Notas iniciais
antes do pov da KIM no capítulo anterior, Elsie leva um nocaute do Jade e reintegra a sua identidade à de Irene.... Lembrando: Enrich = mordomo da Shermansky que vive com ela nos "submundos" de Sweet Amoris Jun = namoradinho da Íris... que foi eliminada misteriosamente... Vamos que vamos... estamos finalizando....

[Elsie]

Quando senti a claridade do céu entrando entre as minhas pálpebras quase abertas, pensei que nascer talvez se parecesse com aquilo.

Meus olhos e minhas narinas estavam úmidos, como se eu tivesse chorado copiosamente durante o sono. E a claridade ofuscava minha visão de tal forma que parecia que era a primeira vez na minha vida que eu a via; como que depois de um longo período no escuro pacífico e silencioso de uma placenta.

Senti uma lágrima sair involuntariamente dos meus olhos e escorrer pelo rosto.

Talvez nascer fosse como aquilo. Não há dor; não há o que temer. É o começo.

Quando, mesmo com a claridade insistente, consegui abrir meus olhos, retornei para a realidade: estava deitada no chão úmido do terraço, ainda. Armin estava com o rosto acima de mim, me segurando nos seus braços; atrás dele, Nathaniel, Kentin e Burniel, todos com os semblantes ansiosos e preocupados.

Naquela composição digna de uma pintura dramática, conseguia ver o céu nublado acima de nós, com pequenas frestas entre as nuvens acinzentadas, por onde saía uma luz densa e dourada.

Tentei levantar, mas ainda estava um pouco desconexa do mundo real e com dificuldade pra me mexer. Quando lembrei do perigo iminente, porém, ergui o tronco rapidamente:

— O Jade. Onde ele tá?!

— Ele não é mais um problema — respondeu Armin

— Jade está morto. — disse Nathaniel.


[Kentin]

— Jade está morto. — disse Nathaniel, como um resmungo mau humorado.

Era compreensível o motivo por trás daquele tom de voz; era o tom de alguém que chegou ao seu limite e teve que apelar para medidas drásticas…

Vou tentar resumir o que aconteceu no mesmo instante que Elsie recebeu o último golpe de Jade: Burniel e eu nos desesperamos. Minha mira tava uma porcaria pra atirar com a espingarda àquela altura do campeonato por causa do olho machucado. A cada minuto que passava o borrão progredia e se alastrava pelo meu campo de visão como um carpete de ervas daninhas que cobre um edifício abandonado. Então larguei a espingarda no chão e corri que nem maluco na direção de Jade, pronto pra descer a porrada no mano-a-mano.

Fui pra cima com toda sede e vontade de esfarelar a cara dele, mirei com o punho fechado bem no seu rosto. Ele rapidamente apanhou meu pulso, no que me desesperei e tentei contra-atacá-lo com meu outro punho. Senti seu joelho enfiando no meu abdômen e me roubando o ar. Respirei desesperado tentando recuperar o ar, ao passo que Jade conseguiu reter meu outro punho e me arremessou para longe. Vergonhoso. O chão molhado me fez escorregar e topar de frente com um dos parapeitos do terraço. Tentei frear o peso do meu corpo. Vi o chão lá embaixo, junto à falta de ar que me sufocava, sentindo a vertigem de confrontar os mais de 30 metros de altura que estávamos do gramado da escola. Naquele mesmo instante, ouvi Burniel uivar:

— Para, Jade!

Olhei para Burniel: ele não era um killer, afinal de contas (e ele também tinha lá suas questões mal resolvidas com Jade pelo o que eu sabia), não poderia esperar nada além. Então ele apenas conseguia tremer com as facas de combate em cada uma das suas mãos enquanto as apontava para Jade com uma expressão franzida de fúria que, no entanto, era facilmente anulada pela falta de pulso firme na sua postura e voz:

— Já deu! Você quase matou Elsie! E eu… — balbuciava — Não vou compactuar com você outra vez!

