Idioma do coração (João Miguel e Malú CCOA)
3 Entre o amor e a dor
Notas iniciais
POV (ponto de vista) de João Miguel
Em nome de Deus eu vos declaro marido e mulher.
O beijo dessa vez foi diferente. Curto diante dos convidados, mas quente, cheio de promessas, planos. O desejo que há tempos já era insuportável para mim agora testava todos os meus limites. Brincava com a minha sanidade alimentando meus instintos e testando meu controle. Eu sentia a dor crescente, pulsante dentro do peito, me fazendo sofrer com antecipação. Estraçalhando-me com a dúvida de sua entrega. Ela em algum momento iria me aceitar? Desejar-me como eu a desejo? Ao menos imaginar o quanto eu a desejo? Talvez ela não se desce conta do real significado desse momento para mim.
A dor da incerteza me consumia. Mas eu gostava da dor. Gostava de senti-la crescer. Quanto maior ela fosse mais próxima Malu estaria de mim. Mais próximo eu poderia estar de tocar, sentir aquela mulher que agora assinava o meu nome de forma que a prendia a mim. Dei o meu nome a ela. O primeiro sobrenome que ela assinaria em toda a sua vida. Agora ela não era mais uma órfã. Tinha o meu nome e só o meu nome. E ela era minha. O padre acabara de anunciar isso. A todos. Ela se tornara minha esposa. Minha mulher, minha dona. Minha vida nas mãos de uma menina frágil e delicada, mas que me encurralou entre seus braços de uma forma que eu não quero jamais sair.
Entretanto, havia um segredo. Que eu dividira somente com o Padre Anselmo. Malú não conhecia o rosto do homem bêbado que a atacou num momento de loucura. Eu conhecia. E era esse rosto que a tiraria de mim, quando o meu sonho acabasse.
Sua inocência a deixava tímida diante dos convidados, a tornando ainda mais bonita, enquanto eu sentia meu corpo reagir mais intensamente à sua presença em minha vida. Mais profundamente, como uma chama me lambendo enquanto crescia. E eu febrilmente parado à espera de ser queimado por ela.
Prometi que não a tocaria até que ela desejasse meu toque, minhas mãos sobre ela novamente agora com amor e admiração. Ela se doando a mim de bom grado, me querendo como eu a ela. Mas minha mente girava imaginando as noites que eu iria dormir ao seu lado, sentindo seu cheiro doce e inebriante me enlouquecendo. Imaginando seu abraço espontâneo e ingênuo que desperta todo o meu corpo de forma instantânea, doloridamente prazerosa.
Como eu cumpriria minha promessa com ela tão perto? Logo estaríamos sozinhos como nunca estivemos e amparados pela lei do homem e pela lei de Deus para nos amarmos como homem e mulher. Deus em sua infinita bondade tornou-a minha esposa para que eu possa amá-la, amar seu corpo sem culpa, sem restrições, me doando a ela da mesma maneira. O mesmo corpo que um dia covardemente eu quis tomar para mim sem sua permissão. Um erro que eu iria pagar com o preço da minha felicidade. Um erro que, por mais que eu adiasse, me faria perde-la em algum momento de minha vida.
E então seria o meu castigo divino impregnar intimamente seu sabor em minha alma e perdê-la para sempre.
Mas quando isso acontecesse não me importaria de morrer. Antes dela eu não havia nascido e depois dela não haveria vida para mim. Não sabia quanto tempo eu teria para plantar meu amor verdadeiramente sincero dentro do seu coração machucado. Não sabia uma forma eficaz para curar a ferida que eu mesmo abri em seu peito e que corrói sua alma. Mas sabia que todo tempo seria pouco, que todo o amor seria insuficiente para que ela parasse de sangrar. No entanto era a única chance que eu teria de deixar um sentimento bom e poderoso que confrontasse dentro do seu coração contra o ódio que ela sentiria por mim quando descobrisse a verdade. Eu queria um cúmplice para reconquistá-la e esse seria o meu amor. Meu imenso amor por ela.
