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13 Só um tempo
Notas iniciais
Sonhei que estava no pé de uma montanha, estradas estreitas serpenteavam pela floresta com enormes árvores colina acima. Bem acima, no pico do monte nuvens rodopiavam como se estivessem sendo sugadas pela montanha. Abaixo um penhasco dava direto para o mar. Havia um intenso nevoeiro ao meu redor, dei alguns passos a frente e me perdi em meio à névoa andando sem direção até que a névoa se dissipou um pouco e eu puder ver onde estava. Eu ainda estava na base, apenas um pouco acima, pisava em uma grama um pouco mais espessa agora. Olhei ao redor e me deparei em um jardim florido, as plantas quase brilhavam por si mesmas ao mesmo tempo em que o por do sol lançava sombras que atingiam o jardim de forma não natural, era incrivelmente belo apesar de parecer assustador.
Ouvi uma melodia doce vindo de algum lugar e de todos os cantos ao mesmo tempo, a música era triste apesar de bonita. Não muito longe de mim pude ver de relance uma macieira, ela era enorme e em seus galhos maças douradas brilhavam me atraindo para mais perto, contive o impulso de correr até ela quando vi uma massa escura enorme aos pés da árvore. Meu sonho se desfez quando ouvi um barulho vindo do pico da montanha, era como um urro de dor ecoando pelo jardim, a música começou a se transformar em lamento e ficar mais alta. Dei um passo à frente e fui cercada pela névoa, a última coisa que ouvi foi um urro agonizante e profundo de dor, quando pude enxergar novamente estava olhando para as estrelas no céu, deitada no chão de uma floresta diferente.
A floresta se erguia com dezenas e mais dezenas de imensos pinheiros e diversas outras árvores coníferas, acima o céu ainda não tinha começado a clarear, mas sabia que não faltava muito para começar a amanhecer. Chovia fino e cada gotinha que batia na minha pele era fria e cortante. Levei alguns segundos para lembrar quem eu era como tinha chegado e o que estava fazendo ali naquela floresta. Infelizmente essas lembranças vieram junto com a dor.
Sentia minha pele arder em centenas de pequenos lugares. Tentei me encolher de dor, mas fui atingida por algo que eu classificaria muita acima da dor. Em uma escala? A dor de um corte grande na mão, de pular de barriga em um lago parcialmente congelado, de quebrar um osso, de descer um morro de skate a uma velocidade absurda e no meio do caminho perder o skate (não façam isso, dói muito), o que eu sentia era tudo isso misturado, o pior de tudo foi quando tentei me mexer.
Me joguei de lado para poder ficar deitada completamente de barriga para cima e não sei se perdi os sentidos ou apenas sonhei. Minhas costas explodiram, o ar foi completamente expulso de meus pulmões e quando tentei puxá-lo de volta era como se estivesse respirando ácido pelos canais abaixo.
Fiquei pelo menos meia hora nessa agonia tentando respirar enquanto sentia veneno derreter meus pulmões. Demorei até o inicio do nascer do sol para conseguir avaliar minha situação, pulmões derretendo como em lava possivelmente pelo veneno da mantícora, dezenas de cortes pequenos e grandes devido à queda, corte no ombro esquerdo, costelas... Era talvez a pior parte, pelo menos duas quebradas, uma trincada e as outras em condições precárias. O espinho ainda estava enterrado ali. Sem poder tira-lo elas não podiam voltar ao lugar, se eu tirasse ficaria com uma espécie de buraco no lugar.
Agonizei por mais algum tempo rolando no chão à medida que conseguia me mexer. Quando finalmente tive força retirei o espinho da dentro do meu corpo. Respirei com uma dor diferente agora sentindo a chuva escorrer para dentro do ferimento. A dor interna enlouquecedora diminuiu dando lugar a externa suportável.
Ouvi pela primeira vez gemidos que não eram meus, olhei para o lado, Henry estava deitado de lado, seu braço esquerdo não tinha mais um espinho cravado, porém o que eu vi não me deixou nem um pouco tranquilizada. Sua camisa estava toda ensanguentada, seu antebraço esquerdo estava dobrado em um angulo não natural para antebraços, ele tinha cortes sangrando em diversos lugares do corpo e do rosto.
