Identidade Homicida
87 Vida
Notas iniciais
Burniel encarou o próprio reflexo no espelho da penteadeira: os cabelos louros, longos e repicados contornavam seu rosto, dando um aspecto andrógeno. Ele pegou o lápis de olho preto e começou a desenhar um pequeno delineado na pálpebra inferior. O pequeno televisor do camarim anunciou no noticiário:
— Durante essa manhã, depois de seis anos, Peggy Tetzner foi detida no Aeroporto de Orly, em Paris. A fugitiva portava identidade e passaporte falsos.
Burniel imediatamente pegou o controle e desligou a TV.
Suspirou profundamente. Se impressionava como, mesmo depois de tanto tempo, mesmo que já tivesse conseguido estabilizar a sua vida e desviar a sua imagem daquele escândalo, qualquer mínima menção ao ocorrido trazia uma série de sentimentos catastróficos. Principalmente quando se lembrava daqueles últimos dias… daquelas últimas horas.
Foi um sentimento estranho que o invadiu naqueles últimos minutos, quando o helicóptero da polícia aterrissou no terraço, onde ele e o grupo estavam, para resgatá-los. Deveria se sentir aliviado. Liberto. Mas era impossível sentir qualquer coisa que não fosse angústia, raiva e frustração vendo o resultado da ação de Jun, com os gritos desesperados de Elsie e o choro a plenos pulmões de Kentin. Estavam tão perto. Ainda assim, parecia um fracasso total. Devia ser um momento único de glória. Mas a batalha foi perdida.
Passados os primeiros meses de repercussão na mídia, não teve contato com mais ninguém. Chegou a ver Kentin na fila do banco uma vez. Mas não teve coragem de perguntar como ele estava. Elsie… sequer notícias. E Nathaniel? Diziam que ele tinha se enforcado com um lençol dentro da própria clínica de reabilitação, durante um acesso de estresse. Sendo assim, Burniel teve novamente que se reinventar; como sempre fez em toda a sua vida de reinvenções.
E, com isso, virou ator nacional. Uma escolha um tanto quanto aleatória, mas, talvez, nada mais apropriado para alguém como ele, cheio de máscaras. Além do mais, tinha fãs agora e, com isso, os repórteres e curiosos bisbilhoteiros não tinham mais grande interesse em saber sobre os horrores que tinha vivido em Sweet Amoris, mas questões invasivas de outro teor -- como sobre o seu próximo espetáculo, ou sobre o que achava do seu novo personagem que interpretava, se estava solteiro, se tinha interesse em posar nu…
De repente abriram a porta do camarim:
— Gatinho — disse sua colega de trabalho — Vai demorar muito aí?
— Ah. Oi, Stacie — sorriu para a garota.
— No mundo da lua de novo? — riu — Tem um cara do lado de fora querendo falar com você.
— Quem?
— Não sei. Um tal de “Jackelino”. Acho que é um fã.
Burniel ficou tonto ao ouvir aquele nome.
— Me apresenta ele, se puder. Hein. Um chuchu.
Mesmo atordoado, Burniel decidiu atender o chamado; apreensivo, é claro. Ele abriu a porta dos fundos e se deparou com a figura mencionada pela colega: um rapaz bem arrumado, usando um RayBan escuro e um chapéu Fedora; tinha o cabelo ondulado e preto-azulado.
— Olá, tudo bem? — Burniel tentou soar simpático, mesmo desconfortável e hesitante.
O rapaz estendeu uma sacola de loja:
— Ontem e hoje foram dias bem agitados pra mim — disse — Então comprei de última hora. Mas, lembrava que gostava de chocolate. Acho que vai gostar.
Burniel olhou desconfiado para o homem e a sacola, apanhando-a com algum receio. Mas algo o intrigou naquele gesto: tinha parado de comer chocolates com a vida que levava naquela sua profissão que tanto exigia um tipo de corpo específico. Não tinha como alguém saber dos seus gostos antigos. Então se atreveu em perguntar:
— Desculpa… Mas nós nos conhecemos de onde?
O rapaz moreno abaixou os óculos escuros -- Burniel arregalou os olhos, reconhecendo aqueles olhos cor de âmbar de algum lugar.
