Identidade Familiar
1 Capítulo 1. A morte, o luto, o sono.
Notas iniciais
----------
Identidade familiar
Por VanNessinha Mikaelson
Largou a navalha sobre a bancada da pia do lavatório e mirou a própria imagem desgastada refletida no espelho a sua frente com um ar de preocupação. Deu-se conta, afinal, de quão cansado se sentia. As olheiras lhe marcavam o rosto de maneira tão profunda, que mesmo quem não o conhecesse diria que precisaria dormir. E ele sabia que era verdade. Porém, deitar e fechar os olhos não se tratava de algo rotineiro; tornou-se, sem sombra de dúvidas, uma das mais difíceis tarefas a cumprir.
O luto não lhe saía do corpo e do espírito. Porque, recém fazia uma semana que, ao chegar à casa que dividia com o irmão, se deparou com a horrenda visão de sangue para todos os lados. Tratava-se de uma trilha maldita que perseguia sua família há cinco anos. Sim, não podia negar. Dimitri estava morto. Nada que fizesse o traria de volta. As escolhas não faziam a menor diferença. As decisões de ir em busca dos outros parentes – três irmãos desaparecidos de forma misteriosa – colocaram o inocente rapaz na mira de um provável psicopata. E Mikhail tinha certeza disso. Só não havia como provar, de maneira concreta, que esse era o problema que atormentava os Barsnykov.
Os únicos que acreditavam nele eram o outro irmão de nome Yuri e o coronel Rodrigues. Este último procurava ajudá-lo como podia, por ser um homem influente e conhecido da família russa desde que esta viera para o Brasil em fuga do território eslavo, apenas composta pelo recém-nascido Mikhail e os pais, em uma imigração perigosa em 1920, devido às circunstâncias do pós-guerra e do recém-instaurado comunismo no território russo.
O militar, um dos poucos amigos que lhe restou, foi quem auxiliou o filho mais velho de Olga e de Ivan a superar a terrível e não menos sangrenta morte dos dois, fato que repercutiu em todo Rio de Janeiro – local em que os Barsnykov se estabeleceram –, devido à inegável brutalidade que o assassino empregara ao rasgar-lhes a carne em cortes cirúrgicos.
Tal qual ocorrera há cinco anos com seus progenitores, Mikhail se surpreendeu ao encontrar, em uma noite chuvosa daquele ano trágico, um dos irmãos mais novos agonizando ao chão, na entrada da casa da família, lugar em que, apesar de tudo, ainda não havia desistido de morar.
Entretanto, residir em tal lar lhe era cada vez mais custoso. Sentia como se as mortes dos familiares – principalmente a de Dimitri – fossem sua culpa. Tratava-se de um peso insuportável que carregava continuamente. E o desaparecimento dos outros irmãos mais novos, Aleksei, Vladimir e Katerina, só fazia tamanha angústia aumentar.
Tornou a mirar a navalha com os olhos semicerrados, devido à exaustão evidente. Não. Manusear um instrumento como aquele – ainda que fosse para uma atividade rotineira de se barbear – não seria possível. Precisava tentar dormir, embora o sol estivesse alto lá fora. Necessitava se desligar do insuportável peso de não saber onde os irmãos estavam, se é que não haviam morrido, bem como Dimitri semanas antes.
Dirigiu-se ao quarto e ligou a galena, sintonizando a rádio que pretendia escutar. Suspirou baixo ao ouvir o noticiário do dia, um sombrio vinte e oito de agosto de 1954. A cidade, bem como a Nação como num todo, continuava em choque pelo provável e recente suicídio do presidente do país. A comoção popular e o luto pelas ruas o fazia pensar que, afinal de contas, tinha algo em comum com aquela gente toda.
Logo desistiu de ouvir o noticiário. Lembrou-se uma vez mais, como uma obrigação que lhe batia à porta, que o sono se fazia necessário. Mas como dormir, enquanto sua vida se resumia a procurar, juntar pistas, criar hipóteses e vislumbrar, tristemente, que as fotos de família não passavam de meras recordações, as quais certamente não se repetiriam.
Fale com o autor