Procurei Mari e meio as árvores, ela estava um pouco mais afastada, recostada contra uma raiz protuberante, respirava com dificuldade e tremia, só conseguia ver os machucados pelas partes rasgadas de suas roupas, sua cara estava tão pálida que se ela não estivesse tremendo poderia jurar que estava morta. O corte em seu rosto feito pelo espinho da mantícora estava ficando cada vez mais feio.
Olhando para ela me lembrei que Quiron tinha nos dado um cantil com néctar e um pouco de ambrosia antes de sairmos do acampamento. Ao pensar no acampamento minha dor aumentou, parecia tão surreal agora, tão inacessível que me deu um aperto no peito. Eu queria voltar. Queria poder competir com Kyle na parede de escalada novamente, sentir o clima tranquilo do acampamento ao amanhecer, quase me matar no treinamento intensivo com Mari e Henry, afagar o focinho de Argo, queria até mesmo trocar alguns palavrões com Buther novamente. Eu queria principalmente não morrer em uma floresta vendo meus amigos agonizarem.
Senti meu corpo queimar, mas agora era de uma maneira diferente da dor. Ela ainda estava lá, mas eu conseguia me focar na queimação o que a deixava de certa forma mais fraca. Me concentrei nesse novo tipo de tortura e me arrastei até a mochila jeans jogada na lama perto de onde Mari tremia agora um pouco mais forte. Abri a mochila e peguei o cantil, joguei um gole na minha boca sentindo o gosto familiar de cobertura de chocolate e bolo de morango. Não sentia mais os cortes menores arderem.
Me arrastei um pouco mais perto da Mari e joguei um bocado de néctar em sua boca. Sua pele estava preocupantemente fria mais de perto pude ver que ela tinha batido forte com a cabeça, sangue escorria pelo lado do rosto e orelha de um corte feio perto demais da sua fonte, suas pupilas tremeram depois de entrar em contato com o néctar e ela fez uns barulhinhos, mas não acordou. Ela devia ter mais veneno de mantícora no corpo do que pensei ou era culpa daquele corte.
Henry gemeu com um pouco mais de urgência do outro lado, me arrastei até ele. Empurrei seu corpo com um pouco de dificuldade até ele estar com as costas no chão e barriga para cima, seu braço me preocupava muito (só pra constar meus pulmões ainda nadavam em lava e simplesmente respirar era complicado demais apesar de eu não poder pensar nisso), peguei seu antebraço com cuidado, onde o espinho estivera agora era uma poça de sangue coagulado e infeccionado de uma coloração meio esverdeada, fiz careta. Olhei ao redor procurando algum tipo de galho que pudesse usar como tala, mas não encontrei. Concentrei-me um pouco e invoquei uma faca de caça tão longa quanto o antebraço dele e com bainha para que não se cortasse.
Normalmente minhas armas somem quando não estão sendo usadas, esperava que fixar ossos no lugar contasse como uso. Rasguei duas tiras da manga da minha blusa (estava mais limpa que a dele) e amarrei a tala/faca de caça em seu antebraço tomando cuidado para manter os ossos onde eu achava que deveriam ficar. Aproximei meu ouvido de sua boca, ele gemia algo como "Mamãe" e "Comida", tentei sorrir, mas minhas costelas não permitiam atos tão audaciosos assim. Joguei um pouco de néctar entre seus lábios e ele parou de emitir gemidos.
Não aguentava mais de exaustão a dor tinha voltado com força total, sentia minhas costelas encostarem em lugares errados, me arrastei até minha mochila e deitei com dificuldades de respirar. Perdi os sentidos novamente.
Dessa vez não sonhei com nada, mas não posso dizer que tinha tido um sono tranquilo, a dor parecia ter se estendido até a minha inconsciência. Me mexi tentando voltar a dormir, mas senti como um chute na minha perna. Meus sentidos despertavam devagar, percebi que a chuva fina de antes não estava tão fina assim agora lavando a minha pele por debaixo das roupas molhadas, e eu sentia frio.
Senti o chute novamente e resolvi abrir os olhos e virar a cabeça na direção do chute para xingar quem quer que fosse o imbecil. Meus pulmões me permitiam respirar ainda que de forma pesada, mas minhas costelas ainda incomodavam além de doer muito. Henry era o responsável pelos chutes, ele estava sentado agora recostado em uma árvore a alguns centímetros de mim. Ele tentou dar um sorriso, mas saiu como um careta.