A figura tirou o chapéu Fedora, deixando à mostra os cabelos escuros tingidos e aquelas suas feições tão familiares. Burniel tapou os lábios, soltando um suspiro de susto:
— N-Nathaniel?!
A figura abriu um sorriso:
— Quanto tempo…
Burniel largou a sacola e voou nos seus braços, tremendo. Os dois se abraçaram fortemente.
— É você? É você mesmo?! — Burniel tomou-o pelos ombros, tentando conter as lágrimas — Me disseram que você… tinha se matado.
Nathaniel sorria, dando uns tapinhas de reconforto em seu ombro:
— De certa forma… eu me matei. Precisei fazer isso.
Burniel ficou confuso com a resposta do colega.
— Eu precisei “matar o Nathaniel” e me transformar em “Jackelino”. — continuou — Só assim conseguiria ir atrás da Peggy sem deixar vestígios e sem ser perseguido pela mídia escandalosa daqueles primeiros anos.
— Esse nome…
— Acho que nada mais justo que escolher ele como uma identidade temporária, não? — riu — Foram seis longos anos vivendo escondido. Mas agora estou livre disso. Deve ter visto os noticiários de hoje.
— Vi sim… — estava espantado e admirado.
— Eu tinha muito medo de que ela tentasse seguir os passos da tia e “recriasse” tudo. Mas, bom, agora dá pra se dizer que esse ciclo definitivamente chegou ao fim.
Burniel sorriu:
— Mesmo que a Central fosse uma farsa, você é um verdadeiro detetive, Nath.
Nathaniel riu encabulado. Os dois se soltaram.
— É bizarra a nossa trajetória, não? — disse Nathaniel — Você chegou como um aluno esquisito e, no final, principalmente naquela nossa tormenta, nós nos aproximamos.
— Sim — disse com um sorriso. Nathaniel parecia ter gerenciado bem todos os acontecimentos. A leveza na sua fala conseguia eliminar um peso em Burniel.
— Acho que temos muito o que conversar. Ou pelo menos eu queria muito poder conversar com você. Quero saber como foi a sua vida, como está sendo sua vida de… ator. — disse risonho.
— E eu também quero saber como foi sua vida de… detetive. — riu. — Vamos num café? Preciso comer alguma coisa com bastante açúcar.
— Amanhã?
— Podemos hoje. Agora.
— Vai ser incrível se me verem em pleno café com o famoso Burniel Tissou!
— Amanhã já vai estar na página de fofocas!
***
O Peugeot prata parou na vaga demarcada da praça e desligou. Elsie tirou o cinto e ajeitou o retrovisor, observando Simon, sentado no banco de trás, com as mãozinhas grudadas na janela e os olhos atentos ao exterior.
— Chegamos? — disse a criança.
— Chegamos, Moni. — sorriu.
A pracinha arborizada ficava em frente a uma clínica de fisioterapia. Elsie abaixou o vidro e verificou do outro lado da rua, acabando de sair da clínica, a figura do seu velho amigo. Abriu um sorriso. O seu acompanhante, no entanto… era tão difícil observá-lo…
— Eles realmente eram gêmeos... — murmurou para si, engolindo seco.
Quando desceram do carro, Elsie imediatamente chacoalhou os braços acima da cabeça e evocou o velho amigo:
— Kentin!
Kentin abriu um largo sorriso. Mesmo cego de um olho, era impossível não reconhecer a voz e figura da sua velha amiga. Ele usava uma das mãos para auxiliar seu acompanhante, que ainda tinha que utilizar as bengalas para mover o corpo, já que os músculos da perna tinham sofrido uma pequena atrofia depois do longo período deitado em coma. Com alguma dificuldade, atravessaram a rua. Quando estavam suficientemente próximos, o acompanhante abriu um sorriso:
— Prazer em te conhecer, Elsie. Kentin me falou muito de você.
Elsie demorou para reagir. Alexy usava o cabelo natural preto, o que, não fosse os olhos de cor mais escura e o timbre da sua voz, o tornava uma “cópia” fiel de Armin.
— Prazer. Kentin também me falava muito de você. — riu. Depois voltou-se para Simon, que olhava curiosamente para os dois estranhos à sua frente. — Moni, esse é o seu tio Alexy. E esse é o Kentin, amigo da mamãe.