Jade parou onde estava e se virou para Burniel com um brilho maldoso na voz:

— Você fala como se a morte da Jay não fosse culpa sua também.

Burniel arregalou os olhos.

— Dá até pra se dizer que você quem matou Jay. Ou você se esqueceu que você a desacordou e trouxe pra mim? — Jade ria silenciosamente, apenas tremulando seus ombros. — Mas foi divertido, eu confesso. Ouvir ela falando “para, para” e você sem sequer se mexer, um verdadeiro covarde…

Sons de disparos explodiram no ar e atingiram a barriga de Jade. Logo em seguida ouvimos o uivo do atirador:

— Dobre a sua língua pra falar da Jay, seu merda! — bradou Nathaniel, que surgiu de repente, com provavelmente toda a fúria do seu coração, e finalizou seu trabalho com um terceiro e último disparo no peito de Jade.

O corpo de Jade caiu para trás. O sangue se espalhou pelo chão molhado de chuva, enlameado, numa sopa de água suja e sangue. Uma morte miserável para uma existência miserável. Nosso terror acabava ali.

Armin veio me acudir. Falei que estava seguro, mas apontei para Elsie estirada ao chão; Armin correu desesperado para socorrê-la e colocá-la em seus braços. Nós nos certificamos de que ela respirava e ficamos mais calmos.

Nathaniel e Burniel estavam alguns metros distantes de nós; Burniel observava o corpo de Jade em completo silêncio, provavelmente tentando lidar com o luto contraditório dentro de si; ao que Nathaniel apenas se aproximou dele e deu umas apalpadas no seu ombro. Levamos alguns minutos para nos recompomos, até que as nuvens abriram no céu e a claridade do Sol voltou a nos aquecer como um abraço materno.

Agora estávamos todos ali, mais uma vez, reunidos. Jade estava fora do nosso caminho de uma vez por todas; Elsie tinha acordado; enquanto Armin e Nathaniel tinham trazido as parafernalhas para nosso sinal de fumaça e novas descobertas que logo desembucharam…

— Faraize?! — exclamei, depois de explanarem tudo o que tinham descoberto naquele curto intervalo de tempo — Só podem estar brincando.

Nathaniel e Armin nos contaram o que tinha se sucedido no encontro com nosso professor -- sua aliança com Shermansky, sua decisão de traí-la, a sabotagem nas luzes e câmeras da escola e, principalmente, o real intuito daquele jogo:

— Espectadores… Como um num show de TV… — perguntou Elsie, franzindo a testa, enojada — Isso explica muito.

— Sim — afirmou Armin — Por isso toda essa ladainha que ela dizia sobre “fazer o jogo funcionar”.

— E por isso todas essas… coincidências… — disse Burniel, olhando de relance para o corpo de Jade há poucos metros de nós.

— Sim — confirmou Nathaniel — Não eram apenas “coincidências”, no final das contas. Todos os encontros que aconteceram aqui, todos os killers e “detetives” foram escolhidos à dedo por Eleonora. Ela investigou muito bem a vida de cada um de nós e nos escolheu imaginando os possíveis rumos que isso tomaria. Fomos usados em todos os piores sentidos.

— Por isso precisamos aproveitar a brecha que Faraize fez pra gente. — continuou Armin, muito sério — Precisamos descer até o esconderijo da diretora. É o único jeito de romper com todas as correntes de uma vez por todas. Não adianta de nada a gente conseguir sair daqui e ainda ter esse encosto atrás da gente. Ela não vai parar enquanto não matamos ela.

Cocei o queixo, pensativo. Algumas coisas naquela parte do plano não me convenciam, nem me agradavam muito, pra ser sincero:

— Vocês não acham que… pode ser uma cilada?

— Acha que Faraize estaria mentindo? — perguntou Nathaniel.

— Não isso. Mas… bem, tipo, e se isso tudo não está dentro do que Shermansky espera?

