— Você o que…?
— Eu disse que não sou imortal. E acho que estou morrendo agora…

Kuroumaru encarou incrédulo a mulher deitada diante dele. O garoto tinha se ajoelhado diante dela e a observou por alguns instantes, como se esperasse que ela dissesse "é brincadeira, meu corpo só demora para se regenerar", ou algo assim, mas ela parecia estar falando sério. Droga, ele deveria ter percebido isso antes! Deveria ter notado que os ferimentos dela não estavam se regenerando enquanto os dois lutavam! E, agora que tinha parado para pensar, a própria garota tinha dado uma dica de que não era imortal antes de começarem a lutar.

"Só tenho uma condição: Nada de arrancar membros do corpo durante a luta".

É claro que ela não queria que arrancassem membros do corpo. Kuroumaru poderia ser feito em pedaços e ainda assim seu corpo se regeneraria sozinho graças a sua imortalidade, mas se ela perdesse um braço ou uma perna, o membro não cresceria de volta. Como ele não tinha percebido isso antes? E como aquela mulher parecia tão incrivelmente tranquila para alguém que estava morrendo?

— Por que só está me dizendo isso agora?! — Kuroumaru exclamou — Por que não me contou antes que não era imortal?
— Se eu tivesse contado você não teria lutado comigo, não é? — ela adivinhou.
— É claro que não! Por mais que você seja forte, eu jamais lutaria a sério com uma pessoa comum.
— Então foi bom eu não ter dito nada — a garota respondeu — Se eu tivesse contado, não teria conseguido te ajudar a encontrar sua motivação para lutar. Já que você está admitindo que não lutaria a sério comigo.

Kuroumaru não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Tinha abandonado a sede da UQ Holder para fugir de seus problemas, mas acabou arranjando outro. Um que ele provavelmente não poderia resolver. Encontrou uma mulher que ele não fazia a menor ideia de quem era, mas que ouviu seus problemas com Touta sem julgá-lo, e o ajudou a encontrar sua paixão pela espada, sua motivação para lutar. E ele provavelmente a tinha levado para a morte.

— Não morra — ele pediu — Você disse que, se eu vencesse, você iria me contar tudo o que eu quisesse saber sobre você, se lembra? Fique viva e cumpra sua parte do acordo.
— Você ficaria surpreso… — ela tentou rir, mas acabou cuspindo sangue — Eu… cometi muitos erros a minha vida toda… fiz coisas cruéis por causa do trabalho que tinha… até que acabei escutando algo que não devia, então tive que fugir e acabei vindo parar aqui. Eu estava pensando em fazer alguma coisa boa antes de morrer, então decidi te ajudar…
— Espere aí… então você queria que eu te matasse desde o início? — ele perguntou indignado — Você perdeu de propósito!
— Eu jamais perderia de propósito para ninguém. Você venceu porque é mais forte do que eu, apenas isso — a garota respondeu. Seu peito subia e descia rapidamente, indicando que ela respirava com dificuldade — É mesmo… você venceu a aposta. Vou te contar. Sobre o que você tinha me perguntado antes… eu já vi sim uma pessoa como você. Alguém do seu Clã, que nasceu sem gênero… completar a maior idade e assumir o gênero que optou ter… e ainda assim se apaixonar por uma pessoa do mesmo gênero que ela. Então, o seu desejo de ser um homem quando virar adulto, e ainda assim se apaixonar por um garoto… não é impossível.
— Isso… é sério? — Kuroumaru arregalou os olhos castanhos, sem conseguir acreditar no que ouvia — Quem é essa pessoa? Onde ela está agora? Eu preciso falar com ela!
— Desculpe… sua voz está muito longe. Não consigo te ouvir — a garota sussurrou. Suas pálpebras começaram a se fechar.
— Ei, espere… não durma — ele pediu, sem saber o que fazer — É mesmo, o seu nome! Nós estamos conversando há um tempão, mas você ainda não me disse o seu nome. Como você se chama?

Mas Kurouamru não ficou sabendo a resposta. Os olhos da garota já tinham se fechado completamente e ela tinha parado de se mexer. Ele ficou encarando-a imóvel durante longos segundos. Aquilo era tão estranho. Ele já tinha participado de inúmeras missões desde que se lembrava, e em todas elas pessoas sempre morriam. Era triste, é claro, mas Kuroumaru já tinha se acostumado a lidar com isso. Mas ver aquela mulher ensanguentada diante dele, e saber que foi ele quem provocou sua morte… causou uma tristeza que ele não sentia há muito tempo. Era como se tivesse iniciado seu treinamento de novo e estivesse passando por todo aquele sofrimento novamente. Exceto que dessa vez ele estava sozinho.