— Como voce está? — ele perguntou numa voz fraca.
Considerei meu estado antes de tentar responder. Meu peito e minhas costelas doíam, sentia meus pulmões formigarem e arderem e um pouco de sangue escorrer do lado direito do meu corpo. Eu estava bem melhor que antes.
— Me lembre de não ser jogada de um trem em movimento de novo. — disse. – E de atirar com um canhão naquele bicho quando eu o ver de novo.
Henry conseguiu sorrir dessa vez.
— E voce? — ele me parecia bem melhor.
— Estou bem, a água me curou um pouco. — ele olhou para as nuvens de tempestade no céu como se agradecesse silenciosamente. — É só o meu braço... Parece que não quer curar e dói. — ele olhou para o braço e sua expressão era de terror misturado com pesar.
— Isso não é nada bom. — murmurei enquanto tentava me levantar e me aproximar dele.
O ferimento tinha voltado a sangrar e se depois de néctar e da água não tinha começado a curar significava que tinha algo sério acontecendo. Dei um suspiro com dificuldade. Henry me olhou com preocupação.
— Voce tá sangrando. — ele disse.
— É? Bom voce também. Acho que o veneno daquele espinho não ta deixando o osso voltar para o lugar e nem a ferida cicatrizar.
— Mas voce parecia muito bem enquanto dormia. Achei que tinha feito aquele negócio de se curar. — podia ouvir a dor em sua voz.
— Eu fiz, mas o veneno não deixa. — Falei. – As duas costelas quebradas não voltam ao lugar e o pulmão derrete por dentro.
Ele arregalou os olhos.
— Como voce consegue se levantar?
Eu mesma não sabia como estava de pé. Talvez isso fosse uma maldição de Ares, não importa o quanto ferrado voce esteja voce sempre consegue se levantar para sofrer ainda mais. Se fosse verdade parecia ser uma maldição somente minha.
— Como está Mari? — perguntei por fim.
— Mal, eu acho. Ela não acordou nem se mexeu. — ele disse.
— Ok. Isso não é nada bom. Eu dei um pouco de néctar pra vocês antes de apagar, achei que estariam melhor depois de um tempo.
— Voce acordou antes?
— Sim.
— E a dor?
— Estava bem pior.
— Não foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer, como conseguiu com as costelas quebradas?
Olhei para ele visivelmente irritada. A chuva começou a ficar mais forte. Ergui o rosto para o céu, as nuvens de tempestade estavam mais pesadas, muita água iria desabar nas nossas cabeças muito em breve.
— Ela voltou a tremer. — Henry olhava para Mari.
— Vai cair o céu daqui a pouco. Melhor procurarmos um abrigo. — disse ainda olhando para o céu.
— Mas o que fazemos com ela? — ele apontou com o queixo para uma Mari inconsciente.
Olhei para Henry enquanto ele se levantava e pegava sua mochila no chão. Seu braço se deslocou por um segundo e ele arquejou de dor.
— Eu carrego. — disse.
— De jeito nenhum. — ele recusou a ideia. — Se for assim deixa que eu carrego.
— Eu sou mais forte do que voce imagina. — disse. — Mais forte do que voce. — Eu não estava brincando, nem querendo parecer superior eu apenas sabia que se nas condições dele, Henry não podia ajudar muito e precisávamos de um abrigo.
— Não. — ele decretou fazendo bico.
— Vou fazer essa faca desaparecer se voce me contrariar. — ele recuou ofendido. — Além do que voce é magrelo demais pra carregar alguém e... Eu não sou tão fraca pra dor quanto voce e eu me curo mais rápido também.
— Não foi o que pareceu lá no trem. — ele reclamou.
Olhei feio para ele.
— Pegue nossas mochilas e quantos gravetos secos voce conseguir.
Ele me olhou como se o que eu tinha dito não fizesse sentido nenhum.
— Hm... — ele tentou falar mais não dei tempo para ele concluir o pensamento.
— Gravetos secos, gravetos que não estão verdes e com folhas. — falei. Ele fez uma cara que queria dizer que tinha entendido.