Simon se enfiou sob as costas de Elsie, tímido a princípio. Mas Alexy soube conquistar sua confiança rapidamente:
— E aí, pequeno? Do que acha de levar seu tio perneta até os brinquedos ali no parquinho?
Simon virou-se para Elsie, encontrando seu olhar de incentivo, e rapidamente se enturmou com o tio. Os dois se distanciaram juntos, tagarelando como se se conhecessem desde sempre. Kentin e Elsie observaram a cena risonhos, até se entreolharem mutuamente.
— Vamos sentar num banco? — sugeriu Kentin. Elsie concordou com a cabeça.
Sentaram-se numa das namoradeiras da praça. Kentin colocou um cigarro na boca e acendeu. Ofereceu um para Elsie, que recusou polidamente.
— Não sei nem como começar isso — disse Kentin, depois de um longo trago. — São tantas coisas…
Elsie concordou:
— Já foram seis anos…
— Como foi voltar pra França depois de tanto tempo?
— Estranho. — pensou um pouco no que dizer — Principalmente naquele bairro. É impossível não ser bombardeada de memórias, mesmo que tanta coisa tenha mudado.
— Não passo por lá, mas soube que demoliram a escola. O lote era tão grande que montaram uma biblioteca e dois prédios residenciais. — tragou mais e soprou fumaça — Disseram que taparam as passagens pra aquele subterrâneo também.
Kentin não tinha mudado muita coisa fisicamente -- ele ainda possuía o porte atlético, mesmo que agora suas feições tivessem um aspecto mais cansado; além do olho cego, acinzentado. Elsie usava o cabelo chanel, reto, e dois brincos pequenos de argola em cada orelha; tinha encorpado um pouco.
— E como anda a vida? — disse Elsie, com um pequeno sorriso — Soube que virou professor de Esporte.
— Quem diria, não? — riu — Dou aula durante a semana e alguns dias no mês treino um grupo infanto-juvenil de basquete.
— Isso é incrível…
— Não é? Até alguém como eu serve pra alguma coisa na vida.
— Que isso... Você sempre foi bom em muita coisa. Você era o balizador do trio. Sempre me reconfortava com seus conselhos. E sempre puxava os pés do Armin de volta pro chão quando ele começava com as bobeiras dele! — riu nostálgica.
Kentin riu também com a lembrança, concordando com a cabeça. Seus olhos observavam Alexy, ao longe, tentando empurrar Simon no balancê do parquinho sem se desequilibrar nas muletas.
— Foi… difícil contar pra ele. Sobre tudo. — disse com um suspiro. — Muito difícil.
Elsie olhou para o velho amigo, compreendendo seu pesar mais que qualquer pessoa.
— Ele também está melhorando aos poucos. Tá bem melhor, pra falar a verdade. Tanto emocional, quanto fisicamente. Já consegue fazer tarefas comuns do dia-a-dia. Só não consegue correr ainda. — virou-se para Elsie — E no meio disso tudo, nos ajudamos, sabe? É mais fácil gerenciar o luto quando temos ajuda.
Elsie concordou com a cabeça. Olhou para Simon no balancê, sorrindo; depois ergueu os olhos para o céu azul-claro, observava as nuvens brancas se movendo lentamente.
— Mas e você, Elsie? — sorriu, melancólico.
Ela ainda observava o céu e a movimentação das nuvens, demorando algum tempo para respondê-lo:
— Sabe, Kentin… Acho que mesmo depois de tudo o que nós vimos e vivemos dentro daquele lugar, toda a maldade que presenciamos e praticamos… o que aconteceu com Armin foi a única coisa que verdadeiramente me afetou.
Umedeceu os lábios e virou-se para o amigo:
— Depois que os tribunais se encerraram e conseguiram nos inocentar, você lembra que o governo nos ofereceu uma indenização e sessões de terapia gratuitas? Eu fiquei internada no mesmo centro que minha tia ficou. Foi… péssimo demais, nas primeiras semanas. Pensei em desistir de tudo. Não tinha mais sentido algum ficar viva. Até que… Eu tive um sonho.
Kentin ergueu as sobrancelhas em curiosidade. Elsie abriu um sorriso.
— Eu finalmente tinha conseguido entender as últimas palavras do Armin. — seu sorriso bailou e as lágrimas começaram a inundar seus olhos.