Não sabia quanto tempo exatamente tinha se passado mas, quando se deu conta, ele não estava mais sozinho. Ouviu vozes gritando seu nome ao longe, mas não se deu ao trabalho de virar o rosto para olhar, pois reconheceu as vozes. É mesmo, a missão de Kirie e os outros era em uma cidade próxima daquela praia… eles provavelmente já tinham terminado. Mas surpreendeu-se ao reconhecer a voz de Touta junto às vozes dele, e então finalmente levantou a cabeça para encará-lo.

A essa altura, os amigos já tinham formado um semi-círculo ao redor dele e da mulher desfalecida à sua frente. Touta o encarava com mais preocupação do que o habitual.

— Por que você está aqui, Touta? Você nem estava nessa missão — por algum motivo ele desviou os olhos do garoto. Talvez porque ainda não estivesse pronto para encará-lo. Talvez porque tinha várias pessoas observando-os. Talvez os dois.
— Eu é que pergunto! — Touta exclamou — Você fugiu de casa do nada! Eu fiquei preocupado, então vim atrás de você. Encontrei o Ikkuu-senpai e os outros no caminho, então viemos te procurar.
— Você também já fugiu de casa, então não pode falar nada — Kuroumaru rebateu, deixando o garoto sem argumentos.
— Tonisaka-senpai, quem é essa mulher? — Santa perguntou, apontando para a mulher desfalecida diante dele.
— Não sei — ele respondeu sinceramente — Eu a encontrei aqui na praia.
— Ela sofreu vários golpes de espada. Talvez tenha sido atacado pela Tsukuyomi e conseguiu fugir da cidade, e acabou vindo parar aqui — Ikkuu sugeriu.
— Não foi a Tsukuyomi quem atacou ela — Kuroumaru murmurou — Fui eu.

Fez-se um longo silêncio enquanto Kuroumaru ainda encarava a mulher desfalecida, ciente de que todos o estavam observando.

— Você… atacou essa mulher? — Santa perguntou, só para ter certeza de que tinha ouvido direito.
— Nós conversamos durante um tempo. Depois fizemos uma aposta e lutamos — ele contou — Decidimos que quem vencesse a luta ganharia a aposta. Eu venci e ela acabou assim…
— Kuroumaru, lutar contra uma humana comum por um motivo assim tão banal é contra a lei… você sabe disso, não é? — Ikkuu lembrou.
— Eu não sabia que ela era humana! — o garoto exclamou — Eu pensei que ela era imortal. Ela não me disse nada. Não me disse nem o nome dela. E agora… depois de tudo aquilo… eu a matei!
— Acalme-se — Karin mandou. Ela tinha se abaixado e estava verificando o pulso da garota — Está fraco, mas tem pulsação. Ela ainda está viva. Mas precisa ir para um hospital depressa, ou vai acabar morrendo de verdade.
— Ela… está viva? — ele encarou novamente o rosto da garota. Ela estava tão coberta de sangue que era difícil acreditar que ainda havia alguma vida dentro daquele corpo.
— Sim, mas não vai durar muito tempo se ficarmos aqui parados — Karin respondeu — Se quer salvar a vida da sua nova amiga, então se apresse e a leve para o buggy aquático. Nós o deixamos bem ali.

Ele segurou a garota nos braços e seguiu Karin, junto com os outros. No caminho, eles contaram como foi a missão. Um desastre, segundo Kirie. A cidade inteira foi praticamente destruída. Metade dos habitantes morreram, e a outra metade que sobrou tinha sofrido vários ferimentos, alguns leves, outros mais graves. Eles contaram como o poder de Santa foi útil para evacuar a cidade e como Kirie teve que usar seu poder várias e várias vezes para ajudar Ikkuu e Karin, que estavam tendo dificuldades em lidar com Tsukuyomi. No fim, não conseguiram capturá-la. A mulher acabou escapando mas, como Yukihime tinha determinado que a prioridade era salvar a cidade e seus habitantes, então eles tinham cumprido sua missão.