Burniel e Elsie concordaram com a cabeça.

— Kentin, Faraize parecia muito certo de que a sabotagem dele não era esperada — explicou Armin, convicto.

— Não sei. E se a gente não só queimasse as coisas e tal? Vocês já não estão com tudo mesmo? Se nós conseguirmos trazer o socorro até nós, não tem porque nós nos arriscarmos. Não que eu ache uma má ideia. Mas seria um risco muito grande andar num lugar do colégio que desconhecemos. Na verdade, acho isso loucura.

— Mas nada garante que ela não vá fugir quando o socorro chegar, dependendo da forma que ele vier — prosseguiu Nathaniel — E se ela fugir, é o nosso fim. Não vai ter outra chance de cortar o mal pela raiz. Ainda vamos ter os fantasmas de Shermansky nos seguindo e quem sabe até tramando algo contra gente. Por isso temos que fazer algo sobre. Aproveitar que enquanto estamos presos aqui, ela, querendo ou não, também está presa a nós.

Percebi que Burniel ouvia tudo atentamente. Estava pensativo e em silêncio. Até que balançou a cabeça afirmativamente:

— Eu concordo.

Ele me encarou e prosseguiu:

— Shermansky tem uma rede de contatos gigantesca. Ela deu a vida dela por esse jogo. Esse é o motivo da existência dela. Mesmo se a gente sair daqui, ela não vai desistir fácil. Vamos estar acorrentados pra sempre ainda.

Bom, não havia o que eu dissesse. Nada conseguia convencê-los de que aquela ideia era maluquice.

Mas hoje eu compreendo o desespero que sentiam. Armin, Elsie, Nathaniel e Burniel -- todos eles tinham sido vítimas do esquema da diretora e sofrido as consequências muito mais do que eu. Os seus desejos de vingança, junto ao pavor de terem que viver amordaçados a Shermansky… Acho que isso que eu não conseguia enxergar naquele momento, naquela época. Eu não concordava com aquele plano desde o princípio, mas Armin e Elsie estavam mergulhados naquela ideia fixa. E eu não poderia deixá-los, meus companheiros, aquelas duas pessoas que eu tanto amava, se arriscarem sozinhos. Eu jamais poderia lidar com a culpa caso algo acontecesse com eles e eu tivesse fugido. Então, muito relutante, enfim concordei:

— Tudo bem…

E completei:

— Não podemos perder tempo, não é?

Armin abriu um sorriso, franzindo a sobrancelhas energeticamente, e estendeu o punho fechado:

— Nós vamos sair daqui, Kentin.

Sorri de volta -- um sorriso de dúvida, como um pai que sorri pras ideias fantasiosas e utópicas da própria criança. Batemos punho com punho, selando um cumprimento.

— Tá — falou Nathaniel — E como fazemos pra chegar onde está Shermansky?

— A escadaria de emergência. — declarou Elsie — Ela que leva ao subsolo onde Shermansky vive.

E então, iniciamos a nossa “operação”: fomos os cinco em fila indiana do topo ao final da escadaria de emergência, onde nos deparamos com uma porta, contendo uma placa indicando “alta-tensão”. A placa naturalmente se tratava de um blefe, e Armin, que já sabia disso, abriu a porta para nós: uma longa escadaria estreita que se estendia até o inferno, sem qualquer luz. Descemos em conjunto, com pressa, mas cautelosos e prontos para o pior.

Elsie já tinha nos deixado a par de que alguns “capangas” de Shermansky faziam cobertura para ela naquele submundo, o que significava que, inevitavelmente, entraríamos em confronto em algum momento.

Depois de longos três minutos, chegamos no final da escadaria, topando com uma outra porta. Faraize ter desativado a energia nos ajudava a chegar até ali sem grandes surpresas, mas tornava aquele espaço -- que provavelmente estava há uns dez metros abaixo do solo -- um breu total. Não conseguíamos ver muita coisa, mas sentíamos as nossas presenças. Armin, que estava liderando a fila, voltou-se para trás, para todos nós, e sussurrou:

— No três, entramos.