Kentin tinha lampejos daquele momento infeliz. A lembrança parecia suprimida ao longo dos anos pela dor, mas Elsie confirmou a sua memória:
— “Não chora, Elsie. Eu te amo”.
Kentin confirmou com a cabeça, fumando, contendo os olhos igualmente carregados.
— Isso me fez sair do estado vegetativo que estava. Sabe, Kentin? Acho que durante toda a minha vida não achei que pudesse ser genuinamente, verdadeiramente amada. Era um sentimento muito abstrato pra mim. O amor. Ser amada e dar amor, sem dor, sem violência. — limpou as lágrimas rapidamente e sorriu — E, bem… Depois desse sonho, o vazio deu uma melhorada. Quis melhorar. Voltei a me alimentar e tomar os remédios que precisava. Fiz até amizades na clínica. Até que, certo dia, tive um desmaio no meio de uma atividade em grupo. Todo mundo entrou em pânico. — riu.
Olhou ao longe, para Simon:
— Descobri que estava grávida.
Kentin riu enquanto piscava as pálpebras rapidamente para esconder as lágrimas.
— Pra minha surpresa, Simon nasceu extremamente saudável. Eu já estava no final do tratamento. Catei o resto do dinheiro da indenização e me mudei pra Tromso. Precisava de um emprego. A Noruega me deu muitas oportunidades boas, creches… Enfim. Fiquei um bom tempo trabalhando como atendente até conseguir abrir uma floricultura um ano atrás. Hoje tenho meu trabalho, um filho carinhoso e uma hortinha também. Adoro cultivar tudo que aprendi com a senhora Murple.
Kentin instintivamente sorria ao observar a velha amiga:
— Fico feliz, Elsie. E que bom que conseguiu meu contato. Achei que nunca mais nos veríamos.
— Só estava esperando a poeira abaixar. Queria que o Simon tivesse uma infância sem interferências. A mídia estava pegando fogo naqueles primeiros dois anos.
— Nem me fale. Era assédio atrás de assédio. — jogou a bituca longe, bufando com a lembrança — E o Simon… o quanto ele sabe?
— Sabe apenas que Armin morreu. Talvez um dia eu o conte além disso… que a mãe e o pai dele tinham participado de um escândalo em escala nacional. — riu — Além do mais, não quero que Simon viva isolado como eu vivi. Quero que viva como uma criança comum. Que ele conheça o próprio tio e faça amigos…
Elsie parou por um momento e virou-se para o velho amigo:
— No final de tudo, eu acabei entendendo, Kentin.
— Sobre o quê…?
— Sobre tudo que a minha família tentou evitar. Toda essa história de “Carma dos Cotton”, é engraçado, você não acha? Os Cotton tentaram por gerações evitar essa maldição e a coisa acabava justamente o contrário. Sabe por que?
Kentin arqueou as sobrancelhas em curiosidade.
— Porque esse Carma nunca existiu de fato. — continuou Elsie — Mas eles acreditavam tanto que nós pagávamos por algum pecado, que isso acabou se tornando realidade. Tudo acabava conspirando pra que as coisas saíssem dos trilhos e acabasse em tragédia. Então, na verdade, esse Carma não passava de uma consequência da própria crença do Carma. Entende?
— Não sei se entendi…
— Eu não acredito nessa coisa, Kentin. Nós mesmos somos os responsáveis por trilhar o nosso caminho. Nós escolhemos e nós sofremos as consequências das nossas escolhas. Acreditar num “destino” é se conformar. E se você viver conformado e acreditando em uma coisa, essa coisa acaba se tornando a sua realidade e consequentemente a realidade dos que convivem com você.
— Então… você quer dizer que durante todas as suas gerações nunca existiu de fato essa parada de Carma?
— Exatamente! O medo foi criando situações que faziam o Carma parecer real. E à medida que o Carma parecia real, o medo sobre ele se intensificava. E isso criou o carma, o ciclo sem fim. É como um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Mas a partir do momento que o cachorro para de correr, ele percebe que está correndo atrás dele mesmo. E assim ele entende que o tempo todo estava lutando contra um um inimigo que não existe.
— Falando desse jeito e com essas analogias, até me lembra o Armin — sorriu.
— Ele… me ensinou isso. Ele me disse há muito tempo que eu não podia mudar o meu passado, mas que enquanto eu estivesse viva, o futuro sempre podia ter uma saída, uma nova chance, uma nova vida.