Quando chegaram no hospital, os médicos permitiram que internassem a garota, mas como se fosse uma daquelas vítimas de algum acidente que você encontra por acaso e chama uma ambulância. Não sabiam quem ela era, não sabiam nem seu nome, então também não poderiam ter acesso ao seu acompanhamento médico. Bem, contanto que ela sobrevivesse, já estava bom.
E, no momento em que deixaram o hospital, Kuroumaru começou a ser bombardeado com perguntas, assim como temia.

— Kuroumaru! Que ideia foi essa de fugir? — Kirie andava ao seu lado, falando o mais baixo que conseguia — E onde foi que você achou essa mulher afinal?
— Hein? Eu já disse que a encontrei na praia — ele respondeu.
— Ah, é mesmo? — Karin perguntou descrente, do seu outro lado. As duas agiam como se fossem duas carcereiras — E você não está pretendendo trocar essa mulher pelo Touta, está?
— … eu não posso trocá-la por alguém que não tenho — Kuroumaru murmurou.
— Essa não — Kirie falou alarmada — Ele não corou. Nem começou a gritar. Meu Deus, Kuroumaru, o que aconteceu com você durante essas poucas horas em que estivemos fora?!
— Olhe bem para o Touta — Karin apontou e Kuroumaru olhou na direção que a garota indicava. Ele caminhava um pouco mais na frente, conversando alguma coisa com Ikkuu e Santa. Às vezes ria de alguma coisa que o mais alto falava, mas Kuroumaru sabia que aquele era um sorriso forçado. Touta olhou para trás por um instante, e desviou o olhar rapidamente quando viu que Kuroumaru estava olhando — Ele parece bem, mas está bastante abatido. Ele ficou preocupado quando você desapareceu, fez o maior escândalo e, céus, como ele fica irritante quando faz escândalo.
— Então você só quer que eu fique com o Touta para ele parar de fazer escândalo? — Kuroumaru ergueu uma sobrancelha.
— Não. Eu sei que você gosta dele. E, se vocês ficarem juntos, ele não vai ficar o tempo todo grudado na Mestra Yukihime. Assim todo mundo sai ganhando — Karin respondeu.
— Ainda não sei o que isso tem a ver… mas não importa. Eu não vou voltar para a sede da UQ Holder.
— VOCÊ O QUE?! — Kirie e Karin gritaram tão alto que os garotos foram até elas para saber o motivo do alvoroço.
— Touta! O Kuroumaru disse que não quer voltar para a sede da UQ Holder! Prove que não é um nulo e faça alguma coisa! — Kirie exclamou com voz aguda.
— Como assim você não quer voltar? — Touta falou incrédulo.
— Eu não vou voltar — Kuroumaru repetiu — Acha que eu só saí para dar uma volta, lutar com uma desconhecida na praia e depois voltar? Eu não vou mais voltar para lá.
— Mas por que não? — Touta indagou e imediatamente se arrependeu. Droga, é claro que ele sabia o motivo. Ele era o motivo! Ele não tinha dado uma resposta para Kuroumaru ainda. Ninguém aguenta se declarar e esperar tanto tempo assim por uma resposta. Kuroumaru provavelmente deduziu que Touta não se importava com ele o suficiente para se dar ao trabalho de sequer lhe dar um fora ou coisa assim e por isso foi embora. Mas o que ele podia fazer com toda aquela gente olhando?
— Acho que, você melhor do que ninguém, deve saber o motivo — Kuroumaru murmurou, olhando para outro lado. Viu Kirie cochichando alguma coisa para Santa, que concordou com um aceno de cabeça, mas a essa altura isso não importava mais — É melhor você voltar com os outros…
— Kuroumaru! — Touta segurou a mão dele para impedir o garoto de se afastar, sem ter a menor ideia do que dizer em seguida — Você… hã… ainda tem algumas coisas suas lá na sede da UQ Holder. Se vai embora, então é melhor levar suas coisas.
— É mesmo… saí com tanta pressa que só lembrei de pegar minha espada. Acho que não tem problema em ir até lá buscar o resto — ele respondeu e acabou seguindo o grupo de volta para a sede. Aquilo era só um pretexto para levá-lo de volta, Kuroumaru sabia disso, mas não podia evitar. No fundo, ele ainda queria ouvir a resposta de Touta… seja ela qual fosse.

Notas finais
Oi pessoal! E aí, será que essa resposta sai ou não sai, hein? Touta deve ser o personagem mais enrolado da história quando se trata de declarações de amor kkkkkkkkkkk Deixem reviews por favor e façam uma autora feliz!!! *o*