Henry começou a descer na minha frente escorregando na lama e tropeçando nas raízes das árvores. Fiquei feliz de ele ter ido à frente, pois apesar de querer parecer forte eu não sabia se podia realmente carregar Mari. Me abaixei ao seu lado, peguei seus braços e coloquei sobre meus ombros. O ar foi tirado de mim como se eu tivesse levado um golpe de taco de basebol nos pulmões assim que forcei para cima, minhas costelas saíram do lugar novamente e começaram a doer descontroladamente de novo, mas mantive firme. Era como se a dorme mantivesse forte apesar de eu não me sentir assim. Cerrei os dentes e tentei pensar em alguma brincadeira maligna para fazer com Henry enquanto cambaleava atrás dele pela floresta.
Achamos uma caverna debaixo da raiz de um pinheiro enorme, era protegida pelo pinheiro e cercada de pedras, alta o suficiente para podermos sentados esticar os braços e tocar de leve o teto, estava incrivelmente seco lá dentro. Me arrastei com Mari para dentro logo atrás de Henry e a coloquei deitada no chão, apoiei sua cabeça na mochila jeans que ela carregava e chequei sua temperatura. Ela estava quente, com febre por causa do veneno provavelmente.
— Vou dar um pouco mais de néctar pra ela. — falei.
— Quiron disse que é perigoso beber muito néctar. — ele estava empilhando os gravetos com calma.
— Sim, eu sei. — respondi enquanto pegava o cantil. — Mas já faz algumas horas e além do mais ela não se cura tão rápido como nós dois. — minhas costelas quebradas pressionavam meus pulmões, resisti á vontade de tomar um gole também.
— Tá o que a gente vai fazer com um monte de gravetos molhados? — ele olhava confuso para a pilha.
— Tira a água deles. — respondi distraída.
Henry ficou me olhando por uns segundos depois se sentou de pernas cruzadas perto da pilha, focou nos gravetos e estendeu a mão, ele fez algumas caretas e apertou o braço quebrado mais contra o peito. A água da chuva rodopiou em um mini redemoinho de tempestade e rodou para longe seguindo a direção que Henry apontava.
— Irado. — falei.
— Como voce pensou nisso? — ele me olhou surpreso e eu apenas o encarei de volta, pois tem coisas que eu não sei explicar.
A pilha de gravetos ficou completamente seca. Tateei meus bolsos a procura do meu isqueiro de ouro, peguei e acendi um fogueira. Henry ficou olhando para o isqueiro, mas não perguntou nada.
Deitei ao lado da fogueira, minhas costelas se ajeitaram no lugar, acho que finalmente ia começar o processo de cura, ouvi Henry murmurar algo como "Devíamos fazer uns curativos". Pensei ter visto um par de olhos vermelhos nos observando fora da caverna, mas adormeci sem querer.
Acordei com o cheiro de sopa de galinha e fumaça. Henry estava esquentando três latas de sopa perto da fogueira.
— Eu sabia que ela ia acordar. — ele disse rindo.
Olhei para onde ele estava olhando e vi uma Mari finalmente acordada, ela tinha limpado o sangue do rosto e feito um curativo no rosto e outro na mão, ainda estava pálida, mas era o seu pálida normal.
— Bom dia bela adormecida. — ela brincou.
— Eu não diria que eu sou a bela adormecida. — sorri para ela.
Ela me devolveu uma careta e virou o rosto.
— Quanto a isso... — ela começou a falar.
— Tudo bem. — falei para ela. Sabia que era difícil para ela aceitar o que eu tinha feito. — Como está a cabeça?
— Bem melhor, obrigada.
— Quem trouxe a sopa? — perguntei animada.
— Fui eu. — Mari respondeu.
— Voce é um gênio. — sorri.
Me sentei e comemos a sopa enlatada. Lá fora a chuva ainda caia açoitando todo que conseguia atingir pelo caminho. Pude ver que o sol estava se pondo.
— Eu dormi o dia inteiro? — perguntei e Henry assentiu.
— Como estão as costelas quebradas?
Me mexi no lugar e respirei fundo.
— No lugar. E o braço? — ele tinha feito um curativo no braço e tinha outro no rosto e na perna.