— Acho que esse é o tal… “poder dos vivos”, não? Renascer.
Elsie concordou com a cabeça.
— Ah! — Kentin estalou os dedos — Lembrei que tinha uma coisa que queria te entregar. Quando você disse que viria ver a gente, revirei tudo lá em casa procurando…
De repente colocou as mãos para trás, vasculhando os bolsos da própria calça:
— Acho mais do que justo isso ficar com você… — estendeu uma pequena case preta.
Elsie tomou em suas mãos a bolsinha, confusa a princípio. Ao abrir o zíper, viu ali dentro o velho companheiro de Armin -- o pequeno videogame portátil. Um tsunami de memórias lhe atingiu: Lembrou do primeiro encontro que tiveram, na sala de detenção, por conta daquele apetrecho; e de quando se meteram na estufa de jardinagem e confrontaram Jade pela primeira vez; quando lutaram contra as próprias professoras; ou quando Armin lhe contou pela primeira vez sobre Alexy; as birras que tiveram; ou quando Armin ficou com os dois braços enfaixados e precisava da sua ajuda para tomar sopa; o primeiro beijo que tiveram e os resultados daquela noite; do seu abraço e da sua voz sempre que se sentia perdida e mergulhada nas próprias trevas…
Elsie mal pôde perceber o rosto se franzir e cair para baixo, derrubando lágrimas silenciosas na tela do aparelho. Tentava com todo seu coração prender os soluços no peito:
— Eu nunca vou esquecer ele, Kentin.
Kentin voltou-se para amiga com um sorriso triste, franzindo a testa; também chorava e fungava com o nariz:
— Eu também não, Elsie.
Os dois se olharam e mutuamente se abraçaram.
— Eu também não… — murmurava Kentin.
Quando soltaram-se do abraço, Elsie imediatamente tentou se recompor, limpando o rosto com as mãos. Nesse momento, bem à sua frente, percebeu a presença de Simon, que tinha corrido em sua direção.
— Você tá chorando, mamãe? — perguntou o pequenino, com preocupação.
Elsie olhou para o semblante do filho -- os olhinhos azuis, tão familiares, encarando-a.
— Não foi nada, Moni. — abriu um sorriso enquanto colocava uma pequena mecha do seu cabelo para trás da sua orelha.
— Ei, Simon! — exclamou Kentin, com um súbito entusiasmo, atraindo o olhar do garotinho — Já brincou muito com o titio-Alexy-perneta, o que acha de ir comprar sorvete com o titio-Kentin-cegueta, agora?
Elsie soltou uma gargalhada com o comentário. Simon enfiou o dedo indicador na boca e depois apontou o dedo babado para Alexy, vindo de longe com as muletas:
— Ele vai junto?
— É claro! — sorriu energeticamente.
— Vamos todos juntos! — Elsie bateu palmas de contentamento.
Kentin se ergueu do banco, tomou Simon nos braços e colocou-o sentado nos seus ombros. Quando Alexy os alcançou, os três se colocaram a caminhar.
Elsie, no entanto, demorou algum tempo para se levantar e os acompanhar. Observava-os de costas, caminhando. O sol já começava a se pôr e suas silhuetas negras eram emolduradas pelo céu dourado…
Não pôde deixar de pensar com certo estranhamento de que a vida que levava agora parecia tão diferente da sua vida infantil junto à Agatha, nos subúrbios daquela mesma cidade; ou até mesmo dos seus tempos sangrentos de adolescência em Sweet Amoris. Sentia, com aquele pensamento, como se tivesse vivido dezenas de vidas dentro de uma só.
Kentin tinha razão -- era o poder dos vivos. Renascer. Transmutar-se.
Sobre Armin -- a sua falta talvez jamais fosse se extinguir totalmente. Mas sabia que estava indo pelo caminho certo. Carregaria-o para sempre dentro de si, nas memórias e nas palavras.
Apesar disso, Elsie não negava que ainda tinha certo medo da vida, depois de tudo. Mas agora sabia, com todo seu coração, que ela ainda poderia ser boa para aqueles que se permitem tentar outra vez.
E então, Elsie se ergueu do banco, indo ao encontro dos seus companheiros e do sol dourado daquela tarde.
FIM.
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