Mas eu já havia plantado o ódio e o desprezo por mim há tempos atrás e ele cresceu por longos anos em seu peito se alimentando de amargura e ressentimento. Anos que me trouxeram a dor do arrependimento. Anos que alimentaram o seu desprezo por aquele homem sem escrúpulos e sem moral o qual eu fui para ela. O covarde que a marcou da forma mais medíocre que poderia haver. O canalha que não recebeu o perdão de Deus por seu arrependimento, mas recebeu o castigo de amá-la a ponto de dar a sua própria vida para apagar aquela noite sombria na mata, anos atrás. O Hipócrita que vai sofrer por ter destruído seu verdadeiro amor antes mesmo de conhecê-lo. Que merece ser queimado vivo para compensar cada pesadelo que a fez lembrar o quão perverso eu fui para ela na minha estúpida embriaguez. Eu mereço morrer. Eu mereço seu desprezo eterno por fazê-la infeliz e priva-la do amor e dos sonhos de uma jovem inocente.
Mas antes quero compensá-la como puder. Quero mostrá-la que não são todos os homens que agem covardemente como eu agi. Que ela é capaz de amar apesar de tudo que sofreu e que eu, se merecesse, desejaria ter seu perdão algum dia, de alguma forma que eu não sou capaz de imaginar.
Por isso pedi ao padre que esperasse o casamento para contar a verdade. Me desse a chance de mostrá-la que eu ainda tenho alguma coisa boa dentro de mim. Um sentimento nobre e perfeito: meu amor por ela. Queria convencê-la de que ela é limpa e pura enquanto eu sou um porco imundo que não é digno de amá-la, mas que conheceu o seu inferno quando o destino me fez amar de forma tão incondicional a única pessoa a quem eu verdadeiramente fiz muito mal. Quero ser capaz de fazê-la feliz em meus braços mesmo que ela não tenha consciência de quem sou. Que o homem que atormenta seus sonhos tem o meu rosto.
Não! Eu não posso contar ainda. Porque nesse momento ela parece feliz ao meu lado, então não vou dizer ainda quem eu fui, mas vou fazê-la ver quem eu sou agora. Quero que ela saiba que hoje sou o homem que a ama desmedidamente e que posso minimizar seu sofrimento com meu amor, embora saiba que ela nunca me aceitaria se soubesse a verdade. E ela vai saber! Mas nesse momento sou bastante covarde e egoísta para contar e assumir meu erro. Porque no instante da verdade eu vou morrer para ela, mas quero deixar meu amor como prova de que daquele homem sem escrúpulos só restou o arrependimento e a dor.
Chegou o momento, a minha chance de conquistá-la. E tenho que fazer isso direito.
Meu melhor amigo Eduardo nos cedeu sua casa no litoral para que passássemos nossa lua de mel. O lugar é lindo e o que menos quero é constrangê-la levando-a a algum lugar sofisticado e cheio de etiquetas onde ela não se sinta a vontade. Amo a Malú da forma exata que ela é, sua espontaneidade, sinceridade.
Claro que ela pode estudar mais um pouco, ter mais conhecimento, mas não quero que ela perca essa maneira doce e ao mesmo tempo rebelde de ser. Foi isso que me conquistou. Ela foi teimosa e astuta. Geniosa. Rebelde. Isso me fez querer beijá-la a cada momento que eu a via. Seus abraços ingênuos e apertados me faziam deseja-la com culpa por sua inocência diante do meu desejo.
Por isso a levei para viver com os Velarde. Para que estivesse longe de mim. Ela precisava de proteção, cuidados, e eu me apaixonei por ela desde que a vi pela primeira vez em minha casa, sem sabermos quem eu era para ela e quem ela seria para mim. Mas ela me puxava como um imã para si cada vez que se aproximava de mim. Cada vez que me tocava.
No entanto, agora estou amparado pela lei. Eu a tornei minha esposa. Isso não repara meu erro, nem a cadeia é suficiente para mim, mas eu posso dar a ela a dignidade que ela merece e o amor que não recebeu.
A partir de hoje vou fazê-la feliz.

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