Aquele momento foi pura adrenalina.

— Um.

Não deu nem tempo de respirar fundo.

— Dois.

Armin enfiou o pé na porta:

— Três!





[-x-]

— Já faz mais de meia-hora que a luz apagou. — disse Peggy, impacientemente, sentada sobre o sofá. A sala de transmissão era iluminada unicamente por alguns pontos de luz dourada onde Enrich improvisou acendendo algumas velas aromáticas. — Cadê aquele seu gerador de última geração pra impedir que isso acontecesse? E que cheiro insuportável dessas velas…

Shermansky, sentada em sua poltrona, suspirou irritadiça com o comentário da sobrinha:

— Ele desligou os geradores.

— Faraize?

Shermansky concordou com a cabeça.

— Isso que dá confiar em um cara que tinha tanta afinidade com pessoas diretamente envolvidas no jogo. — continuou Peggy.

— Faraize sempre foi um covarde. Não esperava sua traição. — riu com a voz rouca.

— Ele terá sua punição. — disse Enrich, polidamente inclinando-se e acendendo outra vela colorida que tinha se apagado.

Peggy deu de ombros, cruzando os braços. De repente, levantou-se com certo temor na voz:

— Estou é preocupada com Jade. Não era pra ele estar demorando tanto.

— Deixe ele — Shermansky retirou os óculos da face e começou a limpar suas lentes — Está fazendo o trabalho dele.

— Não sei. Algo me diz que deu errado.

— Se deu, não há o que você fazer. — encaixou o óculos de volta ao rosto redondo.

— Vou lá em cima. — disse, decididamente.

— Não seja tola. Você será morta se for lá em cima. E não tem luz, se esqueceu? Não conseguirá usar os elevadores.

— Eu vou pela escadaria de emergência. — foi até a porta do cômodo.

Shermansky soltou um suspiro, havia uma falsa passividade no seu tom:

— Francamente, Peggy… É mais burra do que eu pensava. Não sei como ainda cogitava te fazer minha herdeira.

Peggy segurava a maçaneta quando se virou para a tia, irada com o comentário:

— Por que você não passa sua herança pra sua queridinha-Cotton, então?

E saiu, batendo a porta.



[Elsie]

Atrás daquela porta esperávamos encontrar de tudo. Talvez, uma câmara de tortura. Ou um laboratório. Uma biblioteca, quem sabe? Tudo, menos o que realmente nos aguardava:

— Uma cozinha? — murmurou Burniel, soltando um riso pelo nariz.

Tudo estava escuro, mas umas pequenas velas dispostas pelo lugar dava forma aos móveis: pia, mesa, cadeiras, geladeira, fornos. Uma cozinha doméstica. Parecia uma piada, mas dizia exatamente o que queríamos saber: era ali que Shermansky vivia.

Estávamos prestes a baixar a guarda, quando um grito assustado veio do outro lado da cozinha:

— Socorro! — a pouca luz não permitiu que eu visse seu rosto, mas a aquela voz com certeza pertencia à Peggy. — Invasores!

Tentamos persegui-la, mas quase no mesmo instante do seu chamado, seis capangas engravatados de Shermansky surgiram na cozinha. Um confronto se iniciou. Armin e Nathaniel estavam na frente do grupo e imediatamente atiraram nos primeiros capangas, que caíram feridos. Com aquela pouca luz era impossível não correr para os inimigos sem algum tipo de instinto suicida. Kentin correu e enfiou uma faca no peito de um deles. Degolei outro com a katana. Burniel chegou a jogar uma das cadeiras. Era matar ou morrer!