— Começou a cicatrizar, felizmente.
— Gente. — Mari chamou. — Vocês estão parecendo dois velhos perguntando das doenças tipo: como vai o ciático? Bem, e o bico de papagaio?
Nós três rimos da piada por uns minutos.
— Acho que eu deveria mandar uma mensagem de Iris para minha mãe.
— E dizer o que? Oi mãe, eu to perdido em uma caverna, no meio de uma tempestade e como braço quebrado. Não mãe, não precisa surtar. Sim eu vou tomar o meu leitinho antes de dormir. Tenha uma boa noite de sono.
— Henry voce bebe leite antes de dormir? — perguntei.
Ele estava vermelho de raiva.
— Não teve graça. — ele disse mal humorado.
— Não era pra ter. Era só pra mostrar que foi uma péssima ideia.
Ficamos um tempo apenas observando o crepitar das chamas da nossa pequena fogueira, a chuva cair lá fora e as cores do por do sol chegar gradativamente.
— Então... É só voce e sua mãe? — Mari perguntou depois de um tempo só para puxar assunto.
— Sim. — Henry respondeu. — Nunca foi fácil pra nós dois, o déficit de atenção e hiperatividade, as mudanças frequentes de escola. É complicado sabe? Ela é advogada, então fica mais difícil manter as aparências com um filho como eu. — ele parecia triste. — Mas ela sempre fez de tudo pra que eu me sentisse bem.
Nós ficamos em silencio.
— E voce? Voce mora só com o seu irmão? — ele estava sendo cuidadoso.
Eu estava me esforçando ao máximo para prestar atenção conversa. Embora quisesse contar as gotas de chuva que caiam de um fissura no teto da nossa caverna.
— Sim. — ela começou — Minha mãe morreu quando eu tinha 3 anos. Câncer de pele, voce sabe, meu irmão me contou, por muita exposição ao sol.
— Quando nossa mãe morreu, ele tinha 13 anos. — Mari voltou a falar depois de um tempo. — Nós fomos morar com a nossa tia, mas ela não era lá a melhor mãe adotiva. Mal esperou ele fazer 18 anos para nos largar por nossa conta e risco. Ela também morreu, pouco tempo depois. Desde então ele tem me criado como filha
— Ele parece ser um cara legal e que gosta muito de voce. — Henry disse.
Mari assentiu e então olhou para mim.
— E voce? — ela perguntou.
— Eu não sei. — respondi.
— Que tipo de resposta é essa? — Henry parecia interessado no assunto.
— Eu cresci entre orfanatos e escolas internas. Fugi da maioria. — disse sem muita emoção.
— Voce nunca passou por um lar adotivo?
— Alguns quando eu era bem pequena, mas é tudo uma farça. Eles não se importam com voce, só com o dinheiro que o governo da pra eles e se voce faz alguma coisa de errado eles te devolvem.
Parei pensando em todas as confusões que me meti, em todas as vezes que a única opção que eu tive foi lutar agora eu podia ver que boa parte das lutas não eram somente uma briga besta de crianças e sim um jeito de me manter viva. Os monstros que eu simplesmente fingia acreditar que não podiam ser reais ERAM reais.
— Eles pararam de tentar depois de alguns incidentes.
— Voce não tem nada da sua mãe?
— Meus primeiros registros são do Maine. — disse. — Mas não tem nenhum nome. O que sempre me disseram é que eles eram policiais e morreram em serviço.
— E aquele isqueiro? — Henry perguntou curioso.
Coloquei a mão no bolso e puxei meu velho isqueiro de ouro e entreguei a ele.
— Tenho ele desde sempre.
— O que está escrito? — ele olhava confuso para as inscrições.
— Não sei.
— Voce carrega isso a vida inteira e não sabe o que ta escrito? — Mari parecia incrédula.
Dei de ombros.
— Não sei em que língua está. — Henry me devolveu o isqueiro e eu o guardei.
— Pode ser uma pista. — Mari disse.
— Pode ser. — confirmei.
Estava tanto tempo sem ninguém que só a ideia de que pudesse saber alguma coisa sobre a minha mãe me deixava enjoada. Da última vez que alguém me deu esperanças de poder conhecer um dos meus pais eu acabei num chalé de guerreiros espartanos.
