambos encharcados.

“Ah, merda, esqueci dela!”

Os olhos castanhos de Hana não tinham brilho, ela não esboçava nenhuma reação, raiva, empolgação... Parecia que ela só estava ali e mais nada, uma zumbi.

—Ei, cê não vai dedar para ninguém, né?

Milo se sentiu idiota. Como ela poderia fofocar algo se sequer ela falava?!

—Tô dependendo da grana que meu pai vai repartir comigo. – isso era verdade, pretendia comprar peças novas que seu pai tanto recusava em comprar para o barco de pesca da família.

A brasileira não esboçou nenhuma reação.

—Vem, antes de ir para casa a gente passa num café. – e o loiro saiu na frente, sendo prontamente seguido pela garota.

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Aquele novo dia no cais estava bem ensolarado. Milo tentava em vão consertar o motor da embarcação que enguiçara no final da manhã. Não achava onde estava o defeito ou que peça precisava mexer.

Se sentou furioso no assoalho da nau, prendendo os cabelos cacheados e ao olhar para trás viu um morador indesejado daquelas ilhas, um escorpião. Olhou o bicho de forma firme o aracnídeo saiu da embarcação, como se tivesse medo do rapaz.

—Droga, agora até eles vem encher!

Estava resmungando tanto que não reparou em Hana, com vestido leve, calça pescador e sapatilha, parada logo atrás o observando. Só a notou quando ela se moveu e se abaixou em frente ao alçapão aberto do motor, parecendo olhar o maquinário com toda a calma do mundo.

—Sem chance de conserto essa droga...

A brasileira estendeu a mão, pedindo a ferramenta que o grego tinha em mãos.

—Quer brincar de mecânico? Isso aí não tem como arrumar, mas se quer... – e lhe entregou o objeto.

Tão logo recebeu, começou a mexer. Tinha concentração total e absoluta, deixando Milo curioso com o que aquela garota poderia fazer. Por fim devolveu a ferramenta e pela primeira vez o rapaz escutou um som além das aves marinhas e do mar ao mover-se:

—Liga...

Milo ficou surpreso em ouvir o tom baixo e rouco da menina. Tanto que não “obedeceu” a principio.

—Quê...? – murmurou consigo em seu próprio idioma, recuperando-se do susto e falando em inglês. – Você... você não é muda?

—As palavras que usaram foi “ela não fala” e não “muda”... – respondeu em voz fraca. Era claro que ela não falava por algum motivo. – Ligue o motor...

A viu se retirar da embarcação e deixa-lo sozinho. Demorou bastante tempo, mas se recuperou do choque de ouvir o som frágil da voz daquela menina e ligou o motor. O maquinário funcionou como se nunca tivesse tido aquele contratempo. Os olhos azuis de Milo olharam a silhueta de Hana, já em terra firme, olhando o movimento da avenida que tocava a região próxima.

—Afinal, por que você não fala nada...?