Naquela confusão de socos, chutes e tiros, minha atenção foi de repente fisgada para um ponto específico, um pouco além da cozinha, por onde provavelmente Peggy tinha surgido: um corredor estreito, e uma porta entreaberta, por onde uma voz familiar ressoava de dentro. Quando compreendi a quem aquela voz pertencia, uma força maior se apossou sobre mim -- instintivamente corri, deixando o combate para trás.

Abri a porta com um chute, encontrando, lá dentro… ela.

O cômodo estava mais claro que a cozinha, repleto de velas e um cheiro insuportável de incenso indiano. E ela estava ali. Quantos anos não a via em carne e osso, sem estar por detrás de uma tela…

— Eleonora Shermansky — falei, quase como se rosnasse, fazendo com que ela tivesse um pequeno sobressalto ao notar a minha presença. Dei dois passos para frente, entrando no cômodo.

Ao seu lado, um homem alto, vestido em trajes de mordomo, ouriçou feito um felino e imediatamente retirou uma pequena pistola do colete preto, apontando na minha direção.

— Não, Enrich — Shermansky ergueu uma única mão.

O homem a encarou com certa incredulidade:

— Mas, senhora…

— Deixe. Nos deixe a sós.

— A senhora está com as mesmas ideias da senhorita Peggy?!

— Isso é uma ordem, Enrich — disse, irritadiça. — Se junte aos guardas lá fora.

O homem bufou. Veio até a porta me apontando a arma -- provavelmente como uma cautela de que eu não fosse enfiar a katana nele -- e se retirou dos aposentos.

Coloquei a mão para trás das costas, sem desgrudar os olhos de Shermansky, com certa desconfiança, e segurei a maçaneta. Tranquei a porta com a chave posta ali.

Quando me certifiquei de que estávamos realmente a sós, ergui a katana manchada de sangue na direção dos olhos e larguei-a -- a arma caiu no chão e o seu som metálico foi abafado pelo carpete.

— É melhor assim. — falei.

Shermansky me observava com um pequeno sorriso em seus lábios e as mãos para trás das costas:

— Quanto tempo, Elsie.

— Quanto tempo… — completei com desprezo — Eleonora.

Naquela ocasião, não pude deixar de perceber que o seu sorriso não se parecia como em qualquer outro momento -- não havia nenhum tipo de sarcasmo ou sadismo nele. Era quase como se sentisse, naquele momento, uma genuína felicidade:

— E pensar que quando te vi pela primeira vez tinha só 14 anos. Era uma criança...

— Mas eu já tinha perdido minha inocência naquela época. — interrompi-a. Não estava com paciência para os seus delírios de nostalgia — Você sabe… eu matei minha tia com as minhas próprias mãos.

Comecei a andar pelo cômodo, passo por passo, enquanto observava e tentava compreender o que era aquele recinto. Próximo a parede que eu estava, avistei um quadro antigo emoldurado -- uma fotografia antiga de Eleonora, jovem, ao lado do seu falecido marido; ao fundo, a antiga Sweet Amoris.

— E você gostou do que fez? — perguntou ela.

Passei o dedo na fotografia meio desgastada, como se pudesse ser abduzida para dentro daquelas eras remotas. Soltei um pequeno riso pelas narinas:

— O que você acha? — encarei Shermansky, que franziu a testa enrugada com ar de dúvida.

Meu peito batia forte.

— Sabe, — pausei, umedecendo os lábios — você disse em um certo encontro nosso que minha tia criou um monstro, se referindo a mim. Não me entenda errado… Eu não acho que você esteja certa, mas também não acho que esteja completamente errada.

Me aproximava da diretora a passos lentos:

— Você está certa quando diz que eu sou um monstro, mas… Foi você quem criou esse monstro, Eleonora. Você roubou a minha família de mim quando eu nasci, você roubou a vida da minha tia e adoeceu ela. Você me criou, sua maldita.

Sorri, sentindo meu corpo inteiro formigar de êxtase e adrenalina. Eu percebia Shermansky se apequenando a cada passo que eu dava; sua face se contorcendo numa expressão de medo.