— Como sabia que graveto devíamos pegar? – Henry perguntou fazendo careta. — E como achou esse abrigo? Não aprendemos isso no acampamento.
— Eu sei acampar. – ele ainda me olhava. – Faço isso desde pequena por que passei boa parte da vida na rua.
— A ultima pergunta. — Mari disse. — Por que voce briga tanto? Quero dizer eu sei que seu pai é o deus da guerra, mas... — aquela pergunta dela me incomodou de verdade. Mari não me olhava e sim para a chuva lá fora.
— Eu só... — eu não sabia responder. — Não sei. — disse respirando fundo.
— Sabe de certa forma é culpa sua. — Henry falou um tanto com medo.
— O que? — eu me exasperei.
— Acho que você não percebe, ou não sei, não faz por querer, mas você provoca as pessoas. Percebi isso quando você disse que o Henry fica nervosinho perto de voce. — ela disse. — Não é só você, seus irmãos também, deve ser uma coisa de Ares.
Fiquei olhando confusa para ele por uns instantes, eu realmente não fazia ideia do que ele estava falando.
— Acho que é porque você não aceita. — Mari falou.
— O que? — Fiquei confusa.
— O seu pai, você sabe que é filha de Ares, mas não aceita as consequências disso por isso não consegue controlar.
— E você aceita? Tudo isso- — ela me cortou.
— Eu sei de tudo e não acho que Hades não tem culpa nisso, eu só acho que voce tenta negar o seu "lado deus" quando ele aparece, voce consegue acessar isso, mas não tem controle.
Respirei fundo.
— Meu lado deus quer sair por ai quebrando a cara de todo mundo às vezes sem nem motivo.
— Por que você não controla, eu não saio por ai causando a morte das pessoas.
— É diferente, Hades controla os mortos, Poseidon controla o mar, mas Ares causa a guerra. Ele é o responsável pelo inicio dela, por mortes e sangue derramado. — Comecei a ficar frustrada por algum motivo. — Não são só as brigas é algo como se eu sempre precisasse ver sangue e confusão.
— É isso que eu estou falando, quando você aprender a controlar isso vai ter o seu poder total. — Ela olhou para o Henry em busca de apoio.
— Quando eu preciso do meu poder eu penso no mar, em como controlar ele, mas também sinto o mar dentro de mim junto com as minhas emoções, elas influenciam no meu poder. — Ele estava sério embora relaxado. — Do jeito que você fala parece até que ele é mal.
Ergui uma sobrancelha para ele, mas não respondi. Ficamos em silencio depois disso.
— Quando eu era menor tinha pesadelos. – Meus amigos me olharam. – Não eram comuns. Eu sempre sonhava com guerras, campos, florestas, cidades, repletas de corpos espalhados pelo chão, destroços, coisas queimando. Eu não via o momento da luta, só o que ficava depois, alguns sonhos ficava tão reais que eu podia sentir o cheiro de sangue. As crianças chorando, pessoas agonizando com olhares vazios. Mas eu não sentia o desespero, eu caminhava como seu tudo aquilo fosse causado por mim. Como se eu gostasse, me sentia forte.
Parei um instante.
— Por isso eu fujo. Quando os sonhos começam eu começo a ver... Professores começam a criar garras ou vejo coisas estranhas na rua. Eu fujo, quantas vezes forem preciso até parar. Agora eu sei que isso tem a ver com Ares. – Agora eu sei que não vão parar, pensei.
Aquilo de certa forma acertou meus amigos.
— Às vezes... — Henry começou a falar distraído. — Eu escuto vozes, sabe? Acho que é meu pai falando comigo, me mandando agir. Eu ouvi quando fomos atacados pelo cão infernal. Isso acontece com vocês? — Ele perguntou.
Pensei no meu pesadelo no mar, naquela voz. Não, não podia ser Ares, ele não se importa comigo. Assenti negativamente, não sei se Mari ouviu a pergunta.
— Sabe... Eu não queria ter saído do acampamento. — Disse angustiada.
Mais uma hora de silencio se instalou sobre nós. Fosse pelo cansaço ou pela conversa triste que tivemos estávamos cada um envolvido demais nos próprios pensamentos.
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