Naquele momento, eu me senti invencível.

— Eu costumava achar que viver em tormento era um sofrimento suficiente pra um ser humano como você, Eleonora. Mas, ver essa sua cara… desde que eu te conheci… — sorri — sempre foi o meu maior sonho.

Quando me dei por mim estava com as mãos envolta o seu pescoço flácido e gordo, e o espremia com a mais pura energia, como se apertasse um punhado de argila, apertando os dentes em ira enquanto observava seus olhos azul-acinzentados, esbugalhados, me encarando do mais profundo abismo, tomados de pavor e horror. Seus braços se debatiam em pânico, enquanto ela se engasgava com a própria saliva.

Nada ali era o suficiente pra mim. Nada me saciava. Ao ponto que soquei sua face, uma, duas, três, quatro vezes… Queria apagar a sua existência do mundo e das minhas memórias. Fazia aquilo como se pudesse revigorar todo o mal que ela tinha me causado. Meus dentes rangiam um contra o outro. Sentia o sangue espirrando no meu rosto…

Até que acabou.

Seu corpo parou de se debater e, com o seu rosto todo ensanguentado, soltei seu pescoço. O corpanzil se estatelou no chão.

Respirava pesadamente, com o peito se contraindo pra cima e pra baixo, como se tivesse corrido uma maratona, tentando normalizar a onda delirante de eletricidade que tinha tomado meu corpo. Quando definitivamente me acalmei da fúria, olhei meu punho fechado e ensanguentado.

Soltei um suspiro entrecortado, largando o corpo para trás, escorando as costas e a cabeça sobre a parede. Sentia os respingos de sangue quente e fresco no meu rosto. Quando direcionei o olhar para baixo, para o corpo morto e estendido de Shermansky, falei, como que tomada por uma exaustão:

— Te vejo no inferno.

A porta do cômodo de repente explodiu num chute: Armin, Kentin e toda a trupe entrou na sala desgovernadamente. Todos aparentemente esperavam me encontrar em apuros, no entanto… quando viram a real situação, seus olhos passaram a alternar entre o corpo de Shermansky e eu, naquele estado grotesco.

Acho que ninguém estava esperando um cenário daqueles, mesmo que aquele fosse o nosso objetivo.

— Então… conseguimos? — disse Burniel, com alguma relutância.

Todos nos entreolhamos franzindo as sobrancelhas, meio tensos, no fundo, confusos sobre qual sentimento era o mais apropriado para aquela situação.

— Em partes… sim — Nathaniel balançou os ombros.

Armin ergueu a mão com o punho fechado pro alto e bradou energeticamente:

— Então vamos acabar logo com isso, porra!

***

Antes de subirmos, reviramos a cozinha daquele cativeiro de ponta-cabeça: encontramos comida, queijos, e achamos até álcool. Como não comíamos decentemente há dias, comemos como reis. Restauramos todas as nossas energias, pegamos as pistolas deixadas pelos seguranças mortos e logo retornamos para a escadaria, refazendo todo o trajeto anterior. Subíamos para a superfície em clima de festividade, como soldados voltando de uma guerra, cantando vitória alto e bebendo vinho no gargalo. Armin e eu estávamos com os braços um no ombro do outro, e vez ou outra nos olhávamos, risonhos, apaixonados.

Quando finalmente chegamos ao terraço, percebemos que havia anoitecido. O céu estava um azul escuro cobalto, cheio de estrelas. Nathaniel agrupou os papéis e os materiais para a combustão em cada um dos quatro cantos do terraço e num espaço bem ao meio, enquanto Kentin despejava gás inflamável em cada montinho. Parecia que estávamos prestes a fazer um ritual: Burniel vinha “esqueirando” cada monte enquanto Armin e eu o ajudávamos a aumentar a combustão abanando a “fogueira”. No último montinho, bem ao centro do terraço, Armin bebeu o resto do vinho e jogou a garrafa no fogaréu -- uma chama avermelhada subiu e começou a cuspir a fumaça preta.

Estávamos os cinco ao redor da fogueira do meio do terraço, ansiosos e em silêncio, esperando algum feedback, enquanto ouvíamos unicamente o crepitar dos papéis sendo carburados pelo fogo. Meu coração batia rápido -- eu olhava para Armin em ânsia e ele me olhava de volta com um sorriso tranquilo, com a chama dourada da fogueira iluminando o seu rosto, como se soubesse o que eu sentia e quisesse me acalmar. Sorri de volta.

De repente, ouvimos, bem ao longe, o som de uma sirene.

Uma não -- duas, três… até cinco!

— Parecem as sirenes dos bombeiros! — comemorou Kentin.

— E da polícia! — festejou Nathaniel.

Naquele clima de comemoração, viramos os verdadeiros adolescentes que éramos. Gritávamos. Uivávamos. Era o nosso momento de glória.

Tanta agitação fez com que ignorássemos o óbvio: embora fôssemos um grupo massivo com a intenção de acabar com o jogo, não éramos os únicos na escola.

Lembro desse momento com detalhes nítidos.

Armin agitava as mãos no ar com empolgação, quando seu corpo deu um súbito e pequeno impacto para frente. O resto se passou em câmera lenta sob os meus olhos: ele arregalou os olhos, como se tivesse levado um susto, e me encarou, apavorado. Ele colocou a mão sobre o próprio abdômen e se chocou com a quantidade de sangue que vertia. Quando direcionei os olhos para seu abdômen, soltei um berro histérico:

— Armin!

O som das sirenes de repente ficou silencioso aos meus ouvidos. Apenas conseguia olhar para a faca fincada bem abaixo do seu abdômen e a mão anexada que a empunhava:

— Foram vocês! Vocês mataram a minha Íris, seus porcos! — bradava Jun, às costas de Armin; seu rosto contorcido em ira e choro.

Os meninos imediatamente o tomaram pelos braços e o empurraram para longe, desferindo-lhe socos e chutes. Armin caiu no chão, gritando de dor. Corri até ele, bradando em desespero, mal conseguindo ouvir a minha própria voz:

— Armin! Armin, calma! Calma!

De repente uma fúria me incendiou: fui até onde tinham deixado Jun, todo esmurrado e roxo, e saquei a pistola que tinha dentro da calça. Seus olhos me encararam uma última vez, antes que eu descarregasse todo o pente de munição no seu rosto; mesmo que eu soubesse que ele já estava morto desde o primeiro tiro.

— Elsie, para, pelo amor de Deus! — Kentin me tirou daquele transe hipnótico, puxando meu braço — Já foi! Já foi!

Corri de volta a Armin aos prantos, descontrolada:

— Armin! Armin!

Nathaniel tentava nervosamente improvisar uma cauterização com o isqueiro e os papéis que tinham restado pra estancar o sangue. Sangue. Havia sangue por todo lado. Armin me olhava com os olhos miúdos e um pequeno sorriso, quase envergonhado. Eu chorava compulsivamente:

— Armin, por favor… A gente conseguiu, Armin. Porra, Armin, para de brincadeira.

Lágrimas vertiam dos seus olhos azuis. Eu ouvia zumbidos indistinguíveis.

— O Arribas, Armin. Você me prometeu levar lá, lembra?

Nenhum choro parecia suficiente para tirar aquela dor de dentro de mim.

Seus lábios pálidos se moveram mudamente, uma última vez, dizendo algo que, naquele meu estado de espírito, não pude ouvir. Os sons das sirenes também não alcançavam meus ouvidos. Porque eu não era capaz de ouvir nada. Nem mesmo meu próprio grito; que era um grito de dor, inconsolável, da alma.






Notas finais
boa noite meus amores......... érrrrrrrrr................